domingo, 6 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15452: (Ex)citações (303): Eu e o marinheiro a bordo de um avião da TAP, a caminho de Lisboa... Um conto do vigário: o 'negócio chorudo' das fotografias do deserto do Sara... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)

1. Comentário do Valdemar Queiroz ao poste P15445 (*)


[Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70; , foto à esquerda, em Contuboel, 1969]


Viva, caro Juvenal Amado.

Este teu conto do vigário foi muito 'contado' e 'cotado', naqueles anos em que havia tantos filhos na guerra colonial. Era fácil ao vigário — o que faz as vezes do outro — burlar os pais, principalmente as mães, que só queriam o melhor para os seus filhos.

Mas, o que se passou comigo brada aos céus dos contos do vigário. Brada aos céus por ser o mais totó, o mais naif, o mais inocente dos contos do vigário. Senão vejamos.

Vinha no avião da TAP, passar as minhas férias a Lisboa, quando se avistou, nas janelas do lado direito do avião, o deserto do Saara. Todos fomos ver, cá de cima, o deserto lá em baixo e até houve fotografias do deserto. 

O deserto do Sara visto de satélite. Foto da NASA, imagem do domínio
público. Cortesia da Wikimedia Commons.
Acabou o visionamento do deserto e eis que chega ao pé e mim um tropa, com uma máquina fotográfica, dizendo:
— Não vendo estas fotos a ninguém!.

Sentando-se ao meu lado,  propôs-me logo um negócio garantido:
— Tirei umas fotos ao deserto que são vendidas como água. 
—  Se calhar... —, respondi eu.
 — Eu sou marinheiro, vou de férias e se o... o furriel avançar já com mil pesos para se fazer, em Lisboa, muitas cópias que são facilmente vendidas...  — dizia ele. — E eu também regresso à Guiné, daqui a um mês, depois das férias... Vamos ganhar um dinheirão e logo fazemos contas.
— Pois é, não digas isso a ninguém, o que a rapaziada mais gosta é fotos do deserto, e é pena não teres do oceano Atlântico — disse eu,  e lá seguimos até Lisboa sem mais conversa.

Evidentemente, que no regresso de férias, a Bissau, do marinheiro/fotógrafo nem pó. Mas, esta das fotografias do deserto é boa e não lembra ao diabo num conto do vigário. (**)

10 comentários:

Abílio Duarte disse...

Otário, e eras tu da Prç.Chile!

Luís Graça disse...

Valdemar, não se percebe lá muito bem se ainda ficaste "tentado" a entrar no "negócio" que podia ser "chorudo"... Creio que não, esta história vem apenas revelar que, em muitos casos, o "vigário" também é um pobre diabo, que julga ter "lata" suficiente para enganar os outros...

Mil escudos, na época (1970 ?), um conto de réis, era dinheiro, equivaleria hoje a 283 euros... Com esse patacão, faziam-se umas férias valentes!... Por outro lado, a 10 mil metros de altitude, da janela de uma avião, sem um bom "zoom", não se tiram lá grandes fotos do árido e monótono deserto do Sara... De resto, vocês iam a navegar sobre o Atlântico, imagino, com o deserto à direita... A TAP estava proibida de usar o espaço aéreo de uma série de países africanos... Quando muito, podia "entrar" no Sara espanhol (hoje território ocupado pelos marroquinos)...

A verdade é que ninguém, com bom senso, arriscaria dar um "conto de réis" por um rolo fotográfico que podia estar vazio ou estragado... Mas na euforia do regresso a casa, de férias, tudo era possível...

Por fim, quem é que já não caiu, uma ou mais vezes, no conto do vigário ? Em geral, isso acontece não tanto com estranhos mas entre amigos e conhecidos que nos crava(va)m dinheiro para fazer fazer face a uma "situação de urgência", uma "aflição","um aperto", "uma coisa inesperada"... E, claro, faziam-se depois "esquecidos"...

Todos teremos histórias dessas para contar...Pois que venham essas histórias, de preferência no contexto da tropa e da guerra...

Os anos 60/70 do século passado terão sido férteis, no nosso querido Portugal, em termos de ocorrência de "contos do vigário": "gajos influentes e importantes" com promessas de emprego (em Lisboa, no Porto, em Paris...), "padrinhos" que aceitavam "cunhas" para livrar a malta da tropa, "passadores" que se prontificavam, mediante uma grossa maquia, a pôr um gajo são e salvo em França, "xico-espertos" que se ofereciam para trocar de especialidade... para além do já clássico vigarista com o "bilhete da lotaria premiado"...

Um abraço!... Fico feliz, Valdemar, por te ver por aqui!... LG

Hélder Valério disse...

Caro Valdemar

Está visto que a imaginação não tem limites, mesmo que na maior parte das vezes a 'coisa' tenha pouca consistência.
Mas, na verdade, com o que os vigaristas contam, é com a ganância do outro.
Se forem 'gulosos', é quase certo que 'alinham', mesmo que com alguma desconfiança.

Aqui para nós, que ninguém nos ouve, fizeste bem em não querer entrar no negócio!
Afinal quem quereria fotos de areia?

Abraço
Hélder S.

Luís Graça disse...

Há aqui uma explicação (brasileira) para a expressão "Conto o Vigário".. Parece-me demasiado óbvia e... anticlerical:


(...) "Duas igrejas de Ouro Preto [, hoje no estado de Minas Geral, Brasil], receberam uma imagem duma santa como presente. Para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários contariam com a ajuda de Deus, ou melhor, de um burro. Assim, colocaram o burro entre as duas paróquias e o animal teria que caminhar até uma delas. A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a santa. E foi isso que aconteceu, só que, mais tarde, descobriram que um dos vigários havia treinado o burro. Desse modo, "conto do vigário" passou a ser sinónimo de falcatrua e malandragem." (...)

Fonte: Português on-line > Expressões idiomáticas

http://oportugues.freehostia.com/espacomais/expressoes_idiomaticas/index.htm

Juvenal Amado disse...

Como eu escrevi a minha mãe foi trapaceada pelo seu amor e preocupação. Nunca lhe passaria pela cabeça, que alguém utilizasse uma situação de guerra para indrominar quem de boa fé daria tudo o que tinha e não tinha para satisfazer um desejo por mais estapafúrdio que fosse de um filho " lá longe onde o Sol castiga mais".

Mas os chamados contos do vigário não ficaram por aí.
Quem não ouviu aquela da cautela de lotaria premiada, proposta a um incauto por metade do valor, pois o trapaceiro dizia que tinha que apanhar o avião e por isso a não podia ir rebater no outro dia?
Quando eu ainda era puto aconteceu, que um individuo comprou uma máquina de fazer notas. Uma autentica pechincha, o pior foi quando deu à manivela saíram uma de cada vez 3 ou quatro notas de vinte escudos e depois ficou "seca" sem apelo nem agravo.

Depois só como solução duvidosa rogaram uma praga ao f.da p. que os enganou mas quase com a certeza, de que nem ao lado passou do malvado.

Riam-se mas acautelem-se pois essa gente tem artes e vai sempre evoluindo com estórias do arco da velha.

Um abraço a todos os camaradas e em especial ao Valdemar, que felizmente provou o veneno e ainda está cá para contar.

Carlos Esteves Vinhal disse...

Julgo que no conto do vigário a vítima é aliciada para um suposto negócio que lhe vai dar lucro. Para firmar o dito negócio tem de adiantar um valor monetário em troca de algo simbólico que guardará como penhor. Claro que o objecto dado à guarda, às vezes é um embrulho com jornais.
Parece-me que a mãe do Juvenal foi vítima de um tratante, como muitos que andam por aí a enganar as pessoas mais desprotegidas.
Eu uma vez fui enganado por um tipo que até conhecia de vista, que me pediu emprestado dinheiro porque que precisava de ir com urgência para Vila do Conde, de táxi, porque a esposa tinha tido um filho naquela tarde. Passei-lhe para a mão 700$00 que tinha comigo.
Passados dias, como o tipo nunca mais me apareceu para devolver a massa, fui ter com o patrão dele, meu amigo, que me disse que o burlão já lá não trabalhava há muito.
Carlos Vinhal
Leça da Palmeira

Valdemar Silva disse...

Ainda sobre o negócio das fotografias do deserto.
Evidentemente, quando respondi ao 'tretas' que o que os militares mais queriam
eram fotografias do deserto e até do oceano, o marinheiro/fotógrafo baixou o entusiasmo e ficou a pensar no ridículo em que se meteu.
Eu, que até era um bocado reguila, nem me apeteceu dar-lhe um 'baile' de negócios chorudos, fiquei-me pelo gozo das fotos do oceano, por ele ser marinheiro.
Abraços
Valdemar Queiroz

Luís Graça disse...


1. Sim, pelo menos uma vez, na vida civil
Amigos/as, camaradas:

O inquérito desta semana é sobre o conto do vigário... Pergunta: "Sim, já caí (ou fui tentado a cair) no conto do vigário" (Podes dar mais do que uma resposta)...

A pergunta foi reformulado, quando já havia 4 respostas... Acho que agora é mais abragente ("Já caí ou fui tentado a cair no conto do vigário!)...

Peço que voltem a responder, e desculpem o incómodo...

1. Sim, pelo menos uma vez, na vida civil

2. Sim, pelo menos uma vez, na vida militar

3. Sim, mais do que uma vez, na vida civil

4. Sim, mais do que uma vez, na vida militar

5. Não, nunca caí (ou fui tentado a cair)

6. Não sei / não me lembro

Luís Graça disse...

Concretizando:

A mãe do Juvenal "caiu", inocentemente, no "conto do vigário"... o Carlos Vinhal também... Eu também já caí... O Valdemar foi "tentado", mas era alfacinha de gema, não se deixou enrolar... Interessam-nos as situações, em que fomos confrontados com "vigários"... Na vida civil e na tropa... Boa dia. Luis

José Botelho Colaço disse...

Conto do vigário

Eu també fui contemplado com o conto do "vígaro" no bairro onde moro e no café que frequenta-mos era normal encontrar lá um sujeito da comunidade cigana, com o passar dos meses ele era um amigo de confiança do pessoal ia à praia , á bola mais a família dele conosco até nos falava das estórias dos ciganos, ele para o pessoal era um individuo de confiança.
Mas uma noite aí por cerca das 22 horas da noite aqui no cruzamento a 30 metros da minha porta ouço o chiar de uma travagem de um carro e passe a curiosidade,sai o tal sujeito a dizer que tinha evitado um acidente pois o outro não tinha prioridade e tinha-se pirado, mas a seguir vem o engate é pá o multibanco papou-me o cartão empresta-me 500$0 a seguir pode ser mil mil ou mil e quinhentos quando chegou aos mil e quinhentos eu achei muito e tive um alerta de dizer que os mil e quinhentos não tinha e passei-lhe os mil escudos para a mão ele com a sua lábia eu amanhã assim que o banco abrir vou regularizar tudo e na volta o meu amigo recebe o pilim. Obrigado e uma boa palmada no costado.
Ainda hoje estou á espera desse amanhã mas nessa semana foram vários vizinhos que o sujeito tramou e até com montantes muito superiores.
Como sabia que a mulher dele era vendedora aqui na feira fui ter com ela e disse-lhe o que se tinha passado, resposta `você também caíu começa a desfolhar a lista da vizinhança que tinha sido tramada e diz o seguinte eu não tenho nada a ver daí com isso ele anda metido na droga.
Este para mim foi o maior e com plano bem organizado engate até aconteceu que quando entrei em casa disse para a minha mulher já fui enganado e disse-lhe o que se tinha passado mas já era tarde.
Nós somos fracos de coração e quando vemos um amigo aflito tentamos salvalo, creio que uma grande parte dos "engates" são deste género, no dia a dia é normal ser atacados com pedidos que só não caímos porque cada dia que passa além dos esquemas bem montados também somos alertados para a defesa.
Os dos embrulhos dos jornais com imitações de dinheiro em notas, lotarias, negócios chorudos etc. esses fazem parte de outras estórias.
Um abraço