sábado, 27 de janeiro de 2018

Guiné 61/74 - P18260: Os nossos seres, saberes e lazeres (250): À sombra de um vulcão adormecido (5) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 7 de Novembro de 2017:

Queridos amigos,
Havia um sentimento profundo subjacente a esta jornada açoriana, era uma autêntica peregrinação de saudade, sem detrimento do que sempre deslumbra cada vez que aqui se arriba. Um amigo franqueara as portas de sua casa em pleno Vale das Furnas, não havia que hesitar um local de encantamento, havia mesmo necessidade de passeios pedestres e de horas de recolhimento em leitura frutuosa. 
Em termos de saldo, só notas positivas, dentro da afabilidade até se voltou a visitar as estufas de ananás, cobertas de vidro caiado, com os seus alboios para regular a temperatura, de alguém a explicar as etapas sucessivas daquela morosa cultura, pois o ciclo completo dura 18 meses. 
E, como num passo de mágica, minutos depois fomos depositados no aeroporto. 
Adeus, até ao meu regresso. 

Um abraço do 
Mário


À sombra de um vulcão adormecido (5)

Beja Santos

O viandante tomou um autocarro (a “urbana”) e veio a Ponta Delgada, há amigos a visitar, sítios a rememorar, cabem dentro do termo da saudade. Esta fachada situa-se na Rua do Frias n.º 101, aqui viveu o último dos poetas do Orpheu, Armando Cortes Rodrigues, é hoje a sede do Instituto Cultural de Ponta Delgada. Aí para Fevereiro de 1968, o poeta convidou o viandante para jantar, recebeu-o numa indumentária excêntrica, volumoso, encantador, dotado de um vozeirão de sílabas soltas, canalizou a conversa para usos e costumes micaelenses, o poeta seguramente passará à história como grande etnógrafo, sem hesitações. À saída ofereceu dois livros, um deles impressionou muito o viandante, era a correspondência dele com Fernando Pessoa, foi através da leitura destas cartas que ficou a saber que o autor de "Mensagem" vivia permanentemente em apuros financeiros. Impossível deixar no limbo tal jantar e tal serão.



Era necessário vir fazer uma consulta no Arquivo e Biblioteca de Ponta Delgada, casa de grande conforto e com funcionários altamente prestáveis. Finda a leitura, preferiu-se a escada ao elevador, deparou-se esse painel de azulejos e, sabe-se lá porquê, lembrou-se o viandante do mar dos Açores.


Em frente à Biblioteca e ao Arquivo há um aprimorado jardim, tem no centro um monumento alegórico a Antero de Quental, o que naquele caso importava era visitar o jardim antes que desabasse uma carga de água. Atraído por tanta pétala no chão, desconhecedor do nome da árvore, perguntou ao jardineiro. “Senhor, é uma macaqueira”. Já procurou no dicionário, nada aparece para o esclarecer. O assunto também não tem importância, os dicionários também não trazem a palavra bagacina, o que é de todo incompreensível, bagacina é o que não falta por todo o solo açoriano. Saúde-se a macaqueira por nos oferecer este tapete digno de uma importante procissão.


O casco histórico de Ponta Delgada tem destas surpresas, aqui estacionou muita fidalguia, antiga do tempo dos povoadores e de extração mais recente, como o liberalismo. Diante destas armas, deu o viandante a meditar na fidalguia de caráter, a de grandes princípios, e pronto lhe veio à mente um nobre fidalgo republicano, Manuel Arriaga cujo civismo devia ser ministrado nos bancos da escola, o exemplo modelar de quem servia e não se servia, insensível às tentações do uso indigno do poder.


As últimas recordações vão para os Arrifes, sede do BII 18, sigla para o Batalhão Independente de Infantaria n.º 18, foi aqui que o viandante aterrou e deu duas recrutas, foi gerente de messe até ser despedido por ser sovina e estar indisponível para cavalarias altas, quem não tem dinheiro não tem vícios, se em Mafra descobrira que podia puxar pelo corpo e estava preparado para as futuras grandes canseiras, aqui descobriu, quase atónito, que saber liderar é um misto de ciência e dom e da prática de cuidar. Por isso sorria feliz, dava e recebia confiança, imbuído de respeito e aprendiz curioso destes padrões culturais que os recrutas transmitiam. Olhando estas fotografias, o que daria o viandante para abraçar estes homens, cinquenta anos depois.


Sabe-se lá por que escrutínio um dia foi chamado ao comandante e dada a ordem de preparar o discurso do juramento de bandeira, a parada repleta, os ilustríssimos convidados abancados na tribuna, os familiares em redor, era preciso dizer coisas como dever, amor à Pátria, e algo mais. Foi o que se tentou fazer, sem quaisquer cedências ao jargão propagandístico. De acordo com a opinião alheia, tudo correu bem e sem subserviência.


Os Arrifes eram uma freguesia populosa e com pobreza indisfarçável. Logo da primeira vez que esteve de oficial de dia, o cabo rancheiro perguntou se podia distribuir a sobra das batatas. O aspirante a oficial miliciano pediu explicações: “Estão lá fora as crianças que aqui vêm a esta hora, levam batata, ou massa, às vezes couves, são sobras e agora não temos aqui no quartel nem porcos nem galinhas”. Foi ver as crianças e tocou-lhe a sua candura e o olhar famélico. Mandou abrir latas de atum, distribuir pão e peças de fruta, conduta que lhe podia ter custado caro. A criançada saiu dali mais aconchegada, e ao fim do dia de instrução, prestes a regressar a Ponta Delgada, era sacramental perguntarem-lhe se amanhã não estaria de oficial de dia…



Última recruta, última fotografia de conjunto, a partir de agora o destino é incerto para todos nós, com este corpinho fomos todos parar à guerra. Prometemos um dia voltar à fala, o que não aconteceu. A importância, para o viandante, é olhar com ternura esta fotografia e o que ela encerra. E ponto final. E aqui acaba a viagem, mostra-se um bilhete-postal dos arrifes daquele tempo, o viandante mandou à sua mãe, fala de alegria, de boa saúde e de muito entusiasmo. Alegria e entusiasmo que tanto o ajudaram ao longo da vida.
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18232: Os nossos seres, saberes e lazeres (249): À sombra de um vulcão adormecido (4) (Mário Beja Santos)

3 comentários:

Valdemar Silva disse...

Não era só na Guiné que as crianças iam pedir restos de comida ao Quartel.
Aqui, também descalças iam às portas do Quartel pedir 'bianda'.
Grande fotografia para o Cherno Baldé meditar e comparar que afinal o 'mundo português' era todo igual.

Ob. Beja Santos

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande disse...

... Valdemar, a Europa era imperialista e colonialista, dona do mundo... mas nas suas cidades industriais (sobre)viviam milhões de homens, mulheres e crianças em bairros de lata, "ilhas", "vilas", "slums", "bidonvilles"...

E já não falo das nossas "tabancas" do passado, de pedra e colmo, sem água potável, sem esgostos, sem luz, sem escola, sem serviços de saúde... onde só se chamava o médico quando se estava a morrer, porque o Estado, desde o liberalismo, a partir de meados do século XIX, obrigava um desgraçado a morrer com "certidão de óbito", ou seja, de "papel passado" por um "facultativo"...

Os açorianos, tal como os continentais, nessa época "votaram com os pés", foram mundo fora, à procura de pão para a boca, e futuro para os filhos...

Um abraço, Luís

Cherno Balde disse...

Caro amigo Valdemar,

Ja vi a cena dos pes descalcos, nao dava para acreditar. Nao me parece que o Viandante repetisse a mesma accao de gracas na Guine, embora em Missira, Madina ou nos outros sitios por onde penou, houvesse criancas ainda mais necessitadas. O "mundo Portugues" era todo igual, mas alguns menos iguais que outros.

Em meados de 1970/71, salvo erro, as criancas de Fajonquito ficaram intoxicadas com sobras de comida com atum que tinham servido no jantar do dia anterior. Quando cheguei para entrar no festim correram comigo, porque nao tinha participado nos trabalhos de lavar as panelas (gigantes) e limpar a cozinha. Morreu uma crianca e outras foram evacuadas para Bafata (ja contei num post aqui no Blogue).

Com um abraco amigo,

Cherno AB