sábado, 3 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18280: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 23 e 24: A partir de outubro de 1972, aumentei a requisição (quinzenal) de cervejas: de 5 ml para 6 mil... Por outro lado, fiquei chocado quando pela primeira vez ouvi dizer que éramos colonialistas...



Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CART / BCART 6520/72 (1972/74) > " Foi com espanto que pela primeira vez ouvi dizer que éramos colonialistas e que o nosso governo era um governo fascista. Fiquei escandalizado com o que ouvia e jurei continuar a defender Portugal e as províncias ultramarinas."

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva:

Nasceu em Penafiel, em 1950, foi criado pela avó materna, reside hoje na Lixa, Felgueiras. Tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado. Tem o 12.º ano de escolaridade.

Foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção). Tem página no Facebook. É membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande .


Sinopse:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;
(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da Via Norte à Rua Escura.

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau,

(vi) fica mais uns tempos em Bissau para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vii) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM parea Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos', os 'Capicuas", da CART 2772;

(viii) Faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(ix) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(x) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(xi) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xii) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda;

(xiii) ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogram as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xiv) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina,  que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado.


2. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 23 e 24


[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]



23º Capítulo  > OS PASSATEMPOS E OS PRIMEIROS "TURRAS"

Também comecei a construir o barco de fósforos e afazer pulseiras de missangas.

Entre ler, escrever, ouvir música e tratar das tarefas que me tinham sido atribuídas, ainda me sobejava tempo. Usei algum para construir a caravela portuguesa com cartão e fósforos. Com o rádio a tocar na Emissora Regional da Guiné, até então a única que eu sabia captar, vários de nós íamos dando forma à célebre caravela. Normalmente, fazíamos isso à noite. Foi precisamente num desses serões que o soldado de transmissões me disse para escutar determinado comprimento de onda. Dizia ele que era rádio Voz da Liberdade [que emitia em português a partir da rádio Argel].

Foi com espanto que pela primeira vez ouvi dizer que éramos colonialistas e que o nosso governo era um governo fascista. Fiquei escandalizado com o que ouvia e jurei continuar a defender Portugal e as províncias ultramarinas. Nessa altura, até tínhamos connosco um grupo de comandos africanos que durante três dias lutaram ao nosso lado.
 –  Então se escravizávamos os negros, porque lutavam eles ao nosso lado? – perguntei. 

A resposta que me deu o soldado que pela primeira vez me tentou abrir os olhos para o que nós estávamos a fazer em África, foi escrita por mim no dia 8/10/1972. São tão ignorantes e burros como nós!

Fico estupefacto e ligeiramente envergonhado ao ler o que escrevi naquele tempo. Tanta ingenuidade só podia mesmo ser burrice. Eu sabia ler. Que raio! Pior, eu lia muito. Pois bem, posso considerar-me um autêntico atraso de vida, ignorante, como convinha e convém a todos os poderes que dominam o mundo, sejam eles económico, religioso ou político. A ignorância faz-nos parecer e, pior que isso, somos (!) uns completos idiotas.

Já dois dias depois, escrevi:

“Os comandos africanos terminaram a operação capturaram dois  "turras".  Estiveram aqui no quartel. Posso dizer que já vi "turras”. Confesso que tive muita pena deles. O nosso 2º comandante mandou dar-lhes de comer e eles pareciam dois lobos, tão esfomeados estavam. É assim, hoje eles, amanhã nós, e a guerra vai continuando, felizmente que connosco ainda não quiseram nada. O problema é que não foram só os comandos africanos para o mato. Também 50 camaradas meus e isso nem me deixou dormir. Esta noite já dormirei pois vieram todos sãos e salvos.”


24º Capítulo  > ADAPTADOS


De 5000 cervejas que requisitava, a partir de Outubro, aumentei a requisição para 6000. Quinzenalmente. Os “Serrotes de Fulacunda” podiam afogar as mágoas na bebida e eu comentava que era normal beber bastante. O problema é que alguns passavam a ostentar uma barriga que dava voz ao slogan “ Branco tem barriga grande” e éramos aconselhados a ter cuidado com o aspecto físico. 

Invariavelmente dizíamos que, se calhar, nem sairíamos dali vivos. Acho que mesmo eu tinha essa sensação, embora não o dissesse. O meu maior amigo tinha morrido em Mansoa; sabia de outros que também tinham morrido um pouco por toda a Guiné. Era uma questão de sorte ou azar, pois mais tarde ou mais cedo seríamos os atingidos portanto, se a responsabilidade das bebidas era minha, ao menos que não houvesse falta delas. 

Havia sempre o problema de os frigoríficos, que eram a petróleo, não terem capacidade para tanta cerveja, mas só o saber que havia cerveja no armazém era um bom lenitivo para a nossa sobrevivência. Que não se sequem as gargantas. Que a festa dure até às tantas. Logo a seguir, comecei a requisitar vinho [verde] Casal Garcia. Ou não fosse eu de Penafiel. 

Escusado será dizer que não demorou a começarmos a ter acidentes. Era naturalíssimo. Com a velocidade que os meus colegas conduziam as Berliets, Unimogs ou Jeeps pela picada, quando íamos ao rio buscar os reabastecimentos, algum acidente teria de acontecer. Felizmente, eu era bate-chapas e o primeiro a bater foi com uma Berliet. 

Gostei de, durante um período de tempo, trabalhar na minha profissão e pude perceber que, mesmo estando nós, reduzidos num pequeno espaço, cada um estava a trabalhar no seu ofício. Pintores, trolhas, pedreiros, carpinteiros, electricistas, mecânicos, padeiros, cozinheiros, agricultores, etc. etc. Estávamos a criar condições para o desenvolvimento das potencialidades que nos permitissem prosseguir, com sucesso, a vida civil se conseguíssemos regressar. “Estamos a ficar adaptados”.

Aos que pretendiam, por exemplo, emigrar, enveredar pelas forças de segurança, ou até outras profissões, também notava que se preparavam para isso. Gostei sobremaneira dum colega que queria ir para a CP. Sabia tudo sobre comboios.

Espero que todos eles tenham concretizado o sonho com o mesmo, ou mais sucesso, que eu tive na minha profissão, e que agora estejam a gozar uma merecida reforma.

(Continua)
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1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Deixa lá, Dino, havia insultos piores que "colonialistas"... Aos meus soldados africanos, da CCAÇ 12 (, estávamos do outro lado do Corubal), os tipos do PAIGC chamavam pior: "Câes dos colonialistas"...