quinta-feira, 2 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14827: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (III Parte): Morreu-me um gajo ontem

1. III Parte de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 27 de Junho de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489 (Cuntima), e Comando do 2.º curso de Comandos do CTIG (Brá), CMDT do Grupo Diabólicos (1965/67).


GUINÉ, IR E VOLTAR - III

Morreu-me um gajo ontem

Dói-te um dente, aonde, ora deixa ver.
Nada que eu possa fazer aqui, vocês pensam que vêm para aqui tratar os dentes, mal vai a guerra quando já mandam pessoal com defeito, rosnou o doutor. Só em Farim! Quando for dia de dentista, sei lá quando!
Dias depois, sentado debaixo de um enorme poilão1, em Farim, à espera da vez, o cabo enfermeiro percorria a fila dos sofredores, picando este e aquele enquanto o médico dentista, mais atrás, ia arrancando os dentes. Quando chegou a vez dele, o dentista de alicate na mão mandou-o abrir mais a boca. Dói-lhe aqui, é? Grande abcesso! Não posso fazer isto aqui, só em Bissau. E tem que tomar um antibiótico, primeiro.

Em Bissau outra vez, com menos um dente, à porta da 1.ª Rep, no QG, esperava pela guia de marcha de regresso a Farim.
Nisto, vê um jeep estacionar com estardalhaço, pó no ar, dois tipos a saltarem, um alferes e um tenente com um saco de serapilheira na mão, escadas acima. Farda de terylene amarela, lenços no pescoço, “comandos” nos ombros, no jeep também.
Então estes é que são os “comandos”!
Minutos depois vê-os descer, sorridentes.
Eu sou do BCav 490, da CCav 489, apresenta-se. Uma informação. Comandos, que tropa é a vossa, que tipo de trabalho fazem?
O que quer saber, camarada? Pormenores? Quer mesmo saber? Quer subir?
E subiu, para o banco de trás, curvado para a frente, a ouvir as respostas. Golpes de mão, guia, turra de preferência, é só o que precisamos. Operações curtas, surpresa, bater e fugir, castigá-los nas costas, fazer a guerra deles, mas melhor que eles, claro. Regressar a Bissau, dormir, banho, um frango assado no Fonseca, uma gaja boa e um banho a seguir. Que a guerra tem que ser limpa, não é?
Quer concorrer? Convém que se decida depressa, ainda ontem morreu-nos um gajo, o curso começa para o mês que vem, temos 4 vagas para comandantes de grupo e ainda só temos 9 inscritos já aprovados.
Na formação vai sempre alguém abaixo, temos que ter mais pessoal no curso. Decida-se, tem as provas de selecção para fazer, físicas e psíquicas. Psíquicas é conversa com o psiquiatra do Hospital, blá-blá, claro.
Material sempre às costas, mil metros, 20 flexões de braços, 20 suspensões da barra, 100 metros velocidade, abdominais, cangurus, provas de tiro, tudo seguido sem intervalos, que mais pá, coisas assim, vamos a isso?
Vai pensar? Interessa-nos. Porquê? Porque pensa! Pensar é também uma forma de selecção, desde que não pense demais, claro. Encontramo-nos então amanhã em Brá, 9 horas é uma hora boa.

Flexões, abdominais, 100 metros em ziguezague, elevações na barra, 4 metros de corda a pulso, salto a pés juntos em altura e em comprimento, tiro instintivo contra latas e garrafas de cerveja, vazias é claro, está quase tudo, falta pouco.
Uns minutos para respirar, já só faltam os 1000 metros, mais um pequeno esforço, meu alferes, disse o Moita, o furriel instrutor.
Como contamos a distância? Fácil, o meu alferes corre, nós vamos atrás no jeep a dar-lhe gás, quando passar 1 quilómetro no conta-quilómetros, corta a meta. Menos de 4 minutos, ganha uma cerveja, menos de 3 minutos e meio uma grade, menos de 1 minuto a fábrica, que tal? Nos comandos é assim, o Moita e o Miranda, bem dispostos, à gargalhada.
Não, não me recordo, estou aqui desde a abertura do Centro de Instrução, nunca ninguém ganhou a grade, que me lembre, pois não ó Miranda?
Pois então preparem-se. A correr por ali fora, para os lados do aeroporto, a força do calor na estrada, botas a colarem-se ao alcatrão, 1, 2, 3 quilómetros, sabia lá!
Então quantos metros ainda faltam para o quilómetro? Quantos faltam não sei, o conta-quilómetros não funciona!
Sentado na berma da estrada, esforçava-se por manter os pulmões dentro da caixa. Ainda não foi desta vez que alguém conseguiu ganhar a grade.
De regresso a Brá, apresentado ao Major Correia Dinis2, respondeu a algumas perguntas e assinou os papéis que lhe puseram à frente dos olhos. Almoçou lá, passou o resto do dia com eles e à noite, largaram-no na Amura, mais morto que vivo.

Na outra manhã quando tomava o café na messe da Amura, o subalterno de dia da PM sentou-se na mesa dele.
Eh, pá, grande guerreiro, coisa e tal. O alferes já sabia, os tambores tinham sido mais rápidos que ele. Porquê os comandos, o PM curioso. Dentro de 3 ou 4 meses o 490 vem para Bissau, o Cavaleiro vai colocar o pessoal no ar condicionado, a aguardar, tranquilo, os meses que faltam. Porquê os comandos, pá?
Difícil explicar. Nem ele sabia bem porquê. Também não tinha muito tempo para conversas, o jipe para o aeroporto estava à espera.
Ao princípio da tarde estava em Cuntima.

Casa que servia de messe e de bar

Encontraram-se todos na pista e foram até ao bar, para a sombra, beber uma cerveja, gozar a calmaria do resto da tarde. Meia hora depois, talvez, uma explosão forte, para os lados da estrada para Jumbembem, interrompeu as conversas, parou tudo, ficou o silêncio.
Foi para os lados de Jumbembem, não foi?
Um macaco que pisou uma anti-pessoal, se calhar, diz o Didi.
Ou uma mina numa viatura, arrisca outro. É melhor alguém sair e ir ver o que se passou.
Lá estás tu, pá, para quê, a esta hora, não tarda é noite!

De Colina do Norte (Cuntima) a Farim com Jumbembem a meio do percurso

Uma coluna que vinha de Farim, uma mina numa Daimler3 ou numa Fox, aqui perto, na estrada de Jumbembem para aqui, perto da curva da morte, parece que há feridos, o capitão a correr para eles, aos berros, não sei se devemos ir ao encontro, ou se será melhor esperar por mais informações.
Depressa, uma coluna para lá, ao encontro deles, antes que seja noite, meu capitão, um logo.
Melhor esperar, arrancar já, porquê? Sabemos lá o que se está a passar, insiste outro.
É pá, não podemos ficar aqui a ver passar os comboios, o rebentamento foi aqui perto, temos que ir ver o que se passa, prestar auxílio.
Depois de alguma hesitação, o capitão decide-se, arranque com o seu pelotão.
Cuidado, tenha atenção, nada de loucuras por aí fora, sempre a abrir, ouviu?
Pique a estrada. Tome-me conta desta rapaziada, falta-lhes pouco tempo! Conte com uma emboscada no caminho, talvez até uma mina, está a ouvir?
Bem pensado, a mina na auto-metralhadora, a viatura destruída, a maralha embrulhada com os feridos à espera de socorros, estes a irem em socorro, de Cuntima no caso, outra mina à espera destes na picada e uma emboscada, é, se for assim é bem pensado.

Pessoal da CCav 489, apeado na tal curva da picada para Jumbembem

Cuidados redobrados, picadores à frente, todo o pessoal a pé, as viaturas cheias de sacos de areia só com os motoristas, demoraram quase duas horas a encontrarem a coluna. Lixados com tamanho atraso, receberam-nos como se estivessem a vê-los regressar da praia.
Até que enfim, porra! Se não fosse a malta de Jumbembem, os feridos já tinham morrido, que caraças!
Realmente, Jumbembem também estava próximo, mas compreende-se o desespero do comandante da coluna.
Esta estava em marcha para Cuntima, sem conhecimento do comandante da companhia e, veio-se a saber depois, escoltava um grupo de comandos4 chefiado pelo sargento Mário Dias que naquela noite iria executar um golpe de mão a um acampamento da guerrilha na área da companhia lá aquartelada.

O Tenente-Coronel Cavaleiro é que não tinha achado graça nenhuma, mandou um rádio ao capitão, a exigir explicações. A coluna ficara imobilizada, pedira apoio a Cuntima e Jumbembem, porque é que a sua companhia só chegou quase duas horas depois da ocorrência? Explique-se, estou no posto de rádio à espera da sua resposta.
Que fora só o tempo de preparar um pelotão, mais o tempo da deslocação, as precauções que exigira do comandante do pelotão, até nem fora demasiado.
Com o copo a deitar por fora há muito, o Comandante do Batalhão deve ter dito borda fora com o tipo, é agora que o vou mandar pregar para outra freguesia.
Foi o que fez, um auto de averiguações, corpo de delito a seguir, uns dias de prisão. Que tomasse a Dornier para o QG, que este, certamente, lhe arranjaria um destino mais conveniente.
O capitão, desesperado, bem se defendeu por escrito, meteu como testemunha o alferes que foi socorrer a coluna, mas de nada valeu a solidariedade deste.
A demora podia ter sido menor, se pusesse as viaturas a esgalhar. No caso, não deu por qualquer perda de tempo, não se puseram a jogar as cartas, tinham percorrido a estrada com cuidado, mas nada de excessivo.

Na noite da mina, depois do jantar, a saída de mais um alferes foi assunto de conversa. Com uma garrafa de uísque em cima da mesa, cada um falou, do mais novo ao mais antigo. Esta companhia anda com galo até com os alferes, mas anda mesmo! Um ferido com mina, outro evacuado por doença grave, agora este gajo que chegou há meia dúzia de meses está de saída para os comandos!
Desaprovo totalmente, protesto contra esse pessoal! Vi-os no Como, uns tipos horríveis, sem maneiras de lidar com as pessoas, quanto mais com a população! Só querem saber da guerra, como dar tiro no coitado do negrão, mais nada! Vou-me retirar, chau, o Didi.
Até ao nosso regresso a Bissau, despediram-se oficialmente, digamos assim.
O Tenente-Coronel Cavaleiro não gostava, nem dos atrasos dos outros nem dos dele. Na primeira oportunidade, mandou preparar uma coluna e pôs-se à frente, rumo a Cuntima.
Mal viu o alferes por perto chamou-o. O alferes está cá há quanto tempo, pouco, não é? Não teve ainda tempo de reparar que não tinha um comandante, mas apenas um capitão? E assinou por baixo?

Passou uns dias à espera que o Coronel desse o ok à sua saída, o que aconteceu logo após a chegada do novo Comandante da CCav 489, um capitão miliciano, pele muito branca, suor a escorrer cara abaixo. 

Apresentação da CCav 489 ao novo Comandante

No dia seguinte foi a apresentação à companhia que, para o efeito, formou na picada que atravessava a povoação e, dois dias depois, o novo capitão quis tomar contacto com a mata aproveitando a saída de um pelotão em Cuntima num patrulhamento até às inevitáveis Faquinas.

A corta mato, rumo a Faquina Fula e Faquina Mandinga

Foi a primeira saída do capitão e a última do alferes na companhia que, dois dias depois arrancava para Bissau para frequentar o curso de Comandos.
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Notas:
1 - Árvore de grande porte
2 - Comandante do Centro de Instrução de Comandos em Brá, Guiné.
3 - A auto-metralhadora Daimler equipava os pelotões de reconhecimento e frequentemente abriam as colunas. Foram fabricadas no Reino Unido durante a segunda guerra mundial e, tal como as auto-metralhadoras Fox, estavam frequentemente inoperacionais devido a problemas mecânicos. A guarnição era composta por dois homens e estava armada com uma metralhadora ligeira.
4 - Grupo de Comandos “Camaleões”

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Dornier ferido


Campo de aviação de Cuntima. O Do 27 aterrara há pouco mais de meia hora numa nuvem de pó. Negros e brancos, soldados, cabos, furriéis e alferes, num grande alvoroço à volta da avioneta, apalpam-lhe as asas, festas na fuselagem, um tira fotos a um grupo e o homem do bar, o ‘Fininho’ a passar para as mãos do piloto uma cerveja gelada.
Saco do correio, grades de cerveja, caixa de uísque, medicamentos, o que trazia a Dornier, tudo cá para fora.

Minutos depois, abraços e mais abraços, pista desimpedida, motor a trabalhar, portas fechadas. A Dornier a dar a volta devagar para o topo do campo, a roncar com mais força, na cabeça do alferes a imagem, não sabe a que propósito lhe apareceu, do touro a raspar as patas, para os forcados.
De repente aí vai o aviãosinho, a tremer todo, aos saltinhos, a ganhar velocidade, gás no máximo, campo de futebol fora, manobra apertada a evitar as balizas e as árvores.

Adeus Cuntima, até um dia, se calhar

Não ouvira a salva de palmas mas vira da janela, não foi golo mas quase. E, pronto, adeus Cuntima, levo-te no coração, até um dia, quem sabe?

Acabados de pousar em Farim, a mesma cerimónia mas com militares mais graduados. Um alvoroço na pista, o Tenente-Cor. Cavaleiro, o Major Paixão Ribeiro, 2.º comandante, e o estado-maior do Batalhão, a trocarem impressões sobre a guerra em Canjambari5.
Então o alferes já vai para Bissau? Safa-se de boa, a boca do Tenente-Coronel, enquanto falava sobre as contínuas flagelações a que as NT continuavam a sofrer em Canjambari.
A guerrilha, nem à lei da bala, se conformava com a perda daquele santuário.

As NT imobilizadas por emboscada entre Jumbembem e Canjambari. 
Com a devida vénia ao pessoal do BCav 490.

No caminho para o interior do Oio, uma autêntica auto-estrada, para todo o tipo de reabastecimentos da guerrilha. Canjambari Morocunda, um quilómetro ou nem isso para o interior e Canjambari porto, junto ao rio.
As NT foram muito bem até Canjambari Morocunda, para entrarem em Canjambari porto foi o caraças. Levantam a cabeça para lá, lá vem prémio de morteiro. Às 6 da matina, nem precisam de corneteiro, duas morteiradas em cima para lhes abrirem os olhos, ponham-se a pé, tugas preguiçosos. E no final do dia não se esquecem, também mandam tocar a recolher com mais umas morteiradas.
Isto nunca mais chega ao fim. A comissão, que é que havia de ser? Oio, K3, Como, o Como, pá, e agora o Cavaleiro com esta merda de Canjambari, a cinco meses do fim?
Em finais de Março, quando progredíamos para Canjambari, o capitão de uma das Companhias, pela rádio, disse ao Cavaleiro que não conseguia passar a ponte. Não é que no dia logo a seguir pela manhã, o comandante se apresentou em Jumbembem, integrado no Pelotão de auto-metralhadoras do Corte-Real, virou-se para o capitão, vamos ver a ponte.
Claro, na picada de Jumbembem para Canjambari, quando chegaram à ponte, aí vai aço, morteirada para cima da maralha. O pessoal todo deitado, fogachal danado, o capitão agachado também e o Coronel de pé, encostado ao tronco de uma árvore. Capitão, vê de onde vem o fogo dos tipos aí deitado? Estou a falar consigo, ponha-se a pé, está a falar com o seu comandante! Dezanove meses de comissão! Tás a ver, pá, o Mealha todo suado de suor e cerveja.

O avião estava com a carga no limite, o capelão, com um saco de pão fresco em cima das pernas, sentara-se à frente, ao lado do piloto. Atrás, encostado à janela, um cabo enfermeiro segurava um frasco de vidro com um líquido a escorrer às gotas para o braço de um guineense, com uma perna toda entrapada. Do outro lado, o alferes proveniente de Cuntima, com o saco do correio na mão.
Tudo ok, o piloto, tenente Lemos de auscultadores. Que no trajecto para Bissau faria um desvio para a área de Canjambari, a pedido do Coronel Cavaleiro, largar os dois sacos às nossas tropas e que, quando baixasse o polegar, e repetira, só quando voltasse o polegar para baixo, deveriam lançá-los pelas janelas.

Descolagem de Farim

Dornier no ar, fumos aqui e ali a subir das matas, charcos de água a espelharem. O ferido, medo estampado nos olhos muito abertos, a farda nova ainda, verde azeitona, seria do PAIGC? O cabo maqueiro, a fazer ginástica com o frasco e com a cabeça a dizer que sim.
O capelão à frente, suor a escorrer, cara muito branca, mãos amarradas ao saco com o pão quente. Sol ainda alto, o piloto a falar com a base, olho num lado e noutro.

Rio Canjambari

Estavam na zona, em cima de Canjambari, iriam baixar. A planar, quase parado, como um milhafre, a descer lentamente, os olhos deles arregalados para a mata.
Onde é que está a nossa malta? Mais uma volta. Estão ali, debaixo daquela árvore, não? O tenente Lemos não estava certo.
Desceram mais, até alguns metros acima das copas das árvores, são eles, não são? Os outros não responderam, não paravam de olhar. São eles ou não?
Vou dar mais uma volta, força, abrir janelas, mãos nos sacos, como se já não se sentisse uma corrente de ar danada lá dentro. Nova passagem, agora é mesmo, olhem para a minha mão, atenção, polegar para baixo, agora, sacos fora já, o piloto.
O alferes num segundo viu a árvore, viu-os lá em baixo a correr, àquela altura as fardas deles pareceram-lhe iguais à do ferido que ia com eles. Quando o piloto levantou o polegar, hesitou, ficou com o saco do correio na mão.

Mesmo mais tarde, tentando rever a sucessão dos acontecimentos, não era capaz de dizer o que sentiu primeiro. Pareceu-lhe tudo ao mesmo tempo, uma rajada longa, gritos dentro da avioneta, um ciclone lá dentro, um barulho como uma câmara de ar imensa a esvaziar-se, a Dornier a balançar para cima e para baixo, para a esquerda, para a direita.
No voo para Bissau, o guerrilheiro ferido gritou o tempo todo, atingido na mesma perna, mais um tiro, soube-se dias depois, o Dornier dançou sempre, a turbulência aumentou e um cheiro a cocó borrou-os a todos.
Na pista, finalmente, deitado de costas, o alferes viu os buracos das balas que entraram pela barriga da Dornier. Dos de saída não tinha tirado os olhos, a viagem toda.
E reparou também numa grande roda escura nas calças de um dos felizes companheiros e viagem.
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Nota:

5 - A ocupação de Canjambari, operação "Ebro" foi iniciada em 22 de Março de 1965.
“Os relatórios referem terem sido feitas várias acções no itinerário Jumbembem-Canjambari e na própria região de Canjambari. Apesar de levantadas numerosas abatizes, o referido itinerário ainda se encontra com algumas árvores de pequeno porte nas imediações da bolanha que dá acesso ao pontão danificado sobre o rio Tufili (dados obtidos através do reconhecimento aéreo de 17Mar65). Parece, este pontão, de fácil transposição desde que se utilizem pranchas adequadas.
Dos contactos com o IN a reacção deste tem-se limitado a flagelações de longe, não sendo de desprezar a possibilidade de o mesmo dispor, na região, de forças importantes e, eventualmente, colocar minas nos itinerários de acesso.
O objectivo das NT é proceder à ocupação permanente de Canjambari. Elaborado o plano para a acção, foram constituídas as forças executantes, comandadas pelo próprio Cmdt do BCav 490, Ten. Cor. Cavaleiro. Às 03H00 de 22Mar65 iniciou-se o movimento, a partir de Farim. Atingido Jumbembem às 04H20, a força executante prosseguiu, rumo a Canjambari.
À passagem por Sare Tenen, um GrComb da CCav 488 apeou-se, emboscando-se de seguida junto ao caminho que cruza o itinerário. A partir daqui a equipa de sapadores encarregada da detecção de minas passou a picar a estrada nos locais mais suspeitos. Apesar das precauções, às 06H15 e a cerca de 9 kms de Jumbembem, a GMC da frente da coluna calcou um engenho explosivo, ficando a parte posterior da viatura enfiada na cratera aberta pelo engenho. Os dois homens que nela se deslocavam foram projectados, não tendo sofrido ferimentos de maior.
Passados cerca de 500 metros encontrou-se a 1.ª de uma série de cerca de 30 abatizes, algumas de grande porte, que se espalhavam numa extensão de quase 4 kms, até 1km e meio de Canjambari Morocunda, que só foi atingida já passava das 12H00. O esgotante trabalho de levantamento de abatizes durou cerca de 5 horas e meia, sob constantes flagelações do IN, que utilizou metralhadoras pesadas e morteiros. As medidas de segurança adoptadas, apesar da extensão da coluna de 30 viaturas pesadas, revelaram-se eficazes, porquanto o IN nunca conseguiu aproximar-se de modo a causar baixas às NT”. (…). Ultrapassada a zona das abatizes, a coluna prosseguiu deixando um GrCombate emboscado a dois quilómetros do cruzamento de Canjambari Morocunda. Atingiu-se a povoação de Canjambari, com o IN a assinalar a entrada das NT com tiros à distância, disparados da margem sul do rio Canjambari. Tabanca revistada, os indícios apontavam para uma retirada apressada. As casas comerciais deixaram indícios de movimento recente, praticamente até momentos antes da entrada das NT. Pelas 15H00, a coluna regressou ao cruzamento de Canjambari Morocunda. Deu-se então início aos trabalhos de instalação e organização do terreno em volta do edifício do Posto de Socorros aí existente.
Informações posteriores revelaram que o IN tivera conhecimento antecipado da acção e que tivera mesmo tempo para receber reforços de Morés e de Mansodé, que se mantiveram na zona dois dias à espera das NT, regressando mais tarde às suas bases, por coincidência no mesmo dia do início da operação das NT.”

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14817: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (II Parte) Em Cuntima, na fronteira Norte com o Senegal (2)

7 comentários:

JD disse...

Caro Virginio,
Assinas outro belo texto, com alternâncias de narrativa pelo sério, e frequentes incursões ao género humorístico em complemento descritivo. Felicito-te pelo gosto que me dás a ler-te.
Com um abraço
JD

JD disse...

Caro Virginio,
Assinas outro belo texto, com alternâncias de narrativa pelo sério, e frequentes incursões ao género humorístico em complemento descritivo. Felicito-te pelo gosto que me dás a ler-te.
Com um abraço
JD

Anónimo disse...

José Manuel

Fico contente com o teu comntário. Vamos lá a ver se consigo manter esta alternância...
Abraço
V Briote

António Murta disse...

Meu caro Virgínio Briote.

Fico suspenso dos teus textos e nem dá para fazer uma pausa e ir à rua fumar uma cigarrada... Gosto do teu estilo e das tuas excelentes fotografias mas intriga-me uma coisa: já tinhas este material guardado e pronto para publicar, ou rediges e transcreves para cada poste? Pergunto isto devido à extensão de cada publicação, que eu sei que dá uma trabalheira dos diabos.

Felicito-te com um grande abraço.
António Murta.

Gumerzindo Caetano da Silva disse...

Meu Caro Virgínio.Quero agradecer-te imenso o teres falado de Cuntima.Como sabes entre 71/72 foi a minha aldeia turística em tempo de guerra Como condutor da Cart 3331 fiz várias colunas a Farim,escusado será dizer,que a picada na zona de Lamel,a tal curva da morte,metia respeito.Quando chegavamos a Jubembem que alívio.As fotos dizem o que na verdade por ali passamos.A DO na pista recorda-me Quando fui evacuado com o paludismo.Um bem haja pelo teu post.Manda sempre Um grande alfa bravo.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Estas fotos a P/B revelam qualquer coisa que as "gerações seguintes" já não encontraram. Revela-se um certo atraso das localidades - bem arrumadas e pacíficas - e uma distância considerável ao IN. Ao mesmo tempo parece haver um grande formalismo, com formaturas e tudo...
Uma coisa é certa: estas fotos marcam um momento de viragem entre a Guiné da Paz (podre) e a da "guerra" quando estas fotos seriam impossíveis de repetir.
Um Ab.
António J. P. Costa

Anónimo disse...

Vou tentar responder às vossas questões, Caros Camaradas:

1. António Murta: os textos foram coligidos e passados a word por volta de 2005, após a minha passagem à reforma. Com base em docs. que recolhi em 1966 (fiquei com o espólio-papeis e guião- da CCmds da Guiné e só entreguei o guião no QG nos primeiros dias de Set66. A papelada calculei que se a entregasse ir-se-ia perder. Por isso meti-a numa pequena caixa e trouxe-a comigo. Esteve a dormir até à minha reforma.
datam dessa altura os meus primeiros escritos para o blogue do Luis Graça, que na altura, se chamava foranada. Agora e, eventualmente para Memória, decidi-me a rever os textos, seleccionar as fotos (muitas minhas e algumas outras de camaradas que mas ofereceram ou cederam), tratá-las ligeiramente no lightroom (que os meus conhecimentos de edição fotográfica são muito básicos), seleccionar os textos e enviá-los para os editores do blogue do Luis Graça, que se encarregarão de lhes dar o destino que entenderem.
Nota, Caro António Murta: o espólio foi todo entregue ao Arquivo Militar, por sugestão do Cor. Nuno Rubim e General Garcia Leandro.

2. Caro Coronel Pereira da Costa: estávamos em 1965, as fotos reflectem o que se passava nessa época numa pequena povoação junto à fronteira norte. Os formalismos julgo que se deviam mais ao espírito do BCav490. O Cor Cavaleiro era muito respeitado pelo pessoal. Quando a Dornier se aproximava para aterrar vi mais que uma vez haver correrias de militares da CCav 489 em direcção a escaparem-se da pista. Na 1ª vez que vi perguntei por que é que o pessoal estava a fugir. Não, não estão a fugir, vão é todos fazer a barba e fardar-se..o nosso Coronel vem aí.
A guerra, Caro Coronel Pereira da Costa, naqueles anos já tinha matado muita gente, embora muita mais viria a morrer até ao fim, claro.
3. Caro Gumerzindo. Cuntima é um símbolo para mim, ficou-me marcado no corpo como marca de gado. Como calculas tenho um apreço diferente, não digo melhor, mas vejo os Camaradas que estiveram em Cuntima com uns olhos diferentes. Não sei justificar os motivos.

Gostei muito dos Vossos comentários. Quero anotar, para terminar, que desde 1967 até 2005, por força da actividade profissional que desenvolvi ao longo dessas dezenas de anos, as minhas escritas se limitaram a notas de serviço, procedimentos, planos comerciais e de marketing e material de formação. Nem me lembro de ter escrito uma carta particular...devo tê-lo feito, certamente, mas não me lembro. Ler sim, li sempre muito.

Maais uma vez Obrigado.
V Briote