sexta-feira, 6 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18493: (D)o outro lado do combate (25): Jorge Araújo, "adesão" dos blufos balantas ao PAIGC? ... Eu diria antes que eles foram empurrados para os braços do Amílcar Cabral, devido ao terror provocado pelo bombardeamento indiscriminado das suas tabancas, pelas NT, nos anos 1962/63... (Cherno Baldé)


Excerto da lista das FARP emitida pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra do PAIGC - Sector de Cubisseco de Baixo. Bigrupo comandado por Quintino Gomes (n=34). Fonte: Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum / Fundação Mário Soares.

Comentátios so poste P18487 (*):



I. Tabanca Grande Luís Graça:

Se esta ficha de inspeção e coordenação do Conselho de Guerra das FARP / PAIGC corresponde efetivamente ao Bigrupo do Cmtd Quintino Gomes, ficamos a saber mais o seguinte:

(i) o bigrupo tinha 34 elementos (a ficha não está datada, o que é um pena, mas deve ser de c. 1966):

(ii) era a seguinte a composição do bigrupo: 1 comandante, 1 comissário político, 2 chefes de grupo, sendo os restantes elementos atiradores e assaltantes:

(iii) só 7 eram casados (20,6%) e, pelos apelidos, a maioria seria balanta, seguida dos biafadas e mandingas:

(iv) só encontro, assim de repente, um tipo do leste, de Bambadinca, o nº 24, mas pelo nome é balanta...

Talvez o nosso assessor, o Cherno Baldé, nos possa dar aqui uma mãozinha... Não encontro nomes fulas...

PS - Cherno, meu querido assessor, além de irmãozinho:

Quando (e se...) puderes, dá uma vista de olhos a este poste do Jorge Araújo sobre a composição sociodemográfica do bigrupo do Quintino Gomes...

Pelos nomes, filiação e local de nascimento, podes tentar descobrir se há algum fula?... A mim pareceu-me que não...

E já agora o Quintino Gomes seria de que etnia?... E o Mário Mendes?... Ambos morreram em 1972...

Queres ainda comentar o facto do PAIGC recrutar "putos" de 14, 15, 16 anos?!.. Na nossa tropa, o "mancebo" podia ter 16 anos, idade mínima legal para se alistar na tropa (caso do "puto" Umaru Baldé, da CCAÇ 12, e outros...).


II. Cherno Baldé (Bissau), nosso assessor para as questões etnolinguísticas:

Caro amigo Luís,

Antes de mais, as minhas felicitações ao Jorge pelo empenho, pela curiosidade de olhar para o "outro lado" e pelas informações que nos tem fornecido sobre aspectos muito úteis da guerra colonial ou de libertação.

Quanto aos elementos solicitados sobre a pertença étnica, o que salta logo a vista é que não há elementos do grupo etnolinguístico Fula. De seguida, o grupo seria constituído em cerca de 70% de Balantas, pouco mais de 17% de Beafadas e um numero residual de Mandingas (2), Nalus (1), Mancanhe (1) e provavelmente Papel (O Cmdt do Bigrupo Quintino Gomes), que de todos é o mais difícil de identificar porque é o único com nome completo de assimilado. Tem no entanto, uma particularidade interessante que é o nome do pai (Amisson), quer dizer "Sozinho", que entre os assimilados crioulos (Cristãos), significa orfandade ou o facto de ser filho único da parte da mãe, provavelmente.

O Quintino tanto podia ser da etnia Manjaca como Papel, eu decidi, por pura intuição, que devia ser da etnia Papel, mas o facto de ter nascido em Empada dá-lhe uma possibilidade grande, também, de ser filho de Manjacos que emigraram para o sul alguns anos antes da guerra à procura de terras de cultivo. Portanto o caso do Quintino fica em aberto.

PS - Eu compreendo o Jorge que, para a análise, utiliza a variavel "adesão" [ao PAIGC] no ano tal [. c. 1962/63,] mas ns realidade, muitos daqueles jovens foram empurrados para a guerrilha devido ao erro estratégico do exército português em bombardear e queimar as suas aldeias de forma indiscriminada, logo no início da guerra...

Mais que adesão?!... Eles foram obrigados a escolher um dos lados e o PAIGC soube aproveitar bem o conhecimento que tinha do terreno e das suas capacidades de resiliência física e mental.

Um abraço amigo,
Cherno AB
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Nota do editor:

Último poste da série > 5 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18487: (D)o outro lado do combate (24): estudo sociodemográfico: o caso do bigrupo do cmdt Quintino Gomes (1946-1972) (Jorge Araújo)

7 comentários:

Tabanca Grande disse...

Cherno, sempre tive essa impressão, eu que puxei muitas vezes essa conversa com os meus soldados fulas e futa-fulas da CCAÇ 12, em Bambadinca, nos anos de 1969/71... Falei muitas vezes com os mais velhos, eram verdadeiros livros abertos, confiavam em mim e eu neles... Nunca tive, de resto, a mais leve suspeita de falta de lealdade dos nossos soldados fulas... Nós é que falhámos, miseravelmente, com eles, no fim da guerra, deixando-os, sem verdadeiras garantias, nas mãos dos novos senhores de Bissau (Luís Cabral, Nino Vieira, Buscardini, etc.).

A administração colonial (incompetente) e o exército (incipiente) cometeram erros gravíssimos, no início da década de 1960... E os erros na guerra ão "crimes"... Houve muita violência gratuita, provocada pela administrativa, reforçada com a destruição, pura e simples, de populosas abancas como Samba Silate, Poindom... Isto só para falar da zona leste...

Não admira que no meu setor, L1, em pleno chão fula, houvesse 5 mil guineenses fora do controlo da administração portuguesa desde o início da guerra até ao fim (!), ao longo da margem direita do Rio Corubal, da Foz á Mata do Fiofioli... Foram lançados nos "braços do Amílcar Cabral" pelo terror provovado pelas NT... É duro dizer isto, mas é verdade...

Infelizmente, sessenta anos depois, ainda somos confrontados com o silêncio dos arquivos e dos camaradas, poucos, que estavam lá nessa época... Alguns vão contando histórias, mas "off record"...

José Teixeira disse...

Nas minhas idas à Guiné Bissau tenho contatado com alguns ex combatentes do PAIGC, nomeadamente na Tabanca Lisboa, junto a Buba e em Farim do Cantanhês, Saltinho, Iemberém. Das nossas conversas abertas e francas ressalta o que o meu Ermon Cherno fala abertamente pondo o dedo ou abrindo uma ferida muito dura que embora em fase de "secagem" pelo tempo, ainda dói, suponho, na mente de quem as provocou. Na verdade ouvi vários testemunhos da forma violenta como as nossas tropas atuaram nos primórdios da guerra e o aproveitamento do PAIGC do descontentamento provocado. Muitos fugiram para o mato na sequência da "visita" das tropas portuguesas e entregaram-se à luta.
Não podemos, no entanto, escamotear a forma violenta como o PAICG atuava antes e durante a guerra nas suas visitas às tabancas, muitas delas sem qualquer definição quanto à guerra, outras controladas pelas forças ocupantes e mesmo junto das tabancas controladas pelo PAIGC. Creio que se comportava de forma idêntica, com agressões, assassínios dos chefes de tabanca e de eventuais contestantes da sua ação intimidatória, bem como rapto de jovens e até crianças.

Felizmente quando se entabula conversa com um jovem do interior da G.B sobre a guerra colonial a resposta é " isso foi há manga di tempo". Os filhos dos guineenses que estiveram do lado dos portugueses, esses gostam muito de ouvir as histórias sobre os seus familiares, mas a guerra não lhes diz nada, tal como aos jovens portugueses.

José Teixeira

Tabanca Grande disse...

Zé, aquilo a que o PAIGC vai chamar, propagandisticamente, "regiões libertadas", resultou do vazio criado pelo terror praticado por ambos os lados... Estiveste em Empada e sabes que houve famílias violentamente separadas pelo PAIGC... No setor que eu melhor conheci, o triângulo Xime / Bambadinca / Xitole, mas também nos regulados do Cuor e do Enxalé, a norte do Geba, e ainda no regulado de Joladu, passei por "muitos restos de aldeias calcinadas"... abandonadas pela população, queimadas seguramente por um ou outro dos lados... Aliás, basta ver as nossas cartas militares, dos anos 50, e comparar com a realidade que conhecemos, no terreno, nos anos 60/70...

O PAIGC e as NT não foram meninos de coro, nos anos de chumbo da guerra, que de facto começou muito antes da data oficial ou oficiosa, o ataque a Tite, a 23 de janeiro de 1963... Aliás, não há meninos de coro em nenhuma guerra...Os "excessos" (para usarmos um termos "assético" e "indolor"...) do lado do PAIGC foram reconhecidos e de algum modo julgados e punidos no Congresso de Cassacá, em 1964... Talvez o nosso editor Jorge Araújo possa, um dia destes, pegar neste dossiê...

Infelizmente, este período mais "sombrio" do início da guerra (mas que vai provavelmente até a meados do "consulado" do Schulz...) continua mal "documentado", na historiografia da guerra, em geral, e no nosso blogue, em particular... Não podemos falar "de cor", nem generalizar... Aqui funciona sempre o contraditório e, tanto quanto possível, a triangulação de fontes...

Mas é "saudável" que a gente aborde este tema "difícil"... Se não formos nós, quem poderá mais ser ?... E, depois de nós, ficam os mitos e as lendas...

Anónimo disse...

Luís.
Tens razão acerca das chamadas "regiões libertadas". Nas áreas entre Buba e Quebo, as populações (Fulas) abandonaram as tabancas (Bolola, Cumbijã, Colibuia, Missirá, Sinchã Cherno, Sare Donhã, Uane,etc. Em Mampatá havia imensa gente oriunda de Colibuia e Cumbijã e diziam cobras e lagartos do PAIGC, pela forma como foram abordadas pelos agentes do partido na primeira fase e pelos ataques de que foram vitimas na primeira fase da guerra. Essa área era considerada pelo PAIGC como zona libertada. Eu vi pendurada numa árvore na picada para Gandembel uma placa com a frase "aqui é Guiné livre". Muitas das tabancas foram abandonadas por ordem do governo provincial. Recordo a tabanca no Cacheu que construímos de raiz onde se pretendia juntar as populações das tabancas existentes nos arredores. A psico era feita com o Chefe de Posto (cabo-verdiano) protegido pela tropa (minha companhia)que ordenar para dentro de oito dias se mudarem para nova tabanca e quando lá voltávamos, para castigar os faltosos, encontrávamos o lugar vazio ou quase. Creio bem que o PAIGC se sabia aproveitar destas situações. Era chocante ouvir os mais velhos a justificarem as razões porque queriam ficar ali.
Não será fácil, nem para um lado nem para o outro, falar sobre a guerra nos primeiros tempos, sem dúvida, agora que a poeira foi assentando e os anos passando. Creio que todos sentem que foram um joguete nas mãos dos poderosos senhores da guerra. Eu tenho ouvido e registado com reservas, até porque estive lá no meio e vi, vivi e sofri.
José Teixeira

Antº Rosinha disse...

Amilcar Cabral ao ajudar a fundar o PAIGC e o MPLA, com ideias criadas ao lado de muitos estudantes do império, nunca foi intenção dessa gente entrar no mato de armas na mão.

A ideia deles era a guerra urbana, tal como foi iniciada a 2 de Fevereiro em Luanda.

Entretanto os "missionários" americanos no norte de Angola, instruiram a UPA para entrar no mato, atacando tudo o que fosse branco ou filho ou amigo do branco.

Não ficou alternativa ao PAIGC, FRELIMO e MPLA, movimentos que os estudantes criaram,senão usar armas semelhantes,para se defenderem desse inimigo novo, pior que o "colon"

Em condições semelhantes, houve um africano que ficou para a história universal, mas que não usou as mesmmas armas e é prémio nobel da paz, Nelson Mandela.

Antº Rosinha disse...

P.S.
Além de prémio nobel, Mandela morreu em paz, de velho e na sua terra.
Os chefes daqueles outros três movimentos referidos, não morreram na sua terra, nem em paz, nem de velhos.

Tabanca Grande disse...

Rosinha, parece ser coincidência, mas se calhar não foi... Terá sido vingança ou ironia da História ? De qualquer modo, foi uma tragica coincidência ... E eu nao quero ofender os sentimentos dos meus e nossos amigos angolanos, guineenses e moçambicanos....

E eu que admirava Amílcar Cabral, cá, na metrópole... como pensador, intelectual, africano, político... Fui para a Guiné, e vi "merda a mais": o PAIGC em ação, as NT em ação...

Porra, deram-me 100 recrutas fulas e futa-fulas e 2 mandingas... Não falavam português e o único que tinha a 3ª classe era o futuro 1º cabo José Carlos Suleimane Baldé, o guineense que ainda hoje chora por Portugal, país que o não soube merecer nem soube respeitar o seu sacrifício e o seu heroísmo... Depois da independência esteve encostado ao poilão de Bambadinca para ser fuzilado... Salvaram-no os homens grandes que testemunharam e intercederam a seu favor...

Pobres diabos, foram todos tratados como "cães dos colonialistas"... Cinquenta ou sessenta depois, estamos na altura, amigos e camaradas da Guiné, de chamarmos os homens pelos nomes e os bois pelos cornos...

Obrigado, Cherno Baldé, Zé Teixeira e António Rosinha pelas vossos comentários e reflexões.