segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15548: Notas de leitura (792): “Bichos da Guiné, Caça, fauna, natureza”, por Júlio de Araújo Ferreira, Edição de Autor, 1973 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2015:

Queridos amigos,
Estes "Bichos da Guiné" farão parte do meu lote de livros raros.
Temos aqui o entusiasmo do caçador vagabundo, um militar colocado em Bolama que espairece e goza os seus lazeres um pouco por toda a Guiné à procura de búfalos, antílopes, hipopótamos, crocodilos, e aqueles bichinhos que escapam à caça grossa mas que são muito bons no churrasco.
Maravilha-se com a Lagoa de Cufada, encontrou belezas ímpares em Guileje e Madina do Boé.
Até neste aspeto é um relato raro, especioso, que nos põe a questionar o que era aquele mundo de paz e como virou em ferro-e-fogo, pouco mais de dez anos depois.
Um livro, houvesse imperativos culturais luso-guineenses, que merecia reedição, para satisfação de todos.

Um abraço do
Mário


Bichos da Guiné, por Júlio de Araújo Ferreira (2)

Beja Santos

Em “Bichos da Guiné”, por Júlio de Araújo Ferreira, Edição de Autor, 1973, partilhamos das impressões de um caçador vagabundo, militar na Guiné que aproveita os seus tempos livres na arte cinegética. E é um verdadeiro prazer acompanhá-lo nas suas deambulações, ele cativa-nos com a caça, a fauna e a natureza que o deslumbram. Estamos agora na pista de elefantes. As informações que ele colhera eram nebulosas, as informações eram esparsas. Viveu na Guiné três anos, entre 1946 e 1948, e descobriu que afinal havia elefantes: “Pude verificar a presença de elefantes entre o Corubal e a fronteira. Posso também assegurar a sua existência na região de Banjara. Da Mata de Cantanhez, chegavam-me, de tempos a tempos, informações a confirmar a presença de elefantes por ali. Nas várias caçadas que fiz por terras de Contabane, encontrei rastos diversos de elefantes”. Dá como confirmado haver elefantes na Guiné. Considera que é dos aspetos mais apaixonantes, a caça ao elefante: caminhadas de arrasar, intermináveis maratonas, e sugere que é melhor levar o leitor a embrenhar-se com ele pelos matos da Guiné em perseguição dos enormes trombudos.

Lá vai a caminho de Contabane, segue um caminho paralelo à fronteira, até ao cruzamento com a estrada de Cacine, voga ao sabor das fantasias da manada, regista repetidamente as aves e os mamíferos. É uma longa caminhada até se descobrir o rasto, dão com um animal ainda relativamente novo, tem um dente entre 15 a 20 quilos e o outro apenas a raiz. Pé entre pé aproximam-se uns 25 metros: “Procurei localizar rapidamente o orifício do ouvido e visando um ponto à retaguarda deste para lá fiz seguir sem perda de tempo os 400 “grains” de uma .404 sólida”. O animal tomba com a parte posterior do corpanzil assente no solo, aparecem dois elefantes, parecem ameaçadores, um tiro partiu, a arma desparafusa-se, é preciso mudar de arma, o elefante está tombado leva o tiro de misericórdia, os outros dois elefantes fogem, o abatido é todo retalhado. Depois disserta como se matam elefantes, há discussões apaixonadas sobre o tiro ao cérebro do elefante: “É certo que uma bala dirigida à raiz da tromba, ao ouvido, ou acima da linha dos olhos poderá fulminar um elefante, mas o que se torna indispensável é ter em atenção que isso só poderá acontecer em determinadas posições da cabeça do animal em relação ao atirador. A grande verdade é que o elefante não tem o cérebro nos bordos exterior do canal auditivo, nem na raiz da tromba, nem na linha dos olhos… Nem em ponto nenhum da periferia da cabeça. Uma bala, par atingir o cérebro, tanto poderá entrar acima como abaixo da linha dos olhos, ou mesmo num dos olhos, tanto no ouvido como acima, abaixo, à frente ou atrás dele”. Fala sobre as melhores armas, vê-se que escreve tudo com uma ponta de genuíno orgulho: “Os troféus do meu elefante – o dente, uma pata e uma orelha – fizeram tremendo sucesso durante a viagem, e, no dia seguinte, em Bolama, vieram ainda ao meu quintal bastantes africanos para ver os despojos”.

São memórias de um caçador, a seguir vai falar de búfalos, deixa-nos breves apontamentos sobre algumas espécies e aves e comunica-nos o maravilhamento da Lagoa de Cufada. Vale a pena fazer uma corrida apertada pelas suas observações. Sobre búfalos, diz-nos que é um animal de caça estupendo, devido à perseguição pelo rasto, sabe defender-se com habilidade, tem por vezes reações perigosas, na Guiné é a peça de caça número um, já não se pode contar nem com o elefante nem com o leão. Disserta sobre o que é mais apropriado na caça ao búfalo: “Sou partidário dos grandes calibres para os grandes animais. É certo que a bala de uma .303 pode matar com limpeza um búfalo. Em minha opinião deve usar-se um projétil mais valente, mais maciço, capaz de fazer face, com maior segurança, a todas as situações”. E prende-nos a atenção com uma caçada em Caur, perto de Empada. As suas descrições são amplas, sensoriais, preenchidas com muitos elementos da natureza. Está no rio Tombali e aproveita para descrever as rias, tem presente que o leitor comum precisa destes condimentos para entender aquela natureza luxuriante e diversificada. Passando para os antílopes, detalha as espécies, aí o leitor comum encolhe-se com tanto búbalo, sylvicapra e redunca, e gazela de lala. Nenhum caçador é indiferente aos símios e ele enumera-os: macacos verdes, macacos cães, macacos fulas, macacos pretos, macacos fidalgos, distingue-os. Por exemplo, os macacos cães são de temperamento muito conflituoso, envolvendo-se em constantes disputas e ficamos a saber que o leopardo é o seu tradicional inimigo. À data, o leão já era raríssimo na Guiné, não avistou nenhum.


Espraia-se em hipopótamos e crocodilos. Os primeiros estavam largamente espalhados pela Guiné, em quase todos os rios e lagoas, até nas Bijagós. Os crocodilos são conhecidos por lagartos. E fala como perito: “Qualquer projétil, mesmo com ponta de chumbo, os abate com facilidade; o que é indispensável, evidentemente, é estar bem colocado. A celebérrima carcaça de crocodilo, mais ou menos impermeável às balas, é uma lenda. Contra eles, uma carabina de calibre ligeiro, à volta dos 7 a 8 mm, grande tensão de trajetória, e provida de uma boa alça telescópica, é a minha ferramenta preferida. Refiro-me, como é evidente à caça de dia, porquanto de noite, caçados a farolim, são incrivelmente estúpidos. Até à arma branca se torna possível abatê-los”. Visivelmente contrafeito, fala das cobras, a cuspideira, a “surucucu”, as jiboias, a temível mamba, a bonita cobra verde da palmeira. E derrama-se, lânguido, sobre perdizes, galinhas, rolas, pombos, gansos, mas também recorda os pássaros e a sua plumagem. Deixa-nos páginas impressivas sobre a Lagoa de Cufada, o lugar que ele recorda com maior saudade, é um texto que por si só merecia ser reproduzido num documento sobre conservação da natureza. Por último, é citada a legislação da proteção das espécies, certamente escrito pelo punho de Sarmento Rodrigues, aqui fica um pequeno texto: “O verdadeiro caçador em África deverá ser ainda estoico e brios, lutador e leal, duro e generoso. Terá vista de lince e músculos rijos e flexíveis; ouvidos, como diria Kipling, envolta tde toda a cabeça. Não matará os animais inofensivos com processos traiçoeiros. Bem lhe bastarão as suas armas, produto do engenho humano, para vitimar uma indefesa perdiz; deixe-lhe, ao menos, a possibilidade de empregar as suas asas e prove depois disso que é um destro atirador”.

Que livro belíssimo sobre os bichos da Guiné!
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Notas do editor

Vd. poste de 21 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15520: Notas de leitura (790): “Bichos da Guiné, Caça, fauna, natureza”, por Júlio de Araújo Ferreira, Edição de Autor, 1973 (1) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 23 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15531: Notas de leitura (791): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (pseudónimo literário de José A. Paradela): reprodução do capítulo 7 com a descrição da viagem de seis meses, aos 17 anos, em 1954, aos bancos de pesca do bacalhau: Parte I

2 comentários:

Antº Rosinha disse...

Essa África devia ser preservada.

Os "brancos" de todas as raças e credos não ajudaram nada.

Obrigado BS.

Mas como colonialista e retornado aprendi uma óptima maneira de matar o animal com total aproveitamento da pele intacta.

É apanhar o animal totalmente distraído.

Como está distraído a bala "entra por um ouvido e sai pelo outro"

Pele intacta!

Bom ano.

Patricio Ribeiro disse...



Os elefantes, ainda andam hoje nos arredores de Contabane.
Sobem e dessem o rio Balana, em função da época da chuva.
Passam por cima do alcatrão, para atravessar a estrada, para irem até ao Parque das Lagoas de Cofada.
Há poucos anos, levei lá sobrinha neta, do escritor caçador (monteador), em um dos meus passeios pelo mato.
Ela que não era crente que havia elefantes na Guiné, mas confirmou o que eu lhe dizia.
A partir desta data, fez investigação e escreveu sobre os mesmos, pregou placas nas passagem na estrada para Guiledge etc.
Estou a falar da Bióloga, Cristina Silva, filha do nosso amigo Pepito

Patrício Ribeiro