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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 63/74 - P28411: In Memoriam (592): Joaquim Ganhão, natural de Moura (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965)



Joaquim José Moita Ganhão, natural de Moura  (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965). Faleceu na sua terra natal, em 23/1/2026, aos 83 anos. 


Crachá do CAV 489 / BCAV 490 (restaurado digitalmente com recurso á  IA | Gemini Google AI)



1. Ao procurar o seu nome na Net, tive a triste supresa de ficar  a saber que já havia falecido, ainda recentemente, em 23 de  janeiro passado, aos 83 anos, em Moura, sua terra natal (*). (Fonte: Página do Facebook QuemMorreuMoura, 23/1/2026, 16:53)

Não o conhecia pessoalmente, nem ele pertencia à Tabanca Grande. No entanto, foi um dos primeiros camaradas da Guiné ser aqui evocado, ainda  na I Série do nosso blogue (**), em poste de 17 de novembro de 2005.  

No ano anterior tinha sido entrevistado pelo "Diário do Alentejo". Infelizmente a publicação, de 23 de abril de 2004, já não está disponível "on line", desde ha muito. Nem eu consegui recuperá-la através do Arquivo.pt (nem do Internet  Archive). O link já foi descontinuado:

Voltamos a publicar a sua pequena / grande história de vida. É também a nossa forma de afirmar que o Joaquim Gamhão não  vai ficar inumado na "vala comum do esquecimento". Pelo menos, deixa aqui, aos seus camaradas, o essencial das suas memórias de guerra. 

 Para a família, vai também  a nossa solidariedade na dor por esta perda.
 


por Alberto Franco

"Diário do Alentejo", de 23 de Abril de 2004 
( Com a devida vénia...)



O alentejano Joaquim Ganhão foi um dos milhares de portugueses que lutaram em África, nos anos da Guerra Colonial. Nas dificuldades e sustos que viveu em terras da Guiné – participou na célebre Operação Tridente, em 1964 – certamente muitos outros ex-militares se reconhecem. Quando passam 30 anos sobre o 25 de Abril, é oportuno recordar a longa guerra, unanimemente considerada uma das principais causas da revolução.

Quando o Niassa zarpou de Lisboa, em 17 de Julho de 1963, não se pode dizer que os rapazes do Batalhão de Cavalaria 490 estivessem inquietos. Afinal, iam para Moçambique, onde a guerra que lavrava noutras colónias portuguesas não tinha ainda chegado. Mas a meio da viagem o programa sofreu alterações. O agravamento da situação militar na Guiné obriga ao reforço do contingente naquele território. O Niassa recebe ordem de rumar a Bissau, e aí desembarcar as tropas que transportava.

 – Foi um balde de água fria para todos nós – recorda Joaquim Moita Ganhão, 61 anos, nado e criado em Moura, um dos muitos alentejanos que integravam o Batalhão Quatro Noventa.

A guerra na Guiné começara há escassos meses, mas o território gozava já de má reputação entre os militares portugueses. À ameaça que a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) representava, combinava-se com uma geografia inóspita e um clima duríssimo, quente e húmido, favorável ao paludismo e a outras doenças tropicais. 

Quem esperava passar dois anos em Moçambique, no sossego de Vila Pery, e se vê inesperadamente atirado para a Guiné, não podia ter outra reacção que não fosse o alarme. Mesmo que se tivesse 20 anos, muito sangue na guelra e se pertencesse a um batalhão cujo lema era Sempre em Frente.

Em casa de Joaquim Ganhão eram nove irmãos, que o curto salário do pai, caiador de profissão, não chegava para sustentar:

– Eu ficava em casa a cuidar dos meus irmãos mais novos, enquanto a minha mãe trabalhava a dias. Essa a razão porque só entrei para a escola com nove anos.

Aos 12, Joaquim perde o pai. Com o amparo reduzido, vê-se forçado a trabalhar antes do tempo. Aprende o ofício de pedreiro, que exerce até aos 20 anos, idade em que é mobilizado para a tropa.

O soldado 328 estaciona três meses em Beja e dali segue para Estremoz, onde o BCAV 490 está a ser formado. No Quatro Noventa, os alentejanos estavam em maioria:

 – Havia gente de Elvas, Estremoz, Messejana, Aljustrel, Salvada. Só os cozinheiros eram do Norte… – assinala Joaquim Ganhão.  – A instrução em Estremoz foi dura. Preparam-nos para combater, segundo os modelos da época.

Vendo os conflitos que deflagravam nos territórios coloniais de outros países europeus, o exército português tinha-se preparado para enfrentar o fenómeno a que uns chamavam guerra subversiva e outros guerra de libertação. Oficiais portugueses estagiaram junto do exército francês na Argélia e especialistas estrangeiros ministraram em Portugal acções de formação. Mas uma coisa era a guerra teórica, outra a guerrilha nos pântanos da Guiné, as bolanhas, nas matas de Angola e Moçambique. Pela sua parte, Joaquim Ganhão fez pela vida e frequentou em Estremoz o curso de cabos:

– Fui o segundo melhor classificado. Quando embarquei para África, em Julho de 1963, já era 1º cabo da minha Companhia, a CCAV 489.


Baptismo de fogo no Oio-Morés

Até àquela data, o pedreiro de Moura não tinha posto os pés num navio, e em matéria de cursos de água só conhecia os mansos rios Ardila e Guadiana. Mesmo assim não se deu mal na jornada a bordo do Niassa:

– Tive a sorte de não enjoar, ao contrário de muitos companheiros.

 Os seis dias de viagem passou-os a dormitar nas baleeiras do Niassa, a espantar as saudades com cartas para a família e em camaradagem com o seu amigo de infância Henrique Pinto, outro militar mourense em trânsito para a Guiné.

Chegados a Bissau em plena estação das chuvas, são alojados no quartel da Amura, um antigo entreposto de escravos. O clima doentio surpreende-os desde logo:

–  Era diferente de tudo o que conhecíamos. Com a humidade, a roupa colava-se-nos ao corpo. Só estávamos bem debaixo do chuveiro. De vez em quando, caíam trovoadas que metiam medo.

Outro motivo de espanto é a pobreza do território. Com poucos ou nenhuns recursos naturais, sem núcleos urbanos desenvolvidos, a Guiné era a peça menos valiosa do império português e, como tal, a mais desprezada por Lisboa. Ganhão sublinha “a miséria das populações, as filas de mulheres e crianças com latas, à espera que lhes dessem alguma comida”.

A guerra aberta na Guiné principiou em 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, embora desde 1961 se registassem actos de sabotagem levados a cabo pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Bem armada, apoiada por países fronteiriços como a Guiné-Conacri e o Senegal, a guerrilha alastra pelo território guineense como um regueiro de pólvora. A companhia do 1º cabo Joaquim Ganhão recebe o baptismo de fogo no Norte da colónia:

–  Fomos render uma companhia que se encontrava em Mansabá. Aí sofremos uma emboscada nocturna, na zona do Oio-Morés, que por ser muito pantanosa e de acesso difícil era um bom refúgio para os guerrilheiros.

Joaquim Ganhão lembra-se que a noite estava escura e a mata era cerrada:

– Ia à frente da minha companhia, quando senti o encosto de uma arma. O guia deu o alarme, eu comecei a disparar no escuro e a correr pelo capim, como um doido. Quando as coisas acalmaram e a companhia se reorganizou, deparo com um guerrilheiro a apontar-me uma pistola-metralhadora. Tentou atirar, mas, felizmente para mim, a arma estava encravada.

O soldado 328 captura o homem, apreende-lhe a metralhadora e três carregadores de munições:

–  O guerrilheiro chamava-se Albino Sampa. Mais tarde cheguei a ir visitá-lo à cadeia, em Bissau.

O melhor desta aventura acabou por ser o prémio de um mês de licença na Metrópole  [Prémio Governador da Guiné].

– Quando me deram a notícia, ia ficando maluco de alegria. O pior foi que a minha família, quando soube que eu estava em Lisboa, pensou que estava todo partido... Só descansaram quando a minha irmã me foi buscar a Estremoz e viram que estava bem de saúde.



Tridente da morte


Mas a emboscada no Oio-Morés foi uma brincadeira, comparada com o que veio a seguir. O Batalhão de Cavalaria 490, e com ele Joaquim Ganhão, foi um dos participantes na operação Tridente, uma das mais aparatosas ofensivas portuguesas na Guerra Colonial. 

Denominada Tridente porque envolvia a marinha, o exército e a força aérea, a operação visava ocupar as ilhas do Como, Caiar e Catunco, no Sul da Guiné, onde os combatentes do PAIGC dispunham de importantes bases. Ali se movimentava o astuto comandante 'Nino' Vieira, formado nas técnicas da guerrilha pela Academia Militar de Pequim, que teria no Como cerca de 300 homens, incluindo militares da Guiné-Conacri.

Um dos objectivos da missão consistia em conquistar o apoio da população das ilhas, que os guerrilheiros controlavam:

– Em todas as tabancas (aldeias tradicionais) do Como, se viam retratos de Amílcar Cabral  – observa Joaquim Ganhão.

A operação Tridente iniciou-se em 15 de Janeiro de 1964. O 1º cabo Ganhão só soube o que o esperava quando se viu a bordo de uma lancha LDM, dos fuzileiros. Através das bolanhas, ladeadas por uma vegetação densa e asfixiante, o tarrafo, a CCAV 489, comandada pelo capitão Pato Anselmo, avançou até à ilha de Catunco. Ganhão permaneceu ali mais de dois meses, “entrincheirado num buraco, juntamente com dois companheiros, agarrados às G3, com as balas do inimigo a passarem-nos rente”. Quem disparava?

– Nenhum de nós sabia. Os tiros vinham da mata, onde os guerrilheiros estavam bem escondidos . 

Por isso, sair do buraco só em último caso:

– Tínhamos o exemplo de um companheiro que se levantou para beber uma pinga de água e foi atingido por um tiro no queixo.

Quando se iniciou a segunda fase da operação, foi necessário deixar os abrigos e patrulhar as ilhas:

– Saíamos aos ziguezagues, em grupos de três. Depois deitávamo-nos ao chão e saíam outros três. E isto sempre aos tiros. 

Foi numa destas acções que Joaquim Ganhão perdeu o seu amigo Henrique Pinto, o primeiro militar de Moura a tombar na guerra [em 24 de Janeiro de 1964].


– O Henrique, que pertencia à CCAV 487, seguia numa patrulha, formada em leque. Ele, que estava numa das pontas, avançou demais e foi capturado, às três da tarde do dia 24 de Janeiro. [de 1964].

Ganhão e outros tinham ido buscar mantimentos à base logística da operação, instalada numa praia. Aí viu chegar um helicóptero com o cadáver de Henrique, resgatado pelos fuzileiros. O choque foi terrível. Quarenta anos passados, ainda hoje a voz de Ganhão se embarga quando fala do caso:

– Podia ter sido eu. Tive sorte, não calhou.

Os aviões F-86 e T-6 flagelavam as matas do Como com napalm, as granadas explodiam a toda a hora, mas os resultados práticos da operação tardavam em ver-se. A única evidência era o sofrimento dos militares portugueses:

–Bebia-se qualquer água e a alimentação resumia-se a rações de combate – conta o 1º cabo Ganhão –.  Comemos carne fresca uma única vez, quando os fuzileiros abateram algumas vacas. 

Não admira que durante a operação Tridente 193 militares tenham sido retirados do teatro de guerra, por motivo de doença.

Setenta e um dias depois, a missão é considerada finda. As estatísticas apontavam 76 guerrilheiros mortos, 15 feridos e 9  detidos. Do lado português contaram-se 9 mortes e ferimentos em 47 soldados. Foram disparadas 124 mil balas, 1200 granadas de artilharia e 550 granadas de morteiro. 

Os militares aliviaram a tensão consumindo 15 500 garrafas de cerveja e fumando 10 100 maços de tabaco. Números que não maquilham o insucesso da operação. A última palavra pertenceu à guerrilha, que continuou a servir-se do Como, só abandonando a região quando os seus interesses se transferiram para outros locais.




Moura > Placa toponímica > Rua Henrique José Pinto > 10 de Abril de 2010 > Natural da freguesia de Santo Agostinho, o 1º Cabo At Henrique José Pinto, da CCav 487 / BCav 490, morreu em combate, na ilha do Como, em  24 de Janeiro de 1964, no decurso da Op Tridente. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Bissau.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


Cruz de Guerra no 10 de Junho [de 1966]


Depois de intervir na Tridente, a CCAV 489 é destacada para o Norte:

 – Fomos para junto da fronteira com o Senegal, com o objectivo de dificultar as entradas e saídas dos guerrilheiros e das forças que os apoiavam.

Joaquim Ganhão andou por Cuntima, Farim, Bula, Bafatá, Mansoa. Porém, antes de pensar em fiscalizar o que quer que fosse, era preciso construir as bases necessárias ao estacionamento de tropas. Na Guiné, como na generalidade das vastas colónias portuguesas, faltavam aquartelamentos, vias de comunicação e demais infra-estruturas.

Por outro lado, no caso específico do Norte da Guiné, tornava-se necessário atrair e organizar a população que tinha cruzado a fronteira do Senegal, fugindo à guerra. Os soldados da 489 ajudavam à reconstrução de tabancas, construíam abrigos, “à mão, sem a ajuda de quaisquer máquinas”, de valas em redor dos quartéis e outras infra-estruturas defensivas, muitas vezes debaixo de fogo. Quando empunhavam a G3, vigiavam a fronteira e montavam as suas emboscadas. A tropa “saía por volta da meia-noite. Então víamo-los passar, a pé, outras vezes de bicicleta”. Nessas alturas, “a fuzilaria era tanta que nem os raios das bicicletas se aproveitavam.”

As normas da altura determinavam que o tempo de serviço militar era de 24 meses. Todavia, muitos militares excediam, contra vontade, este período. Às vezes morriam em África, quando, segundo a lei, já deviam estar em Portugal. Joaquim Ganhão lembra um episódio ocorrido em Bula, com uma companhia de caçadores que já tinha atingido os 27 meses de comissão:

–  Por sermos mais novos, a nossa companhia seguia atrás deles, numa deslocação pelo mato. De repente, caem numa emboscada. Recordo-me que os guerrilheiros tinham cortiços de abelhas em cima de árvores; cortavam as cordas e os cortiços caíam em cima dos soldados. Com este truque e com o tiroteio, morreram dois ou três caçadores. Que já não deviam estar na Guiné, porque já tinham cumprido o seu tempo.

Ganhão teve mais sorte. Regressou a Moura em Setembro de 1965, são e salvo. Um ano depois, já casado, recebeu em Évora, nas cerimónias do 10 de Junho de 1966, a Cruz de Guerra de terceira classe, pelo seu desempenho na Guiné. Quarenta anos depois, Joaquim Ganhão, mestre de construção civil, pai de duas filhas, olha para trás com serenidade:

- É bom que se diga que fui para a Guiné obrigado. Tínhamos que livrar o corpo, para não morrer. Foi o que eu fiz. Estimo muito a Cruz de Guerra, mas lamento que além da medalha ninguém me tenha compensado pelos dois anos de vida que perdi.


Manhas de soldado

Nem sempre o soldado 328 estava disposto a dar o corpo ao manifesto. Um enfermeiro amigo livrou­-o de uma ou outra incursão, atestando que Joaquim Ganhão não se encontrava a cem por cento. “Eram manhas típicas da guerra”, recorda. O truque nem sempre resultava:

– Aconteceu quando tive que substituir um furriel, que tinha cegado com o rebentamento de uma granada. Uma noite em que me chamaram para uma operação, pedi ao Fernando, o enfermeiro, que me desse uma ou duas injecções. Ele assim fez. Passei a estar doente, incapacitado para qualquer missão. Mas o alferes que devia chefiar a missão não engoliu o truque. Chega ao pé de mim e diz-me: ‘Tu está tão doente como eu! Levanta-te da cama, que o pessoal está todo à tua espera’. E lá fui, mesmo com duas injecções.


A Guerra Colonial e o 25 de Abril

O desgaste que a guerra provocou nas forças armadas portuguesas e a ausência de soluções pacíficas para a questão colonial, contam-se entre as principais motivações do 25 de Abril. Treze anos de confrontos exigiram o destacamento de 70 mil homens para Angola, 42 mil para a Guiné e 57 mil para Moçambique.

Segundo a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de de África (1961-1974), registou-se um total de 8 290 mortos, nas três frentes de batalha. A este número há a juntar 112 000 feridos, dos quais 30 mil terão sofrido deficiências para toda a vida, e perto de 100 mil vítimas do stresse de guerra.

Este factor conjugou-se com uma série de transformações na instituição militar, ditadas pelo esforço de guerra. A falta de capitães para o comando de companhias levou o Governo a recorrer a oficiais milicianos, para postos normalmente ocupados por militares de carreira. Facilitou-lhes o ingresso na Academia Militar, reduziu a duração dos cursos e criou um “quadro especial de oficiais”. Por um lado, esta situação refrescou as fileiras das forças armadas, mas gerou tensões e conflitos entre milicianos e oficiais oriundos de cadetes da Academia Militar.

A gota de água acabou por ser o famoso Decreto 353/73, de 13 de Julho, que introduziu diversas alterações ao nível da antiguidade na carreira das armas. Os protestos levam o Governo a recuar, publicando um outro diploma que protege os interesses dos oficiais superiores e põe em causa os dos capitães. O avolumar da contestação, a que se junta, naturalmente, a oposição ideológica entre militares e governantes, e as aspirações de liberdade dos primeiros, está na génese do Movimento dos Capitães, que desencadeou o 25 de Abril.

(Seçeção, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)

(Os subtítulos são da responsabilidade do jornalista)

2. Cruz de Guerra de 3º Classe

1.° Cabo de Cavalaria, nº 328/63
JOAQUIM JOSÉ MOITA GANHÃO
CCav 489/BCav 490 - RC 3

GUINÉ

3ª  CLASSE

Transcriçâo da Portaria publicada na O.E. Nº 16 - 3ª série,de 1964.
Por Portaria de 05 de Maio de 1964:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3ª classe, o militar a seguir designado, ao abrigo dos artigos 9´º  e 10º  do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província
da Guiné Portuguesa:

O Primeiro-Cabo, Joaquim José Moita Ganhão, nº 328/63, da Companhia de Cavalaria nº 489 / Batalhão de Cavalaria nº 490 - Regimento de Cavalaria nº 3.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Publicado na OS n.o 3, de 07 de Janeiro de 1964, do CTIO):

Louvado, o 1º Cabo nº 328/63, Joaquim Moita Ganhão, da CCav 489, porque,  além das boas qualidades militares do antecedente reveladas no serviço e que fazem com que se distinga como graduado dentro do seu Pelotão, na operação levada a cabo pela Companhia na região de Morés, teve ocasião de demonstrar grande espírito de disciplina e serenidade perante o perigo que, junto da povoação de Cai, culminou na prontidão e sangue frio como encarou de noite, indo à frente, um grupo de onze terroristas fortemente armados, dos quais pôs um fora de combate com a apreensão de uma
pistola-metralhadora e três carregadores cheios de munições que a este pertenciam.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1962-1965). Lisboa, 1991, pág. 332.
 
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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro


Capa do livro de Rosalina Coelho Vaqueiro - "Coragem, Altruísmo e Fé". Lisboa: Chiado: Books, 2025, 540 pp.


1. Comentário de Rosalina Coelho Vaqueiro ao poste P28102 (*)

Muito grata ao Dr. Mário Beja Santos que teve a gentileza de referir aqui os meus "escritos" sobre a história de vida da minha querida amiga Geninha, essa pessoa extraordinária que tive a sorte de conhecer (*). 

Tentei transcrever o mais fielmente possível as histórias que a minha amiga me foi contando ao longo dos tempos, na minha forma simples de escrever.  

Era minha intenção trabalhar mais o texto e pedir a alguém que tivesse acompanhado a minha amiga nos tempos da guerra para fazer uma leitura crítica 

No entanto tudo isso implicaria muito mais tempo - meses provavelmente - até ter o livro pronto e eu queria que ela tivesse o prazer de ter a sua história em papel e poder oferecê-la aos amigos. 

Felizmente ainda fui a tempo (**). Mesmo internada no Hospital das Forças Armadas foi muito gratificante entregar-lhe o livro em mãos. 

Acrescento aqui que concorri a um concurso de biografias organizado por uma editora brasileira para os escritores de língua portuguesa espalhados pelo mundo e a história da nossa Eugénia agradou ao júri que lhe deu o 1º lugar. 

Não é um grande prémio literário, mas ainda assim, é gratificante para uma humilde "escrevinhadora" como eu.

Mais uma vez, muito grata pelas gentis palavras sobre o meu trabalho de escrita e a história da nossa extraordinária amiga.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026 às 14:41:09 WEST
(Seleção, revisão/fixação de texto: LG)
 

2. Sinopse do livro:


(...) Aos dois anos e meio fiquei sem mãe. Fui ao funeral ao colo de vizinhos e aquele povo ia passando a minha pessoa de mão em mão. Eu pensava que não devia chorar porque elas podiam arrepender-se de me tomar para criar. Desde muito cedo tive a percepção de que nada naquela casa pertencia-me. Elas davam-me tudo, mas eu sabia que nada era meu.

A partir de 1945 houve seca em Cabo Verde e eu vi pessoas morrerem de fome. O padre perguntou-me se cometia pecados das tentações da carne e eu não sabia o que isso era.


Subestimávamos o sono e a comida. O sofrimento da pessoa a ser evacuada não nos deixava pensar na fome. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas. Naqueles dias difíceis tínhamos que aguentar firme, encerrar o medo de morrer e não pensar.

Guiné 1973. Estava toda a agente a morrer e os aviões a cair. Todos os dias perdíamos algum colega ou piloto. As baratas davam-me a certeza de estar viva. Ao vê-las no meu quarto eu me beliscava falando baixinho: "Agora já sei que estou viva".

No avião, a ser evacuado para Lisboa o soldado, paralítico e sem sexo não queria ver a namorada e chorou agarrado ao meu pescoço. As minhas lágrimas juntaram-se às dele. (...)

(Fonte: Wook)


3. Sobre a autora: Rosalina Coelho Vaqueiro:


(i) nasceu em 1954, em Sesimbra!

(ii) tradutora, professora de inglês, correspondente de Línguas Estrangeiras;

(iii) em 2014 alcança o 2º lugar entre 1.265 concorrentes no Concurso Internacional de contos juvenis - "Prémio Cultural O Feiticeiro das Letras" no Brasil, com o seu conto "Feiticeira Maga";

(iv) em 2015 representa Portugal, como júri, no Campeonato Internacional "Troféu Corujão das Letras", no Brasil;

(v) é convidada para Júri no Concurso "Até que a vida nos separe" da Editora Papel D'Arroz;

(vi) em 2016 participa no II Encontro de Escritores brasileiros e portugueses, em Lisboa;

(viii) em 2023 é convidada a participar com oito poemas num coletivo de poesia das Edições Vieira da Silva, destinado apenas a 13 autores selecionados;

(ix) participa, como coautora, em mais de 80 Coletâneas e Antologias, de prosa e de poesia, de diversas editoras, em Portugal e no Brasil.

(x) em 2025 lança no mercado "Coragem, Altruísmo e Fé", a biografia de Eugénia Espírito Santo (uma das primeiras enfermeiras paraquedistas de Portugal, nascida em Cabo Verde, em 1935 e falecida em Sseimbra, em 2025).

(xii) foi a vebncedora do Prêmio Literário Clarice Lispector 2026 -  Melhor Biografia, "Coragem, Altruísmo e Fé"

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG) (***)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de


(**) Vd. poste de 4 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26763: In Memoriam (546): Eugénia do Espírito Santo Sousa, cap enf pqdt (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): era do 2º curso (1962) e passou pelos 3 teatros de operações

(***) Último poste da série > 21 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28308: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio









Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 31 de agosto de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].





Andorinha: marca de azeites portruugueses, desde 1927, com forte implantação no mercado ultramarino (e em especialo Brasil), também conhecida em Timor. Desde 2004, é uma marca da Sovena
Fonte: loja Portugal Nosso (com a devida vénia... )


1. Continuação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã. Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL). 

Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. E, a propósito, vão fazer 81 anos, em 11 de setembro, que o Japão do miligtarismo imperial  se rendeu formalmente, em Timor-Leste, aos Aliados, depois de uma dolorosa ocupação do território desde a madrugada de 19 de fevereiro de 1942 (que terá custado muiti mais de 40 mil vidas, de timorenses, portugueses, australianos,  holandeses e outros)


 III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio


29.04.2019, segunda feira - O azeite que vem da andorinha...

Nada acontece por acaso. Nesta manhã de domingo em que alguns até já foram à missa, cada um está entretido como lhe convém. Uns trabalhando na construção civil, outros preparando o almoço, e outros, os “doutores”, com referência ao Gaspar Sobral e a mim, trabalhando nos computadores.

Esta manhã já por três vezes falhou a corrente elétrica. E, como se diz “não há dua sem três”, à terceira foi de vez. Não prevendo o seu restabelecimento, aproveitamospara, juntos, pormos a conversa em dia.

Foi então que eu disse: 

 −  Acabo de publicar uma notícia no facebook sobre a oliveira mais antiga de Portugal. Tem três mil e quinhentos anos e situa-se em Mouriscas, perto de Abrantes. 

O anúncio causou muita admiração e alguns comentários. Mais ainda quando souberam que esta oliveira ainda dá azeitonas, o precioso fruto do qual se extrai o saboroso azeite de que os portuguese tanto gostam.

O Aquino, um jovem entre os vinte e os trinta anos, que estava acompanhando a conversa, teve uma reação surpreendente quando ouviu dizer que das azeitonas se extrai o azeite, e disse: 

 − Ãh?!... O azeite vem das azeitonas? Mas aqui em Timor pensávamos que vem das andorinhas!...” 

E conta até que, quando era mais jovem andava pelo arvoredo à procura de andorinhas, pois eram elas que davam o azeite.

Isto tem a sua graça e alguma piada. Ainda hoje podemos encontrar aqui em Dili latas com azeite da marca “Andorinha”.

Uma história ingénua, inocente, mas que nos faz orgulhosos por em Portugal termos tantas oliveiras e tantas andorinhas. E viva o azeite nacional!...

30.04.2019,terça feira  - Uhau!... Que coragem!...

Há momentos que passou por aqui, acontece com frequência, a irmã do Tobias, uma senhora de quarenta e seis anos, com boa aparência, casou com um senhor indonésio e geraram doze filhos: dois faleceram e os outros dez estão a viver na Indonésia.

Perante a minha admiração de uma senhora daquela idade ter dado à luz doze filhos, a Aurora prontamente rematou e disse:

 −  A Romana, filha mais velha do Amari, irmão do Gaspar, tem uma madrinha que teve 18 filhos. Estão todos vivos e habitam em Vilaverde, aqui bem perto de nós.”

Claro que esta notícia tem sido objeto de muitas conversas. Se fosse em Portugal daria logo parangona para o "Correio da Manhã" ou outros jornais do género. Aqui em Timor é normal as famílias serem numerosas. Outrora não havia planeamento familiar, as pessoas casavam cedo e não havia os entretimentos de agora. Por isso compreende-se que perante tantas horas de lazer, o amor e a paixão desembocassem em relações amorosas muito produtivas. Hoje a situação está mais controlada.

E quando eu comento a baixa natalidade nos países de Europa, e particularmente em Portugal, depressa alguém me sugere para levar casais timorenses para repôr o número de habitantes que nos faz falta. Estes timorenses são mesmo “garanhões!...”

Pois é! Fazer filhos pouco custa. O mais difícil é criá-los e educá-los. Ou então, fazer como o Catorze, assim chamado pelo número de filhos que fez que, em terras de França (arredores de Paris) não precisava de trabalhar porque a segurança social superentendia todos os gastos, mais o abono dos filhos. Fazer filhos pode ser uma profissão para alguns. Com uma boa dose de amor, tudo é possível...

30.04.2019 - Galinhas que voam...

Galinhas e galos são os seres vivis que aqui mais abundam, exceptuando as pessoas.

De manhã à noite a sua presença é notória no cacarejar e no piar destas aves. Há rituais diários que elas observam: o despertar matinal, o cantar quando a galinha põe o ovo, as horas da refeição (normalmente ao final da tarde), o empoleirar quando a luz do dia se esvai.

E foi aqui que constatei a perícia destes galos e galinhas que, em vôo direto, arrancavam do chão até qualquer ramo de uma árvore vizinha ou até qualquer telhado de zinco, de mais ou menos de três a quatro metros de altura. Acontece que algumas acabam por não conseguiram superar esta prova diária. Pois é! Têm a sentença traçada: vão ser mortas e depenadas para serem depois cozinhadas. E aí vem uma canjinha de galinha para nosso proveito e regalo.

Os galos mais fortes são para venda, para a luta de galos, onde se fazem grandes apostas e se fazem algumas fortunas. O galo mais bonito cá da casa até já tem comprador. O Carlitos, um vizinho aqui ao lado, já ofereceu cinquenta dólares, preço que o Eustáquio, dono do bicho, considera bom negóciol

É assim. Os grandes e fortes safam-se; os mais pequenos e mais frágeis eliminam-se.

Onde é que eu já ouvi isto?...

01.05.2019, quarta feira  - “Vinte ou trinta dólares... e tudo se resolve.”

Temos que ouvir e ver para podermos acreditar.. O Amali, perante a eminência de amanhã termos de viajar em mikrolete, saiu-se comesta: 

 −  Se o Tiu quer, eu levo a carreta”. 

E perguntei-lhe: 

 −  Mas tu tens carta de condução?” 

 −  Não −  respondeu ele.

  −  Então como queres conduzir?

 −  Eu sei   −  retorquiu, confiante.

  −  E se a polícia te apanha?!

 −   Não faz mal! Uma nota de 20 dólares resolve o problema.

Cada vez mais atónito, ouvia os seus comentários. 

 −  Aqui em Timor funciona assim.Havendo dinheiro tudo é possível. Se quer carta de carro dá cem; se quer carta decarro grande (camião) dá duzentos; se... 

E continuou com os “se”, coisa que ´já não me é muito estranha. Aqui, como no México onde um polícia depois de me conceder o favor de passar onde estava proibido, me sussurou “não dá propina?”... e lá foram uns euros para o seu bolso..  Muita coisa funciona à base de moeda “ossan”. 

Que uma criança te peça uma moeda é compreensível. Mas instalar-se este sistema em serviços de favores que vão até não sabemos onde, é muito grave. Pagam-se os favores e nãoos serviços. E nunca sabemos até aonde poderá chegar esta espiral de negociação.

Possivelmente estamos a caminho da corrupção, este bicho de sete cabeças tão procurado em todo o mundo.

 −  Não Amali. É preferível irmos de mikrolete!...

01.05.2019 - Maio... maduro Maio!

O mês de Maio chegou como sempre, alegre e contente, cheios de flores, projetos, coisas boas, porque este é o tempo que mais nos agrada, que mais nos convém. É o ciclo do ano a atingir a maioridade, a tomar conta de si próprio.

Em todo o mundo se fala do dia do Trabalhador, do dia da mãe, de festas e romarias.

É o “Maio das Cantigas”. Por todo o lado há manifestações, como que a indicar a esperança de vida nova que gurgita das reinvindicações que os movimentos sociais, políticos e religiosas organizam.

Maio...maduro Maio. Tal e qual como nós, o ano tem o seu percurso, desde o seu nascimento até ao fim. E de certeza que tem algum orgulho neste mês onde tantas coisas acontecem. Como um filho bem amado, que num agregado familiar de doze irmãos se vão sucedendo ao logo dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos.

Que tenhas muitos anos de vida!...

01.05.2019 - Estadia ... e regresso

Hoje, dia 2 de Maio, termina o visto de de permanência turística em Timor. Isto tem sido uma baralhada de todo o tamanho. Nós a pensar que a declaração da embaixadora de Timor leste em Lisboa onde está escrito “o cidadão Rui Manuel Fernandes Chamusco viaja para Timor por tempo indeterminado, afim de apoiar edesenvolver os projetos de solidariedade iniciados em 2016, etc, etc...) era legalmentesuficiente para garantir a permanência, e afinal de pouco ou nada serve. De porta em porta, de serviço em serviço, de pessoa em pessoa... e ninguém assume aresponsabilidade de qualquer decisão favorável. O Gaspar bem se tem esforçado parafazer valer os direitos de tal declaração, mas por falta de entendimento ou de coragemninguém assume nada. 

Reconheço o incómodo desta situação, e até tenho pena de alguns funcionários que se desfazem em atenções perante este problema. Só que,como eles dizem, têm medo de tomar uma decisão que depois venha a ser contestada pelos superiores. O que eu vos digo, é que já me cansam estas andanças de um lado para o outro.

E, como não se via solução para este imbróglio, não houve outro remédio senão pedir o prolongamento de estadia por mais um mês. Ainda que contrariado, lá tive de pagar trinta e cinco euros. O Gaspar diz que é tempo suficiente para reinvindicar a nossa (minha) posição. Sinceramente, não acredito que se consiga o reconhecimento da declaração da embaixada de Lisboa.

Problemas de estadia e de regresso... Quem puder entender que entenda...

01.05.2019 - Microlete...o transporte do povo

A viagem de hoje a Dili foi em microlete, o transporte do povo. Motores (motorizadas), microletes, táxis, angunas, bis (pequenos autocarros), carretas, carros e aviões são os veículos que, num frenesim constante, circulam pelas estradas, ruas e caminhos deste país, e particularmente de Dili, a capital.

Pela primeira vez durante esta estadia, eu e o Amali viajamos em microlete até ao Serviço de Fronteiras, no Ministério do Interior. Nada de estranhar, pois durante as outras duas estadias bastantes vezes assim eu viajei. Simplesmente quero acentuar que esta carrinha, equivalente em Portugal a uma carrinha de nove lugares, mais parece uma lata de sardinhas, não havendo lotação de lugares. Há sempre lugar; aperta-se até caber. Resultado evidente são os encostos forçados, (alguns até são agradáveis), os suores escorrendo dos rostos, os saltos e ressaltos que as ruas cheias de buracos proporcionam. 

O Amali até comentava comigo: 

 −  O Ti Rui tem sorte!

 Só porque eu ia encostado a duas moças, uma de cada lado. Esta malta nova não sabe que eu já sou um katuas com 72 anos já bem feitos?!

No fim da viagem de ida e volta, senti-me com o dever cumprido, que é: viajar como a gente mais pobre viaja, partilhar o calor sufocante e o suor, cruzar sorrisos, viver como eles vivem. Isto é encarnar o seus modos de viver. É difícil mas é possível.

(Seleção, revisão/fixcaçáo de texto, negritos, título: LG)

______________

Nota do editor LG:

Último posted a série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!

sábado, 22 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


























Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O Angelino Santos Silva,  ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds, passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau, em 1970/72, Foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos. Embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71. 

O Angelino é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande, para onde entrou formalmente em 21 de janeiro de 2025 (*).

. É natural de Recarei, Paredes. Como escritor, usao pseudónimo literário Recaredo. Publoicou recentemente o livro (o primerio de dois), "Geração Afro: os últimos guerrilheiros do Império" (edição de autor, 2026, 455 pp.) (**)


GERAÇÃO AFRO – OS ÚLTIMOS GUERRILHEIROS DO IMPÉRIO - Livro I 

Resumo feito pelo autor, Recaredo (pseudónimo lietrário de Angelinmo da Silva Santos) (***)

Este documento é uma homenagem aos combatentes portugueses e africanos da Guerra Colonial em África, abordando suas experiências, conflitos e o impacto histórico da guerra.

Para criar um resumo focado nas experiências dos combatentes portugueses e africanos durante a Guerra Colonial, utilizei exclusivamente os relatos, testemunhos e análises presentes no documento "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império".

O objetivo é apresentar uma visão clara, humana e multifacetada das vivências dos combatentes, destacando tanto os aspetos comuns quanto as diferenças entre portugueses e africanos que combateram sob a bandeira portuguesa ou nos movimentos de libertação.

Resumo das experiências dos combatentes portugueses e africanos

1. O início: patriotismo, desencanto e realidade

 Os jovens portugueses embarcavam para África "imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa". 

No entanto, logo no início da viagem, o desconforto, as más condições nos navios e o choque com a realidade africana geravam desencanto e frustração.

Ao chegarem, deparavam-se com combatentes africanos armados ao serviço de Portugal, o que causava estranheza e, ao mesmo tempo, aliviava o desconforto inicial.

2. A Vida no terreno: dificuldades, medos e camaradagem

O quotidiano era marcado por condições extremas: calor, humidade, doenças como o paludismo, chuvas torrenciais, emboscadas, minas e noites mal dormidas na selva.

A camaradagem entre soldados era fundamental para suportar o medo, a saudade e o desgaste físico e psicológico. O humor, as pequenas festas e as conversas ajudavam a aliviar a tensão constante.

Os combatentes africanos, como os do Grupo Especial de Combate (GEC), partilhavam o risco e o sacrifício, mas tinham motivações e preocupações distintas, muitas vezes relacionadas com o futuro das suas famílias e a incerteza do pós-guerra.

3. Contradições e dilemas

Muitos africanos lutavam ao lado dos portugueses, enquanto familiares seus combatiam no PAIGC (movimento de libertação). Isso criava situações de "irmãos contra irmãos", ilustrando a complexidade das lealdades e dos laços familiares.

 Os portugueses, por sua vez, questionavam o sentido do sacrifício, especialmente ao perceberem que a guerra era "uma causa perdida" e que o império colonial estava no fim.

4. O impacto psicológico e social

O regresso à Metrópole era frequentemente marcado por traumas psicológicos, ausência de apoio psiquiátrico e falta de reconhecimento social. Muitos ex-combatentes sentiam-se ignorados e desamparados.

Entre os africanos, o medo de represálias após a independência e a incerteza quanto ao futuro das suas famílias eram fontes de grande angústia.

5. O quotidiano e a sobrevivência

As operações militares eram descritas como extenuantes e perigosas, com relatos de emboscadas, minas, flagelações e ataques noturnos.

A sobrevivência dependia tanto da preparação militar quanto da adaptação ao ambiente hostil e do apoio dos guias e combatentes africanos, conhecedores do terreno.

6. Humanidade, humor e resistência

Apesar da dureza da guerra, havia espaço para a amizade, o humor e até para momentos de festa e confraternização, com refeições de churrasco (ementa desconhecida na Metrópole).

O contacto com a cultura local, a aprendizagem de palavras em crioulo e a partilha de refeições aproximavam portugueses e africanos, criando laços que iam além da guerra.

7. O fim da guerra e o legado

O fim do conflito trouxe sentimentos mistos: alívio, mas também frustração e sensação de missão inacabada.

Muitos combatentes, portugueses e africanos, carregaram para sempre as marcas físicas e psicológicas da guerra, sentindo-se "diferentes" e, por vezes, incompreendidos pela sociedade.

Exemplo de testemunho resumido

"Já lá fomos e voltamos. Percorremos o lado negro da vida, tropeçamos na face má da sorte e andamos por trilhos e picadas da morte. [...] Já lá sorrimos e penamos. E abrimos a caixa de Pandora e antes de virmos embora enfrentamos medos e emboscadas, carregamos sonhos e granadas, corremos perigo e aflição, bebemos água da bolanha, comemos colados ao chão, adormecemos de arma na mão, socorremos camaradas feridos, beijamos rostos estendidos, cerramos os punhos cantando, festejamos a vida chorando, deixamos os sonhos esquecidos..."

Conclusão

As experiências dos combatentes portugueses e africanos na Guerra Colonial foram marcadas por sofrimento, coragem, dilemas morais e laços de solidariedade. O livro retrata com realismo e sensibilidade a complexidade humana da guerra, dando voz a todos os que nela participaram, independentemente do lado em que lutaram.

"Do embarque ao regresso a casa, o leitor com poucos conhecimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África vai ter o privilégio de acompanhar, em tempo real, o dia a dia da maior parte dos combatentes: desde as deficientes condições de viagem até à estranha surpresa ao desembarcar, quando vê, no cais, soldados africanos a combater ao lado da bandeira portuguesa. Já no “mato”, vai acompanhar os passos de quem faz a guerra “mexer”, testemunhando os dias de sorriso e tristeza, os dias de aflição e lazer, e os “acasos” do azar e da sorte que separam a vida da morte. Por fim, vai sentir no corpo e na “cabeça” as mazelas que trouxemos de África e a injustiça do tratamento inadequado votado aos combatentes por parte dos governos, desde o regime do Estado Novo ao regime do pós-25 de Abril — algo que permanece até hoje

Principais locais onde se desenrola o romance:

Bissau, Brá, Bula, Binar, Bissorá, Olossato, Mansoa, Mansabá, K3.
São Vicente, Pelundo, Teixeira Pinto, Bachile, Cacheu.
Catió, Cabedu, Guileje, Gadamael Porto, Kandiafara [Guiné-Conacri] e Cumuré.
Hospital Militar de Bissau.

Angelino dos Santos Silva
(RECAREDO)
Combatente na Guiné-Bissau, 1970-71

Contactos para encomenda do livro:

e-mail: recaredo241148@gmail.com | telem  926365774
 
Fonte: adapt da página do Facebook da Tabanca Grande Luís Graça, 5 de agosto de 2026, 08:42

(Revisão / fixação de texto: LG)


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(***) Últino poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovomania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... a maldita AK 47.



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes, que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais fortes , com especial atenção ao final,  onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.deideias.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Nota do editor LG: