domingo, 28 de fevereiro de 2016

Guiné 63/74 - P15807: Inquérito 'on line' (36): Os muitos problemas com que nos defrontávamos no início da guerra, em 1963 (Paulo Salgado / João Martins / Mário Serra de Oliveira)





Vila Real > Agosto de 1963 > CCAÇ 153 (Fulacunda, 1961/63) > O regresso a casa... Na foto, o 1º pelotão... Repare-se no fardamento, o caqui amarelo... O cmdt era o então cap inf José dos Santos Carreto Curto, hoje ten gen reformado, natural de Castelo Branco.

Foto: João Baptista (1938-2010), autor do blogue Fulacunda.  [Edição: LG]

Comentários ao poste P15802 (*):



I. Paulo Salgado


1. Os problemas ou assuntos colocados pelo Com-chefe Louro de Sousa traduzem de forma excelente o que se vivia nessa época - 1963.

No entanto, outras circunstâncias ocorriam, já então, e ocorreriam posteriormente, que porventura não seria expectável que fossem denunciados: 

(i) o facto de o IN já se ir preparando para a guerra de forma segura, psicológica e belicamente segura;

(ii) a manifesta incoerência de uma guerra, mal explicada e fora dos contextos internacionais que, já em 1958, a França experimentara na Argélia de que nós, amargamente, não colhemos lição - o que veio depois a confirmar-se no Congo belga, em Angola e, antes, na Índia.

2. No que respeita ao historiador José Matos que aborda muito bem a sublevação das gentes da Guiné, recordo que, historicamente, as sublevações foram constantes ao longo dos séculos - basta compulsar diversas obras (algumas eu tenho na minha posse e delas faço uso em diversas reflexões) para se confirmarem estes factos históricos.



Opção Resposta 8:

(i) falta conhecimento das necessidades das populações e falta de apoio no desenvolvimento económico e social;

(ii) falta de aproveitamento e de promoção social dos quadros mais qualificados (ex: Amílcar Cabral);

(iii) falta de aproveitamento político das estrutras tradicionais do poder (ex: régulos);

(v) militares de carreira com formação em guerra clássica, mas, sem preparação e conhecimentos em guerras de guerrilhas, que têm cariz muito mais político do que militar, sobretudo, ao mais alto nível das forças armada;

(v) poder político sem visão e sem carisma suficiente para enfrentar uma guerra com carácter mais político do que militar. Era fundamental encetarem-se conversações com muito mais acutilância e determinação:

(vi) falta de suficiente capacidade de esclarecimento político e mobilizadora das tropas para enfrentarem e sofrerem grande desgaste psíquico.


III. Mário Serra de Oliveira

Concordo:

1. Deficiente instrução das tropas e quadros

2. Deficiente equipamento das unidades no terreno 

5. Falta de enquadramento / aproveitamento militar dos guineenses 

6. Instalações inadequadas

7. Cansaço das NT, sempre ansiosas por acabar a comissão e voltar para a metrópole

Concordo, com atenuante somente no meio de transporte, porque fartura existia:

4. Abastecimento (material, munições, víveres e água) -

Discordo:

3. Falta de pessoal / insuficiência de efetivos

Outros problemas:

8. Outros problemas não referidos acima - Aproximação pedagógica mais respeitàvel, junto das populações.

_________________

Nota do editor:

(*)Vd. poste de 27 de fevereiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15802: Inquérito 'on line' (35): Lista de problemas no CTIG em setembro de 1963, segundo o Com-Chefe Louro de Sousa...Camarada, vota nos que concordares (Resposta múltipla)

3 comentários:

Antº Rosinha disse...

Gostava de comentar a ideia de Paulo Salgado, quando menciona que devíamos aprender a lição da França em Argélia, e com a India, não sei se refere ao caso de Goa ou ao caso da India, joia da coroa inglesa, e ao Congo Belga e Angola.

De facto, como Paulo Salgado diz e bem, sempre houve sublevações, mas sublevações tribais ou regionais.

Verdadeiramente nacionais, em África, só podemos considerar nos anos 50 o caso de Argélia,, mas na região do Magrebe, e no Quénia com uma seita o Mau-Mau, e pouco mais, pois foi política das potências coloniais partir nitidamente em força para o chamado «neocolonialismo» que Amílcar Cabral denunciava e que ia evitar, pois Salazar não tinha possibilidades para tal, escrevia Amílcar, por isso não ia dar a independência.

Paulo Salgado que conhece bem a Guiné, sabe o que aconteceu ao Amílcar, ao irmão Luís, e ao Nino Vieira, e como fala no Congo Belga sabe quem era Lumumba, primeiro ministro vivo durante 6 meses e já não foi pouco.

E no caso do Congo Belga, os belgas não hesitaram mais que uns meses em mandar o rei Balduino, de bandeira na mão para Kasabuvu, presidente por uns tempos, uma ponte aérea por terra, mar e ar, para os Belgas todos, e em 24 horas só ficaram no congo os «brancos» portugas e «brancos» gregos como colon e reporters do mundo inteiro, estes a relatarem as carnificinas do Congo, Ruanda e Burundi, até recentemente.

Eu estava em Noqui, cabo milº cheguei ainda a presenciar majores congoleses descalços com as botas transportadas ao pescoço do ordenança que vinham matar a sede a Noqui, pois em Matadi a cerveja esgotou imediatamente.

Paulo Salgado quando compara os casos do Congo e da Argélia como exemplo a seguir, temos que assinalar que são dois casos totalmente diferentes um do outro.

No Congo, nunca houve sublevações, mas sim manifestações de grupos politizados, e não foi preciso insistirem muito.

Os belgas fizeram bem em dar o fora? Não tinham pena do Lumumba?

Nós fizemos mal em não entregar a bandeira ao primeiro que aparecesse? não merecia Agostinho Neto viver mais uns anos? e Amílcar também não devia viver mais uns tempos?

E foi este vizinho de Angola, com lutas tribais terríveis e separatistas, e logo a seguir, Mobutu que apoiou em Angola o cunhado da UPA Holden Roberto nas matanças do nosso Congo, que levou o próprio povo angolano a não dar ouvidos a cantos de sereia.

Claro que Paulo Salgado quando diz que estes eram exemplos a seguir pelo Salazar, é o que pensa a maioria dos portugueses que foram à guerra do Ultramar, principalmente os alferes milicianos.

Que foram eles os comandantes que mais aguentaram a luta.

Eu que fui retornado e furriel, digo que foi de um cinismo o comportamento europeu e belga os principais responsáveis pelos genocídios no Congo Ruanda e Burundi.

Nós ao fim de 500 anos não podíamos vir a ser acusados de ser os primeiros a dar o fora, depois da escravatura e pacificações.

Portanto não precisamos hoje de aramar a nossa fronteira, estamos de consciência tranquila, pois não somos responsáveis pelo abandono daqueles que gritam em Ceuta, do outro lado do arame.

Cumprimentos





J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Rosinha:
Concordo com o que dizes e para refleção noto que, a França, a Inglaterra, a Espanha, pelo menos, continuam a dominar territórios ultramarinos.
Um abraço a todos,
JS

Anónimo disse...

José Colaço
29 fev 2016 18h34

Respondendo ao nosso inquérito, assinalo os seguintes pontos:

(i) a deficiente instrução das tropas e quadros;

(ii) o deficiente equipamento das unidades no terreno;

(iii) as faltas de pessoal e insuficiência de efectivos;

(iv) os problemas nos abastecimentos das unidades em material, munições, víveres e água;

(v) a falta de enquadramento e aproveitamento dos nativos em operações de segurança...


Sou do início da guerra da Guiné, fui lançado na Operação Tridente só com um mínimo de preparação, eu e os meus camaradas de especialidade, inclusive o furriel (transmissões) e todas os outras especialidades até os atiradores; devido a nossa inexperiência e falta de conhecimentos houve alguns acidentes com a desconhecida G3...Por outro lado, receber uma mensagem era repetição constante dos grupos fonéticos e ter que pedir para o emissor transmitir devagar, pausado, que o operador era (maic) (maçarico)... mas como nós somos um povo do desenrasca tudo se resolveu.

Para transmitir para Catió nós não conseguíamos, comunicávmos com alguma dificuldade (principalmente durante a noite) com o BCAÇ 490 que estava em Cauane, no outro lado da Ilha do Como, e eles retransmitíam a nossa mensagem. Devido a esta dificuldade alguém do comando mandou ao Cachil um segundo sargento electromecânico e ensinou-nos como montar (e montou ele) uma uma antena horizontal.

Com este aparte, é só para dizer que concordo com todos os pontos que o meu primeiro comandante chefe na Guiné, Brigadeiro Louro de Sousa, mencionou pois tive oportunidade de os comprovar no terreno.

Mas discordo do ponto nº 1 em 50%: que os milicianos tivessem essa deficiência, concordo em absoluto, mas os quadros não: são ou eram profissionais de carreira, tinham por obrigação, dever de profissionalismo, estar preparados a 100% para todos os reveses que a profissão reserva.

Um abraço, Colaço.