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Um abraço e renovação de votos, extensíveis a toda a Tertúlia, de um 2009 sem problemas de maior.
Em anexo envio uma estória que justifica a posse de relíquias/curiosidades que a meu ver poderão ter interesse especialmente para os Camaradas que andaram ao tempo pelos localidades inscritas e que poderão de certo modo avaliar comparativamente o que o que se dizia na Metrópole e o que era na realidade. E quem sabe, até dar uma risada!
Um adeus e até ao meu regresso
Luis Faria
Curiosidades - Imprensa
Caros Irmãos de Armas da Guiné, permitam-me este devaneio que não quero fira quaisquer susceptibilidades.
Conforme explicado no capítulo 1.º de “Viagens à volta das minhas memórias” fui mobilizado para a Guiné, considerado ainda hoje (?!) o teatro de guerra mais difícil e perigoso àquela época com a excepção eventual do Vietname. E tanto isto era verdadeiro que havia múltiplas solicitações a camaradas que acabavam a comissão, e contratos chorudos para instrução em países Africanos e não só. Também houve muito boa gente que pura e simplesmente (?!) fugiu, é o termo, uns realmente por ideais políticos, outros nem tanto e ainda outros porque foram influenciados e até aliciados por terceiros. E coloco (?!) porque também essa tomada de decisão não deveria ter sido fácil, àqueles tempos, em que Portugal se estendia do Minho a Timor, uno e indivisível, e a noção de Pátria, com a sua Bandeira e o seu Hino, estava muito arreigada no intimo da maioria dos Portugueses e como tal sentia-se que o dever de cada um seria contribuir para a defesa da Pátria, se necessário à custa do seu sangue e da própria vida, como infelizmente a muitos aconteceu. Era assim que eu sentia e ainda hoje ao ouvir o Hino Nacional fico emocionado e o não ver a nossa Bandeira hasteada, praticamente em nenhum sítio, faz-me pensar!
Também tive pressões aliciantes para não ir para a Guiné e fugir , é verdade!
Ao tempo em que estava a formar Companhia no RI 16 – Évora – ofereci o anel de noivado à minha namorada Aida, que ainda hoje é minha Esposa. O Alf. Quintas insistia para que casasse e a levasse para a Guiné, pois ele iria levar a sua, como levou. Nem pensar! E se calhava de ficar estropiado, dependente de terceiros, o que era uma hipótese bem possível? Achava que não era justo poder vir a condicionar-lhe a vida futura e para além disso também iria condicionar emocionalmente a minha prestação na Guiné.
Por seu lado, o meu futuro sogro, Veterano Italiano da guerra na Abissínia, insistia fortemente para que casasse, mandasse a Guiné às malvas e fosse para o Brasil onde tinha negócios, poderia viver bem e sem problemas. Eu rebatia com os meus argumentos, que não conseguia nem queria fazer isso, que não conseguiria viver em paz comigo mesmo se voltasse a cara à defesa do meu País e lá fui dar a minha contribuição, que felizmente não me tirou nem sangue nem a vida. Perdi juventude, isso sim.
Pela Metrópole ficou a noiva e na distância dos dois mundos separados, foram ficando as saudades, as recordações, as fotografias e as cartas que os ligavam, cartas que por querer, nunca referiram nada da guerra em que andava.
O tempo passou, o regresso concretizou-se, o casamento realizou-se, a vida transformou-se e seguiu os seus rumos. Um dia tomo conhecimento de que afinal a nossa Guerra que nunca quis referir, tinha também sido seguida à maneira metropolitana pela minha Noiva, através de dezenas de comunicados das Forças Armadas, publicados nos jornais da época e que a Aida foi compilando, o que me muito me sensibilizou e que me permite hoje, por estarmos no início de um novo ano e por julgar com interesse, enviar à Tabanca três desses comunicados originais, um dos quais é uma espécie de balanço da guerra durante o ano 1970. Dava a ideia que tudo era um mar de rosas.!!!
Um abraço a toda a Tertúlia na esperança de não ter ferido susceptibilidades.
Luís Faria
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Nota de CV:
Vd. último poste da série de 28 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3676: As Nossas Mulheres (3): Um poema da minha Mãe, Leopoldina Duarte (António Paiva)
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