terça-feira, 10 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16074: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (11): Honrando os nossos "mais velhos": Fernando Valente (Magro), cap mil art, BENG 474 (Bissau, 1970/72), que faz hoje 80 anos... Tem 60 meses / 5 anos de serviço militar, e mais 5 manos que serviram a Pátria em Angola, Guiné e Moçambique... Recorda-se também aqui o relevante papel da engenharia militar na Guiné, através do BENG 447


Capa do livro "A Engenharia Militar na Guiné - O Batalhão de Engenharia". Coord. Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar. Lisboa : Direcção de Infraestruturas do Exército, 2014, 166 p. : il. ; 23 cm. PT 378364/14 ISBN 978-972-99877-8-6.  Índice da obra: ver aqui.

[Cortesia de Nuno Nazareth Fernandes] (*).


1. Em honra do nosso camarada Fernando Valente (Magro) que hoje faz 80 (oitenta anos!) (o outro aniversariante é o Henrique Matos, "régulo da Tabanca do Algarve") (*) e é um dos "nossos mais velhos", o que na cultura da Tabanca Grande significa, mais do que um 'posto', respeito, apreço, orgulho ...

Recorde-se que Fernando Valente (Magro):

(i) nasceu a 10/05/1936 em Arouca;

(ii) foi Engenheiro Técnico de Construções Civis no Ministério das Obras Públicas;

(iii) prestou serviço na Guiné como Capitão Miliciano de Artilharia, entre 1970 e 1972, no BENG 447;

(iv) é membro da Associação Portuguesa de Escritores;

(v) é autor das seguintes obras literárias: Menina do Meu Pensar; A Canção Arábica;  Memórias da Guiné; Um Olhar Abrangente; As Aventuras de Robin dos Bosques;

(vi) tem dois blogues: Portugal e o Passado..; Histórias da Vida Real.

Do primeiro blogue voltamos aqui a reproduzir, em sua honra e em honra dos demais camaradas do BENG 447, um poste com a data de 12 de maio de 2015. Foi originalmente publicado no seu livro  "Memórias da Guiné",  Edições Polvo, Lda, 2005...  É um notável poste, não só pelos apontamentos biográficos como pelo relato da trágica emboscada que sofreram as NT em 22/3/1974, a um mês do 25 de abril, na estrada Piche-Nova Lamego, no troço entre Bentem e Camabajá, poderosamente evocado pelo fur mil do BENG 447, Manuel Pedro Santos. É uma forma de os associarmos também, aos nossos camaradas da engenharia militar, à festa dos nossos 12 anos: o nosso blogue nasceu em 23/4/2004 (***).

Há uma página no Facebook sobre o BENG 447, Brá, Guiné - Comunidade  (sem movimento desde há um ano...). No nosso blogue há cerca de 7 dezenas de referências ao BENG 447. E temos vários camaradas da engenharia militar na nossa Tabanca Grande.


2. Poste do blogue Portugal e o Passado... A nossa verdade sobre a história de Portugal... > 12 de maio de 2015 >  A Agonia do Império (excerto)

por Fernando Valente (Magro)


Guiné > s/l > s/d > c. 1970/72] > O Cap Mil Fernando Valente (Magro), à esquerda, acompanhando o Gen Spínola e o Comandante Militar; ao centro, o Ajudante de Campo do Com-Chefe, Almeida Bruno.

[Cortesia do blogue Os Magros do Capim - A gesta de seis irmãos que cumpriram Serviço Militar em África (Angola, Guiné e Moçambique)]

(...) Essa guerra [, a guerra colonial], em três frentes, tornar-se-á longa obrigando a um grande esforço material e humano, com sacrifício de várias gerações de jovens soldados, enquadrados por sargentos e oficiais do quadro permanente e do quadro de complemento (milicianos).

No caso da minha família (Valente Magro) todos os meus cinco irmãos e eu próprio fomos chamados a prestar serviço militar obrigatório e todos fomos mobilizados: um para Moçambique, como alferes miliciano;  dois para Angola sendo um deles no posto de furriel,  e o outro como cabo especialista da Força Aérea;  e três para a Guiné, sendo eu, o mais velho, como capitão miliciano, o mais novo como furriel [Abílio Magro] e o imediatamente a seguir ao mais novo como primeiro cabo auxiliar de enfermeiro [, Álvaro Magro].

No meu caso particular,  fui duas vezes incorporado obrigatoriamente na vida militar. Em 1959 iniciei o cumprimento da minha primeira obrigação militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas como cadete tendo acabado como aspirante oficial miliciano no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves n.º 3, em Paramos, Espinho. Somente regressei à vida civil em Fevereiro de 1960 como alferes miliciano, tendo sido promovido mais tarde a tenente miliciano na disponibilidade. Estive nas fileiras do exército nessa primeira fase durante vinte meses.

Depois disso entrei ao serviço do Ministério das Obras Públicas como engenheiro técnico, casei e nasceu o meu filho Fernando Manuel em 1961, precisamente no ano da invasão e anexação pelas tropas da União Indiana das possessões de Goa, Damão e Diu.

Também em 1961 teve início a guerra colonial de Angola, que se estendeu rapidamente à Guiné e a Moçambique como já referi anteriormente. Na altura, em 1961, ainda receei ser mobilizado como alferes, mas tal não se verificou. Mas em 1968, passados sete anos, tive conhecimento que, por haver muita falta de comandantes e companhia (capitães),  o governo estava incorporando os tenentes milicianos na disponibilidade a fim de frequentarem obrigatoriamente um curso de promoção a capitães, tendo em vista a sua mobilização, nesse posto, para as guerras coloniais em África.

O aviso para me apresentar em Mafra a fim de frequentar o referido curso de promoção a capitão chegou-me a vinte e oito de Fevereiro de 1969. Em Março desse mesmo ano fui pela segunda vez incorporado no exército e só passei à disponibilidade em trinta de Junho de 1972, isto é, passados quarenta meses. Como na minha primeira incorporação tinha estado vinte meses ao serviço do exército, com esta segunda incorporação perfiz sessenta meses, isto é cinco anos de vida militar obrigatória.

Vida militar que na segunda fase compreendeu uma comissão na Guiné de 10 de Abril de 1970 a 30 de Junho de 1972. Essa comissão que inicialmente estava para ser cumprida comandando uma companhia operacional no mato, acabou por ser levada a efeito no Batalhão de Engenharia 447, em Bissau por intervenção do Governador e Comandante-Chefe da Guiné, General Spínola, que decidiu colocar-me no referido batalhão de engenharia aproveitando a minha formação civil. Aí chefiei os Serviços de Reordenamentos Populacionais.

Tratava-se de um serviço dirigido por militares que era essencialmente destinado às populações civis. Tinha em vista proceder ao agrupamento de diversas pequenas "tabancas" com o fim de constituir aldeamentos médios onde fosse rentável dotá-los com algumas infraestruturas tais como escolas, postos sanitários, fontanários, tanques de lavar, cercados para o gado, mesquitas ou capelas. Além disso tinha-se também em vista, com a execução dos reordenamentos, a defesa e o controle das populações.

Capa do livro, edições Polvo, 2005
A minha actividade não estava por isso circunscrita à cidade de Bissau. Tinha por vezes que me deslocar ao interior do território para resolver localmente problemas que surgiam durante as obras dos reordenamentos populacionais. Fiz, por isso, algumas viagens para o interior da Guiné em helicóptero ou em avião militar (Dornier). Essas viagens tinham alguns riscos devido aos independentistas, a certa altura, se terem apetrechado com mísseis terra-ar e devido aos tornados que por vezes se formavam e que eram perigosos principalmente para as pequenas aeronaves.

Durante a minha estadia na Guiné ocorreu um acidente justamente com um helicóptero que transportava cinco deputados da Assembleia Nacional e que um tornado fez despenhar no rio Mansoa tendo morrido todos os seus ocupantes.

Comigo as deslocações ao interior da Guiné correram sempre sem perigo, mas para outros militares não foi sempre assim. O Batalhão de Engenharia 447 tinha como funções dar apoio às tropas aquarteladas na Guiné no âmbito de garantir o regular funcionamento dos quartéis, promover o fornecimento de geradores eléctricos, orientar e apoiar as obras de reordenamentos populacionais, fornecer material de manutenção, construir estradas, pontes e portos de atracagem, quartéis e abrigos subterrâneos, etc.

Muitos elementos do BENG 447 tinham de se deslocar ao mato frequentemente em colunas por via terrestre e alguns correram grandes riscos como podemos constatar pelo relato trágico que o Furriel Miliciano de Engenharia Pedro Manuel Santos fez no livro "A Engenharia Militar na Guiné" (no qual também colaborei) (*) quando descreve uma emboscada que sofreu uma coluna de dez viaturas, em que ele mesmo seguia, da seguinte forma:

"No dia 22 de Março de 1974 quando regressava de Piche para Nova Lamego, em coluna militar, e após termos percorrido cerca de dez quilómetros entre Benten e Cambajá, cerca das 8:30 horas, sofremos uma emboscada de grande violência.

O PAIGC (Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde) tinha colocado à beira da estrada cerca de 110 abrigos e outra grande quantidade de guerrilheiros em cima de mangueiros. O número de guerrilheiros estimou-se entre duzentos e duzentos e cinquenta elementos...

A nossa coluna militar era constituída por dez viaturas, sendo duas chaimites, uma white, três berliets e quatro unimogs. Quando deflagrou a emboscada as duas chaimites da frente foram as primeiras a ser atacadas com RPGês bem como uma white e um unimog.

A primeira chaimite onde ia o capitão Luz Afonso passou e saiu da estrada protegendo-se no mato no lado oposto ao dos guerrilheiros tendo sido ainda atingida por um rocket de raspão. A segunda chaimite, onde ia eu, apanhou uma rocketada à frente, bem como no lugar onde ia o condutor e o Furriel Soares que a comandava. Perfurou o blindado e cortou as pernas aos dois referidos camaradas que começaram a gritar por ajuda.

O cabo Augusto Graça que ia na metralhadora, com uma enorme frieza dispara durante algum tempo até que a velha máquina se encravou. Durante uns minutos, que me pareceram anos, a chaimite começou a arder pela frente e as chamas envolveram os companheiros que tinham sido atingidos pela rocketada e que já estavam sem pernas.

Lembro-me de olhar nos olhos o Furriel Soares, que comandava a chaimite, e que me pediu para o não deixar morrer ali. Por segundos tentei pegar num deles mas a viatura já se encontrava com um nível de calor muito elevado e o perigo de ficarmos todos lá dentro era iminente.

O cabo atirador Augusto Graça apenas teve tempo de abrir metade da escotilha do blindado e gritar para fugirmos. Já não pude fazer mais nada. Tive de abandonar o blindado. Saí eu, o capitão miliciano Fernando e o cabo Augusto Graça. Corri cerca de cem metros e logo atrás de mim um guerrilheiro do PAIGC tentou agarrar-me à mão. De imediato os depósitos da chaimite rebentaram e deu-se uma enorme explosão.
Ainda me lembro de ouvir as balas e as granadas que estavam dentro do blindado a rebentar e os últimos gritos dos meus dois camaradas! Nesse momento o guerrilheiro que correu atrás de mim, em volta de um enorme morro de formigas "baga baga", desistiu, presumo que assustado pela enorme explosão da chaimite e consegui despistá-lo fugindo para o mato. A minha G3 tinha ficado no blindado.


Guiné > Zona leste > Região de Gabú > Piche > CCAÇ 3546 (1972/74) > Coluna logística, vinda (presumivelmente) de Nova Lamego e a chegar a Piche... À frente uma Chaimite, seguida de uma White... As duas viaturas deveriam, possivelmente, pertencer ao Esq Rec Fox 8840 (Bafatá, 1973/74). Foto do álbum fotográfico do nosso camarada Jacinto Cristina (Figueira de Cavaleiros, Ferreira do Alentejo).

Foto: © Jacinto Cristina (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.

Dentro do mato encontrei o capitão Fernando... ele trazia uma pistola Walter e disse-me: esta pistola é para nos suicidarmos se formos agarrados à mão!

A partir de aí perdi por completo a memória, não sei por onde andei nem durante quanto tempo, mas dizem-me que foi por um dia inteiro. Tenho uma vaga ideia de ir ter sozinho à estrada e encontrar o Furriel Fidalgo que fazia segurança ao material queimado. Senti o cheiro de carne humana queimada que saía da minha chaimite e que até hoje nunca mais me saiu do nariz.

Levaram-me para Piche onde o nosso capitão Luz Afonso já se encontrava à espera de transporte para Bissau. Segui, depois, para Nova Lamego onde fui tratado a uma perna que ficou ferida ao sair por metade da escotilha da chaimite. Fui depois evacuado para o Hospital Militar de Bissau...

A minha arma foi entregue mais tarde no BENG 447 apenas com a parte de ferro crivada das balas que rebentaram dentro da chaimite. O Furriel Fidalgo disse-me que quando apareci do mato e o encontrei junto à estrada só gritava para ele: "Foge que vem aí os amarelos!" (referindo-me aos fardamentos do guerrilheiros do PAIGC) e que estava completamente baralhado da cabeça. 

Chamaram-me o "morto-vivo" por ter sido dado como morto e depois aparecer com vida. Nesta emboscada tivemos seis mortos (****), dezasseis feridos muito graves e três feridos ligeiros. Tenho na memória alguns camaradas a respirar pelas costas e já sem vida. Alguns completamente desfeitos. Outros a serem tratados com garrotes.

Quando regressei à metrópole para junto da minha família... senti-me completamente abandonado e entregue a mim próprio. Ninguém me perguntou se estava bem ou mal, se precisava ou não de qualquer tipo de ajuda. Tinha de recomeçar a minha vida...

Hoje, passados quarenta anos, acho imprescindível este desabafo para que alguém com poderes para isso não deixe que a história se repita neste capítulo.

Esta é apenas uma história entre outras que em dois anos sucederam e que não gosto de contar mas entendo que a devia escrever. A todos os ex-combatentes ainda vivos deixo uma palavra de coragem para acabarmos os dias que nos falta viver.

As gerações vindouras que não esqueçam a brutalidade a que o Governo de então submeteu os jovens da nossa geração. Quando se fala de ex-combatentes deve tributar-se o respeito que eles merecem pois marcaram e fazem parte de uma página da história que, em nome da Pátria, foram obrigados a cumprir e muitos a darem, inclusive, a sua própria vida."

[Texto originalmente publicado em "Memórias da Guiné",  de Fernando Magro,  Edições Polvo, Lda, 2005]



Guiné > Zona leste > Região de Gabu  > Carta de Nova Lamego > Escala 1/50 mil (1957) > Pormenor: Troço Camabajá-Bentem na estrada Nova Lamego

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2016).
________________


(***) Último poste da série > 8 de maio de 2016 >  Guiné 63/74 - P16065: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (10): Republicando o poste P5807, de 13/2/2010: O 6.º aniversário do nosso Blogue (1): Homenagem ao Fundador Luís Graça e a toda a tertúlia (Jorge Félix/Carlos Vinhal)

(****) Nesta emboscada, na estrada de Piche-Nova Lamego,  morreram 2 soldados e 2 furriéis do Esq Rec Fox 8840, 1 soldaddo da CCAÇ 21 e 1 soldado do 12.º Pel Art

Lembremos aqui o nomes desses bravos camaradas:

(i) Do EREC 8840/72 (Bafatá, 1973/74):

2 fur mil cav, José António da Costa Teixeira, natural de Lousada; e Manuel Joaquim Sá Soares, natural de Santo Tirso; e

2 sold cav,  João da Costa Araújo, natural de Ponte Lima; e Victor Manuel de Jesus Paiva, natural de Castelo Branco;

(ii) Dois soldados naturais da Guiné: Bailó Baldé, natural de Nova Lamego, sol at inf, CCAÇ 21; e Bambo Nanqui, natural de Fulacunda, sold at art, 12º Pel Art / GAC 7.

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Pessoalmente, acho estranho que esta brutal emboscada na estrada de Piche-Nova Lamego, em pleno coração da zona leste, em pleno "chão fula", o dos nossos leais e bravos fulas, envolvendo forças da nossa cavalaria (com as famosas e, afinal, dececionantes "chaimites"), a um mês do 25 de abril de 1974, seja tão pouco falada, comentada, divulgada...

Quem poderia e deveria escrever, não escreve, por razões que desconhecemos... Se calhar, inibição, pudor, raiva... Eu sei lá!...

Resta-nos este relato de antologia, de um obscuro furriel miliciano de engenharia, o Manuel Pedro Santos, que temos de pôr na galeria dos nossos mártires e heróis... Felizmente ele sobreviveu (e espero que ainda esteja vivo!) para nos contar como foi o inferno, às 8 e meia da manhã, desse trágico dia 22 de março de 1974, no troço Bentem-Camabajá da estrada (alcatroadqa) de Piche-Nova Lamego...

Mesmo assim, com 200 e tal atacantes, "entrincheirados", e arnmados de RPG, o PAIGC tinha a "obrigação" de massacrar todos os "tugas" e os seus "cães" que iam na coluna... "Guerra é guerra", camaradas"... E foi feia, brutal, essa maldita guerra... Ainda dizem que foi uma guerra de "baixa intensidade", a da Guiné, dizem os senhores historiadores engravatados da nossa universidade que nunca sentiram, nas "putas das narinas", o cheiro da carne humana assada...

Por favor, camaradas, tragam mais testemunhos sobre estes e outros momentos marcantes do nosso calvário de 13 anos!... Quantos de vocês não passaram, tranquilamente, quase em passeio turístico, por este troço da estrada de Nova Lamego - Piche!...

Acrescentem estes topónimos ao nosso martirológio: Bentém, Camajabá... Ninguém mais vai lembrá-los dentro em breve!

Resta-nos honrar a memória dos nossos camaradas, metropolitanos e guineenses, que lá ficaram, na estrada alcatroada de Piche - Nova Lamego, a 10 km depois de Bentém, antes de Camabajá, às 8h30 do dia 22 de março de 1974...

Lembremos aqui os nomes desses bravos camaradas:

(i) do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria, EREC 8840/72 (Bafatá, 1973/74): os fur mil cav José António da Costa Teixeira, natural de Lousada, e Manuel Joaquim Sá Soares, natural de Santo Tirso; os 2 sold cav, João da Costa Araújo, natural de Ponte Lima; e Victor Manuel de Jesus Paiva, natural de Castelo Branco;

(ii) e ainda, os soldados, do recrutamento local, Bailó Baldé, natural de Nova Lamego, sol at inf, CCAÇ 21; e Bambo Nanqui, natural de Fulacunda, sold at art, 12º Pel Art / GAC 7.

Antº Rosinha disse...

"110 abrigos e outra grande quantidade de guerrilheiros em cima de mangueiros. O número de guerrilheiros estimou-se entre duzentos e duzentos e cinquenta elementos..."

Uma concentração desta envergadura naquele lugar fula, e naquela data, algo já estava a "falhar" das chefias.

Já perto dessa altura, na mesma estrada em construção, uma camião da Tecnil foi atingido por uma bazoocada "tipo brincadeira" do PAIGC.

Contaram depois os guerrilheiros que alguns disfarçados à civil pediram boleia no fim do dia para o Gabu, foi-lhe negada pelo motorista, e na hora de partir, uma bazooka acertou na porta do mesmo motorista guineense, que "muri".

Luís Graça, eu digo sempre há uns anitos, que este blog vai ajudar a contar a história do princípio do meio e do fim da GUERRA do ULTRAMAR, a guerra que nós fizemos.

Sobre esta estrada de PICHE, já aqui já foi mencionado este caso do único ataque às máquinas da TECNIL, praticamente em toda a guerra.

Luís Graça, só por negligência, propositada ou intencional ou casual, estes casos podiam acontecer.

É coincidência apenas, ou as FA só já estavam preocupadas com outros valores?

Claro que andamos aqui, também para compreendermos quem fomos, quem somos, e quem viremos a ser.

Cumprimentos





Tabanca Grande disse...

Rosinha:

Quem somos nós para "julgarmos" os nossos camaradas ?... Admito que, nessa altura, com estrada alcatroada, a malta andasse nais "descontraída"... Fiz muitas vezes Bambadinca-Baftá-Bambadinca também "numa boa"... Não aconteceu nada no meu tempo, para além de desastres rodoviárias, por excesso de velocidade...

Enfim, já cá tenho o Perintrep com informação sobre o dia 22/3/1974, facultado pelo me amigo cor art ref Nuno Rubim...

A emboscada foi às 7h45. Tivemos 5 mortos (e não 6...), 5 feridos graves e 11 feridos ligeiros... (Menos freidos do que é relatado pelo fur mil do BENG 447. o Manuel Pedro Santos, que ia na coluna)... Foram destruídas 3 viaturas: 1 Chaimite, 1 White, 1 Berliet...

Concordo contigo: 200 gajos de farda amarela a movimentarem-se em "pleno coração fula", deviam dar muito nas vistas... São 5 ou 6 bigrupos!... O PAIGC andava desfalcadíssimo, uma operação destas implica também uma grande logística...

Suspeito destes números que podem estar inflacionados pelo comando do batalhão, o BCAÇ 3883... Era preciso "arranjar" explicações fáceis, que os trutas em Bissau "engoliam"; quem estava no mato também tinha os seus trunfos, ou seja, maneiras de "sacudir a água do capote"; por certo que o ten cor do BCAÇ 3883 não foi fazer o reconhecimento "in loco"... Também apanhei uma violenta emboscada, no mato, com 6 mortos e 9 feridos graves (26/11/1970, no Xime)...Foi preciso arranjar "bodes expiatórias" e explicações mirabolantes...pra descartar erros de comando...

De qualquer modo, o desguarnecimento do leste, a sul da estrada Piche-Nova Lamego, a ausência de uma zona tampão (perdida com a retirada de Beli, Madina do Boé, Cheche, e tabancas em autodefesa como Padada, Madina Xaquuilim, etc.), a par da proximidade com a fronteira, podem explicar também as facilidades de aproximação do IN a colunas (de rotina, como esta...).

Depois da emboscadas, a força atacante teve por certo que dispersar, por causa da aviação, que deve ter vindo em socorro das NT... A força inimiga veio fortemente armada, com armas automáticas, RPG2, RPG7 e morteiro 60...

Mas a lealdade dos fulas do Gabu não era a mesma dos fulas de Bafatá, dos regulados de Badora e Cossé... A CCAÇ 21 andou pelo nordeste nesta fase e o havia indícios de que o PAIGC estava a dividir os fulas... E havia fulas (do Gabu e do Senegal) na guerrilha... No meu etmpo, era impossível: nunca soubemos de nenhum, nenhum apanhámos nenhum, no setor L1 (Bamabdinca): eram balantas, mandingas e beafadas...

Tenho que ver quando foi o ataque ao pessoal e máquinas da Tecnil, no troço Piche-Buruntuma... Nas vésperas do natal de 1970, na construção do troço anterior, Nova Lamego-Piche, a TECNIL já havia sofrido 9 mortos...

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Tecnil

A malta que estava na Ponte Caium (3º Gr Comb, os "Fantasmas do Leste", da CCAÇ 3546 (Piche, 1972/74) também sofreu, no troço entre a Ponte e Piche, uma violenta emboscada em 14/6/1973, tendo morrido 5 camaradas nossos, em condições atrozes: o 1º cabo Torrão, e os sold Gonçalves ["Charlot"], Fernandes, Santos e Dani Silva. Ainda está de pé (!), na ponte, o monumento erigido pelos sobreviventes à memória dos camaradas mortos...

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Ponte%20Caium

Antº Rosinha disse...


Luís, eu não julgo ninguém, jamais me ouvirás julgar seja quem for.

Eu sou daqueles que assumo que fomos nós todos que fomos revolucionários, reaccionários. que fomos simulaneamente salazaristas e anti-salazaristas, colonialistas e anti-colonialistas.

Imagina que eu era de armas pesadas, mas cheguei a fazer de vago mestre e até "gamei" como os outros que não se livram da fama, portanto também sou corrupto!

Mas factos são factos, e temos que analizar os factos.

Como vi a guerra aqui no blog, melhor do que se estivéssemos lá, porque aqui é desbobinada em câmara lenta, e durante 13 anos vivi a guerra em Angola de barraca de campanha às costas de carregadores "contratados" daqueles que "comiam fuba podre, peixe podre" como diz o poeta/colonialista/transmontano/revolucionário, tenho, ou melhor temos que deixar cair as nossas asinhas, e analizar friamente os factos.

E digo isto, se queremos respeitar a memória principalmente, daqueles que morreram sem nunca vestirem uma farda da mocidade portuguesa, alguns nem aprenderam o que eram as cinco quinas da camisa verde, nem aprenderam qual era a capital da Guiné, quando tinham 10 anos e nem sabiam quem foi Camões, ao contrário dos Comandantes.

Luís Graça, estamos a falar de um lugar de mata relativamente esparsa, a pouco mais de meia hora de Gabu, penso que era sede de Batalhão, já não haveria serviço de informações ao menos? Sem Spínola já se teria começado a desistir sem responsabilidades assumidas?

Luís Graça, como estamos a falar dos "finalmentes" chegaram a cair mísseis sobre Bissau perto da Dicol e da Central Eléctrica, falava-se que Manuel dos Santos (Manecas) teria lançado esses objectos a partir de Cuméré, será que se chegou a um ponto que por lá por cima se tinha caído já na total desistência irresponsável?

É que tanto para avançar como para recuar, os comandantes têm que o fazer com as devidas responsabilidades, e cautelas, e até para improvisar que é a nossa tradicional competência, tem que ser bem feito.

Se insinuo aqui que já poderia haver relaxamento, mesmo que em vez de duzentos e cincoenta fossem só cincoenta guerrilheiros, num lugar plano e bastante aberto, com uma estrada em construção, uma pista de aviação no Gabú, junto a uma sede de Batalhão, e parece que nem teria havido resultados de uma (inexistente) reacção, o que é que podemos, a sangue frio, sentados ao computador, e depois de tudo o que se seguiu militarmente passados um mês ou dois, quem é que me pode alcunhar de "má língua"? de "fala barato"? "armado em juiz"?

Estou só a tentar ligar os acontecimentos.