domingo, 21 de janeiro de 2018

Guiné 61/74 - P18236: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) -Parte XI: Mulheres e bajudas (3): homenagem à felupe (poema de Artur Augusto Silva)


Foto nº 376 > Mulher e ronco felupes, São Domingos, 1969.


Guiné > Região de Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), e que vive atualmente em  Vila do Conde [, foto atual à esquerda].



Comentário do nosso editor LG (*):

Virgílio, falta explicar, aos nossos leitores, porque é que vocês chamavam, à "ilha dos felupes", em frente a S. Domingos, a "ilha maldita"...

Como te expliquei a Isabel Levy Ribeiro é mãe das nossas grã-tabanqueiras Cristina e Catarina Schwarz da Silva, filhas do nosso saudoso Pepito (1949-2014) e netas da nossa insigne senhora don Clara Schwarz (1915-2014), professor do Liceu de Bissau, desde a origem até 1966,  e do escritor e advogado Artur Augusto Silva (1912-1983). A família Schwarz da Silva tinha casa de praia em Varela e mantinha uma "relação especial" com o chão felupe... 

O Artur Augusto Silva tem um belíssimo poema sobre a mulher que vou reproduzir  a seguir... Segue este link para saberes mais

Nas muitas conversas que tive com o Pepito, ao vivo e por email, entre 2006 (quando o conheci) e o mês e ano  da sua morte (em 18/2/2014), verifiquei que ele tinha, tal como o pai uma enorme admiração pelos felupes, o seu "chão" e  a sua cultura. O pai era autor dum livro, etnográfico, sobre os felupes: Usos e costumes jurídicos dos felupes da Guiné / Artur Augusto da Silva.

Para o Pepito, os felupes eram  a melhor etnia da Guiné, os mais puros, os mais autênticos, os mais valentes, os mais leais... E é bom lembrar que foram, historicamente,  as grandes vítimas do esclavagismo. Povo ribeirinho,  era caçado pelos temíveis mandingas e vendidos aos negreiros europeus... O memorial da escravatura, no Cacheu, muito deve ao Pepito, que infelizmente já nºao viveu o suficente para assistir à sua inauguração, em 2016.

_____________

Ela

(Poesia à maneira felupe)

por Artur Augusto da Silva


Tu que tens o andar gracioso das gazelas
e a quem nenhuma companheira se iguala,
tu que tens a força do touro branco
e a elasticidade da onça:
tu que crescestes como o arroz  em ano de chuva
e és uma espiga alta e farta,
quando entras no terreiro para dançar
pareces uma estrela brilhante em noite de nuvens.

Tu és a que tem as ancas largas
e os seios grandes e firmados
e com quem todos os homens querem casar.

A tua pele é luzidia
como a lama das bolanhas depois das lavras,
e o teu sorriso é igual ao primeiro arroz que germina
e os teus dentes são brancos...

Não preciso  de dizer o teu nome
porque todos sabem quem tu és.


In: Artur Augusto da Silva - E o poeta pegou num pedaço de papel e escreveu poemas. Bissau: Instituto Camões, Centro Cultural Português, 1997, p. 27.

12 comentários:

Valdemar Silva disse...

Excelente fotografia e belo poema.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande disse...

O "orgulho felupe", não há dúvida, Valdemar...

á dias estive com o Macias que te manda uma "quebra-costelas"... As tuas melhoras. LG

Valdemar Silva disse...

Mt.obrigado Luís.

Esse alentejano ferranho está sempre em forma, nem parece a idade que tem.

Abraço
Valdemar Queiroz

Valdemar Silva disse...

Ainda sobre os Felupes.
Recordo-me de estar sentado na esplanada da Solmar, em Bissau, e ver passar um homem duma figura imponente, muito preto, descalço, vestido apenas com um pano colocado 'à capa de estudante', com um chapéu cónico de palha e com um arco e
flechas ao ombro.
Era um Felupe que tinha vindo à cidade.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande disse...

Valdemar, o H do "há dias estive com o Macias", fiquei preso no teclado... Peço desculpa, em bom português se entende...

Voltando ao Macias, da "Aldeia de São Bento" (hoje vila, grande terra, grande gente, grandes cantadores...) gosta do convívio mas é pouco dado às "internetes"...

Antonio Rosinha disse...

A geração de Artur Santos Silva (1912)dada a África, que se dizia popularmente de «africanistas», e que como ele apoiaram a candidatura de Norton de Matos contra Salazar, (Wikipédia), não viam o anticolonialismo como prioridade, nem como um fim a atingir.

Eram essencialmente anti-Salazaristas.

Havia em Angola muitos angolanos e caboverdeanos, como ele, onde ele também esteve no Governo de Angola, que tinham uma ideia muito precisa do que era preciso fazer e concertar nas colónias, mas não passava tudo de um sonho, naquele turbilhão que se apoderou de África no pós desgraça da II Guerra Mundial.

Cherno Balde disse...

Caro amigo Luis,

Tambem sou admirador dos Felupes, do seu orgulho e tenacidade, em especial das suas dancas tradicionais, mas achei muito exagerados todos esses adjectivos que nao correspondem a verdade.
- Melhores em que? Pela sua capacidade sistematica de furtivamente matar e comer os viajantes q inadivertidamente se aventuravam nos seus territorios ?

- Mais puros ? Qual seria o criterio, em Africa tudo eh aparente, tudo relativo e surpreendentemente tao comum. Entre Banhuns, Diolas, Baiotes e Bijagos, todos eles vizinhos, o diabo que venha e escolha o pior ou o melhor, dependendo das circunstancias e de q ponto de vista sao vistos.

Mais corajosos ? Na Guine eh uma tarefa extremamente dificil julgar esta faceta e por etnia. Todas as etnias tiveram seus herois e gestas. Na Guine todos reconhecem a bravura Felupe, mas dentro do seu minusculo territorio de pantanos e tarrafes, pois nunca sairam destes limites.

E a afirmacao de q foram as maiores vitimas da escravatura, parece-me sem fundamento e contraria a afirmacao anterior de que seriam mais corajosos.

O Eng. Pepito nunca escondeu a sua predileccao pelos povos do litoral que considerava mais genuinos, mais puros, mais honestos, os Nalus, os Felupes, mas eram suas conviccoes pessoais q nao correspondem, necessariamente, a nossa realidade.A realidade eh muito mais complexa.

Um abraco amigo,

Cherno Balde

Anónimo disse...

E, paradoxalmente, quanto maior era o amor q ele os dedicava, maior era o odio e o desprezo destes povos do litoral para com os Europeus e tudo o que representavam. Apesar do imenso amor e sacrificio consentido em prol dos mesmos, nao creio que estes tenham compreendido e o tenham reconhecido e aceitado como seu filho ou ainda como Guineense, filho da terra. A Guine tem destas coisas, impossiveis de entender.

Cherno

Tabanca Grande disse...

Cherno, o Pepito era sportinguista e guineense como tu... Ele nem sequer tinha dupla nacionalidade... E levou uma bandeira do Sporting e outra da Guiné-Bissau na urna que foi diretamente para o crematório...

O amor aos felupes (e aos nalus) era igual ao dos fulas... Sabias que ele tinha uma ilha no rio Corubal oferecida pelo Cherno Rachid, de Aldeia Formosa ? E o pai dele tinha igualmente grandes amigos entre os "homens grandes" do teu povo...

Se calhar fui eu que adjetivei de mais... Devemos ser sempre cautelosos e comedidos no uso do superlativo relativo de superioridade quando falamos de povos e de atributos... Tens razão nas tuas críticas... Ao divinizar uns estamos a diabolizar outros...

Boa noite. Mantenhas. Luís

Cherno AB disse...

Caro Luis,

Eu trabalhei com ele, lado a lado, quando foi Ministro das Obras Publicas (1999/2000), na altura eu era Director Executivo do Fundo Rodoviario, constatei de perto o seu patriotismo, seriedade e afinco no trabalho, homem simples que nunca usava gravata, que o incomodava. Ainda, eu era estudante em Bafata e ja o conhecia de nome em Contuboel, como Director do DEPA (1978/80). Nao eh isso que esta em causa.

A questao eh a seguinte: Sera que o seu sacrifcio foi compreendido e reconhecido?
- Sera que aqueles Guineenses "puros e autenticos" o reconheciam como seu filho, irmao, Guineense igual a eles?

Nao esquecer que a primeira constituicao guineense aprovada apos a abertura politica (1992?) nao reconhecia o proprio Amilcar Cabral como filho legitimo da Guine-Bissau e com ele muitos e muitos outros, dos chamados "Burmedjos".

Um abraco amigo,

Cherno Balde

José Teixeira disse...

Caros Cherno e Luís.
Tive a felicidade de acompanhar de perto a vida do saudoso Pepito nos últimos 6 anos da sua vida. É verdade que ele tinha afeição especial pelos Felupes, no que respeita a seriedade, assunção de compromissos e como povo trabalhador. Tinha na região onde os Felupes são maioritários, vários projetos de desenvolvimento e a sua relação com eles era de Grande homem grande, mas dinamizava projetos independentemente da etnia, por ex. em Ingoré ( Balantas e Fulas) sem distinção de raças. No Sul o Rei dos Nalus assumiu-o como filho e era com este velho rei que ele se aconselhava, a quem chamava pai. Outro povo que acarinhou foi o Tanda, uma pequena etnia protegida pelos Fulas de Iemberem. Em suma promovia projetos de desenvolvimento onde as populações tinham carências e aceitavam trabalhar nos projetos em parceria, sem distinção de raças. Claro que com as tabancas onde a população não colaborava, o Pepito não avançava. Testemunhei vários momentos gratificantes de acarinhamento ao Pepito em diversas tabancas de predominância étnica diversa. Claro que centrava a sua atividade nas áreas mais afastadas dos centros de decisão, e de acessos mais difíceis, onde naturalmente havia mais carência, Como o Norte (predominância Felupe) e o Sul (Cantanhês) onde a predominância se repartia entre Fulas Balantas, Nalus e outros. Ele chegava à Tabanca, sentava-se à sombra dum mangueiro e ouvia os mais velhos, e as mulheres sobre as suas necessidades, sonhos e projetos, organizava-os e propunha parcerias de atuação fazendo-os comprometerem-se com os projetos, por exemplo as escolas EVA - Escola de valorização ambiental geridas pela a sua esposa Isabel. Acesso à água, melhoria das condições ambientais e de apoio à saúde.
Cordiais mantenhas.
Zé Teixeira

Anónimo disse...

Olá a todos. Estas fotos deram muita polémica. É bom saber das várias opiniões. Eu passei 18 meses com os(as) Felupes, e nunca me dei mal. A ilha maldita não sei qual é a origem do nome, quando lá cheguei era assim que lhe chamavam e havia um medo que eu nunca compreendi, por isso lá fui ver com os meus olhos.
Para terminar, e já que falamos dos Fulas - Estive 5 meses com eles em Nova Lamego - e muitas histórias para contar.
Eu acho que no cumprimentos, dizia-se assim:

Parte 'mantanhas' e não mantenhas?????
Como falavam, corpo di bó, mulher di bó, galinha di bó, etc .....
Um abraço
Virgilio Teixeira