quinta-feira, 24 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22313: FAP (124): Memórias de lugares da guerra... A Base Aérea 12 de Bissalanca (Mário Santos, ex-1.º Cabo Especialista MMA)



1. Em mensagem de 22 de Junho de 2021, o nosso camarada Mário Santos (ex-1.º Cabo Especialista MMA da BA 12, Bissalanca, 1967/69) fala-nos das suas memórias na BA 12 de Bissalanca


MEMÓRIAS DE LUGARES DA GUERRA...
A BASE AÉREA 12 - BISSALANCA


Embora tenha noção de que tudo isto é parte de um passado longínquo, ele será sempre parte intrínseca de todos nós e da nossa história, que perdurará não só enquanto vivermos, mas também para além da vida, consubstanciado nos nossos contos e narrativas. Esse passado sofrido e glorioso, que são pedaços das nossas vidas....

Foi assim, historiando um pouco... que decidi narrar-vos o início atribulado da minha viagem para a Guiné; recordo-me que na escala pela Ilha do Sal, o C-54 H - Skymaster parecia uma lata velha, com o pessoal assustado com a turbulência, a pista transformada em lago e depois o dilúvio, numa terra onde há muitos meses não chovia uma gota.

Ainda recordo o banho de chuveiro no "Hotel abarracado" ... de água salgada... e depois, o arrastar de camas a tentar fugir das goteiras que caíam dos tectos esburacados. Acabei na rua em cuecas a tirar do corpo a água salgada com água da chuva... e a fugir dos percevejos que se passeavam pelos lençóis... e que tinha visto pela primeira vez na vida.

Depois, já no dia seguinte na BA12, quando abriram a porta do avião, aquela sensação de ar rarefeito, desagradávell quente e húmido, bafiento, pegajoso... e o pensamento de que tínhamos chegado a um local amaldiçoado... e tudo isto, aos 18 anos, ainda com a personalidade e experiências de vida apenas na fase de formação.

Alguns dias depois, já na linha da frente da Esquadra de Fiat G-91 onde fui colocado, a famosa 121... tive o bizarro conhecimento de que vários camaradas de outras Esquadras que tinham sido companheiros de Liceu, Escolas Comerciais e Industriais, alguns até colegas de turma nos mesmos estabelecimentos de ensino, eram, pasme-se: Furriéis, Sargentos e Alferes Milicianos.
Alguns de nós com habilitações académicas para Sargentos ou Oficiais, éramos simples 1.°s Cabos... Especialistas...

O clima, quente e húmido, a má qualidade da água, comida e sofriveis instalações, completaram o quadro de tudo com que não sonhávamos ou desejávamos...

As grandes amizades, companheirismo, convivência, solidariedade, cumplicidade, começaram a tomar conta de todos nós... Começámos a perceber que nos 2 anos seguintes, estes eram os valores a que nos teríamos de agarrar para conseguirmos passar pela missão o melhor possível...

A responsabilidade e o espírito de missão foi-se enraizando e pouco tempo passado, já faziam parte do grupo. Aos poucos, fomo-nos familiarizando também com os nossos chefes, que nos introduziram nos procedimentos técnicos de manutenção e apoio de voo. Inspecções, segurança, procedimentos pré e pós voo...

A vida na Guiné não era para ninguém uma pera-doce... contudo a nossa irreverência era uma arma poderosa.

As linhas da frente da BA12, em placa de cimento, chegavam fácilmente por volta do meio-dia, bem acima dos 40° graus centígrados... Não havia sombras, água... e o protector solar ainda não era uma opção.

Eu, e os meus camaradas da Linha dos G-91, tínhamos todos terminado o Liceu ou Escola Técnica e este era o nossa primeira actividade... como especialistas FAP. Todos entre os 18 e 20 anos de idade, com excepção do Chefe de Linha, o 1.° Cabo Especialista R/D Fernando Vilela, que tinha sido nomeado a partir da Linha da Frente dos T-33 na BA2, e era o único já com alguma experiência na manutenção e apoio de voo. Todos os Sargentos, tal como outros 1.°s Cabos mais antigos, permaneciam no "conforto" do hangar onde se efectuavam as inspecções programadas, ou se resolviam reparações mais complexas.

A expectativa dos primeiros voos era enorme, tal como a curiosidade em conhecermos os nossos Aviadores a quem nos dois anos seguintes iríamos dar a nossa imprescindível colaboração...
Não houve qualquer apresentação formal, chegavam de Jeep, vindos das Esquadras, cumprimentavam, fazíamos a inspecção prévia juntos, retirando as cavilhas de segurança do Trem de aterragem, subíamos a escada, eram amarrados à Martin Baker e depois de retiradas as seguranças, estavam prontos para partir...

Foi assim que as minhas rotinas diárias, no G-91, com o Ten Cor Costa Gomes, Capitão Vasquez, Capitão Costa Pereira, Tenentes Vasconcelos, Nico, Balacó e Neves se iniciaram no último trimestre de 1967. Mais tarde, com o decorrer da Comissão, os mais antigos, como o Capitão Costa Pereira e Tenente Vasconcelos, foram respectivamente rendidos pelo Capitão Amílcar Barbosa e Tenente Roxo da Cruz, tal como o Coronel Manuel Diogo Neto, futuro Comandante da Zona Aérea Cabo Verde/Guiné, (CZACVG).

Como tudo na vida, todos nós desenvolvemos personalidades, maneiras de ser e actuar diferentes. Foi assim também relativamente aos nossos Pilotos da Esquadra de Tigres. Havia a classe mais extrovertida e faladora, assim como os economizadoras da palavra, que só diziam o que era absolutamente indispensável...

Os G-91 eram entregues, diáriamente,  ao mesmo Mecânico, até por uma questão de responsabilização... Já com os Pilotos creio ser sido diferente, uma vez que chegavam do GO (Grupo Operacional) com missões já atribuídas...

Em boa verdade, começaram a haver preferências de quem dava saída a quem... Nenhum de nós gostava de apanhar o nosso Ten Cor, era antipático, pouco comunicativo e com uma postura de quem pertencia a um outro mundo...

Depois, havia também preconceito com alguns dos Tenentes... Porque eram empertigados, oriundos da AM, um porque se dizia que era de sangue azul e nem sequer olhava a direito para nenhum de nós... outro porque tratava todos os subordinados com afastamento e até algum desprezo... Parecia terem esquecido que estávamos todos envolvidos numa guerra terrível e de que necessitávamos da solidariedade e cooperação de todos. Eram, todavia todos bons Pilotos, apesar da inexistência da experiência de combate.

Eu, cá por mim, tinha preferência por um par de jovens Tenentes, que tinham chegado à Base no mesmo dia que eu, e a quem podia pedir para fazer umas piruetas, ou uma rapada, caso ainda chegássem com algum JP4 no Fuel Collect Tank... (reserva).


Verificação do Pylon

Bissalanca 1968

Bissalanca 1968

No final, direi que foi com grande orgulho e espírito de missão que contribuí para que a actuação da Esquadra de Intervenção Tigres de Bissalanca tivesse sido um sucesso e tivesse contribuído para a protecção dos nossos camaradas do Exército e Marinha. No final, numa guerra assimétrica, estávamos todos dependentes uns dos outros. Quem nos dera ter o poder de fazer rewind ao relógio da vida, e voltarmos todos aos bons tempos da nossa meninice e juventude...

Um lamento sincero por todos os que não foram bafejados pela sorte, e não conseguiram regressar... ou voltaram fisicamente diminuídos.

Grande abraço
Mário Santos

____________

Nota do editor

Último poste da série de 18 DE MARÇO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22015: FAP (123): Em louvor do ex-fur mil pil av António Galinha Dias e da tenente enfermeira paraquedista Maria Zulmira André Pereira (1931-2010) que fizeram a evacuação Ypsilon do cap cubano Pedro Rodriguez Peralta, em 18 de novembro de 1969, na sequência da Op Jove (Jorge Narciso / Maria Arminda)

18 comentários:

Valdemar Silva disse...

Mário Santos
Realmente, fazia uma certa confusão eu e meus amigos com Curso Comercial ou Industrial, o Liceu e até a frequentarem o Instituto Comercial irem para o CSM ou COM no Exército e os que foram para a Força Aérea irem para Cabos Especialistas.
Aos fins de semana nós o que mais queríamos eram andar desfardados, já os da Força Aérea tinha grande saída com as "miúdas" por causa da farda e nunca se desfardavam.

Abraço e saúde da boa
Valdemar Queiroz

Mário Santos disse...

Caro Valdemar.
Esta foi, quanto a mim, uma maneira simples airosa e barata, de o Regime mobilizar mão de obra altamente especializada e paga com uns miseros trocos...
Ao contrário do Exército e Marinha, os Voluntários Especialistas da FAP, mesmo depois de mobilizados para a Guerra, não tinham direito a promoção. Terminavam a Especialidade como Soldados Alunos, promovidos a 1° Cabos, e assim continuavam por 4, 6 ou mais anos, a não ser que decidissem continuar profissionalmente na FAP e aí frequentariam um Curso de Sargentos... O resultado disto, é que quem entrava na Força Aérea por esta porta raramente deixava a classe de Sargentos.
Uma injusta incongruência, uma vez que como foi mencionado, as habilitações académicas eram iguais ou mesmo superiores ao das outras armas e mesmo na FAP, quem fosse incorporado noutros serviços como Miliciano ou na Academia da Força Aérea atingiria rápidamente o grau de Oficial...
Quanto à questão semântica do fardamento, quanto a mim Criou-se um mito...
Eu preferia andar à Civil, até porque nunca necessitei de me colocar em bicos de pés, nem para arranjar namoradas nem por qualquer outro motivo.
A maior mágoa foi na perda de income no Pré, e no tratamento que recebemos por sermos apenas 1° Cabos...
Abraço.

Mário C. Santos disse...

Caro Valdemar.
Está foi, quanto a mim uma maneira simples, airosa e barata de o Regime mobilizar mão de obra altamente especializada e paga com uns trocos...
Ao contrário do Exército e Marinha, os Voluntários Especialistas da FAP, mesmo depois de mobilizados para a Guerra, não tinham direito a promoção. Terminavam a Especialidade como Soldados Alunos, promovidos a 1° Cabos, e assim continuavam por 4, 6 ou mais anos, a não ser que decidissem continuar profissionalmente na FAP e aí frequentaram um Curso de Sargentos... O resultado disto, é que quem entrava na Força Aérea por esta porta raramente deixava a classe de Sargentos.
Uma injusta incongruência, uma vez que como foi mencionado as habilitações académicas eram iguais ou mesmo superiores ao das outras armas e mesmo na FAP, quem fosse incorporado noutros serviços como Miliciano ou na Academia da Força Aérea atingiria rápidamente o grau de Oficial...
Quanto à questão semântica do fardamento, quanto a mim Criou-se um mito...
Eu preferia andar à Civil, até porque nunca necessitei de me colocar em bicos de pés, nem para arranjar namoradas nem por qualquer outro motivo.
A maior mágoa foi na perda de income no Pré, e no tratamento que recebemos por sermos apenas 1° Cabos...
Abraço.

Hélder Valério disse...

Caro Mário Santos

Devo dizer que gostei da forma simples e singela como relataste a tua viagem inaugural para a Guiné, as observações reveladas do que foste vendo e apreciando (e, já agora, "antevendo") bem assim como dos sentimentos que entretanto te assaltavam.
Gostei daquela parte em que escreves "Depois, já no dia seguinte na BA12, quando abriram a porta do avião, aquela sensação de ar rarefeito, desagradável quente e húmido, bafiento, pegajoso... e o pensamento de que tínhamos chegado a um local amaldiçoado... e tudo isto, aos 18 anos, ainda com a personalidade e experiências de vida apenas na fase de formação." A descrição das sensações à chegada, principalmente para quem "entrou" por via aérea. Como inicialmente entrei por via marítima deu algum tempo para começar a sentir essas coisas, a humidade, o bafo quente, etc., mas das vezes que houve regresso de férias e aí sim, via aérea, também se sentia o mesmo, até por contraste com o ambiente interno do avião dos TAP, mas para isso já não havia estranheza. E isso dos 18 anos "em formação" está bem caracterizado.

Neste teu comentário anterior referes uma coisa de que também tive conhecimento, o do pessoal chegar a Sargento. Pois realmente sei que havia por lá quando cheguei, em finais de 1970, um familiar, afastado, mas familiar na mesma, que era Sargento (não me lembro ao certo mas tenho ideia de a comissão dele ter sido de 69 a 71) mas relacionado com as DO. Ela chamava-se José Augusto Salgado Valério (ou Valério Salgado, talvez) e recordo de ele falar do que indicas.

Abraço
Hélder Sousa

Mário C. Santos disse...

Caro Hélder.

Agradeço o teu comentário.
Apesar de ter passado à disponibilidade em 1970 e integrar a vida Civil como quase todos nós, a minha carreira na Força Aérea e em particular a Comissão de Serviço na Guiné, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida.
Talvez por isso, ainda hoje aos 73 anos de idade continue, a recordar episódios que para muitos o tempo se encarregou de colocar no buraco escuro do baú de recordações.
Foi para todos nós, independentemente da arma, patente ou serviço prestado, um dever cumprido com honra, glória, sangue, suor e lágrimas.
Lamentávelmente a Pátria, representada pelos regimes que nos têm governado desde então, nunca reconheceu o esforço de todos nós combatentes, em particular os que perderam a vida e os muitos que retornará fisicamente diminuídos e psicológicamente com mazelas para o resto da vida..
Grande abraço.

Valdemar Silva disse...

Caro Mário Santos
Em 1971, quando depois do almoço costumava ir beber uma ginjinha, junto ao Rossio-Lisboa, encontrei uns marinheiros alemães da NATO também a atirarem-se a umas com elas, e ainda fresco do regresso da guerra na Guiné, deu para eu meter conversa com eles.
Conversa puxou conversa, guerra, instalações militares, salários recebidos, condições/benefícios aos ex-combatentes, etc, foi conversa que nunca mais acabava. Os marinheiros, um falava francês, ficaram sem perceber e não acreditavam nas cenas da guerra na Guiné, que os soldados ganhavam 600$, que eram os próprios soldados que faziam os abrigos, que a comissão chegava aos 24 meses e quando regressavam ou já trabalhavam antes, ou faziam-se à vida, ou emigravam e quando lhes disse que por cá um Cabo ganhava 90$ pensavam ser 90 contos!!!. Nada mais lhes era reconhecido a não ser alguma medalha de condecoração pela deficiência devido a ferimento em combate e de uns monumentos erigidos em honra dos mortos, em várias localidades.
E como dizes 'Lamentavelmente a Pátria, ....regimes que nos têm governado desde então(?), nunca reconheceu o esforço de todos nós combatentes..', assim era.
Só com a instauração do regime democrático saído da Revolução do 25 de Abril saiu legislação para os ex-combatentes: a contagem do tempo para efeitos de reforma, o subsídio anual (que deveria ser anexado à reforma) e ultimamente o Estatuto do Combatente. E o Monumento Nacional dos Mortos em Combate, em Belém-Lisboa, que inclui os militares naturais das ex-colónias.

Abraço
Valdemar Queiroz

Valdemar Silva disse...

Esqueci-me de referir.
Os marinheiros alemães, tal como já tinha escrito um visitante estrangeiro, no tempo de D. João V, nas ruas de Lisboa só se viam padres, também diziam que em Lisboa por todo o lado havia militares vestidos com uma horrível farda de saída.

Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Caro Mário Santos,
Quando li esta descrição da tua saída de Figo Maduro, parece que estava a ler a minha primeira experiência de avião e de mudar de continente.
Os anteriores comentadores já deram a sua opinião que eu subscrevo, não vale a pena dizer mais nada, realmente havia malta, que mesmo em plena guerra, não escondiam a mania dos seus galões.
Eu fui também de Figo Maduro em 20set67 e cheguei a Bissau em 21set67, num num Douglas DC6.
Eram 4 motores a hélice, nunca tinha visto um monstro desses, fui no dia 19 set data prevista, mas quando o comando do meu batalhão já estava a bordo, 7 pessoas, os motores não pegaram.
Voltamos a sair, fui dar uma volta sozinho por Lisboa e fui dormir não sei onde. No dia 20 os motores arrancaram, paramos para reabastecimento em Las Palmas e novamente no Sal, onde chegamos já noite, o avião era muito ronceiro, mas para mim era a primeira vez, não liguei.
Tivemos um belo jantar de Lagosta, depois de passear pela ilha, lá fomos dormir, não me lembro dos percevejos, mas sim das primeiras baratas, o meu trauma durante os próximos 2 anos.
OI banho e lavar os dentes com +água salgada, foi a primeira sensação, as instalações eram mais do que péssimas, poucas ideias tenho, só pensava que estava já em plena África.
Aquela descrição da chegada parece que são tiradas das minhas memórias, nunca me esquece aquele 'visgo' colado ao corpo, entre as demais sensações.
Vou voltar mais tarde para continuar,

... / ....

Continua

Virgilio Teixeira





Anónimo disse...

Então quando se voluntariaram para a FA, com 17 ou 18 anos, não sabiam as regras? Não colhiam as benesses desse facto ao ficarem instalados nas bases a comer bem. Ou iam para a FA para não terem que ir para o mato. Sabem o que isso é?
É de todo incompreensível este tema. É uma não questão.

Mesmo os oficias da Academia que faziam carreira na FA, aqueles que não iam para PILAV, já sabiam que nunca chegariam a Oficiais Generais. No entanto, tinham as mesmas habilitações académicas, estudaram na mesma Escola que os PILAV. Ou não?.
Muitos houve, com habilitações ao nível do então Instituto Industrial, que foram para as OGMA e nem sequer chegaram a ser militares.

Em alguma ocasião esteve o Camarada que escreve na mata?, andou a ração de combate? Até tinham autocarros de e para a base várias vezes ao dia. Exército não teria pessoal.

Saúde

Mário Santos disse...

Boa tarde.

Vou responder ao camarada anónimo por cortesia, clarificando que as regras foram servir a Pátria da melhor maneira que podíamos e sabíamos... O cumprimento do dever, independentemente da arma, era ponto de honra e de orgulho.
No caso em questão, "os Especialistas da Força Aérea" de que orgulhosamente fui parte integrante, tive intenção apenas de salientar que não obstante quase todos terem já habilitações académicas ao nível de Oficiais e Sargentos Milicianos, quer da própria FAP, Marinha ou Exército o regime de então, se aproveitou de nós como mão de obra mais barata.
Muitos dos meus camaradas de outras Esquadras, estiveram destacados no mato, onde tinham exactamente o mesmo tratamento que o  pessoal terrestre.
No meu caso pessoal, fui apontado à Esquadra de Intervenção dos Fiats G-91, que naquele tempo podiam apenas utilizar a pista de Bissalanca, por não haver outra adequada para aquele tipo de aeronaves. Cumpri assim a minha tarefa, executando alertas permanentes na linha da frente, para que quando houvesse flagelação no terreno, as nossas tropas fossem prontamente socorridas.
Quanto ao facto que refere, de este relato " ser uma não questão" saliento apenas, que sem Técnicos e sem o indispensável pessoal de apoio, nenhum avião poderia voar, proteger as tropas no terreno, fazer entrega de provisões, correio ou evacuar feridos.
Todos fomos necessários e todos fomos poucos.
A minha narrativa, é apenas a constatação de factos.
Porque foi de facto assim que tudo se passou.

Mário Santos disse...

Para finalizar o meu comentário anterior, gostaria apenas de mencionar, ser para mim claro, que o texto anónimo a que respondo, foi óbviamente escrito por alguém da Força Aérea..
que certamente e tal como eu, foi um privilegiado e também nunca terá sabido o que eram rações de combate.
Para complemento acrescentarei sómente que a messe de 1° Cabos Especialistas da Base Aérea 12,não era própriamente um restaurante recomendável. Lamento que o comentarista se tenha escondido por detrás do anonimato... Afinal, não era necessário.
O que reportei, era o sentir colectivo da grande maioria do pessoal de apoio.
E este um facto a que não se pode fugir.

Mário Santos disse...

Para além disso, fazer analogia entre Oficiais Pilotos Aviadores, que atingiam o Generalato e 1° Cabos , que como foi referido atrás, e ao contrário dos outros camaradas da FAP e de outras armas, não eram promovidos quando nomeados para comissões de serviço no Ultramar, só pode constituir piada de mau gosto...
Está sim é incompreensível e uma não questão...
Eu fui dos tais, que frequentava já o Instituto Superior de Engenharia, e fui brindado com a promoção a 1° Cabo Especialista M. M. A...
Em qualquer caso, não deixo de reiterar, a miserável relação entre alguns dos Pilotos Aviadores oriundos da Academia da Força Aérea e o pessoal de apoio, de quem eles se encontravam totalmente dependentes para a sua segurança e bom desempenho das missões.
Portanto caro senhor, ainda felizmente por cá nos encontramos alguns que corroboram e confirmam tudo o que aqui foi escrito.
É verdade que foram apenas alguns, a grande maioria, era gente de grande carácter e com os quais mantive relações de amizade para a vida...
Saúde e longa vida a todos...

Valdemar Silva disse...

Mário Santos
Queres dizer que com 17/18 anos já a frequentar o Instituto Superior de Engenharia resolveste ser voluntário como 1º. Cabo e não esperar mais dois/três anos e ser incorporado no serviço militar obrigatório como Oficial miliciano, provavelmente devido ao teu fervor patriótico.
E quanto a patriotismo, de certeza conheces a "Odisseia", de Homero, em que o coitado do Ulisses andou dez anos para chegar à Pátria, depois dos dez anos de duração da guerra de Troia.
Ainda me lembro do memorial junto à porta d'armas, no Quartel de Baixo, em Nova Lamego, com a evocação "Em honra do Alf....... que morreu pela Pátria", afinal este Alferes morreu bem longe da Pátria, a terra onde nasceram os seus avós. Ele morreu na guerra da Guiné, outra terra que não era a dos seus avós e que cem anos antes bem poderia ter sido vendida, trocada ou simplesmente cedida a outro país europeu (Conferência de Berlim sobre o destino das colónias africanas).
E sobre a possibilidade de ter havido "outros" gritos do Ipiranga teria de haver uns "D. Pedros" e parece que faltava o para Angola, mas disso falaremos quando for oportuno.

Abraço
Valdemar Queiroz

Mário Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Caro Mário Santos,

Vou continuar o que me faltava comentar, mas agora fui confrontado com estes episódios desagradáveis, e vou passar por cima, pois não tenho de me meter nisso.
Eu visitei umas duas vezes as instalações da BA12 em Bissau, um amigo meu de infância era Alferes Miliciano Piloto de DO e não sei se de Heli e T6. Chama-se Emanuel Lima Leite. Acho que as instalações e condições nada tinham a ver com as restantes que conheci noutros aquartelamentos do interior, nomeadamente dos Batalhões e Companhias a que também pertenci, da tropa chamada sem ofensa 'básica' de infantaria, artilharia e cavalaria, até nos Fuzos/Marinha que também lá jantei uma vez era tudo um luxo 'comparativamente'.
A minha ideia era referir-me ao 'embate' de quem sai do avião e abrindo-se as portas, leva com a baforada que parece de um forno.
Era mais forte nas duas chegadas de férias nos aviões da TAP, pois lá dentro era um gelo e na chegada a diferença fazia-se sentir mais. No avião militar não havia ar condicionado e as portas deixavam entrara barulho do exterior, e quando fizemos a última escala de menos de uma hora, saindo de um local normal a ilha do Sal, e entrar num verdadeiro inferno de calor.

Quando voltei lá em 1984 e 1985, acho que ainda foi pior, talvez pela idade, ou porque os aviões estavam mais gelados, lembro-me que até mantas levávamos nas pernas, o impacto brutal era maior.

Teria muito mais para acrescentar, mas esperemos novos desenvolvimentos,

Um abraço e muita saúde para todos, que colaboramos nesta guerra, fosse em que funções, e todos deixamos lá o nosso melhor, os nossos melhores anos de vida, que ainda hoje continuamos a lembrar e sofrer na pele aquela vida miserável numa situação de guerra, a que a Pátria nos brindou.
Saudações,

Virgilio Teixeira



Mário Santos disse...

Caro Virgílio, registo e agradeço o teu comentário.
No final é disso mesmo que tratamos. Deixar narrativas para memória futura.
Vivemos numa sociedade pluralista em que cada um de nós tem o direito de se pronunciar como lhe aprouver, desde que saibamos respeitar o pensamento e a liberdade de cada um, até daqueles de quem discordamos profundamente.
Disse e direi sempre o que penso e sinto, que não é óbviamente
aceite por todos como é natural.
Tenho observado as muitas fotos e registos teus, em especial aquelas em que aparece mencionada a Força Aérea e alguns dos seus aviões incluíndo algum do pessoal com quem me cruzei.
Através da tua informação, noto que cumprimos ambos a comissão no mesmo período.
Eu cheguei a Bissalanca a 28 de Setembro de 1967 e regressei à Base Aérea 5 em Monte Real no mês de Julho de 1969.
Recordo o nome do teu amigo Lima Leite, como Piloto das DO's, mas sinceramente já não recordo se voou em qualquer outra aeronave.
Nos Fiats, de certeza não voou, pois o número de Aviadores era restrito... Apenas 6, e eu conhecia pessoalmente todos.
Daí os comentários que antecederam o teu...
Nada com que eu e os meus camaradas não nos tivéssemos habituado a lidar..
Eu, para além do mau feitio, fui sempre politicamente incorrecto e há por aí muitos que não o toleram.
Grande abraço e boa saúde.

Anónimo disse...

Caro Mário Santos,

Tarde e mal eu compreendi que não temos todos a mesma opinião, mas também nunca fui uma pessoa politicamente correcta, por isso tenho levado porrada de meia noite.
Estamos sempre a aprender, até ao Juízo Final.

Vamos continuar, sempre que seja oportuno, comentar o que nos vai na alma, porque não há duas almas iguais.

Estamos já adultos demais para 'quezílias' que só fica mal para potenciais leitores que não sabem nada do que foi a nossa guerra, nem sequer sabem onde fica a Guiné.

O Emanuel (Lima Leite) meu amigo de menino, esteve algumas vezes comigo nas suas deslocações a Nova Lamego, ou S. Domingos, mas sempre nas DO, não sei se pilotou outras aeronaves, mas Fiat's sei que não.

Ele depois de chegar acabou o curso de Economia como eu, no Porto. Depois seguiu uma carreira na aviação, mais tarde mostrou uma nova faceta que desconhecia, esteve na Presidência do JN no Porto, que sucedeu a um nosso ex-colega da Faculdade, que nada tem a ver com a Guiné, o Nobre, que transitou da C. Seguros O Trabalho para o Jornal de Noticias. Vidas que se cruzam e a gente não dá por elas.

Realmente e como pensava sou mais velho no CTIG, 7 dias apenas, cheguei a 21set67, e saí no Uige em 4agosto69, mas em vez de 18 anos já carregava 24 anos à chegada e 26 na saída. Agora vou nos 78 Anos. Até ver...

Para finalizar:

Estive agora a falar com o D. Pedro Marina em Vilamoura, para eventuais pequenas férias, em Julho, pois afinal agora estou sempre em férias, é só mudar de ares, talvez ainda nos encontremos no Algarve, quem sabe!

Um abraço e bem hajam os verdadeiros amigos da Guiné.

Virgilio Teixeira



Mário Santos disse...

Sempre à disposição caro camarada.

De facto, o pluralismo protege mais os que por detrás do anonimato, lançam atoardas mentirosas e que depois protegidos pelo sistema do blogue nem sequer podemos contradizer e retficar.
Mas enfim, daí não virá grandes males ao mundo.
Cada um que proceda como lhe aprouver a consciência, se é que a tem....
Como deves saber a situação pandémica aqui no Algarve não é boa... as aulas acabaram de ser suspensas e existem muitas restrições (com tendência a piorarem) mas cada um saberá de si...
A praia pode sempre ser frequentada, mas com os restaurantes a encerrarem Sexta-Feira às 15,30...deixa turistas e veraneantes a comerem sol...
Desejo-te tudo de bom... e muita saúde...
Grande abraço