quarta-feira, 4 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18483: Tabanca Grande (460): Gina Marques, nossa grã-tabanqueira nº 769... E não era sem tempo... A Gina foi o anjo da guarda, a enfermeira, a mulher extraordinária e corajosa, que deixou tudo (incluindo o emprego) para trazer à alegria da vida o seu homem., o António Fernando R. Marques, ex-fur mil da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71)... Um caso de (e)terno amor.


Lisboa > Campus da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa >  2 de junho de 2011 > A Gina [Virgínia], o António Marques e o  José Carlos Suleimane Baldé (ex-1.º cabo da CCAÇ 12, Bambadinca e Xime, 1969/74) na véspera de regressar a Bissau, depois umas férias de 15 dias, em Portugal, que ele não conhecia e com o qual sonhou uma vida inteira... Entre os muitos e generosos apoio que teve, contaram-se também os do casal Marques. (*)

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


XXII Convívio da Magnífica Tabanca da Linha > Oitavos, Cascais, 19 de novembro de 2015 > Merece um prémio de lealdade e assiduidade este casal, o António Fernando Marques e a Gina.

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Recorte de "O Primeiro de Janeiro", 28 de novembro de 1970.

Um número da revista que deve ter chegado a Bambadinca, mas que o António Fernando R. Marques nunca deve ter lido... Em janeiro de 1971 estava internado no HM 241, em Bissau, em estado crítico. Por outro lado, a leitura da notícia (Felicidade e Forças Armadas") não podia vir mais a propósito: a carreira das armas, num país em guerra, deixava de ser atrativa... No ano letivo de 1970/71, a Academia Militar tinha aberto 463 vagas a que concorreram apenas 70 candidatos (15%)... Depois de um segundo concurso, acabaram por ser admitidos 77 candidatos, mas poucos escolheram a G3 como fiel companheira: mais de metade foi para engenharia e administração...


1. A Gina foi uma extraordinária companheira para o Marques ("o Marquês, sem acento circunflexo", como eu lhe chamava, ele que era a calma, a gentileza, a correção, a compostura, em pessoa)... Ela foi e é; ele era e é... felizmente estão os dois vivos, e são avós babados.  São, além disso, um inseparável casal, participando, de há muito, nos nossos convívios anuais ou mais regulares: do pessoal de Bambadinca, 1968/71, da Tabanca Grande, da Tabanca da Linha, etc.


A Gina foi uma extraordinária companheira do António, nomeadamente nos dois anos de "comissão militar" forçada que ele teve que fazer no antigo Hospital Militar Principal, na Estrela, em Lisboa, para onde foi evacuado, na sequência da mina A/C em que ambos, eu, ele e mais duas secções, caímos, no fatídico dia 13/1/1971, a menos de 2 meses do fim da nossa comissão, à saída do gigantesco reordenamento de Nhabijões (**)...

A Gina tem estado sempre ao lado do António, nos bons e maus momentos. E ajudou-o depois a criar e a desenvolver os seus próprio negócios, associados ao irmão mais velho. O casal vive hoje na Quinta da Torre, em Cascais. Ambos estão reformados, ou melhor, dedicam-se hoje a ajudar os filhos (um comandante da TAP e uma hospedeira de bordo) a cuidar dos netos...

É bom que se saiba isto, das "nossas mulheres que também foram à guerra"... E, por lamentável lapso meu, a Gina só agora entra para a Tabanca Grande, sentando-se à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 769 (****)... Devia ter entrado, no mínimo, em 2011, na altura em que faleceu a Teresa Reis, a esposa do Humberto Reis.


2. Conheço a Gina... desde os tempos de Guiné. De fotografia, claro... A mina em que eu caí, em 13 de janeiro de 1971, mais o seu noivo António Fernando R.  Marques haveria de aproximarmo-nos... graças também ao nosso blogue, à Tabanca Grande, aos nossos convívios ao longo destes anos todos. Se a memória não me atraiçoa, (re)encontrámo-nos em Fão, Esposende, em 1994, por ocasião do 1.º Encontro do Pessoal de Bambadinca de 1968/71.

Por coincidência,  estive na Sexta Feira Santa, em Esposende e em Fão, duas belas terras do distrito de Braga... Fui lá à procura da lampreia e dos "sabores do mar"... Perguntei pelo António Manuel Carlão, que chegou a ter um estabelecimento comercial, o "Café Juventude", onde almoçámos em 1994... Fechou entretanto. Disseram-me que era um retornado de África, natural de Mirandela, e conhecido na terra por Tony Carlão. Os sogros, António Bento e Zulmira de Jesus Eiras, também retornados, tinham  uma casa de fados, segundo me disseram, o conhecido restaurante "A Lareira", junto aos Bombeiros Voluntários de Fão  (, hoje com outra gerência). Um filho do Carlão e da Helena vive em Esposende. E uma filha era casada com o nosso leitor João Areias. O Carlão e a Helena era um dos poucos casais, metropolitanos,  que viviam em Bambadinca no nosso tempo (1969/71).

O António Fernando Marques, meu camarada da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71), namorava a Gina e recebia, com regularidade, as suas "cartas de amor"... Namoravam-se e pensavam casar mal ele acabasse, com vida e saúde, a sua comissão no CTIG.

Creio que era o irmão mais velho que lhe mandava a revista  do reviralho, a "Seara Nova"... O número de janeiro de 1971 chegou tarde a Bambadinca, ele já não o leu. Estava em estado em coma, no HM 241, em Bissau... 17 dias em coma, a contar do fatídico dia 13 de janeiro de 1971.

Sei hoje, pelas conversas que vamos tendo,  que a vida não lhe fora fácil,  ao António Marques, sendo oriundo de famílias pobres, como aliás a maior parte de nós. Os filhos dos ricos não iam parar à Guiné... Era um camarada discreto e poupado, que não se metia em tainadas como alguns de nós... Não bebia, não jogava, deitava-se cedo... Tínhamos algumas afinidades, falávamos da situação política, éramos amigos e eu alinhei no mato com ele, bastantes vezes... mesmo não tendo um pelotão certo. Ele era fur mil at inf, do 4.º Gr Comb, comandante da 2.ª secção, eu costumava comandar a 3.ª secção, que não tinha, desde o início, comandante atribuído.

O António faz anos a 24 de agosto. E este ano o casal vai falhar o XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande, em Monte Real, em 5 de maio, porque o seu neto mais velho faz anos nesse dia... Creio que 15 aninhos. A Gina faz anos a 1 de abril,  o "dia das mentiras", queixava-se ela, há dias, no almoço da Tabanca da Linha. Ainda fui a tempo de pedir ao Carlos Vinhal para lhe fazer um postalinho de parabéns (***). E prometi, a mim mesmo, que desta vez é que ela iria entrar, "de jure", na Tabanca Grande. Porque "de facto" ela já era, há muito nossa, "grã-tabanqueira" (****).

Um beijinho, Gina. Bebo um copo à vossa saúde e ao vosso (e)terno amor. Sê bem vinda à Tabanca Grande. É apenas uma formalidade, é sobretudo a reparação de uma injustiça. O teu lugar é aqui, há muito. Luís
__________________

Notas do editor:

(***) Vd. poste de 1 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18474: Parabéns a você (1411): Carlos Pedreño Ferreira, ex-Fur Mil Op Esp do COMBIS e COP 8 (Guiné, 1971/73) e Gina Marques, Amiga Grã-Tabanqueira, esposa do António Fernando Marques

(****) Último poste da série > 30 de março de 2018  > Guiné 61/74 - P18471: Tabanca Grande (459): João Schwarz, novo grã-tabanqueiro, nº 768.

5 comentários:

Anónimo disse...

Faltou-me acrescentar, que realmente os filhos dos ricos nunca iam parar à Guiné, nunca lá vi nenhum, também não conheço todos.
Mas um dia, estávamos nós em São Domingos, há pouco tempo e chega lá num 'jacto' privado, isto em 1968 - está a fazer agora 50 anos - um Alferes alentejano, podre de rico, foi lá parar de castigo vindo directamente da Metrópole.
Ele como vinha em rendição individual, nem sei o que fazia por lá, sei que se deu muito bem com o nosso Comandante Saraiva, e que jogavam até às tantas aquela malta toda com a qual nunca alinhei, andava noutras andanças. Até o dia em que o nosso Comandante foi evacuado por causa também da tal mina, a 1000 metros do aquartelamento, e andou décadas a tratar das pernas, com sofrimentos terríveis.
Quanto ao tal alentejano ricaço, pouco falei com ele, acho que era de Infantaria, não sei se ele se chamava 'Almodôvar' de nome, ou se era apelido, pois ele era mesmo de Almodôvar a terra alentejana. Perdi-lhe o rasto, deve ter sido transferido para outro local, ou arranjou forma de ser evacuado para o Alentejo antes do tempo. A Guiné não era mesmo para os ricos, ou filhos de ricos!

Um Ab,

Virgílio Teixeira

Anónimo disse...

Carlos Vinhal

4/4/2018 11h18

Caríssimos amigos Gina e António Fernando

Tomo a liberdade de vos enviar, para os vossos arquivos, o poste revisto, que o Luís publicou com a apresentação da Gina à tertúlia.

Bem-vinda ao grupo da Dina, Lígia e Ni, destas três, uma, a Ni, esteve com o, já, marido em Bissorã e a minha Dina, também já noiva como a Gina, "fez" a guerra na retaguarda.
Não tendo eu tido felizmente qualquer percalço na guerra, a Dina, no espaço em que estive na Guiné, sofreu pela doença da mãe que acabou por vitimá-la ao fim de um ano de muito sofrimento, precisamente no dia 24 de Dezembro de 1970, com apenas 45 anos. Eu não pude estar junto da minha noiva naquele momento doloroso porque estava a penar em terras da Guiné.

A minha admiração à extraordinária MULHER que foi a Gina, e os meus parabéns ao António pela sorte que teve, apesar do infortúnio.

Tenho pena que não nos vejamos no próximo Encontro da Tabanca Grande, mas a causa é nobre.
Deixo à nossa GRÃ-TABANQUEIRA Gina um beijinho de boas-vindas e ao António Fernando um grande abraço.

Para ambos o melhor da vida
Carlos Vinhal

Hélder Valério disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hélder Valério disse...

Nem sei que dizer.

A Gina e o António Marques são do melhor que tenho encontrado.
São merecedores de toda a amizade e de toda a admiração.
Sempre que estou com eles 'sinto' aquela grande cumplicidade que têm entre si e da bondade que espalham à sua volta.
O Marques é, sem dúvida, um "sobrevivente" e um "resistente".
A Gina é, evidentemente, uma "guerreira". Discreta e persistente. E vitoriosa!

Sem dúvida que é altamente merecedora de estar entre nós de pleno direito.
E fez-se justiça.

Abraços

Hélder Sousa

Tabanca Grande disse...

Hélder, numa frase lapidar disseste tudo (ou quase)...Por detrás desta rapaziada, brava, há uma bela raparigada... O caso do Marques e da Gina merecia um "estudo de caso"... A Gina teve um papel fantástico também na "recuperação" da(s) memória(s) do Marques, afetada(s) pela brutal explosão da mina A/C em Nhabijões e o consequente internamento hospitalar, que foi outra comissão.. Ela acompanha sempre o Marques (não me lembro de o ver sozinho...) nos convívios tabancais, o que só lhe fez (e faz) bem... à saúde mental.