quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P17974: Historiografia da presença portuguesa em África (99): António Estácio: O Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense - Parte I: (i) preâmbulo e (ii) generalidades




V Encontro Nacional da Tabanca Grande, Leiria, Monte Real, 2010 > António Estácio, 


1. Por  expressa autorização do autor, o nosso amigo e camarada António [Júlio Emerenciano ] Estácio, que tem 44 referências no nosso blogue:´

(i) é lusoguineense, nascido em 1947, e criado no chão de Papel, em Bissau, com raízes transmontanas, tendo vivido também em Bolama;

(ii) formou-se como engenheiro técnico agrário (Coimbra, 1964-1967, Escola de Regentes Agrícolas, onde foi condiscípulo do Paulo Santiago), depois de frequentar o Liceu Honório Barreto;

(iii) fez a tropa (e a guerra) em Angola, como alferes miliciano (1970/72); 

(iv) trabalhou depois em Macau (de 1972 a 1998); 

(v) vive há quase duas décadas em Portugal, no concelho de Sintra; 

(vi) é membro da nossa Tabanca Grande desde maio de 2010; 

(viii) tem-se dedicado à escrita, dois dos seus livros mais recentes narram as histórias de vida de duas "Mulheres Grandes" da Guiné, a cabo-verdiana Nha Carlota (1889-1970) e a guineense Nha Bijagó (1871-1959);

(ix) o seu livro mais recente (2016, 491 pp.), de temática guineense, tem como título "Bolama, a saudosa", edição de autor;

(x) a comunicação que agora se reproduz foi feita no âmbito da V Semana Cultural da China, de 21 a 26 de Janeiro de 2002;


2. O Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense - Parte I:  (i) preâmbulo e (ii) generalidades (pp. 431-439)

In: Estácio, António J.E. (2002) – O Contributo Chinês para a Orizicultura Guineense, in: Actas, V. Semana Cultural da China, Centro de Estudos Orientais, ISCSP/UTL: 431‑66

18 comentários:

Tabanca Grande disse...

O arroz é fundamental da segurança alimentar do povo da Guiné-Bissau... Infelizmente, há um défice da produção nacional... O caju tornou-se uma monocultura... Há planos para aumentar a produção de arroz... Aqui vai um excerto de notícia de Notícias e Mídia Rádio ONU;

9/04/2016
FAO apoia estratégia para aumentar colheita de arroz na Guiné-Bissau


(...) A FAO vem assistindo tecnicamente o governo na elaboração da política Nacional de Sementes, bem como o seu plano de ação, elaboração de um programa nacional para o desenvolvimento da orizicultura e preparação da lei de orientação agrícola.

Dos 306 mil hectares da área de produção do arroz de que dispõe o país, apenas 67 mil são atualmente explorados. Ana Menezes disse que o fato explica o que considerou de crónico deficit anual de cerca de 90 mil toneladas do cereal base da dieta alimentar dos guineenses.

(...) Existe um grande problema na Guiné-Bissau, a produção nacional do arroz não responde às necessidades do consumo e da procura real da população, que é de cerca de 200.886 toneladas por ano e com uma produção limitada de 111.096 toneladas por ano".

De acordo com Ana Menezes o ateliê vai contribuir para o desenvolvimento da agricultura e da economia do país. Com 130 quilogramas anuais por pessoa, a Guiné-Bissau é tida como um dos maiores consumidores de arroz na África Ocidenta" (...)


http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2016/04/fao-apoia-estrategia-para-aumentar-colheita-de-arroz-na-guine-bissau/#.Wgw0uGi0PIU

Tabanca Grande disse...

Em Portugal, o consumo "per capita" de arrroz é de 15/16 kg, cerca de 12% do consumo "per capita" de um guineense... Mesmo assim , somos os maiores comilões de arroz da Europa... E devíamos consumir mais arroz carolino (em vez do agulha, que nos é impingido pelas grandes superfícies...) e ajudar a produção nacional...



https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0000186&contexto=bd&selTab=tab2

http://www.agronegocios.eu/noticias/o-arroz/

Tabanca Grande disse...

Segundo notícia da Lusa, a produção de arroz na Guiné-Bissau subiu 9% em 2016 face ao ano anterior, citando fontes da FAO:


https://www.msn.com/pt-pt/noticias/mundo/produ%C3%A7%C3%A3o-de-arroz-na-guin%C3%A9-bissau-subiu-9percent-em-2016-face-ao-ano-anterior-fao/ar-AAmJr54

Bissau, 8 fev 2017 (Lusa)

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estima que a produção de arroz na Guiné-Bissau tenha subido 9% em 2016 face ao ano anterior.

"A colheita de arroz terminou em janeiro e as chuvas frequentes beneficiaram o desenvolvimento das culturas", pelo que "a produção terá crescido 9% quando comparada com o ano anterior", refere-se num relatório com base em levantamentos preliminares.

De acordo com os mesmos dados da FAO, a produção de cereais em geral na Guiné-Bissau terá chegado a 225 mil toneladas, mais 8% que em 2015 e 3% acima da média dos últimos cinco anos.

"A produção de cereais já tinha recuperado bastante no ano anterior, após uma colheita reduzida em 2014", refere aquela agência da ONU - de 2014 para 2015 o aumento foi de 28%.

Apesar de a produção guineense aumentar, a FAO realça que o país ainda não é autossuficiente: 40% dos cereais comercializados no país anualmente tem que ser importado.


https://www.msn.com/pt-pt/noticias/mundo/produ%C3%A7%C3%A3o-de-arroz-na-guin%C3%A9-bissau-subiu-9percent-em-2016-face-ao-ano-anterior-fao/ar-AAmJr54

Tabanca Grande disse...

A produção de arroz, antes da guerra, em anos normais andariam pelas 150 mil toneladas e exportava-se arroz...

Hoje, com o triplo da população (que era de 600 mil em 1960), a produção média anual andaria, nos últimos cinco anos, abaixo das 220 mil toneladas, um fraco aumento de 2/3 em relação em 1960...

Não é, infelizmente, um motivo de orgulho para os guineenses que lutaram pela independência da sua pátria. E a independência passa também pela segurança alimentar... O que diria o engº agrónomo Amílcar Cabral se hoje fosse vivo ?... LG

Henrique Cerqueira disse...

Ó Luís diz-me lá porque deveríamos comer mais arroz carolino do que o arroz agulha ???
Pois eu te digo meu amigo e camada que os dois "arrozes" são excelentes em aplicações diferentes. Senão vejamos:
O arroz Carolino é excelente para uma boa arrozada de frango á moda do Minho,é ainda excelente para um bom Risoto seja ele de cogumelos ou de atum ou ainda uma infindável de acompanhamentos.
Já o arroz agulha "no nosso caso usamos o Basmati" já dá outro "trabalho num belo arroz de forno á moda do Douro...por exemplo não é ? E assim sendo por aí fora nas suas aplicações diversas para ambos os arrozes.No entanto também sou apologista de usarmos o que é Nacional.
Meu amigo Luís acharás estranha a minha dissertação sobre os arrozes mas na verdade queria comentar o texto e só me aprouve este tema o "Arroz"
Convém dizer que ao fim destes anos após Guiné e farto de durante dois anos andar a comer arroz (Bianda) eu ter conseguido voltara a gostar de arroz, venho assim defender algumas belas arrozadas preparadas pela minha Ni. Aconselho vivamente o arroz de forno do Douro em que leva em cima do alguidar um belo pernil de anho.
Um abraço Henrique Cerqueira.

Tabanca Grande disse...

Henrique, obrigado pelo teu comentário... És sempre bem vindo... Quanto à questâo que me colocas... Confesso que não sou especialista em matéria de orizicultura nem muito menos de gastronomia e de nutrição, embora seja um "homem da saúde pública"...

Gosto do arroz de todas as maneiras e feitios, apesar de muita "bianda-argamassa" comida na Guiné... Do arroz de cabidela ao arroz de marisco, do arroz de tomate ao arroz de forno, vai tudo... Também tenho uma Ni cá em casa, que é especialista em "arrozes", é do Norte, e só gasta do carolino...

Porquê o carolino ? Porque é nosso. é espécie nossa, autóctone... E comer carolino é ajudar a nossa economia... Depois, parece porque faz melhor à saúde, tem menos
amilose, que é um dos componentes do amido... Em contrapartida, será mais difícil de cozinhar, dizem os "chefs"...

Enfim, não falo de cátedra sobre este e outros assuntos e muito menos imponho o meu "ponto de vista": as nossas preferências (em matéria de comes & bbeebs) têm muito a ver com a nossa cultura, sabores de infância, regionalismos, etc., mas também a força do marketing...

Um abraço fraterno, um beijinhyo para a tua Ni... Luís

Para saber mais:

http://www.agronegocios.eu/noticias/o-arroz/

https://sol.sapo.pt/artigo/389970/carolino-o-verdadeiro-arroz-portugu-s

Tabanca Grande disse...

Como se vê a Guiné também era um "depósito de deportados e desterrados"... Leia-se aqui este excerto do artigo de Philip J. Havik e António Estácio, publicado na revista Africana Studia, nº 17, 2º semestre, 2011, pp. 211-235.


https://www.researchgate.net/profile/Philip_Havik/publication/285597164_Recriar_China_na_Guine_os_primeiros_Chineses_os_seus_descendentes_e_a_sua_heranca_na_Guine_Colonial/links/5661addc08ae418a78672928/Recriar-China-na-Guine-os-primeiros-Chineses-os-seus-descendentes-e-a-sua-heranca-na-Guine-Colonial.pdf


(...) A chegada de Chineses na Guiné no início do século XX está intimamente ligada às
mudanças que tiveram lugar nas primeiras décadas do século XX, e que deixaram as
suas marcas até ao presente neste pequeno território de aprox. 36.000 km 2 situada
na costa Oeste‑Africana, entre Senegal e o que na altura se chamava Guiné Francesa,
que na época faziam parte da África Ocidental Francesa (AOF). As razões pela qual
lá chegaram, tem muito a ver com o contexto do império que necessitava de mão‑de‑
obra para as colónias, principalmente para os chamados “trabalhos públicos”, que
incluíram a construção estradas, caminhos de ferro, edifícios, etc.. Porém, a forma
como foram engajados para tal difere segundo a época e o destino, no modo que as
políticas para garantir a sua colocação nas colónias mudaram ao longo dos séculos.
Um dos métodos seguidos por países coloniais, desde a expansão europeia nos sécu‑
los XV, foi o desterro e degredo, uma prática já existente no Império Romano cuja
legislação permitiu o envio de condenados por delitos graves para os vários cantos
deste (Hespanha, 1993). Estas práticas multi‑seculares de “degredar” pessoas con‑
denadas por certos crimes (de furto a homicídio), de alguns anos até para toda a
vida, reforçaram a criação de diásporas nas várias possessões coloniais. A expulsão
daqueles vistos como ‘marginais e contestatários’. (...) , colocou forçadamente pessoas das metrópoles europeias mas também de outras colónias em possessões que a neces‑ sitavam, pelo menos até as primeiras décadas do século XX. Estima‑se que entre 1607 e 1775 mais de 50.000 mil degredados foram enviados pelos tribunais estatais e da Igreja Católica (incl. os tribunais do Santo Ofício) para possessões ultramarinas (Coates,1998: 283), servindo como mão‑de‑obra, mas também como pessoal militar e administrativo. Se tais práticas eram, aliás, comuns aos impérios espanhol, britânico e francês, em números semelhantes, o segmento da população afectada era maior em termos relativos no caso português, devido ao número mais reduzido de habitantes em comparação aos seus congéneres europeias. (...)

(Continua)

Tabanca Grande disse...

(Continuação)


No contexto do império português, os locais de exílio forçado mais comuns eram Bra‑
sil (incl. o Maranhão, sobretudo a partir da era pombalina) e Angola (Oliveira Ramos,
1995). Agrupados em diferentes classes, o destino do degredado variava de entrepos‑
tos costeiras á terras mais afastadas no interior das respectivas capitanias (Pantoja,
1999). No caso de Macau muitos foram enviados para Timor, enquanto no outro lado
do império, na costa da Guiné a maioria dos condenados vinham das ilhas de Cabo
Verde. A duração das sentenças de degredo variavam entre cinco anos até perpétuo,
sendo mais comum esta última no caso das colónias de África. Este facto é relevante
no sentido de os condenados se terem tornado no fundo uma espécie de colonos que,
com pouca ou nenhuma esperança de poderem regressar a terra mãe, ficavam “pre‑
sos” aos locais de destino. Era sobretudo nos locais fortificados em zonas costeiras
(como São Tomé, Angola, Moçambique e o Maranhão) que os degredados formavam
a grande maioria da população portuguesa de origem europeia (Coates, 1998: 282).
Isto foi também o caso na Guiné onde nas praças de Cacheu e Bissau, o número de
europeus era sempre muito reduzido até o século XX, sendo a maioria da população
destes portos de origem africana, tanto livre como cativo. No contexto específico da
costa da Guiné, que se debatia com uma falta crónica de pessoal, muitos degredados
acabaram por ocupar funções administrativas e militares, chegando nalguns casos a
ocupar o cargo de capitães‑mores e altos funcionários. (...)

Ler o resto do artigo aqui:


https://www.researchgate.net/profile/Philip_Havik/publication/285597164_Recriar_China_na_Guine_os_primeiros_Chineses_os_seus_descendentes_e_a_sua_heranca_na_Guine_Colonial/links/5661addc08ae418a78672928/Recriar-China-na-Guine-os-primeiros-Chineses-os-seus-descendentes-e-a-sua-heranca-na-Guine-Colonial.pdf

Tabanca Grande disse...

O António Estácio refere-se ao Álvaro Boaventura Camacho, como um grande proprietário e negociante de arroz de Catió, que ele ainda conheceu...

Temos, no nosso blogue, uma referência a este colono, que tinha em Cufar um aeródromo (pista de aviação), particular, ainda no início da guerra, cedido depois à administração da província ou à tropa para instalação de um aeródromo militar...O Camachoo era de origem cabo-verdiana.

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2017/08/guine-6174-p17658-historiografia-da.html

antonio graça de abreu disse...

Ontem fui almoçar com o António Estácio, ao Algueirão onde reside, curiosamente na Casa do Benfica, eu que até sou do Sporting. Como a águia anda um bocado depenada, não foi grande banquete. Não alinhámos nos arrozes, fomos pela conversa sobre o Camilo Pessanha e o Henrique da Senna Fernandes, gente de Macau.
Quase não falámos da Guiné mas ele já me ofereceu o livro sobre os chineses na Guiné há uns dois anos atrás. É muito interessante e matéria pouco conhecida. Conheço o Estácio há trinta e sete anos, desde os gloriosos tempos em que ele, em Macau, eu em Pequim (depois da Guiné) dávamos corpo à gesta portuguesa pela China.
Abraço,

António Graça de Abreu

Tabanca Grande disse...

Quem seria esse "concessionário" de 2 mil hectares na ilha do Como, em 1914 ?

Pelo nome, parece ser um francês... O nome está mal grafado no quadro, da página... Devia ser "Alfred Hyppolite Vincent Bobe"...

Em 1942 ainda estava em vigor... 2 mil hectares era um grande herdade: são 20 km de comprimento por 1 de largo... Um latifúndio !... Como é que o francês foi lá parar ?

Tabanca Grande disse...

O José Luís Teixeira Marinho, a quem foi anulada a concessão, em 1942, de 700 hectares em Cabedu (mal grafado no mapa, Cabdul), cirunscrição de Cacinem deve ser o governador, do mesmo nome, que esteve em funções em 1919, por pouco tempo...

Tabanca Grande disse...

E quem seria a família Spencer, de Buba ? António José, Almerinda, Maria Inês Pinto... Não sabemos nada desta gente que demandou a Guiné muito antes de nós... Pelo apelido, deveriam ser cabo-verdianos e cristãos novos...

O nesmo se passa com os Barbosa,os Medina...

Tabanca Grande disse...

De facto, a Guiné era uma colónia.. de Cabo-Verde!...

Os Silva, os Monteiro, os Barros...também deviam de Cabo-Verde... Será que estes portugueses de há 100 anos deixaram rasto, tem história ?... Pelo menos, os seus nomes ficam aqui registados...

Tabanca Grande disse...

Vd. aqui a árvore genealógica de Gaudêncio de Andrade Monteiro, também conhecido como Nhô Dencho...

http://www.barrosbrito.com/5519.html

É um curioso e vastíssimo sítio sobre a "Genealogia dos cabo-verdianos com ligações de parentesco a Jorge e Garda Brito, a seus familiares e às famílias dos seus descendentes"...

Tabanca Grande disse...

A página do Jorge Sousa Brito é um espanto!... Criada em 2006, é atualizada semanalmente...

Contém 12450 indivíduos e 885 apelidos únicos... Ao que pode levar a paixão pela genealogia!

Tabanca Grande disse...

Jaime Teodorico Barbosa, em 1927, era chefe de posto, da circunscrição civil de Farim...

http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=10420.084

Anónimo disse...

António Estácio

Para além dos "arrozes" e de genealogias, tenho a dizer que este texto é interessantíssimo.
Aborda um aspecto de que ouvi falar (muito superficialmente) na Guiné: de "degredados para a costa de África" de origem chinesa (ou macaense), para além dos de origem portuguesa (incl. os "Brandão"). Isto explicaria alguns traços fisionómicos achinesados que víamos em alguns guineenses.
Isto levanta-me uma questão: - Será que o chapéu em bico (que, aliás, vemos na gravura que encima o texto) e que era maioritariamente usado por mandingas, será de influência chinesa?

Abraço
Alberto Branquinho