quarta-feira, 19 de março de 2014

Guiné 63/74 - P12854: Memórias de um Lacrau (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70) (Parte IX): Canquelifá era uma tabanca bonita, com grandes árvores frondosas e população de gente muito alta, panjadincas, muçulmanos


~








Guiné > Zona leste > Região de Piche > Setor de Piche > Canquelifá > > Março de 1974 > A desolação da guerra... A tabanca, depois do violento ataque do PAIGC com morteiros 120 e foguetões 122, durante 4 horas, em 18 de março de 1974 (*)...


Fotos: © Jacinto Cristina (2010). Todos os direitos reservados. [Edição:  L.G.]


1. Continuação da publicação das Memórias de um Lacrau (**) ... Resposta, com data de 16 do corrnte, do Valdemar Queiros à pergunta sobre a origem do cognome "Lacraus": ~


[, foto à esquerda, Valdemar Queiroz, ex-fur mil CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70]. 


Boa noite, Luís Graça

Nós, da CART 2479,  "Poucos quanto fortes", somos "Lacraus"  por que quando chegámos à Guiné e, depois, em Brá, em tendas de campanha, fomos surpreendidos com aracnídeos venenosos, mas sem nos assustarmos ficámos com as primeiras recordações da Guiné e dos lacraus, mas sempre com aquela:  

"Quando abrires o teu armário das surpresas imprevistas, não desistas, não desistas... E se encontrares dentro dele farrapos velhos, desdenhados, desbotados, não desistas. E se vires viscosa aranha com peçonha no seu ventre,  olha pra ela de frente que  ela passa sem tocar -te".... (Nnão me recordo, mas julgo que isto foi dito, pelo Renato Monteiro, em Contuboel),

E, em Contuboel, voltamos a ter várias visitas de lacraus. Quando formamos a CART 11 resolvemos chamarmo.-nos "Os Lacraus" ((Nada tem a ver com as viaturas destinadas a provocar a explosão de minas nas vias de comunicação,)

O meu 4º.Pelotão foi para Canquelifá reforçar a guarnição lá existente, após um grande ataque à povoação. Já lá estava outro  Pelotão da nossa CART 11. Tinha havia um grande ataque a Canquelifá, com grande grande utilização de morteiros e tentativa de assalto do IN à povoação. Mas Canquelifá só tremeu, com as morteiradas à nossa messe e a algumas casas mais centrais, mas aguentou o assalto e escorraçou o IN, que tentou ultrapassar o cavalo de frisa, na entrada. 

O 1º.Cabo Paiva, da nossa CART11, sofreu um ferimento no peito, esquisito. Um sopro de rebentamento que lhe abriu o peito sem qualquer vestígio de estilhaço.

Sairmos de Nova Lamego, Dare, Piche, Dunane e chegar 
a Canquelifá não era "pera doce". . Sempre acompanhados com escoltas e picagens. Mas chegar a Canquelifá era refrescante, na entrada da povoação havia um grande cartaz, com uns desenhos alusivos:

"BEM-VINDOS ÀS TERMAS DE CANQUELIFÁ"...

E era certo, Canquelifá ficava num pequeno planalto bem mais fresco que lá em baixo,  o do Gabu, mas havia à entrada da povoação um cavalo de frisa e sentinela que assustava. 

 Canquelifá era uma tabanca bonita, com grandes árvores frondosas e população de gente muito alta,  panjadincas (muçulmanos). Assisti lá ao final do Ramadão, com os festejos de batuques, lutas-livres, etc.

Não me recordo, ao certo, mas julgo chegou a ser a nível de três (?) Pelotões, sei que lá chegou a estar o Cap  Analido Pinto, da nossa CART 11.

Fomos visitados pelo Spínola, que enalteceu os nossos soldados, a falar para a povoação:  "Eestes homens são pescadores da Nazaré,  são pastores da Covilhã,  esta terra não é deles, é vossa. Vocês têm que defender esta terra e esta bandeira A Bandeira de Portugal.". (Isto devere ter sido em Fev/Mar.1970, em Canquelifá,  cercada de arame farpado que tinha sido bombardeada)

Um abraço
Queiroz

________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 15 de dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7438: Álbum fotográfico de Jacinto Cristina, o padeiro da Ponte Caium, 3º Gr Comb da CCAÇ 3546, 1972/74 (5): Canquelifá, a ferro e fogo, 18 de Março de 1974

8 comentários:

Luís Graça disse...

Obrigado, Valdemar, pela tua explicaçção sobre a origem dos Lacraus (“nickname” ou alcunha da CART 11)...

Seria um exercício interessante inventariar o nosso "bestiário da guerra", ou seja, os nomes de animais (ferozes, agressivos, predadores, perigosos, malignos, astutos., destemidos, corajosos, implacáveis..) com que alcunhávamos as nossas companhia e pelotões no TO da Guiné...

Assim de repente, e para além, dos Lacraus, vêm-me à memória os Leões Negros (CCAÇ 13, Bissorã), os Tigres do Cumbijã (CCAV 8351, Cumbijã), as Onças Negras (CCAÇ 5, Bedanda), os Deixós Poisar (CCAÇ 3549, Fajonquito), os Jagudis (Pelotão do A. Marques Lopes, na CCAÇ 3), os Gatos Pretos (CCAÇ 5, Canjadude), as Panteras não sei quantas,,, E se calhar os Jacarés de não sei de onde…

Enfim, alguém que complete o resto...

PS1 - Ninguém se quis chamar "Ursinho de Peluche", por exemplo... Éramos todos feros guerreiros...

PS3- Outras companhias inspiravam-se na nossa história e nos nossos maiores: Os Palmeirins (CCAÇ 728, Catió), Os Viriatos (CART 2339, Nansambo)

Luís Graça disse...

... Já os "velhos comandos de Brá", de 1965/66, do tempo do Maurício Saraiva, Mário Dias, Virgínio Briote, João Parreira, Luís Rainha, Júlio Abreu e outros, tinham alcunhas, cada grupo, "sui generis", inspiradas possivelmente na "banda desenhada" da época: Diabólicos, Fantasmas, Vampiros, Apaches, etc.
´
Talvez o nosso editor jubilado, Virgínio Briote, possa falar sobre esta matéria: como surgirem estes nomes, quais as fontes inspiradoras, etc.

Luís Graça disse...

Panjadinca... Não encontro no dicionário este vocábulo... Será crioulo ? Designa alguma minoria étnica ou um subgrupo dentro do povo fula ?

De qualquer modo, eu nunca ouvido falar dos "panjadincas de Canquelifá"...

Anónimo disse...

Jose Manuel Matos Dinis
19 mar 2014 18:09

Karíssimos,

Lá longe, no leste da Guiné, ouvi referências a uma raça de pequena expressão, os "panjadincas", talvez ramos emigrados entre os fulas, que me referiram encontrar-se em Canquelifá. Lembro-me da designação da raça, mas não sei situar a região que habitavam, nem sobre costumes, fisiologia, etc, só recordo a existência da raça.

Agora vieram questionar-me sobre alguma possível ajuda, que não sei completar. Será que algum (ou todos) dos meus ilustres amigos tem conhecimento mais detalhado, e paciência para me esclarecer sobre os ditos cujos "panjadincas"?

Agradeço antecipadamente, mesmo para os que me digam não identificar tal termo.

Abraços fraternos

JD

Anónimo disse...

Caro Luís Graça

Só uma correcção ao teu comentário supra:

ONÇAS NEGRAS (CCAÇ 6 - Bedanda)

e não Ccaç 5 como indicado.

Um abraço para ti, extensivo a todos os camaradas.

José Vermelho

Luís Graça disse...

Tens razão, Zé Vermelho, as "Onças Negras" eram a CCAÇ 6 (Bedanda), por onde tu passaste e muitos outros nossos camaradas e amigos bedandenss...

A CCAÇ 5, "Gatos Pretos", é de Canjadude... Por ela passaram o Zé Martins, o Z´«e Corceiro, o João Carvalho...


A minha CCAÇ 12 também teve,, em data posterior à minha comissão de serviço (fui um dos "pais-fundadores", em 1961/71) um nome de guerra qualquer, relacioando com a fauna local... Já o vi escrito algures, mas nãoo me lembro...

O mesmo se passa com o Pel Caç Nat 52, o Pel Calç Nata 63...

Para os nossos camaraadas guineenses era mais fácil adotar um "aninmal de estimação" local ("Jagudis", por ex.) do que ter, no "nick name", referência a um grande da nossa história, por exemplo, o "capitão diabo" (Teixeira Pinto) ou o Mouzinho de Albuquerque ou Viriato ou os Palmeirins ou o Camões... que não lhe diziam nada...

Anónimo disse...

Valdemar Silva
20 de março de 2014 00:56

Boa Noite, Luis Graça

Naquele tempo, eu, também, nunca tinha ouvido falar da etnia panjadinca, só quando cheguei a Canquelifá.

Sabia dos fulas, futa-fulas, balantas, bijagós, manjacos, felupes, biafadas, mandingas, papeis, mas de panjadincas não.

Julgo se tratar de um pequeno grupo/mancha da região de Canquelifá, Copá e Dingas, tudo na mesma zona, talvez com
ramificação do Senegal.

Na nossa Tabanca Grande de 12SET2007, P2100 - A Politica de Guiné Melhor: os reordenamentos das populações (1) (A. Marques Lopes/ António Pimentel) aparece no texto referência às várias etnias, e entre elas a panjadinca.

Um abraço
Queiroz

Luís Graça disse...

Aqui vai a citação:


)...) PANORAMA DOS PRINCIPAIS GRUPOS ÉTNICOS (p. 2-3)

(...) 1. Podemos considerar que existem dois grandes grupos humanos na Guiné: islamizados e animistas. No primeiro grupo incluiremos os Fulas, Mandingas, Beafadas, Saracolés, Sossos e Panjadincas e no segundo, Balantas, Manjacos, Papeis, Felupes, Baiotes, Brames, Banhua e Bijagós. (...)


12 DE SETEMBRO DE 2007

Guiné 63/74 - P2100: A Política da Guiné Melhor: os reordenamentos das populações (1) (A. Marques Lopes / António Pimentel)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/09/poltica-da-guin-melhor-os.html