sábado, 5 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15823: In Memoriam (246): Evocação de minha mãe. Dois meses depois da sua morte. (Jorge Alves Araújo)



Lisboa (Marvila) - eu e os meus pais em 08.08.1952



1. O nosso Camarada Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CART 3494, (Xime-Mansambo, 1972/1974), enviou-nos uma mensagem em memória da sua saudosa e querida mãe. 

EVOCAÇÃO DE MINHA MÃE
- DOIS MESES DEPOIS DA SUA MORTE -

– INTRODUÇÃO 

Evocar é lembrar, trazendo à memória o que podemos recordar daquela que, com amor, nos deu a vida – a nossa mãe, sendo este o objectivo supremo da presente narrativa.

O acto da sua morte foi, por mim, vivido com uma sensação estranha difícil de descrever e de aceitar por ser uma experiência única, pessoal e irrepetível, e que certamente, com mais ou menos dificuldade, o tempo me ajudará a superar… teoricamente. 

Passados que estão dois meses após nos ter deixado fisicamente, quero neste momento reforçar o quão grato vos estou, camaradas ex-combatentes e tertulianos deste espaço plural e solidário, por todas as palavras amigas e de conforto que me fizeram chegar das mais diversas formas (contactos pessoais, telefónicos, mensagens, emails, blogue, velório e funeral), as quais foram oxigénio que me ajudaram a respirar durante o período mais febril e problemático. (a foto é de 1946).

Ao desmontar o espaço onde viveu e conviveu durante sessenta anos, pois a sua habitação em Moscavide era arrendada, e onde através dos tempos foi ordenando os seus bens, singulares e colectivos, revivi memórias antigas, desde a infância até à adolescência, e outras mais recentes, nas quais se incluem também memórias da Guiné (umas bem presentes, outras nem tanto), testemunhos que ela guardou religiosamente durante quarenta e cinco anos, e que oportunamente serão utilizados na elaboração de novos textos.


1. – ANTECEDENTES (cronologia)

Depois de ter estado no fim-de-semana de 7-8NOV2015, na Figueira da Foz, onde aproveitei essa estadia para investigar, em parceria com o camarada António Bonito (ex-Furriel da CART 3494), o paradeiro versus situação do Mário Nascimento (ex-soldado da nossa companhia), que fora ferido na Ponta Coli, em 01DEC1972, e cujas notícias anteriores nos davam conta de que se encontrava na qualidade de «sem abrigo», mas que, por via dos nossos contactos, viemos a saber que falecera em 08JUN2014, no Lar de Santo António, naquela cidade. [P-15.390].

De regresso a Almada, o dia seguinte foi dia do meu aniversário [verdadeiro] e o que se seguiu (3.ª feira) o oficial [nasci a 9 e fui registado a 10NOV], tendo almoçado com a minha mãe, aquela que seria a nossa última refeição juntos e o último contacto físico, rumando depois para o Algarve (Portimão) no cumprimento da minha actividade profissional ou académica no ISMAT, onde permaneci até ao final da tarde de 4.ª feira, dia 11NOV.

Na 5.ª feira (12), telefonou-me pela manhã, como era habitual, para saber como tinha decorrido a viagem e se tudo/todos estava(m) bem, ao que lhe respondi afirmativamente. Prometi ligar-lhe mais tarde, após concluir as tarefas académicas a que estava obrigado na sequência das aulas da véspera.

A meio da tarde ligou-me, em desespero, dizendo: “filho… estou a ficar paralisada. A minha cabeça vai rebentar. Vou morrer”, desligando-me o telefone de imediato, sem uma palavra minha. Acabou por ser a última frase que dela gravei.

Por efeito dos seus gritos, as vizinhas do prédio foram alertadas prestando-lhe os primeiros cuidados, incluindo o contacto com o INEM, que a transportou para o Hospital de S. José – Serviço de Urgência, onde deu entrada pelas 17h42, tendo transitado para a Unidade de Neurocirurgia no dia 13, pelas 01h34 (conforme consta no boletim clínico informatizado).

Nesse mesmo dia de manhã (6.ª feira) depois de a ter localizado no referido hospital e na sequência de uma reunião com os médicos que a assistiram, foi-me dito que a minha mãe tivera uma ruptura de aneurisma e que entre as 16/18 horas iria ser intervencionada. Aguarde pelo nosso contacto… disseram-me.

No sábado, pela manhã, voltei ao hospital para saber como ela estava a evoluir. Foi com espanto que recebi a notícia de que, afinal, a minha mãe não tinha sido intervencionada, uma vez que a operação anterior à sua se tinha prolongado até próximo da meia-noite, e já não existiam condições objectivas para uma nova intervenção cirúrgica. Acresce dizer, ainda, que no âmbito desse contacto acabei por ser “enganado”, ao justificarem-me a não intervenção cirúrgica da minha mãe, no sábado 14, devido à equipa médica de serviço estar de prevenção na sequência dos atentados em Paris, na véspera. 

Como se veio a confirmar algumas semanas mais tarde, o acima referido não era verdadeiro, como foi divulgado/denunciado pelos diversos órgãos de Comunicação Social, como prova o exemplo referido no Jornal «Público» (passe a publicidade).

Deste modo, a minha mãe só seria operada na segunda-feira 16, entre as 9h30 e as 18h30, num total de 9 horas, o que diz bem da situação de altíssimo risco de vida em que se encontrava. Entre a sua entrada no hospital e o início da cirurgia decorreram oitenta e sete horas, deixando antever que eram mínimas as esperanças de sobreviver, situação que acabou por se verificar no dia 27 de Dezembro de 2015, domingo, quarenta e cinco dias após aí ter sido hospitalizada.

Lamentavelmente não foi caso único, como comprovam as estatísticas existentes no Ministério da Saúde, o de morrer por falta de apoio hospitalar ao fim-de-semana, sendo mais uma vítima justificada por razões economicistas. 

Espero que esta situação se alter em nome da VIDA, que tantos responsáveis apregoam, mesmo tendo perdido minha MÃE. 

2. – EVOCAÇÃO DE MINHA MÃE

Depois da morte de meu pai [1923.09.29-1995.03.11], com quem casou em 21DEC1947, minha mãe tinha então sessenta e sete anos, passando por esse facto a viver só. No início, ou seja há vinte anos, tinha um suporte social de alguma dimensão por via da relação de proximidade que existia entre a vizinhança, que aos poucos se foi reduzindo por razões de doença.

Em 2002 encontrou uma companhia – a poesia – que não mais a deixou, declamando os seus trabalhos (sempre com novidades) em convívios familiares ou quando surgia uma oportunidade fora deste contexto.

E uma das oportunidades que lhe surgiu tinha como possibilidade a participação no projecto «Encontro de Poesia», iniciado em 1996 pela Câmara Municipal de Loures, este inserido num programa mais vasto de outras actividades a que deram o nome de «Viver Outubro – Mês do Idoso». 

A sua primeira participação ocorreu no ano de 2002, tinha então setenta e quatro anos de idade. Desde essa data, e durante catorze edições [2002-2015], manteve a sua ligação ao projecto enviando os seus trabalhos para publicação e declamando-os em cerimónias públicas organizadas anualmente por esse Município. 

O seu primeiro poema conta o itinerário da sua vida de mais de oito décadas, e por ser verdade aqui o reproduzimos, como reconhecimento e tributo público do quanto estou grato e orgulhoso dela.


2003.10.11 - António Pereira (Vereador) e Georgina Araújo (minha mãe) durante o VIII Encontro de Poesia realizado na Sala Polivalente da Biblioteca José Saramago, em Loures.


Pedaços da Minha Vida

Visitei a minha terra,
E vi que nada mudara,
Estava tudo como dantes,
Até as pedras da calçada.
--
As casas eram as mesmas,
Tudo era triste e vazio,
Ao recordar o passado,
Senti-me cheia de frio.
--
A vida que lá passei,
Deixou muito a desejar,
Sem amparo do pai,
Lutei até me casar.
--
O casamento me trouxe
Um bem-estar aparente,
Vieram dois filhos queridos
E a luta foi bem diferente.
--
Fui pai, fui mãe e mulher,
Com orgulho escrevo aqui,
São recordações que ficaram,
De uma vida que vivi.
--
Trabalhei de sol a sol,
Para o sustento do lar,
Mas o destino teimava,
Em não me querer ajudar.
--
Aos filhos não se deu muito,
Pois não chegava p’ra mais,
Só o pão nosso de cada dia,
Tudo o resto era de mais.
--
Numa altura bem penosa,
O marido quis partir,
Para a vida ser melhor,
E nela poder subir.
--
Imigrante por seis meses,
Jamais consegue vencer,
Volta para a sua terra,
E vê os filhos crescer.
--
Tudo passou com os anos,
Foram bons e maus momentos,
Estava ainda por chegar,
O maior dos meus tormentos.
--
Sem esperar tudo mudou,
Nessa hora derradeira,
Meu marido adoeceu,
Fiquei sempre à sua beira.
--
Foram três anos de luta,
Entre a vida e a morte,
Confesso que esperava,
Que ele tivesse mais sorte.
--
Se foi feliz numa coisa,
Ninguém o pode negar,
Teve sempre uma esposa,
Que nada lhe deixou faltar.
--
Mas o destino cruel,
Antecipou-lhe a partida,
Levando tudo de mim,
Na hora da despedida.
--
Minha vida não foi fácil,
Para encontrar a solução,
Pois tinha que sarar a ferida,
Que ficou no meu coração.
--
Pensei bem e fui p’ra frente
Do combate… combater,
Hoje já estou bem diferente,
Lutando para vencer.
--
Em frente eu quero ir,
E não perder a esperança,
Quando acaba a tempestade,
Vem a seguir a bonança.
--
Sou teimosa e persistente,
Quero chegar à vitória,
Viver melhor o presente,
Dos fracos não reza a história.

Georgina Araújo
2002.04.04


2015.10.18 - Reunião do XIX Encontro de Poesia realizado no Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte, em Loures (que seria a sua última participação, três semanas antes de adoecer). No círculo a amarelo está a minha mãe.

Eis uma singela evocação de minha mãe e o merecido tributo que lhe é devido, dois meses depois da sua morte.

Obrigado pela vossa atenção.

Um forte abraço e muita saúde.
Jorge Araújo.
05DEC2015.
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
___________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em: 

4 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Não sei quais são as "recordações" que a tu mãe guardou e ordenou.
Não temos muitos depoimentos de mães e da maneira como ela enfrentaram a "guerra".
Por isso proponho que seguindo a ordenação que deixou ou foi fazendo talvez fosse possível uma publicação em papel, em e-book ou outra via qualquer...
Um Ab.
António J. P. Costa

Hélder Valério disse...

Meu caro amigo e camarada Jorge Araújo

Esta tua homenagem à tua Mãe é, sem dúvida, uma coisa bonita.
Mas é também, e não menos importante, um grito de revolta pelas circunstâncias que, afinal, parece terem contribuído decisivamente para o desfecho que teve, pela falta de intervenção atempada.
E é, também e ainda, um grito de alerta para que tais circunstâncias possam (e devam) ser resolvidas, para que não haja repetições a lamentar, embora a realidade não deixe grandes esperanças.
Mas temos que nos agarrar ao mais pequeno pedaço que haja.

Quanto ao poema, de versos singelos, relata bem um 'percurso de vida' que, na prática, é uma imagem bem comum a grande parte da nossa população, à época. E, muito interessante de observar, o poema termina com grande determinação e uma 'profissão de fé' na esperança de melhores dias, a partir da perseverança da sua atitude.

Um grande abraço, Jorge!

Hélder Sousa

Luís Graça disse...

Jorge:

É uma bonita mulher, uma boa esposa, uma grande senhora e, seguramente, um ainda melhor mãe… É impossível imaginarmos o “dia seguinte” sem pai nem mãe, sem os nossos pais… Mas um dia esse dia, inexoravelmente, chega… E chega-nos, a todos…

Uns acabarão por fazer o luto melhor ou pior, outros nunca o farão… o que é mau para a nossa saúde mental. Temos que saber integrar a morte no ciclo de vida… Como a tua mãe, afinal, fez depois da morte do teu pai.

Fiquei sensibilizado pela tua homenagem à tua mãe. Acho que nos ajudas a mitigar a dor, a todos aqueles, que são já a maioria, que perderam o pai e/ou mãe, ainda em tempos recentes...

Registo com agrado as bonitas quadras populares em que a tua mãe conta a sua (e a vossa) história de vida… Estão todas (ou quase todas) perfeitas: 4 versos, 7 síbalas métricas, rimando intercalarmente…

Só uma pergunta: a tua mãe era alentejana ou algarvia ?

Enfim, tens todas as razões para teres orgulho nela. Continua a falar con ela, como eu faço com os meus pais, já também "fisicamente" desaparecidos...E transmite as tuas memórias dos teus pais aos teus filhos, netos e bisnetos... É a melhor maneirs de eles co9ntinuarem "vivos"... Só se morre definitivamente quando já ninguém souber quem fomos e por onde andámos...

Anónimo disse...

Caros Camaradas,

Pereira da Costa, Hélder Valério e Luís Graça.

As vossas palavras são vitaminas de AaZ que ajudam a superar os obstáculos que encontramos ao longo das nossas caminhadas.

OBRIGADO!

Sei que estou em dívida para convosco. Por isso, prometo voltar em breve com um novo texto, este relacionado com os «Problemas do CTIG logo em 1963 - um tema piramidal inesgotável».

Com um forte abraço de amizade.

Jorge Araújo