quarta-feira, 8 de maio de 2013

Guiné 63/74 - P11542: In Memoriam (149): Maio de 1973 - Guidaje - Campo da morte para os: 1.º Cabo Mil Bernardo Moreira Castro Neves e Soldado António Júlio Carvalho Redondo do BCAÇ 4512; Fur Mil Arnaldo Marques Bento e Soldado Lassana Calissa da CCAÇ 14 (Manuel Marinho)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Marinho (ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4512, Nema/Farim e Binta, 1972/74), com data de 2 de Maio de 2013:

Caro amigo Carlos
Ao vasculhar os meus papéis encontrei uns escritos que foram enviados a um concurso que o DN lançou em 1997, intitulado: “UMA GUERRA CEM PALAVRAS”.

Destinava-se a todos os ex-combatentes (ou não), que quisessem participar, com textos vividos ou ficcionados.
O regulamento entre outras coisas, impunha que os textos enviados não poderiam exceder as CEM PALAVRAS. Está exactamente como o enviei, se vires interesse em publicar, avança.

Eu na altura procurei que eles tivessem a ver com a realidade vivida por mim na Guiné, mandei três textos, claro que não tive prémio, apenas desabafei, e em cem palavras lembrei um momento complicado da minha vida, ao homenagear um camarada morto ao meu lado, depois só escrevi sobre a guerra quando deparei com o nosso blogue.
Mas este texto na altura tinha, e tem, destinatário, e porque se aproxima a data de 8 e 9 de Maio, resolvi enviar à tua consideração, pretendendo homenagear o meu camarada 1.º Cabo Miliciano Bernardo Moreira Castro Neves da 1.ª C.ª / BCAÇ 4512 que foi um dos primeiros a tombar por Guidaje, com apenas dois meses de comissão, estava a integrar-se muito bem no nosso 1.º GComb.

Faz agora 40 anos que esta emboscada aconteceu, aproveito também para homenagear os outros nossos três camaradas que tombaram nesse dia:
Soldado António Júlio Carvalho Redondo - 3.ª C.ª / BCAÇ 4512 
Fur Mil Arnaldo Marques Bento - CCAÇ 14 
Soldado Lassana Calissa - CCAÇ 14 

Esta foto foi cedida pelo camarada da minha CCaç, Carlos Cotrim, que está na foto, e foi tirada no bar de Nema. O camarada Bernardo Neves é o primeiro a contar da esquerda.

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Texto enviado a concurso 

 A MEDALHA

Avançam de noite tensos e apreensivos, missão – levar mantimentos e armamento ao aquartelamento sitiado. Não conseguirão…

Mobilizado por castigo disciplinar, o Furriel fora integrado recentemente no Grupo de Combate. Tem um pressentimento lúgubre. 
Diz:
- Não sairemos vivos desta. Não voltarei a ver os meus. 

Contempla a medalha estimativa que traz ao peito, aperta-a com força. 
Caem na emboscada nocturna, e breve. A noite é a mais longa da vida. 

Surge a manhã, recomeçam os ataques, o Furriel é atingido com gravidade. Os seus gritos dilaceram os ouvidos. Volta a ser atingido e morre. 

Passado algum tempo, já em terreno minado, são levantados os corpos. 
O Furriel foi reconhecido pela MEDALHA.

Setembro de 1997

Um grande abraço
Manuel Marinho
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Notas do editor

Vd. comentário de Manuel Marinho no poste de 29 DE MAIO DE 2012 > Guiné 63/74 - P9961: Efemérides (96): Guidaje foi há 39 anos: a coluna que rompeu o cerco, em 10 de maio de 1973 (Amílcar Mendes, ex-1º Cabo Cmd, 38ª CCmds, 1972/74)

Último poste da série de 8 DE MAIO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11540: In Memoriam (148): Cândido Perna Tavares, o "República" (1943-2013), CART 730, Bissorã, e Grupo Vampiros, dos Comandos do CTIG, Brá, 1964/66 (João Parreira)

9 comentários:

Torcato Mendonca disse...

Um abração Camarada Marinho.

Ab,T.

Hélder Valério disse...

Caro camarada Manuel Marinho

Estas lembranças/homenagens não são para menosprezar, não são 'lamechas', 'coisas de velhos', são sim a forma como perpetuamos a memória desses camaradas pois enquanto eles forem assim lembrados 'não morrerão' nos nossos corações.

Quanto à narrativa condensada, a tal das 'cem palavras', está com a crueza suficiente para dar o ambiente certo. Assim o saibam 'ver'.

Abraço
Hélder S.

Henrique Cerqueira disse...

Caro Camarada Manuel Marinho.
Na maior parte das vezes quando eram e são ainda lançados concursos de escrita em especial sobre a nossa vivencia na guerra do ultramar,os prémios já tinham destinatário á partida.E mais ainda que na maior parte das vezes esses concursos servem para recolher material para certas editoras se aproveitarem e fazerem uns libritos á borla.
Vai daí em certa altura caí na esparrela e tambem nunca mais escrevi nada para lado algum.Até que fui conhecendo o nosso blogue e vou partecipando com uma escrita aqui outra ali,porque sei e confio no espirito do blogue.
Manuel Marinho parabens pela tua homenagem aos teus camaradas mortos.
Um abraço
Henrique Cerqueira

Luís Graça disse...

Manuel Marinho, fiquei sensiblizado por te lembrares, 40 anos depois, sos teus camaradas mortos da estrada da morte de Guidaje... 100 palavras! LG

Luís Graça disse...

100 PALAVRAS!

Guidaje, Guileje, Gadamael... foram há 40 anos!... Está tudo dito ? Não, os nossos dossiês continuam abertos... Escritos, fotos e outros documentos aceitam-se para publicação no nosso blogue... Para que as novas gerações não encolham os ombros quando lhes perguntarem por Guidaje, Guileje, Gadamael...

Manuel Sousa disse...

Um abraço ao Manuel Marinho.
Como eu percebo e sinto o seu relato das cem palavras!!!
Nos dias imediatos a este episódio, tive também a desdita de, a caminho de Guidage, na zona de Genicó, sentir o cheiro a morte e a pólvora queimada entre a espessa mata.
Contudo, tive a sorte de voltar!!!

ALBINO CALDAS disse...

Pois camaradas é com muito gosto que consulto estas lembranças: pertenci á C.3518 Marados GADAMAEL, que passamos por GADAMAEL, GUILEJE E GUIDAGE, onde ficaram 4 camaradas enterrados 2 dos quais já regressaram para a suas terras,2 por lá ficaram, bem só poderei dizer PAZ ÁS SUAS ALMAS, E QUE DEUS OS TENHAM EM BOM LUGAR AMEN.

Anónimo disse...

Caro Manuel Marinho,

Com apenas 100 palavras conseguistes descrever um mundo de dor, companheirismo e recordação.

Esse teu mundo, também ele parte do universo dos ex. combatentes, muitas vezes incompreendido, maltratado e enxovalhado, é uma bela página da nossa história, enquanto combatentes na guerra do Ultramar.

Fizestes a tua parte.

Saibamos todos nós passar a nossa história aos futuros porta-estandartes da mesma: os nossos filhos e netos.

Abraço,
José Câmara

Pedro Castro Neves disse...
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