terça-feira, 25 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6465: Tabanca Grande (222): Benvindo Gonçalves, ex-Fur Mil TRMS da CART 6250/72 (Mampatá, 1974)

1. Mensagem de Benvindo Gonçalves, ex-Fur Mil TRMS, CART 6250/72, Mampatá, 1974, com data de 23 de Maio de 2010:

Caros Camaradas!
Como ex-Furriel de Transmissões em rendição individual na Cart 6250, sita em Mampatá, envio alguns dados sobre a minha breve passagem por esta Companhia e por terras da Guiné.

Embarquei no dia 09 de Abril de 1974 na Rocha do Conde de Óbidos, no paquete NIASSA, um dos vários navios que existentes em Portugal e vocacionados à época para o transporte de militares e material de e para as várias colónias onde marcávamos presença.

O dia 9 de Abril de 1974 ficou profundamente marcado na memória de todos os militares que estavam no navio Niassa, na altura encostado no Cais de Alcântara e assim como em todas as pessoas que se encontravam na plataforma ou na varanda da Gare Marítima, a aguardar a partida dos familiares e ou amigos que estava marcada para as 18 horas.

Às 17 horas já o embarque tinha sido efectuado e militares dum lado, familiares e amigos do outro, trocavam gestos e sons muito característicos destas alturas.

Eram 17 horas e 15 minutos, faltando pouco mais de 45 minutos para a partida, e, já só se encontrava colocada uma escada de acesso ao navio, foi solicitada através dos altifalantes a presença de todos os Oficiais, no bar da 1.ª Classe, para a costumeira exaltação do amor à Pátria, desejos de boa missão e o do cumprimento do dever, desta vez a cargo de um Brigadeiro.

Foi uma despedida surreal, passados alguns momentos, ouviu-se um grande estrondo, acompanhado de um balançar do navio, seguido de incêndio a partir do próprio barco, num dos porões que serviam de abrigo e dormitório aos soldados.
Instantaneamente se instalou o pânico, correrias e gritos do interior e exterior, principalmente das inúmeras famílias que se estavam a despedir dos militares e também destes próprios, pois ninguém sabia do que se tratava, se haveria feridos, mortos, ou outros, o que felizmente não se veio a verificar.

Rapidamente saímos para o exterior e deparo com a maior gritaria e situações de pânico, que jamais tinha presenciado.

Tratou-se efectivamente de uma explosão muito violenta num dos porões, que provocou um rombo enorme na estrutura lateral do navio, que consumiu todos os haveres e pertences dos militares que aí haveriam de se acomodar para a viagem, obrigando-os a prosseguir a mesma só com o que tinham no corpo, desencadeando vários problemas dentro do navio durante todo o tempo até à chegada à Guiné.

Todo o navio foi evacuado e só na altura que todos os militares chegaram ao pé dos seus familiares e amigos, é que a situação ficou mais calma.

Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc., mas sempre em situações controladas.

Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.

O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda praticamente total das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.

A explosão verificou-se mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.

Até à meia-noite tivemos de embarcar e daí saímos para reparação para meio do Tejo, debaixo da Ponte Salazar, hoje conhecida como Ponte 25 de Abril ou Ponte sobre o Tejo, onde após 2 (dois) dias ininterruptos de reparação a cargo de operários dos estaleiros navais da Lisnave.



Durante a viagem um pouco atribulada, não só por um dia e uma noite de mau tempo, como também por motivos do foro interno e disciplinar, passaram-se inúmeros episódios de revolta, não só protagonizados pelos soldados que deveriam ter viajado no porão que ardeu, como por alguns prisioneiros (por terem desertado, por motivos políticos ou outros) que iam como castigo também para prestar serviço na Guiné.

Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar, não se dando pela saída da barra em Cascais.

Soubemos posteriormente que se tratou de um dos últimos actos de sabotagem dos grupos que se opunham à guerra colonial, e, que por todos os meios e com a preocupação de não fazerem vítimas, iam chamando a atenção ao Governo e a toda a imprensa mundial, da necessidade de se acabar com a guerra e se entrar na via da Paz e da descolonização.

A Ara vinculada ao PCP, iniciou as acções militares em Outubro de 1970, e, até Agosto de 1972, realizou cerca de doze acções de grande impacto.


2. Comentário de CV:

Caro Gonçalves, bem aparecido na nossa Tabanca onde encontrarás um lugar para te instalares. Poderás contribuir com as tuas histórias e fotografias, fazer comentários, etc. Há muita maneira de participar, assim tenhas disponibilidade.

Não começaste nada mal, com esta narrativa do atentado ao navio Niassa, acontecimento muito marcante na história da ditadura, numa altura em que os movimentos clandestinos contra a guerra colonial tentavam de toda a maneira desencentivar os militares a embarcarem com destino a África.
Contamos também contigo para nos contares as tuas impressões acerca do ambiente vivido no pós-independência da Guiné-Bisssau, particularmente que nos digas como viste as relações entre as NT e as Forças do PAIGC.

Temas não te faltarão para colaborares activamente.

Aqui fica um abraço de boas-vindas da tertúlia para ti que pela certa serás Benvindo (bem-vindo).

CV
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 29 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6278: O Nosso Livro de Visitas (86): Benvindo Gonçalves, ex-Fur Mil da CART 6250, Mampatá, 1974

Vd. último poste da série de 24 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6464: Tabanca Grande (221): Apresenta-se Carlos Guedes, Fur Mil Armas Pesadas / Minas e Armadilhas / COMANDOS, CCAÇ 726/Guileje/1964/66

6 comentários:

mario gualter rodrigues pinto disse...

Caro camarada
Benvindo Gonçalves

Gostaria de te dar as boas vindas á Tabanca, pois és mais um de nós a contar estórias de Mampatá.

Como vez não foi dificil encontrares os teus camaradas pois eles estão bem instalados na nossa Tabanca.

Aguardamos com satisfação e amizade as tuas recordações, pois elas são as nossas também.


Um abraço


Mário Pinto

Anónimo disse...

Caro Benvindo Gonçalves

Que sejas bem-vindo à nossa “Tabanca”.

Também eu fui para a Guiné no N/M Niassa, em 24 de Maio 1969. Fui em rendição individual e era de transmissões.

Um abraço

José Corceiro

Abel disse...

Olá Benvindo
Eu estava no Niassa nesse dia e fui também nessa viagem para a Guiné. Creio que, quase tenho a certeza, que fomos os dois no mesmo avião para Aldeia Formosa - depois eu fui para Nhala e tu para Mampatá.
Um abraço.
Abel Salgueiro
Furriel Miliciano de Infantaria

Marcelino disse...

É também com muito apreço que vejo chegado à Tabanca Grande mais um amigo.
Que te sintas bem Benvindo Gonçalves
LM

Anónimo disse...

Este episódio de sabotagem, relatado por Benvindo Gonçalves, é uma amostra de algo que neste blog, nunca foi muito desenvolvido:

"O divisionismo entre as nossas forças".

Quando, muitas vezes se afirma que com a psico-social provocávamos divisões étnicas e políticas, entre os tribos (e partidos), se olharmos com atenção, foi maior a capacidade de os PAIGC, MAPLA, e FRELIMO, dividirem-nos a nós.

É facil explicar.

Esses movimentos conheciam-nos e estavam no meio de nós, e falavam como nós, e nós não tinhamos essas armas.

Quando na Guiné se diz que Spínola teria conseguido esse feito, o divisionismo, é de pôr muito em dúvida.

Não teriam sido os próprios guineenses a fazer crer, que assim era?

Antº Rosinha

José Manuel Silva Elias disse...

José Manuel Silva Elias.Furriel Milicano 12516673
Eu também fui nessa viagem do Niassa para Bissau. Ia em rendição individual e acabei por ficar em Bissau no Comando Chefe na Amura. A hsitória aqui contada é rigorosa. Tudo se passou exactamente assim. Parte da tropas que seguiam nos porões acabaou por ter de dormir no chão pelos corredores do Navio e no chão dos camarotes dos sargentos em colchões cedidos por estes, uma vez que o cheiro nos porões tornava impossível a permanência naqueles locais.