terça-feira, 9 de junho de 2015

Guiné 63/74 - P14720: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (7): Levantar minas. Ponte interrompida

1. Em mensagem do dia 31 de Maio de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 7.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74

7 - LEVANTAR MINAS. PONTE INTERROMPIDA

5 de Maio de 1973 (sábado)

É a primeira grande saída do meu grupo de combate (GC) para o mato, em sobreposição com um GC da Companhia que viemos render. Ao todo somos cerca de 60 homens. Vamos fazer um levantamento de minas antipessoais (A/P) num troço do carreiro turra de Uane. Para o interceptar, saímos por trilhos e a corta-mato, como se fôssemos para o rio Corubal, lá muito longe.
Os “velhinhos” parecem confiantes, mas são pouco faladores, como já tinha notado antes. Se eu tiver dúvidas em relação à progressão ou relacionadas com o campo de minas, já sei que terei de estar sempre a perguntar e esperar respostas curtas. Mas esta operação para mim é muito importante, porque depois de eles levantarem as minas que lá haviam instalado, terei de ser eu a voltar lá, só com o meu GC, e instalar as minhas.
[Hoje não entendo porque ficou a zona desminada até eu voltar lá de propósito para voltar a minar].

Depois de chegados à zona minada, o pessoal ficou na orla da mata à distância e os especialistas, eu incluído, dirigimo-nos para o campo aberto onde passa o carreiro, a fim de o localizar. Croquis nas mãos, procurando referências no terreno e picando sempre, chegámos ao carreiro e às minas. Não tendo anotado na altura, não recordo quantas eram mas sim que nenhuma tinha sido accionada e que todas foram levantadas sem problemas, embora com alguma demora devido às questões de segurança a respeitar. Fiquei com a impressão de que a implantação era demasiado óbvia, e tinha deixado alternativas aos turras para as evitarem. É uma lição a colher. Aproveitámos para trocar impressões sobre os problemas relacionados com a época do ano em que se implantam as minas e se fazem os croquis, para não haver grandes surpresas se as formos levantar numa época diferente. (...).

O que mais me agradou nesta operação, e porque não estava a contar, foi termos saído dali em direcção ao rio Corubal e não de volta ao aquartelamento, como era suposto. Foram mais uns 13 quilómetros por mata cerrada que ia mudando de características à medida que nos aproximávamos do rio, cada vez mais bela e luxuriante. Sem querer abusar de efusões líricas, anoto que era assim a África do meu imaginário. Muito diferente da mata grotesca e irregular, intercalada de savana árida, que já conheço. Caminho com entusiasmo, esquecido de fadigas, e tento absorver aquela beleza e a paz que transmite, só perturbada pelo latir, ao longe, dos macacos cães, segundo me informaram porque, com ingenuidade, tinha perguntado se morava para ali alguém..., e os latidos parecem de cães a sério.

Rio Corubal e ponte interrompida. 
Imagem retirada da Google Earth, tal como as duas seguintes, com a devida vénia.

Saímos da mata e deparámo-nos com um terreiro magnífico. Na nossa frente, ainda meio oculta, a surpresa que nos tinham prometido à saída do campo de minas: A PONTE INTERROMPIDA!
[Só muitos anos depois saberia o seu verdadeiro nome: Ponte Marechal Carmona. E, apesar de tantos anos decorridos, ainda hoje lamento não ter podido fotografar tudo o que vi ].

Entramos no tabuleiro da ponte e quase me emociono: tão longe de tudo, perdida no meio do mato, ali está uma obra portentosa e bela, a provar que naquele sítio remoto, houve gente a construí-la, houve gente a passá-la de uma margem para a outra do enorme rio.

Ponte interrompida e troço do tabuleiro que eu explorei.

Fico sempre impressionado quando, no meio do nada, encontro um vestígio da obra humana ainda que já inútil, como é o caso desta. Caminho ao longo deste troço da ponte atento ao estado de conservação, ainda razoável, do piso e das guardas laterais, até ficar perante o corte do tabuleiro onde a ponte é interrompida. Em baixo, o Corubal corre manso, como uma massa mole e negra que impressiona. A mata, nas duas margens, entra pelo rio dentro. Não se vislumbram pontos de penetração nas margens que indiciem travessias mas, dada a largura enorme do rio, não há certezas.

Pergunto aos graduados dos “velhinhos” quem cortou a ponte, mas não sabem dizer: «Diz-se que foram os sapadores da NT para impedir a passagem dos turras, mas também se diz que foram os turras para nos impedir a ligação entre Aldeia Formosa e o Xitole, Bambadinca, etc.». A hipótese de derrocada não é referida e, de facto, os cortes no tabuleiro parecem perfeitos demais para terem origem numa derrocada. Mas também é certo que se houvesse derrocada de pegões e o tabuleiro quebrasse pelas juntas, o corte pareceria perfeito. Ficará sempre a dúvida.

Ponte interrompida numa imagem Google Eart recente (2015), onde é visível um novo corte do tabuleiro, próximo da margem oposta. É por demais evidente que se trata de uma derrocada actual. Donde, apesar da longa separação temporal entre o primeiro corte e este, é de admitir que, afinal, a ponte ruiu simplesmente.

Chegamos a Nhala já tarde e exaustos. Para primeira saída para o mato, foi uma caminhada dura. Durante a formatura da ordem para verificações de segurança, antes do merecido descanso, tenho um dissabor com o meu GC que me deixou furioso. Os soldados andaram todo o dia carregados com as granadas de morteiro às costas e não levaram o respectivo tubo. Em caso de necessidade, apenas poderíamos municiar o pelotão “velhinho”! Como foi possível? Os furriéis não souberam responder, mas eram responsáveis por secções de homens e armamento. Certo é que o principal responsável fui eu. Mas o que mais me enfureceu foi ninguém me ter dito nada, a ver se passava, pois não acredito que ao longo de todo o dia não se tivessem apercebido da falha. Como lição valeu, e fica registada. Terei de estar mais vigilante.

(Ao transcrever notas como estas, bagatelas com mais de 40 anos, interrogo-me amiúde: que interesse tem tudo isto? E interessa a quem? Mas depois penso que é engraçado rever estas vivências com os olhos e o senso de quem já passou a barreira dos 60 anos. Éramos quase adolescentes, embora muitos com grandes responsabilidades. E pode ser que venha a ter ainda mais interesse para os meus descendentes. Sim, porque embora eu publique tudo isto no nosso Blogue, quiçá enfastiando os meus queridos camaradas, a razão última destas transcrições, (adiadas de ano para ano), é constituir uma espécie de espólio diarístico – não sei se lhe poderia chamar “diário” – a que juntarei as minhas fotografias, para os meus descendentes saberem algo mais desta fase da minha vida. Que nunca interessou à minha filha nem à restante família, nem aos amigos).

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14691: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (6): Chegada a Nhala

3 comentários:

Anónimo disse...


Caro Murta:


(..quiçá enfastiando os meus queridos camaradas...) Dizes tu a dado passo da tua narração. Quem se pode enfastiar com um texto tão fiel, tão sincero, tão elucidativo das páginas da tua guerra ? Ninguém. Está ali, naquela cena do esquecimento do morteiro, algo que terá ocorrido noutras companhias, com incidência nos primeiros dias de comissão. Pouco tempo de preparação da nossa tropa ? Muita juventude a mandar em juventude, uma tropa muita miliciana?
O que interessa é que escrevas a verdade ou que te preocupes com a verdade, sem vedetismo, como tens feito desde o princípio. Obrigado pela tua participação, das melhores que têm passado por aqui.
Um abração
Carvalho de Mampatá.

José Carlos Gabriel disse...

Amigo António Murta.
Mais uma das tuas memórias que não tinha conhecimento. Nessa altura ainda me encontrava no QG em Bissau á espera de ser enviado para Nhala. Do rio Corubal ouvi falar várias vezes. Agora e em jeito de resposta ao teu último parágrafo as tuas memórias assim como as de tantos outros camaradas se não interessam a muitos pelo menos interessam a alguns e eu estou incluído neste último lote. Quanto ao interesse destas memórias para os nossos filhos e netos isso é outra questão. Felizmente que a guerra acabou e com o seu fim as memórias sobre a mesma só ficará para aqueles que a viveram e enquanto viverem. Ainda hoje é difícil a muita gente entender o que na verdade as nossas tropas por lá passaram. No entanto tenho em mim a ideia que se ficar algo escrito para os nossos descendentes chegará o dia em que eles mesmo sendo por acidente irão tropeçar nesses escritos e ai irão recordar que nós até tivemos numa guerra. Por isso acho que deves de continuar a escrever as tuas memórias.
Um abraço amigo.

José Carlos Gabriel

António Murta disse...

Ao Carvalho de Mampatá e ao José Carlos Gabriel, agradeço as amáveis palavras.
Aproximam-se páginas mais sofridas e duras do meu diário, ainda hoje difíceis de rever. Vamos a ver se arranjo força para isso e para enfrentar a impertinência de alguns comentários.

Um abraço fraterno,
A. Murta.