sexta-feira, 28 de julho de 2006

Guiné 63/74 - P1000: A tragédia do Quirafo (Parte IV): Spínola no Saltinho (Paulo Santiago)

Guiné > Zona Leste > Sector da Galomaro > Saltinho > 1972 > Pel Caç Nat 53.

Foto: © Paulo Santiago (2006)



1. Mensagem do Paulo Salgado, de 27 de Juho de 2006:

Luís

Como te disse ontem pelo telemóvel, falei com o Sado. Disse-me para o Jorge Neto o procurar na Direcção Geral das Alfândegas, que ele o encaminhará para o Paulo Malu. Esqueci-me de perguntar se já tinha sido promovido,masa não há problema, o Jorge Neto que procure o Major Sado Baldé , ou possivelmente Tenente Coronel. O meu amigo já sabe o motivo para o encontro com o Malu.

Fiquei muito sensibilizado com a tua Carta Aberta (1). Bem Hajas.

Mando-te uma foto do Pel Caç Nat 53. Atrás de mim [eu, de boina castanha, bigode, ao meio, na primeira fila] , está o Fur Mil Mário Rui [de barbas], tendo ao seu lado direito, com uma bazooka o Bobo Embaló e, do lado esquerdo, o Mamadú Sanhá. Na última fila, à esquerda da foto, com um sumbea na cabeça está o 1º cabo Suleimane Baldé, actual Régulo de Contabane, tendo a seu lado, atrás, o 1º cabo Pina.

Um abraço
Paulo Santiago

PS- O Sousa e Castro é capaz de ter razão quanto ao camarada das transmissões, apanhado à mão. Tenho ideia alguém me ter dito que era do Porto e trabalhar (ou ter trabalhado) no Aeroporto em Pedras Rubras. Não tenho a certeza sobre este assunto.

2. Comentário de L.G.:

Paulo: Ainda não contactei directamente o Jorge Neto que, pela leitura do seu blogue, o Africanidades, está a caminho de Portugal, via norte de África, para passar as suas férias de verão. Mas vou contactá-lo. Se ele puder, no regresso, irá decerto procurar o Sado e fazer uma belíssima entrevista ao comandante Paulo Malu. Faço-lhe daqui já a proposta e o convite.

Como prometido, reservei-te o nº 1000 ao teu IV (e suponho que último) post sobre a tragédia do Quirafo, dos seus antecendentes até à sua consumação. Como eu disse, na carta aberta (1), é a minha pequena homenagem a ti, ao Mário Rui e ao aos demais bravos do teu Pel Caç Nat 53, ao Armandino e aos restantes camaradas da CCAÇ 3490, bem como aos milícias e civis de Madina Bucô que estavam lá, na maldita picada do Quirafo, nessa maldita segunda-feira, 17 de Abril de 1972 e que – muitos deles – não voltaram a casa para contar aos seus filhos e netos o que era uma emboscada nas picadas da Guiné"… (LG)


3. Quarta parte do texto do Paulo Santigao sobre a tragédia do Quirafo (2) :

Segundo alguns sobreviventes, africanos, à explosão seguiu-se o silêncio. Quem não foi atingido, procurou refúgio afastando-se em direcção a Madina Buco, onde entretanto chegara o Unimog, que fizera meia volta aos primeiros disparos e rebentamentos e que terá transmitido através do rádio do destacamento a notícia da emboscada para o Saltinho.

Nessa mesma manhã o Pel Caç Nat 53, comandado pelo Fur Mil Mário Rui, deslocara-se ao Pulom, ao encontro de uma coluna vinda de Galomaro. Esperavam esta, quando começaram a ouvir o tiroteio e os rebentamentos e imaginaram de imediato quem era o alvo.

O Mário Rui já não esperou pela coluna, voltou para trás e em Chumael cortou para Madina, onde encontrou o pessoal do Unimog que dizia, desvairado, ter morrido todo o grupo de pessoas transportado na GMC. Choravam, cada um para seu lado. Do quartel fora pedido apoio aéreo. Dois FIAT passam à vertical de Madina Buco, seguindo rumo ao Quirafo, sobrevoam o local da emboscada, visível para eles, fazem várias passagens, sem largar qualquer bomba, ninguém pode com segurança indicar-lhes onde está o IN, e onde estão as NT.

O Mário Rui, logo secundado por todos os homens do 53, resolve seguir em busca dos possíveis feridos e mortos, no que é acompanhado por alguns milícias que tinham ficado na tabanca. Seguem nas viaturas até ao local onde se encontra a GMC da CCAÇ 3490 (3), seguindo depois apeados a partir deste local. É pedido apoio de heli-canhão, que chega entretanto. Começam a aparecer sobreviventes saídos da mata, quase todos em estado de choque. Falam sem nexo. Avistam, passados alguns minutos, a GMC, ainda fumegante, algumas dezenas de metros à frente. Ninguém correu, apesar de ser essa a vontade, socorrer alguém que necessitasse, redrobando as cautelas.

Aí a uns trinta metros, o Bobo Embaló, que ía na frente, estaca: há terra recentemente remexida na picada, onde normalmente passa um dos rodados das viaturas. Descobre-se uma mina anti-carro, montada após emboscada. Se o Mário Rui tivesse continuado a progressão em cima das viaturas, poderia ter acontecido outra tragédia.

Há um episódio que ninguém gosta de contar, e cada um imaginará como foi: a recolha dos corpos.

Um dos sobreviventes fala no caso do transmissões que viu ser apanhado à mão, e que estaria ferido num braço.Procurando a existência de minas anti-pessoais ou armadilhas,que não encontram, vasculham o local onde o IN esteve emboscado e a mata circundante. Não encontram ninguém ferido ou morto. O homem das transmissões desaparecera e iria ser dado como morto.

Da parte da tarde o comandante de batalhão chegou ao Saltinho, de heli, mandou formar o resto da companhia e disse:
- Apesar da emboscada, a abertura da picada [Quirafo-Foz do Cantoro] vai continuar; não continua amanhã porque as moto-serras ficaram destruídas ; assim que as novas chegarem, continuamos, quando chegarmos à foz do Cantoro colocamos uma placa com o nome dos nossos mortos.

Grande besta criminosa era este anormal! O proveta Lourenço não põe em causa esta barbaridade, tudo o que o Lemos diz é para se cumprir. Ele precisa do Lemos para entrar para a GNR no fim da comissão.

Passados uns oito dez dias, chega logo pela manhã um heli ao Saltinho de onde sai o Castro Lemos [o tenente-coronel, comandante do BCAÇ 3872, sedeado em Galomaro], acompanhado por um militar com duas moto-serras novas. No dia seguinte seria retomada a abertura da picada Quirafo- foz do Cantoro. O Lourenço mais uma vez disse amen.

Acabara de sair o heli com o Lemos, eis outro a aproximar-se para aterrar, era o Spínola, chegado na véspera da metrópole. Entra de chancas com o Lourenço :
- Quem fora o incompetente com a ideia de construir a picada ? Queriam mais mortos ? Queriam minas ?

O capitão desculpa-se com o comandante, mas o Caco pergunta-lhe se não tem cabeça para pensar, se não sabe onde está a população, não conhece a sua zona de acção ? Isto passa-se na parada, para quem quiser ouvir. O Lourenço diz-lhe :
- O nosso comandante quer que continuemos amanhã com a picada.

Aí o General empertiga-se e diz-lhe :
- Será que você não sabe que sou seu comandante ?! Se mexer um dedo para continuar a picada mando um heli com a PM para o prender. Todos os acontecimentos irão ser averiguados através de um auto.

Passou-se uma semana entre esta última cena e a minha chegada. O Lourenço tinha vindo de férias.

O Mário Rui andava sempre agarrado à guitarra. Nunca mais lhe pegou após o 17 de Abril de 1972.


Paulo Santiago
ex Alf Mil do Pel Caç Nat 53
Saltinho (1970/72)

__________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 27 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P995: Carta aberta ao Paulo Santiago: Nenhum relatório militar falava do nosso 'sangue, suor e lágrimas'

(2) Vd. posts anteriores:

23 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P980: A tragédia do Quirafo (Parte I): o capitão-proveta Lourenço (Paulo Santiago)

25 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P986: A tragédia do Quirafo (Parte II): a ida premonitória à foz do Rio Cantoro (Paulo Santiago)


26 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P990: A tragédia do Quirafo (parte III): a fatídica segunda-feira, 17 de Abril de 1972 (Paulo Santiago)


(3) CCAÇ 2406, no original: deve ter sido lapso do Paulo Santiago. A CCAÇ 2406 esteve no Saltinho, entre 1968 e 1970,pertencendo ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca. Na akltrura o Saltinhoa fazia parte do Sector L1. Só mais tarde foi integrado no Sector de Galomaro.

1 comentário:

Anónimo disse...
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