terça-feira, 5 de abril de 2011

Guiné 63/74 – P8050: Recortes de imprensa (41): Assistência religiosa ao pessoal (açoriano) da CCE 274, 1962/64 (Manuel F. de Almeida/Carlos Cordeiro)

1. O nosso camarada Carlos Cordeiro (ex-combatente em Angola, onde cumpriu a sua comissão como Fur Mil Inf no Centro de Instrução de Comandos, nos anos de 1969/71, professor universitário em Ponta delgada, e irmão do malogrado João Costa Cordeiro, ex-Cap Pára, CCP 123 / BCP 12, Bissalanca, 1972/74), enviou-nos a seguinte mensagem.
Camaradas,
Envio-vos excertos (com devida vénia) de um artigo de Manuel Ferreira de Almeida, publicado no semanário Açoriano Oriental, em 28 de Dezembro de 1963.
O capitão Adérito Augusto Figueira é General na reserva e o Manuel Ferreira de Almeida morreu há alguns anos. O Durval Faria está a organizar um encontro de confraternização da CCE 274 no BII 18, a realizar em 23 do corrente.

Fonte: Diário dos Açores, 4 de Fevereiro de 1964
Em 29 de Julho de 1961, partia de Ponta Delgada com destino a Lisboa, a Companhia de Caçadores Especiais 274, formada no BII 18 e comandada pelo Cap Inf Adérito Augusto Figueira. Depois de cerca de seis meses de instrução no então designado Campo de Instrução Divisionária de Santa Margarida, partiram para a Guiné no paquete “Índia”. Regressaram a Ponta Delgada, no “Lima”, em 3 de Fevereiro de 1964. No Arquivo Histórico Militar não se encontra a história desta Companhia, nem tampouco no BII 18. Nas consultas que tenho vindo a fazer na imprensa açoriana da época sobre as unidades militares mobilizadas pelos Batalhões Independentes de Infantaria 17 (BII 17), de Angra do Heroísmo e 18 (BII 18) de Ponta Delgada, dei com este artigo intitulado “Da Guiné: A assistência religiosa junto dos soldados da C. C. E. n.º 274”, da autoria do sargento Manuel Ferreira de Almeida e publicado no então semanário Açoriano Oriental, em 28 de Dezembro de 1963. Ferreira de Almeida era natural de Ponta Delgada e um colaborador assíduo da imprensa micaelense. Considerando que se trata de um assunto pouco focado no blogue, achei que talvez fosse importante transcrever as partes mais significativas do artigo.

Carlos Cordeiro

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A assistência religiosa junto da Companhia de Caçadores Especiais 274 (CCE 274)
por Ferreira de Almeida
Açoriano Oriental, 28 de Dezembro de 1963.
Um dos problemas de maior importância na vida do militar em serviço nas províncias ultramarinas é o da assistência religiosa, principalmente para aqueles que, encontrando-se destacados no mato, poucas possibilidades têm da presença de um ministro de Cristo. A criação do corpo de capelães nos diversos ramos das Forças Armadas muito veio contribuir para um mais expressivo e eficiente levantamento moral das tropas […].
Principalmente para nós, açorianos, que fomos criados na religião cristã e filhos de ilhas devotadamente consagradas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, muita falta nos fazia não ouvir a palavra de Deus.Desde que chegámos à Guiné temos recebido a assistência do capelão do Batalhão de Caçadores Especiais n.º 356, sr. Alferes Padre Armando Jorge e Silva, que tem acompanhado todas as iniciativas dos soldados marienses e micaelenses na evocação e comemoração das suas festas religiosas, como a dedicada ao Senhor Santo Cristo, em que se realizou na Sé Catedral de Bissau uma missa solene, na Páscoa em que foi ministrada a comunhão aos oficiais, sargentos e praças da Companhia e por ocasião da Festa da Natividade em que foi organizada na sede do Batalhão a Missa do Galo, depois da representação do Auto do Bom Pastor.
Depois da transferência da Companhia para Fulacunda, os nossos soldados construíram no aquartelamento uma modesta capela em cujo altar está a Imagem do Senhor Santo Cristo, trazida de S. Miguel e a de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, oferecida pela Mocidade Portuguesa Feminina da metrópole à Vila de Fulacunda.
O que muito nos sensibilizou também foi a assistência prestada pelo capelão do Batalhão de Caçadores n.º 237, estacionado em Tite, sr. Tenente Padre Joaquim do Rego, natural da freguesia da Bretanha [S. Miguel, Açores] […].
Em virtude das distâncias, dificuldades de transportes e escasso número de capelães, os soldados nem sempre podem contar com a presença do padre, de modo que, na nossa Companhia, se adoptou a seguinte norma: aos domingos e dias santificados, pelas 11 horas, momentos de devoção e leitura da Epístola e do Evangelho pelo sargento Ferreira de Almeida, e todos os dias, pelas 20H30, a recitação do terço, sob a direcção do 1.º cabo n.º 376/61, José Manuel Pimentel de Paiva, natural das Furnas, e que tem sido também o coadjutor dos sacerdotes em todos os actos de culto.
A grande força que nos tem mantido unidos ao longo dos trinta meses que a C. C. E. n.º 274 está constituída tem sido a nossa acrisolada Fé em Deus, as saudades das nossas ilhas e o desejo de erguer bem alto o nome dos Açores e de Portugal.
Ferreira de Almeida
[ Revisão / fixação de texto / selecção: C.C.]
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Nota de M.R.:


4 comentários:

alma disse...

Trata-se do Capitão Figueira que foi Comandante da C.C.S em Bambadinca?

Jorge Cabral

Anónimo disse...

Camarigo Carlos Cordeiro
Muito interessante esta ideia de falar sobre a assistência religiosa que, como sabemos, para os açorianos tem um valor muito especial.
Também já andei pela net, depois de tantas referências no Blog a companhias de açorianos, para saber quantas passaram pela Guiné. Verifiquei então que foram 25: 13 mobilizadas pelo BII17 (Angra do Heroísmo) e 12 pelo BII 18 (Ponta Delgada). E tudo começou na realidade com esta CCaç 274 do BII 18 e a CCaç 273 do BII 17.
É que “cheira-me” que os açorianos, talvez considerados pelas elites militares como “carne-para-canhão”, eram mandados de preferência para a Guiné onde as coisas estavam mais quentes. Mas isto sou eu a pensar…
Abraço grande deste açoriano emigrado nos Algarves e haja saúde, como se diz por aí. Henrique Matos

Anónimo disse...

Caro amigo Carlos Cordeiro,

A (não)assistência religiosa que recebi na Guiné foi muito escassa.
Na verdade foi uma das grandes faltas que senti.

Nos cerca de três meses que estive na Mata dos Madeiros, a CCAç 3327 recebeu três visitas do capelão sediado em Teixeira Pinto.

Nos quatro meses passados em Bassarel não me recordo de nenhuma visita. Pelo menos não fiz nenhuma referência nas cartas que escrevia à minha madrinha de guerra.

No destacamento de São João o jejum também foi semelhante. Estive lá cerca de 10 meses. Lembro-me de uma visita e dela fiz referência nas minhas cartas.

Um abraço amigo,
José Câmara

Anónimo disse...

Caro Jorge,
Desculpa, mas não tenho qualquer elemento que me permita responder à tua questão.

Caro Henrique,
Note-se que depois das 273 e 274 (sempre foram consideradas como "Caçadores Especiais" mesmo nos discursos oficiais aquando do regresso - terão sido das últimas a ter esta designação) e até 1968 só partiu uma Companhia para a Guiné (em 1965), a 1438 do BII 17. O grosso da mobilização dos BII 17 e 18 aconteceu no período de Spínola, entre 1968 e meados de 73 - 19 companhias. Há quem diga - mas, suponho, não há nada de concreto, que Spínola tinha uma certa certa predilecção pelas tropas açorianas. Quanto ao número de companhias, está correcto o que apontas.
Com o agravamento da situação militar em Moçambique passaram a ser mobilizadas companhias e batalhões açorianos para lá. A partir de finais de 68 seguiram 9 CCaç e 4 Batalões (a 3 companhias, sendo certo em três deles, mesmo os especialistas foram formados nos Açores).
Em termos concretos:
Angola:
BII 17 - 23 CCaç
BII 18 - 12 CCaç e 1 BCaç
Guiné:
BII 17 - 13 CCaç
BII 18 - 12 Ccaç
Moçambique:
BII 17 - 4 CCaç
BII 18 - 6 CCaç e 4 BCaç
Em termos de baixas: 228
Angola - 85
Guiné - 62
Moçambique - 81

Estes números dão muito que pensar: é que não são números, são pessoas.

Caro José Câmara,
Imagino que deve ter sido muito difícil para a vossa Companhia não terem assistência religiosa. Mas, pelo que me lembro, vocês chegaram mesmo a fazer uma Procissão de Velas a Nossa Senhora de Fátima.
Tenho também informação fidedigna de que um furriel micaelense (que veio a morrer em combate) todos os dias rezava o Terço em conjunto com a sua secção.

Um abraço amigo,
Carlos Cordeiro