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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27717: Documentos (51): A retirada de Madina do Boé (Hélio Felgas, maj-gen, 1920-2008)



Major General Hélio Esteves Felgas (1920-2008): duas comissões na Guiné, um dos militares portugueses da sua geração mais condecorados, autor de dezenas de livros e artigos sobre a "luta contra o terrorismo", a guerra ultramarina... Comparou a Guiné ao Vietname. Também considerava que a solução para a Guiné não era militar mas política... Foi, todavia, um crítico de Spínola que lhe terá roubado, entretanto, a ideia dos reordenamentos (aldeias estratégicas). 

Um oficial intelectualmente brilhante mas controverso, dizem alguns dos seus pares, mais novos. O Rui Felício, que o conheceu nas circunstâncias trágicas da Op Mabecos Bravios, comentou assim a sua morte: 

(...) Luís Graça, chocado com a notícia, reafirmo a admiração que sempre tive por esse Homem, um verdadeiro militar à moda antiga e, mais do que isso, uma pessoa com um sentido de justiça e um humanismo que só em muito poucos consegui encontrar na minha vida militar. 
Um abraço,  Rui Felício" (...) (*)

Condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 10 de junho de 1970, foi passado compulsivamente à reserva, a seguir ao 25 de Abril de 1974. (Estava em Angola nessa altura; e sempre se considerou vítima de um saneamento político-militar.)

Foto gentilmente cedida pela filha, dra. Helena Felgas, jurista, colega e amiga do nosso camarada Jorge Cabral (1944-2021), e com quem estive no funeral do pai.

Volto a publicar o documento sobre a retirada de Madina do Boé, que o Paulo Raposo me fez chegar às mãos, em 2006 (*). O depoimento do então brigadeiro na reforma Hélio Felgas (1920-2008), terá sido escrito em 1995, a pedido dos" baixinhos de Dulombi", os ex-Alf Mil Rui Felício, Paulo Raposo, Jorge Rijo e Victor David (1944-2024) e demais pessoal da CCAÇ 2405, incluindo o ex-cap mil Jerónimo. 

A CCAÇ 2405 perdeu 17 homens na travessia do Rio Corubal, em Cheche, 6 de fevereiro de 1969. (Só o Rui Felício viu morrer 11 homens do seu Grupo de Combate.)

Os nossos camaradas da CCAÇ 2405 contestaram as conclusões apresentadas no documentário que passou an SIC em 2009, da autoria do jornalista José Manuel Saraiva, realização de  Manuel Tomás e produção da Quimera do Ouro ("Madina do Boé - A retirada"): tem a particição, entre outros, do ten cor inf José Aparício e do brig Hélio Felgas, entretanto falecido, Vídeo disponível, desde 2011, na conta do You Tube / UTW ( 53' 49'')

A versão do Rui Felício será republicada oportunamente nesta série "Documentos" (**). São dois documentos para a história e que, muito provavelmente, não chegarão ao Arquivo Histórico-Militar  (***).

A retirada de Madina do Boé 

pelo brig Hélio Felgas (2)

Todo o sudeste da Guiné, ao sul do rio Corubal, era uma região praticamente despovoada onde só havia dois postos administrativos: Beli e Madina do Boé.

(i) Um ponto sem valor estratégico

Já antes de, em 1968, eu ter assumido o comando do sector Leste [Comando de  Agrupamento 2975, com sede em Bafatá], Beli fora abandonado. O pelotão que aí se encontrava fora transferido para Madina, completando a companhia aí instalada.

Madina fica a cerca de 5 quilómetros da República da Guiné-Conacri. Não tinha qualquer população civil e só dispunha de um ou dois pequenos edifícios. Nem ruas tinha. Havia sido apenas uma minúscula tabanca (aldeia nativa), sem importância de qualquer espécie.

À medida que o PAIGC aumentava o seu poder de fogo com morteiros pesados e artilharia, os bombardeamentos e flagelações a Madina, executados em geral a partir do lado de lá da fronteira, passaram a ser quase diários.

Por isso a guarnição dormia em abrigos, escavados 4 ou 5 metros abaixo do nível do solo. Muitas vezes os bombardeamentos nada destruíam, caindo os obuses e granadas fora do perímetro do aquartelamento. Mas outras vezes causavam estragos e baixas que, em caso de necessidade, eram evacuadas de helicóptero para o hospital militar de Bissau.


(ii) A rotina dos bombardeamentos e flagelações

Apesar desta situação certamente pouco agradável, o moral da guarnição era levado

Lembro-me da primeira vez em que fui pernoitar a Madina. Pouco antes do anoitecer comecei a ouvir os soldados à porta dos seus abrigos gritando “Está na hora! Está na hora!”. 

O comandante da Companhia elucidou-me que era a altura de o PAIGC começar o usual bombardeamento e os homens já tomavam aquilo como uma brincadeira, habituados como estavam ao estrondo do rebentamento das granadas. Por acaso nesse dia as granadas só de madrugada caíram e não causaram baixas nem prejuízos.

Claro que a nossa guarnição respondia com morteiros e com canhão sem recuo e toda a gente estava sempre preparada para disparar a curta distância do arame farpado. Que eu saiba, porém, nunca o adversário tentou assaltar o aquartelamento.

Na manhã seguinte um destacamento saía do recinto e percorria os arredores, procurando descobrir o local de onde teria sido feita a flagelação. Umas vezes tinha êxito e o local era cuidadosamente assinalado nas nossas cartas de tiro. Mas outras vezes nada se descobria pela simples razão de o bombardeamento ter sido feito a partir do território da Guiné-Conacri e os nossos militares cumprirem escrupulosamente a ordem que tinham de não atravessar a fronteira.

As viaturas da Companhia encontravam-se dispersas pela área do aquartelamento, em especial junto às árvores para melhor protecção. E até ao princípio de 1969 havia algum gado para consumo do pessoal. O último boi foi porém abatido por uma granada do PAIGC e a isso se referia com certo humor o relatório-rádio do comando local, confirmando assim o bom moral da unidade.


(iii) Missão: defender-se a si próprio!

De qualquer forma, tornou-se pouco a pouco evidente a inutilidade da presença de uma Companhia em Madina.

A tropa estava na Guiné para defender a população civil que nos era afecta, tentando suster o seu compulsivo aliciamento pelos guerrilheiros do PAIGC vindos do Senegal, a norte, ou da Guiné-Conacri, a sul e a leste. 

Procurava também evitar ou dificultar a penetração desses guerrilheiros em território então considerado nacional. E pretendia ainda impedir a destruição das estruturas económicas e administrativas: pontes, estradas, edifícios, etc.

Ora em Madina e em todo o sudeste guineense a sul do rio Corubal:
  • não havia população alguma;
  • não havia estruturas de qualquer importância;
  • e a fronteira era totalmente permeável em dezenas de quilómetros.
Então, se a tropa não estava a proteger qualquer ponte nem qualquer tabanca e não tinha a menor possibilidade de impedir penetrações territoriais, o que é que estava a fazer em Madina?

A resposta era simples: a Companhia de Madina estava lá “para se defender a si própria”! Quando, afinal, fazia tanta falta em outros pontos da Guiné!

Por outro lado, ponderou-se também a possibilidade de o PAIGC aproveitar uma possível evacuação de Madina pelas nossas tropas, para declarar a região como “libertada”.

Mas isso podia o PAIGC fazer em qualquer outro ponto, do imenso sudeste guineense. Na zona de Beli, por exemplo, que nós abandonámos havia muito tempo e onde nunca íamos por falta de objectivo.

Aliás, mesmo com a Companhia em Madina, o PAIGC podia declarar o sudeste guineense uma “zona libertada” e até lá levar jornalistas estrangeiros, como parece que fez.


(iv) Evacuação: riscos calculados

Todas estas considerações foram devidamente estudadas, bem como os principais riscos que a evacuação podia acarretar.

Entre esses riscos contavam-se várias possibilidades de actuação dos guerrilheiros do PAIGC. Como por exemplo:

- Aumentarem as flagelações e bombardeamentos sobre Madina nas noites anteriores à manhã da “descolagem” quando as viaturas da Companhia, já meio carregadas, se encontrassem mais expostas;

- Lançarem sobre Madina um bombardeamento maciço na madrugadas da partida, quando parte da coluna de viaturas já estivesse fora do aquartelamento (cuja exiguidade não comportava toda a coluna); tanto nesta possibilidade como na anterior, contava-se que o PAIGC certamente detectaria o movimento desusual no interior de Madina;

- Montarem emboscadas à coluna em diversos pontos da estrada Madina-Cheche; esta estrada corria quase a direito no sentido norte-sul e, aqui e ali, era flanqueada por pequenas colinas de onde, em deslocamentos anteriores, os guerrilheiros haviam lançado emboscados; estava além disso minada com poderosas minas anticarro soviéticas;

- Tentarem dificultar a travessia do rio Corubal no Cheche.

Claro que, ao reconhecerem-se estes riscos, admitiam-se baixas da nossa parte pois a operação não era simples.


(v) Operação Mabecos Bravios

Mas tudo se fez para que tais baixas fossem mínimas. Em Bafatá, no comando do Sector, começou a ser elaborada a Ordem de Operações [Ord Op].

No Gabu (então Nova Lamego) construiu-se uma nova jangada que depois foi levada para o Cheche onde a que lá estava foi devidamente reforçada.

Estas jangadas eram constituídas por um forte estrado dotado de vedações laterais e assente em bidões vazios e em três “barcos” formados por grandes troncos de árvores escavados. Estrutura esta que, com a jangada descarregada, colocava o estrado a cerca de um metro da água.

As jangadas eram consideradas muito seguras e incapazes de se voltarem ou afundarem, desde que não fossem excessivamente carregadas.

 Calculava-se que aguentariam um peso de dez toneladas. Mas para maior segurança a Ord Op proibia que fossem transportados mais de 50 homens de cada vez.

Por seu lado, em Madina, os motores e as suspensões das viaturas da Companhia foram cuidadosamente revistos, não tendo o comando local tido pouco trabalho no carregamento de todo o material, incluindo a parte delicada das munições, até então guardadas em paióis subterrâneos.

No princípio do ano [de 1969], a Ord Op foi levada ao Comando-Chefe, em Bissau, e apreciada e aprovada em reunião de comandos. 

O dia da evacuação foi marcado para 9 de Fevereiro de 1969, sendo a operação designado por Mabecos Bravios.

Aos comandos das unidades que forneciam contingentes de reforço foram dadas as respectivas ordens, com indicação dos locais onde as suas tropas deviam ser colocadas (de helicóptero). 

Alguns destes locais ficavam nas colinas de onde anteriormente haviam sido lançadas, sobre a estrada, emboscadas contra as nossas tropas. Outros ficavam na margem sul do Corubal, próximo do Cheche.


(vi) Uma manobra de diversão

Fui para Madina na manhã da véspera do dia D.
  [ O dia D era 1 de fevereiro de 1969. ] Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé. 

Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14.


(vii) A visita do Bispo [com-chefe, gen Spínola]

A progressão poderia ser lenta mas parecia segura

De tempos a tempos passávamos por camiões e autometralhadoras destruídas em emboscadas anteriores. Também vi os restos de um avião mas não sei se teria caído por acidente ou sido abatido. E conseguiu-se recuperar uma autometralhadora que se encontrava abandonada na berma da estrada.

A dada altura um helicóptero sobrevoou-nos. Contactei pela rádio e verifiquei que era o Bispo, ou seja, o General Spínola. Quase todas as manhãs o Comandante-Chefe saía de Bissau num helicóptero e ia observar as principais operações que se realizavam na Guiné. 

Mandei parar a coluna e montei segurança ao lado da estrada. O heli pousou e o General Spínola acompanhou-me a pé durante alguns quilómetros, demonstrando assim o apreço que a execução da operação lhe estava merecendo. Depois foi-se embora, satisfeito.

Chegámos ao Corubal ao princípio da noite sem termos sofrido qualquer emboscada. A travessia do rio começou imediatamente com as jangadas trabalhando alternadamente. 

Havia um cabo de aço estendido de uma margem à outra, a ele ficando ligada a jangada em serviço, a qual era empurrada por um pequeno barco com motor fora de bordo.

O rio tinha uma corrente muito forte e uns 100 a 150 metros de largura. O motor do barquito levantava uma pequena ondulação que formava um V.

Atravessei para o Cheche cujas instalações eram semelhantes às de Madina, isto é, quase tudo abrigos enterrados.

Durante toda a noite assisti ao vai-vem das jangadadas. Parte dos destacamentos de reforço foram os primeiros a atravessar o rio, formando logo uma coluna auto na estrada que partia de Cheche para Nova Lamego. 

A Companhia de Madina [a CCAÇ 1790,] seria a última a fazer a travessia, juntamente com dois Gr Comb da [CCAÇ] 2405.


(viii) O desastre da jangada

Cerca das 9 ou 10 horas da manhã apareceu um helicanhão que sobrevoou demoradamente toda a zona. 

Depois pousou e eu fui ter com ele procurando informar-me do que a tripulação tinha visto. Mas tinha chegado, apareceu um soldado correndo para mim a gritar que a jangada se estava afundando, logo após ter partido da margem sul. 

Pedi imediatamente ao piloto para... [linha inteira cortada na fotocópia] depois para a margem do Cheche onde eu estava. Parecia vir normalmente carregada com homens e material.


(ix) Um comandante também chora

Quando chegou é que eu soube que diversos homens tinham caído ao rio, não aparecendo mais. Verifiquei tratar-se do pessoal que realizava a última travessia.

Quando se fez a chamada, viu-se que faltavam quarenta e tal homens, seis dos quais nativos.

Não consegui controlar-me e desatei a chorar, tal como aliás vi muitos valorosos militares a fazerem. Foi assim que me encontrou o general Spínola que nesse dia também quisera ir ter comigo.

Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.

Interroguei diversos militares mas alguns nem podiam falar. Outros disseram-me que a jangada, logo após ter partido da margem sul, tinha-se afundado um bocado, ficando o estrado rés-vés com a água. Este afundamento era aliás natural desde que não fosse excessivo. 

O estrado, como dissemos atrás, ficava a cerca de um metro da água quando a jangada estava vazia. Esta distância diminuía conforme o peso do carregamento mas o estrado normalmente nunca chegava a ser coberto pela água.

Segundo parece, alguns dos homens que seguiam junto às vedações laterais assustaram-se quando alguma água começou a cobrir o estrado. Teriam então descido para o rio procurando segurar-se às travessas laterais do estrado e continuar assim a travessia. Desta forma o peso da carga diminuiria e a jangada subiria. Só que não se lembraram de que com o equipamento e as munições cada um pesava mais de cem quilos.

Foi desta forma que uma operação que decorrera sem qualquer baixa (ao contrário do que inicialmente se esperava), viu o seu final tragicamente enlutado. 

Durante toda a noite, desde as seis da tarde da véspera até às 10 ou 11 da manhã seguinte, as jangadas tinham trabalhado sem qualquer anomalia. Fizeram dezenas de travessias. E o azar logo havia de aparecer na última e de forma tão dolorosa.

Nem o facto de na altura terem ocorrido acidentes semelhantes (ou talvez ainda mais graves), com jangadas em Moçambique, podia servir de lenitivo para o que nos sucedera na Guiné. 

Dezenas de homens que tinham vivido longos meses sob bombardeamentos quase diários, acabaram por morrer afogados.

Hélio Felgas, Brigadeiro

(Digitalização, fixação/revisão do texto, negritos, parênteses retos  e subtítulos: L.G.)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2984: Op Mabecos Bravios: a retirada de Madina do Boé e o desastre de Cheche (Maj Gen Hélio Felgas † )

(**) Vd. poste de 12 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P509: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Guiné 61/74 - P27716: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII: Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... "pornográfica", em Catió


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió 

"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.

"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado, que não consigo identificar; 

 (B) de costas, o cap médico Morais; 

 (C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 

 (D) quatro funcionários dos Correios e da Administração; 

(E) o comerciante Sr. José Saad [libanês] e filha; 

(F) o comerciante, Sr. Mota; 

(G) o comerciante, Sr. Dantas e filha; 

(H) o comerciante, Sr. Barros; 

(I) o electricista civil, Jerónimo: 

(J) e, por fim, o alf  graduado capelão Horácio [Neto Fernandes]" [um capelão isolado, mais próximo dos civis do que dos militares, um padre que não está bem com Deus nem com César...].


 Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando. As NT em formatura.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando.  

Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943/2010).

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos sete postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) e,por fim,  em 1967, a sua mobilização  para a Guiné, como capelão militar. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4.ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga.

Até ser ordenado padre, passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre, ainda antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2.º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII:  Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... pornográfica

por Horácio Fernandes

Cenário 3. - Regresso ao antigo Colégio Angélico como Subprefeito de Disciplina e mobilização para Capelão Militar

Regressado ao antigo Colégio Angélico, por imposição dos Superiores, e sem qualquer explicação, mergulhei novamente no passado. 

Os alunos ainda faziam exames internos e ia ficar sob a jurisdição de alguns dos meus antigos professores e Prefeitos. Contudo, alguma coisa tinha mudado: faziam-se encontros de futebol com outros Seminários e davam-se passeios, sem o traje ritual, embora as normas disciplinares se conservassem as mesmas.

Talvez por isso e porque pouco podia alterar, como Subprefeito que era, dediquei-rne mais à direcção espiritual das freiras e à pregação. Comecei por alguns tríduos e acabei nos sermões de festa. O fundamental era conseguir a técnica, que variava, consoante o auditório. Escrevia todo o texto do sermão e arranjava algumas estórias piedosas para comover o público.

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A princípio, decorava todo o sermão, mas depois comecei a decorar apenas as linhas mestras. Para despertar o auditório, havia exclamações oratórias sonantes, nos momentos cruciais. Neste campo, como nos outros, fui autodidacta, aprendendo com a experiência e os erros.

Passados dois anos, em que já tinha uma clientela razoável, nas freguesias vizinhas, talvez devido à muita procura e escassez da oferta, fui mobilizado pata Capelão Militar, em substituição de um colega a quem tinha morrido a mãe.

Em Agosto de 1967, com 32 anos de idade,  fui convocado para submeter-me a um treino, de cerca de um mês, na Academia Militar, para exercer as funções de Capelão na Guerra Colonial.

Era um Bispo, com o posto de Brigadeiro que estava à frente da Capelania Militar. Nas aulas de Deontologia Mlitar realçava o papel do Capelão, como levando o conforto espiritual aos valentes soldados que lutavam contra os inimigos que pretendiam destruir a civilização cristã e o nosso esforço missionário.

 Contudo, nos dois anos de Capelão Militar, sempre verifiquei que os chefes da Capelania preferiam o conforto do Quartel General de Bissau, a visitar os capelães que estavam em zona de guerra.


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Cenário 4. - Capelão Militar na Guiné. A Guerra Colonial e as minhas guerras.

A mobilização para Capelão Militar significou um corte, quase radical, com as estruturas conventuais; A partir daí, o local de habitação era o quartel, indo aos fins de semana a casa, recebia e administrava o meu vencimento de aspirante e depois alferes graduado capelão. 

Na qualidade de capelão, estava sujeito à jurisdição da Capelania-Mor. Este desenraizamento da instituição, a quem me tinha umbilicalmente ligado, desde os 10 anos, abriu caminho a uma série de interrogações e relacionamentos, até aí impossíveis de conceber.

O treino teve componente teórica e prática. As lições práticas consistiam em exercícios físicos todos os dias e algumas lições de tiro, que nunca foram levadas a sério pelos instrutores, porque diziam que a nossa missão não era essa. Assim se passou um mês, até ao embarque.

Fiquei reprovado a Treino Físico, porque não podia dobrar bem a articulação do joelho esquerdo, mas fui aprovado como os outros.

A distribuição dos capelães pelos batalhões causou-me alguma confusão. Todos os meus colegas tinham grandes «cunhas» e vinham já destinados a batalhões da Marinha e Aviação, as armas mais apetecíveis. 


Mesmo os destinados ao Exército vinham bem recomendados pelos bispos das dioceses, ou padres amigos. Sem conhecer ninguém, senti-me só e desamparado e fui mandado para a Guiné para um Batalhão de Artilhari
a [BART 1913, Catió, 1967/69], que já ia em 8 meses de comissão de serviço.(**)

Embarquei, em setembro de 1967
 [esteve no CTIG, de 1/11/67 a 3/11/69],  no paquete «Uíge», com destino à Guiné, tendo à partida a dizer-me adeus apenas a minha família. 

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Os meus confrades tinham -se esquecido. Este esquecimento e o sistema das «cunhas» entre membros da Igreja, a que não estava habituado, fízeram-me reflectir um pouco. 

Contudo, o momento não era para grandes análises, nem estava habituado a elas, mas a obedecer.

Desde que fui mobilizado parecia um jovem gamo. Tudo era novidade. Parecia que estava a viver a minha adolescência, até aí submersa.

Coincidiu com as férias grandes e gostava de me fazer acompanhar pela gente nova da minha terra. Rapazes e raparigas estudantes eram uma presença permanente em minha casa, durante as três semanas de férias que antecederam a partida. 

Eu representava para meus pais, e restantes famílias de Arribas do Mar a segurança, face à tentativa, sobretudo das raparigas adolescentes, de sacudir a pressão dos familiares, considerados já antiquados. Por isso, organizava piqueniques, festas, idas ao cinema. Um acordeão que me tinham oferecido acompanhava-me para toda a parte, não obstante pouco saber tocar.

Desde que saíra do Seminário, vivia o quotidiano como uma aventura. A ida para a Guiné fazia parte dessa aventura de adolescente, onde não cabia a problemática política, nem os perigos que podia correr.

Ia contactar com a Africa dos meus sonhos de Angélico, em circunstâncias de guerra, de que não fazia a mínima ideia, mas estava acima de tudo curioso.

 Comprei as fardas, recebi os abonos adiantados que fizeram muito jeito aos meus pais e embarquei carregado de trintários (15) pelas almas do purgatório e de presentes para os soldados da freguesia e concelho.

Os 6 dias de viagem foram passados, agarrado a um potente rádio que tinha comprado, a ouvir notícias da Metrópole. Enjoava, e, por isso, sempre que podia, subia ao no convés, para conversar com os cabos e praças de outras companhias. 

Ainda meio atordoado, desembarquei em Bissau, partindo na primeira avioneta militar para o sul da Guiné.

A recepção nunca mais a esquecerei. Os oficiais estavam já à mesa, para o almoço. Deixei as malas no jipe que me foi buscar ao campo de aviação de terra batida e fui sentar-me, onde havia um lugar vazio. Reparei que,  antes da sopa, começou a correr, de mão em mão, um envelope de fotografias em ponto grande, mas não liguei importância. 

Era uma armadilha.

Daí a pouco, o capitão que estava a meu lado, passou-mas e,  ao abrir, verifiquei que continham mulheres nuas, algumas a fazer sexo nas posições mais esquisitas. 

O capitão ia passando-as, uma a uma, diante de mim, concerteza para ver a minha reacção. Eu fiquei muito embaraçado e,  sem o fair play necessário nestes momentos, perguntei-lhe:

- É a sua mulher?
_________________

Nota do autor LG:

(15) Conjunto de trinta missas seguidas com que os familiares costumavam sufragar as almas dos defuntos, por vezes por imposição testamentária.

- 130-

Este incidente estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia tentasse mnimizá-lo. O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido,  e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. 

Só passados vários meses me voltou a falar.

- 131-


(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
 ____________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos
 
Últimos postes da série: 
 




(**) História da unidade: Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação:  BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia

Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso | 2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes 
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:

CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa 

CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes

CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges

CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso

Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese daActividade Operacional:

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação,  e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso. (...)

(...) Tem História da Unidade (Caixa nº 80 - 2ª Div/ 4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pp. 215 e 217

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27715: S(C)em Comentários (88): Paiai Lémenei, de má memória (Luís Dias, ex-alf mil op esp, CCAÇ 3491 / BCAÇ3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


1. Comentárioo do nosso grão-tabanqueiro Luís Dias, ao poste P27713 (*)


A história do Rui Felício fez-me lembrar a que eu passei, na zona que ele descreve, em Paiai Lemenei, anos depois, em 11 de março de 1972, quando com o meu grupo de combate (2º) e outro combate (3º), ambos da CCAÇ3491, recentemente chegados ao Dulombi, e reforçados por 1 secção de milícias, regressávamos de uma operação a uma zona perto do Rio Corubal, numa zona fortemente arborizada, onde parámos para descansar. 

Fomos alertados pelos gritos de aviso de um dos meus soldados, que avistou 2 elementos IN a avançar sobre a nossa zona, seguidos de uma forte rajada de metralhadora. 

Após alguns segundos de silêncio, desatou um "fogachal" sobre nós, com roquetes e tiros de armas automáticas. 

Depois da surpresa, houve uma reacção do nosso pessoal e foi um elemento africano, do 3º grupo, já experiente, que agarrou o morteirete 60mm, colocou-o à barriga (um feito que nunca mais vi ninguém fazer) e largou um par de granadas que terão caído perto donde estavam os elementos do IN acoitados. 

De facto, o fogo deles quase parou imediatamente.

 Entretanto o escuro da noite foi surgindo. A rajada que tínhamos ouvido, fora lançada por um dos meus 1º cabos, que também avistara os elementos do PAIGC e disparara uma rajada da sua ML e pouco mais porque a HK-21 entretanto se encravou. 

Tivemos feridos ligeiros, mas o IN pelos rastos e poças de sangue encontradas (só no dia seguinte) e material deixado pelo chão, tiveram baixas de certeza. 

Na rádio do PAIGC disseram que tínhamos sofrido 8 mortos e, o que não era normal, referiram terem sofrido baixas. 

Como na história do Rui, deduzimos que o grupo IN também tinha parado na mesma zona, provavelmente a descansar, para mais tarde ir atacar o Dulombi. 

Abraço a todos os camaradas.

Luís Dias, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3491 / BCAÇ 3872 (Dulombi/Galomaro, 1971/74)

domingo, 8 de fevereiro de 2026 às 10:39:00 WET  (**)

Guiné 61/74 - P27714: Foi há... ( 8): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agruupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - Parte I








Foto nº 1 > Guiné > Região do Boé > Rio Corubal > Cheche > 6 de fevereiro de 1969 > A famigerada jangada que servia para transporte de tropas e material, numa  das últimas travessias, aquando da retirada de Madina do Boé. A foto é de Hélio Felgas, cmdt da Op Mabecos Bravios (2-7 de fevereiro de 1967), que a deve ter cedido ao jornalista José Manuel Saraiva. Tomamos a liberdade de a voltar reproduzir, reeditada. É uma das imagens, tragicamente belas,  que ficam para a história.


1. A foto, histórica, é do  comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008). Reproduzida com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pág. 15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Esta e outras notáveis imagens vêm inseridas num artigo de José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões.

O seu a seu dono...  Tem andado por aí, nas redes sociais, na Net, aos trambolhões, e até na comunicação social, sem a  atribuição dos devidos créditos fotográficos.

É umas das cinco fotos extraordinárias, tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas (cujo nome, infeliz,mente,  ficará para sempre associado ao desastre do Cheche) era também um fotógrafo de grande sensibilidade e qualidade. Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista José Manuel Saraivas (*). A quem agradeço o ter sido um dos primeiros  a insurgir-se contra o "silêncio" a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril., como se pode ler neste excerto:






Julgo que estas imagens fazem agora parte do Arquivo Histórico-Militar. O seu autor morreu em 2008 e a família deve ter doado o seu espólio fotográfico e documental ao AHM. No entanto, estas cinco fotos, que vamos reproduzir neste e em próximo poste, devem ter sido cedidas ao jornalista (e nosso camarada, foi combatente na Guiné) José Manuel Saraiva (n. 1946, Oliveira do Hospital; foi o autor de "Madina do Boé—A Retirada" e "De Guilege a Gadamael—O corredor da morte", documentários produzidos pela SIC sobre a guerra colonial no CTIG).

O major-general Hélio Felgas foi militar, escritor e professor da Academia Militar. As suas qualidades  como militar e português foram reconhecidas com as medalhas de ouro de Serviços Distintos com Palma, Cruz de Guerra (1ª e 3ª classes) e o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (atribuído em 1970).

É pena que não termos acesso às fotografias originais. As imagens que aqui reproduzimos, com a devida vénia, são da revista Camões, em formato pdf.  (Infelizmente, o pdf com aquele número temático já não está disponível "on line": mas o leitor mais curoioso, exigente e persistente poderá encontrá-lo,. em arquivo morto, no Arquivo.pt, basta carregar neste link.)

São também a nossa maneira, singela,  de relembrar aqui esse fatídico dia 6/2/1969, em que morreram 46 militares portugueses, nossos camaradas da CCAÇ 2405 e CCAÇ 1790, além de um civil guineense, na travessia do Rio Corubal, em Cheche, na retirada de Madina do Boé. (**)  (LG)
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Notas do editor LG:

(*) José Manuel Saraiva nasceu na aldeia de Santo António de Alva, Oliveira do Hopsital estudou em Coimbra e fez a guerra na Guiné. Dedicou a sua vida profissional ao jornalismo. É autor e produtor executivo de dois documentários televisos sobre a Guerra Colonial na Guiné.  E em 2001 publicou a sua primeira obra de ficção, "As Lágrimas de Aquiles". Seguiram-se os romances "Rosa Brava", "A Terra Toda", "A Última Carta de Carlota Joaquina", "O Bom Alemão" e "A Embaixada", que o consagraram como um dos mais conceituados autores portugueses.

(*) Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27713: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (12): a morte em combate do soldado Lucídio Rasinas, natural de Resende, em 19 de julho de 1969


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Posição relativa de Dulombi, Paiai Lémenei, Rio Corubal, Ché-Ché, Béli, Madina do Boé. 

Com a retirada das nossas posições, em Béli, Madina do Boé e Ché-Che, o PAIGC passou a considerar o Boé como "zona libertada", a partir de 6/2/1969, e ameaçar todo o "chão fula", pelo menos os flancos sul a sul e leste.  Paiai Lémenei terá sido a zona onde morreu, em combate, o nosso camarada Lucídio Rasinhas, da CCAÇ 2405 (Dulombi, 1968/70).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

 

Sold at inf Lucídio Rasinhas, CCAÇ 2405 (Dulombi, 1968/70), natural de Resende, morto em combate em 13/7/1969. Indicar Bafatá co.o "local de operações" é grosseiro.

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2001), pág. 458.



Rui Felício

1. O Rui Felício, um dos históricos da Tabanca Grande, é autor da série "Estórias de Dulombi", de que se publicarm 10 postes, até ao 1º semestre de 2013.  (*).

A morte súbita do seu filho, de 38 anos, Nuno Felício, jornalista, da rádio Antena 1, foi devastadora para ele, a família e amigos. A sua colaboração com o nosso blogue, naturalmente, ressentiu-se, a partir daí.

Estamos, todavia, a dar continuidade à sua série, com mais algumas "estórias" que vamos recuperando da sua página do Facebook... É o caso de mais esta, que merece honras de blogue.

Recorde-se que o Rui Felício foi alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi, 1968/70). Perdeu 11 dos seus homens do seu pelotão na Op Mabecos Bravios, mortos por afogamento na "cambança" do Rio Corubal,  em Cheche, em 6/2/1969, efeméride que acabámos de evocar, na série "Foi há...".

O Rui foi um dos sobrevientes, tendo conseguido libertar-se da arma e cartucheiras. Muitas das vítimas não sabiam nadar.

A sua companhia, a CCAÇ 2405, perdeu 17 homens num total de 47 (os restantes pertenciam à CCAÇ 1790).  

Haverá uma morte posterior, em combate, no dia 13 de julho de 1969, a meio da comissão (e não já no fim, como por lapso ele refere a seguir) (**)


A morte do soldado Lucídio Rasinhas, natural de Resende

por Rui Felício

Estávamos já muito perto do final da comissão [lapso do autor: estavam a meio] (**)

Uns dias antes o Dulombi tinha sido atacado com rockets, morteiros 82, canhões sem recuo e armas ligeiras por um bigrupo, pelas 22 horas.

As balas tracejantes que antecederam o ataque, serviram para indicar o alvo naquilo que parecia ser  o desencadear de um fogo de artifício em festas da Rainha Santa 
 [em Coimbra, onde o Rui nasceu, viveu e estudou].

A Companhia respondeu ao fogo com as armas de que dispunha, designadamente morteiros 81 e 60, metralhadoras HK, Borsig e espingardas G3.

Desde que a região do Boé ficou sem efectivos militares por decisão estratégica do Comando Chefe, a retracção do dispositivo originou o que se esperava. Ou seja, a guerrilha avançou as suas forças para norte do rio Corubal e as flagelações a quartéis como o Saltinho, Dulombi, Mondajane, Cansamba, Cancolim e outros começaram a ser mais frequentes.

Uma semana depois foi planeada e executada uma operação de patrulhamento com origem no Dulombi, ficando apenas no quartel o Victor David e o seu Grupo de Combate. (O Victor David
[1944-2024], instalado a poucos kms, em Mondajane, teve que se deslocar com a sua tropa para guarnecer o quartel do Dulombi, enquanto a Companhia arrancava de madrugada para o dito patrulhamento.)

Toda a restante Companhia iniciou o percurso por sueste com o objectivo de contornar Paiai Lemenei, onde se supunha que se acoitassem os guerrilheiros como base para aproximação ao nosso aquartelamento.

Ao 2.º dia à tarde, sem encontrarmos sinais do inimigo, iniciámos o regresso.

Tínhamos tido a preocupação de fazer todo o patrulhamento fora dos trilhos de pé posto, para que a nossa presença não fosse detectada,  o que implicava um maior esforço e atenção redobrada na progressão, orientada quase exclusivamente por bússola, pontos de cota geográficos de referência e linhas de água constantemente referenciadas na carta topográfica.

E é verdade que a nossa presença não foi detectada,v como adiante se verá.

Já no regresso, ao fim do dia, depois de andarmos perdidos no meio da mata, encontrámos finalmente a picada que ligava Dulombi à base de Paiai Lemenei.

Exaustos pela difícil caminhada, mas contentes, foi decidido pararmos para descanso de alguns minutos ficando a cabeça da coluna na picada e o resto da tropa espalhada pelo mato.

Mandei dois soldados afastarem-se para um dos lados da picada e outros dois para o outro lado, vigiando qualquer eventual movimento anómalo.

Reunidos na picada, sentados e conversando, estavamos o Capitão
 [Jerónimo],  [Jorge] Rijo, o  [Paulo] Raposo e eu, isto é, todos os oficiais, para além de alguns furriéis como o Ribas, o Veiga e o Esteves.

E pedi ao furriel Esteves para se posicionar atrás de nós, vigiando a nossa retaguarda.

Nisto, os dois soldados destacados para fazerem a segurança próxima a norte da picada, efectuaram algumas rajadas de G3 e correram ao nosso encontro já debaixo de fogo do inimigo.

Um deles, cujo nome já se me varreu da memória, mas cuja imagem ainda conservo bem nítida, progredia cambaleante agarrado à barriga ensanguentada onde tinha sido atingido.
Felizmente, foi evacuado para Bissau e depois para Lisboa, tendo-se salvo.
 
Percebemos então que uma coluna de guerrilheiros fortemente armada se dirigia em direcção ao Dulombi para executar um ataque ao quartel ao cair da noite.

Tinham sido apanhados de surpresa pela presença inesperada da nossa Companhia naquele local,  ainda afastado do aquartelamento.

Durante mais de meia hora o combate foi violento e percebia-se que os rockets choviam ininterruptos, especialmente na direcção do local onde estávamos porque era dali que irradiavam as vozes de comando.
 
Um dos rockets acertou mesmo em cheio no sitio onde estava o Capitão e os Alferes.

Ao meu lado um estilhaço acertou na cabeça do soldado que estava mesmo ao meu lado e que veio a morrer no próprio local.

Ainda auxiliei no seu transporte durante uns dois quilómetros. O cheiro a sangue no meu braço ainda hoje o sinto quando recordo.

Era o soldado [Lucídio]  Rasinhas [, natural de Resende]… Lá ficou…

Rui Felício (***)

PS - Ainda hoje me lembro do meu corpo ter levantado por efeito do sopro de uma granada de rocket que explodiu na ramagem da árvore ao lado de cujo tronco me protegia, acachapado na terra.

Foi um dos estilhaços dessa forte explosão que atingiu mortalmente a cabeça do soldado Rasinhas que estava a poucos metros de mim.

Ainda tivemos tempo,  um mês depois, de lhe prestarmos uma homenagem póstuma, dando o seu nome ao aeródromo de Galomaro, sede do Batalhão, numa singela placa de betão.

(Foto à direita: Lucídio Rasinhas: foi homenageado na sua terra, Paus, Resende, em 29/4/2023)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26555: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (11): A fome era má conselheira... e apertava mais no tempo das chuvas, em Sangué Cabomba, subsector de Cancolim

(**) A CCAÇ 2405 pertenceu ao BCAÇ 2852 (Bambadincsa, 1968/70), a que esteve adida a minha companhia, CCAÇ 2590/CCAÇ 12, de julho de 1969 a maio de 1970.

Embarque:  24Ju168; desembarque:  a 30Jul68 | Regresso: 16Jun70 (CCaç 2405 em 28Mai70).

 Em 1/7/1969, a CCAÇ 2405 estava colocada em Galomaro , com 1 Pel em Dulombi,  1 Pel em  Samba Cumbera e 1 Pel (-) em Fá.

Mas vejamos o resto do seu historial: a CCaç 2405 seguiu em 30Jul68 para Mansoa, a fim de efectuar o treino operacional até 21Ago68 sob orientação do BCaç 1912 e seguidamente substituíu a CCaç 1686 na sua função de intervenção e reserva do sector, tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Changalana, Cubonge e Inquida, entre outras. 

Deslocou ainda pelotões, por períodos variáveis, para Bissá e Bindoro e participou ainda numa operação realizada na região de Cã Quebo, Morés, esta em reforço temporário do BCaç 2851.

Em 12 e 17Dez68, foi substituída, por fracções, pela CCaç 1685, seguindo para Fá Mandinga e depois para Galomaro, onde assumiu, em 24Dez68, a responsabilidade do respectivo subsector, rendendo a CCaç 2436 e ficando integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão, mantendo, sucessivamente e por períodos variáveis, efectivos seus destacados em Pate Gibel, Campata e Cansamba e depois, em meados de Mar69, em Samba Juli, Dulombi e Samba Cumbera.

Em 28Ju169, passou à dependência operacional do COP 7, mantendo-se em Galomaro e agora com pelotões destacados em Imilo, Cantacunda, Dulo Gengele e Mondajane e depois em Dulo Gengele, Samba Cumbera e Cancolim, de onde saiu após criação do subsector em 07Nov69.

Em 07Nov69, após criação do Sector L5 Galomaro), assumiu a responsabilidade do subsector de Dulombi, também então criado, para onde foi transferida em meados de Dez69, permanecendo um pelotão em Galomaro e passando a integrar o dispositivo e manobra do BCaç 2851.

Em 10Mai70, foi rendida pela CCaç 2700 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

O pessoal ficou conhecido como os "baixinhos de Dulombi". E a sua divisa era: "Perigos Vários".

(***) Esta versão resulta da fusão de 2 textos do autor, publicados na página do Facebook do Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)