
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:
Queridos amigos,
São fotografias avulsas, fruto de situações desirmanadas, recolhidas entre a manhã e o anoitecer, para falar com mais propriedade, entre o alvorecer e a queda do dia. Tomadas como instantâneos de carácter pessoal, como serve de exemplo passar junto de um vendedor de mancarra, caju e cola, ali no Rossio, fixar o olhar naquelas nozes que, pasme-se, até serviram de refrigério para a sede, quando se passava uma noite inteira no planalto de Mato de Cão, viera-se com um cantil de água, estava previsto transitar por ali barcos às oito da noite, passaram afinal com a primeira luz do dia, e de Mato de Cão a Canturé, onde se podiam apanhar as toranjas mais ácidas do mundo, eram 7Km e a língua encarquilhava pelo caminho, era nisto que uma mão amiga me dava um pedaço de noz para mascar, assim se apaziguava a tortura da sede, era impossível não estar ali deleitado com a recordação de coisas vividas há mais de meio século. Há recordações da natureza, há saudades de caminhadas, o leitor que de desculpe com aquilo que eu chamo os acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247):
A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer:
Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão
Mário Beja Santos
As imagens que agora se desfilam cabem perfeitamente na categoria de acasos e descasos, passou-se por ali e o acaso é quando a memória entra em rotação, chega a produzir efeitos retroativos, logo o caso da primeira imagem, saiu-se do metro no Rossio, caminha-se pela Praça D. Pedro IV, são umas centenas de metros até à Sociedade de Geografia de Lisboa, há ali uns bancos, penso que por usucapião, pertença de homens grandes, alguns deles prontos para a venda ambulante, coisas da Guiné de lá vindas, ou coisas cá feitas para guineenses. O olhar fixa-se naquele saco aberto, coração estremece, toca a sineta das lembranças, puxa-se conversa com vendedor, se me dá licença que remexa nas nozes de cola, explico como elas me são familiares, como me ajudaram a matar a sede, mesmo com o seu grau de acidez peculiar, quem estava sentado faz perguntas, onde e quando esteve, já partimos mantenhas, escuso-me de prolongar a conversa, parto com recordações vívidas, dê por onde der, a Guiné vai dos cinco sentidos ao que há dentro da pele. Pois bem, vou justificar-me da razão das imagens que se seguem.
Ponho-me ali pasmado a conversar com a árvore luminosa, nem sei mesmo se aquela luz lá no cimo é a estrela de Belém, o que me deslumbra em toda esta cenografia da luz é o espetáculo das compras que a luminotecnia favorece, por ora anda-se ali em multidão só para desfrute da Baixa iluminada, ponho muitos pontos de interrogação se quem anda a esta hora aqui a passear vem amanhã ao longo do dia participar no frenesim das compras.
Não escondo que sou um aficionado da Feira da Ladra, venho cedo fundamentalmente por causa da compra de livros, mas sempre deitando um olho à variada traquitana. O grande fornecedor dos apetecíveis livros ainda não chegou, avanço para junto do antigo Hospital da Marinha que vai seguramente ser um condomínio de prestígio e apanho em simultâneo as luzes amarelecidas da noite que escapa e daquele céu que clareia na outra banda, com o Tejo de premeio.
Vou depois deambular pelos fascinantes murais opostos ao paredão do Jardim de Santa Clara, gozo com o artifício das luzes amareladas, que não existem na realidade neste monumental azulejar, ali predominam os tons azuis e as cores berrantes, enfim são artifícios só possíveis porque a noite ainda não acabou e o dia ainda não nasceu.
É quase um espetáculo fantástico aqui no Largo de Santa Clara, estão a chegar os vendedores, vão tirar todos os seus trastes das carrinhas e ocupar os espaços demarcados, os agentes da polícia municipal a vigiar os movimentos, mas o que me interessa é a luz esborratada do céu a conjugar-se com aquele amarelo da noite agonizante.
Sou um grande apreciador do artista Jacinto Luís, tenho dele um óleo e uma serigrafia, cativa-me o seu claro-escuro que podem ser edifícios ou até naturezas mortas, e quando me voltei para o Panteão de Santa Engrácia foi instantaneamente a lembrança que me ocorreu, estivesse aqui o Jacinto Luís, certo e seguro de que teríamos tiro e queda para quadro a óleo ou serigrafia.
Estou no terraço do meu casebre no Reguengo Grande, a última freguesia no concelho da Lourinhã já a bordejar o Bombarral, fantasio que vem lá do cimo do mar e tem o oceano a menos de 20Km toda esta Glória dos céus, mais do que o anúncio do fim do dia encho-me de felicidade com esta cavalgada de céu sanguíneo, há para ali uma mensagem em que me convida a amar a vida e a bendizer o dia que fenece e a agradecer a Deus a bênção do dia seguinte.
Desço um caminho escalavrado a partir de minha casa, cumprimento a Susana e o Henrique, depois o casal alemão da casa ao lado, meto-me numa vereda e minutos depois estou em Vale Cornaga, um mundo que me parece perdido, terá tido moinhos, campos lavrados, possui recantos idílicos, e nesta invernia água não falta; todo este caminho é frequentado por pedestres e há quem para aqui traga os seus cães, nos declives houve outrora culturas, agora é tudo abandono e as próprias habitações entraram em derrocada. É um vale que nos mostra o significado da interioridade, a pouco mais de 70Km de Lisboa, a perto de 60Km da vastíssima Loures, uma das dimensões suburbanas da Área Metropolitana. É assim o nosso Portugal desigual.
Toda a Igreja de Nossa Senhora de Fátima é património incomparável que saiu do traço do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro e do génio de Almada Negreiros. Sempre que posso venho contemplar os vitrais de Almada e a harmonia que se respira de todo o conjunto. É inevitável a visita ao batistério, aqui fui batizado em julho de 1945, da comunicação entre Pardal Monteiro e Almada resultou esta efervescência de luz e a transbordante espiritualidade que nos evoca o princípio da caminhada na crença de um amor de Deus que se reparte pelos outros humanos.
Um dia, o meu amigo João Sousa Pires, que foi furriel em Missirá, no Regulado do Cuor, mostrou-me esta imagem, a chegada da água da fonte em bidons para o então horrível balneário, um recinto rodeado de folheta, alguma dela ferrugenta, onde muita gente se golpeou, antes ou depois de se lavar naquela água a cheirar a petróleo ou coisa parecida. O que importa neste momento é ver na caixa da viatura Cido Indjai, militar brioso, caçador exímio, não percebia bem porque é que eu não gostava nem da carne do porco do mato nem da gazela; a caminhar para nenhures vejo em tronco nu Nhaga Macque, primeiro-cabo, fumava cachimbo e tinha as maneiras de um príncipe. Saudades de dois amigos que não voltarei a ver.
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Nota do editor
Último post da série de 7 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)






























