quinta-feira, 12 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16079: Caderno de Notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (45): A brutal emboscada do dia 22/3/1974, na estrada (alcatroada, construida pela TECNIL ) Piche-Nova Lamego: só por negligência, propositada ou intencional ou casual, estes casos podiam acontecer... É coincidência apenas, ou as Forças Armadas só já estavam preocupadas com outros valores?...

Colagem de comentários do Antº Rosinha e do nosso editor LG ao poste P16074 (*):

[ Antº Rosinha é um dos nossos 'mais velhos', andou por Angola, nas décadas de 50/60/70, do século passado, fez o serviço militar em Angola, foi fur mil, em 1961/62, diz que foi 'colon' até 1974... 'Retornado', andou por aí (, com passagem pelo Brasil), até ir conhecer a 'pátria de Cabral', a Guiné-Bissau, onde foi 'cooperante', tendo trabalhado largos anos (1987/93) como topógrafo da TECNIL, a empresa que abriu todas ou quase todas as estradas que conhecemos na Guiné, antes e depois da 'independência'; é colunista do nosso blogue com a série 'Caderno de notas de um mais velho']



A. Escreveu o nosso editor LG, em comentário ao poste  P16074 (*):

Pessoalmente, acho estranho que esta brutal emboscada na estrada de Piche-Nova Lamego, em pleno coração da zona leste, em pleno "chão fula", o dos nossos leais e bravos fulas, envolvendo forças da nossa cavalaria (com as famosas e, afinal, dececionantes "chaimites"), a um mês do 25 de abril de 1974, seja tão pouco falada, comentada, divulgada...

Quem poderia e deveria escrever, não escreve, por razões que desconhecemos... Se calhar, inibição, pudor, raiva... Eu sei lá!... Resta-nos este relato de antologia, de um obscuro furriel miliciano de engenharia, o Manuel Pedro Santos, que temos de pôr na galeria dos nossos mártires e heróis... Felizmente ele sobreviveu (e espero que ainda esteja vivo!) para nos contar como foi o inferno, às 8 e meia da manhã, desse trágico dia 22 de março de 1974, no troço Bentem-Camabajá da estrada (alcatroada) de Piche-Nova Lamego...

Mesmo assim, com 200 e tal atacantes, "entrincheirados", e armados de RPG, o PAIGC tinha a "obrigação" de massacrar todos os "tugas" e os seus "cães" que iam na coluna... "Guerra é guerra, camaradas"... E foi feia, brutal, essa maldita guerra... Ainda dizem que foi uma guerra de "baixa intensidade", a da Guiné, dizem os senhores historiadores engravatados da nossa universidade que nunca sentiram, nas "putas das narinas", o cheiro da carne humana assada...

Por favor, camaradas, tragam mais testemunhos sobre estes e outros momentos marcantes do nosso calvário de 13 anos!... Quantos de vocês não passaram, tranquilamente, quase em passeio turístico, por este troço da estrada de Nova Lamego - Piche!...

Acrescentem estes topónimos ao nosso martirológio: Bentém, Camajabá... Ninguém mais vai lembrá-los dentro em breve!

Resta-nos honrar a memória dos nossos camaradas, metropolitanos e guineenses, que lá ficaram, na estrada alcatroada de Piche - Nova Lamego, a 10 km depois de Bentém, antes de Camabajá, às 8h30 do dia 22 de março de 1974... Lembremos aqui os nomes desses bravos camaradas: (i) do Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria, EREC 8840/72 (Bafatá, 1973/74): os fur mil cav José António da Costa Teixeira, natural de Lousada, e Manuel Joaquim Sá Soares, natural de Santo Tirso; os 2 sold cav, João da Costa Araújo, natural de Ponte Lima; e Victor Manuel de Jesus Paiva, natural de Castelo Branco; (ii) e ainda, os soldados, do recrutamento local, Bailó Baldé, natural de Nova Lamego, sol at inf, CCAÇ 21; e Bambo Nanqui, natural de Fulacunda, sold at art, 12º Pel Art / GAC 7.


Guiné > s/l > 1972 > Uma viatura blindada Chaimite V200. Foto de António Rogério Rodrigues Moura [ARRM], 1972.

Fonte: Portal Prof 2000 > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (Com a devida vénia...)


B. Agora comento eu, Antº Rosinha, ex-topógrafo da TECNIL, que conheci  a Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino Vieira', de 1987 a 1993:

"110 abrigos e outra grande quantidade de guerrilheiros em cima de mangueiros. O número de guerrilheiros estimou-se entre duzentos e duzentos e cinquenta elementos..."

Uma concentração desta envergadura naquele lugar fula, e naquela data, algo já estava a "falhar" das chefias.

Já perto dessa altura, na mesma estrada em construção, uma camião da TECNIL foi atingido por uma bazucada, "tipo brincadeira",  do PAIGC. Contaram depois os guerrilheiros que alguns disfarçados à civil pediram boleia no fim do dia para o Gabu, foi-lhe negada pelo motorista, e na hora de partir, uma bazooka acertou na porta do mesmo motorista guineense, que "muri".

Luís Graça, eu digo sempre, há uns anitos, que este blogue vai ajudar a contar a história do princípio, do meio e do fim da Guerra do Ultramar, a guerra que nós fizemos.

Sobre esta estrada de Piche, já aqui já foi mencionado este caso do único ataque às máquinas da TECNIL, praticamente em toda a guerra.

Luís Graça, só por negligência, propositada ou intencional ou casual, estes casos podiam acontecer. É coincidência apenas, ou as Forças Armadas só já estavam preocupadas com outros valores?

Claro que andamos aqui, também para compreendermos quem fomos, quem somos, e quem viremos a ser.


C. Novo comenatário do editor LG:

Quem somos nós para "julgarmos" os nossos camaradas ?... Admito que, nessa altura, com estrada alcatroada, a malta andasse mais "descontraída"... Fiz muitas vezes Bambadinca-Bafatá-Bambadinca também "numa boa"... Não aconteceu nada no meu tempo, para além de desastres rodoviárias, por excesso de velocidade...

Enfim, já cá tenho o Perintrep com informação sobre o dia 22/3/1974, facultado pelo meu amigo cor art ref Nuno Rubim... A emboscada foi às 7h45 (e não 8h30). Tivemos 5 mortos (e não 6...), 5 feridos graves e 11 feridos ligeiros... (Menos feridos do que é relatado pelo fur mil do BENG 447. o Manuel Pedro Santos, que ia na coluna)... Foram destruídas 3 viaturas: 1 Chaimite, 1 White, 1 Berliet...

Concordo contigo, Rosinha: 200 gajos de farda amarela a movimentarem-se em "pleno coração fula", deviam dar muito nas vistas... São 5 ou 6 bigrupos!... O PAIGC andava desfalcadíssimo, uma operação destas implica também uma grande logística...

Suspeito destes números que podem estar inflacionados pelo comando do batalhão, o BCAÇ 3883... Era preciso "arranjar" explicações fáceis, que os trutas em Bissau "engoliam"; quem estava no mato também tinha os seus trunfos, ou seja, maneiras de "sacudir a água do capote"; por certo que o ten cor do BCAÇ 3883 (**)  não foi fazer o reconhecimento "in loco"... Também apanhei uma violenta emboscada, no mato, com 6 mortos e 9 feridos graves (26/11/1970, no Xime)... Foi preciso arranjar "bodes expiatórios" e explicações mirabolantes... para descartar erros de comando...

De qualquer modo, o desguarnecimento do leste, a sul da estrada Piche-Nova Lamego, a ausência de uma zona tampão (perdida com a retirada de Beli, Madina do Boé, Cheche, e tabancas em autodefesa como Padada, Madina Xaquili, etc.), a par da proximidade com a fronteira, podem explicar também as facilidades de aproximação do IN a colunas de rotina, como esta...

Depois da emboscadas, a força atacante teve por certo que dispersar, por causa da aviação, que deve ter vindo em socorro das NT... A força inimiga veio fortemente armada, com armas automáticas, RPG2, RPG7 e morteiro 60...

Mas a lealdade dos fulas do Gabu não era a mesma dos fulas de Bafatá, dos regulados de Badora e Cossé... A CCAÇ 21 andou pelo nordeste nesta fase e havia indícios de que o PAIGC estava intimidar e a dividir os fulas... E havia fulas (do Gabu e do Senegal) na guerrilha... No meu tempo, era impossível: nunca soubemos de nenhum, nunca apanhámos nenhum, no setor L1 (Bambadinca): eram balantas, mandingas e beafadas...

Tenho que ver quando foi o ataque ao pessoal e máquinas daTecnil, no troço Piche-Buruntuma... Nas vésperas do natal de 1970, na construção do troço anterior, Nova Lamego-Piche, a TECNIL já havia sofrido 9 mortos...

A malta que estava na Ponte Caium (3º Gr Comb, os"Fantasmas do Leste", da CCAÇ 3546, Piche, 1972/74) também sofreu, no troço entre a Ponte e Piche, uma violenta emboscada em 14/6/1973, tendo morrido 5 camaradas nossos, em condições atrozes: o 1º cabo Torrão, e os sold Gonçalves ["Charlot"], Fernandes, Santos e Dani Silva. Ainda está de pé (!), na ponte, o monumento erigido pelos sobreviventes à memória dos camaradas mortos...



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Pormenor do mapa geral da província > Escala 1/500 mil (1961) > O traçado da antiga estrada Nova Lamego - Piche - Buruntuma. A distância entre Nova Lamego e Piche seria de 30/35 km. A emboscada de 22/3/1974 (na época seca)  deu-se na nova estrada, alcatroada, construída pela TECNIL, e cujo traçado não era muito diferente do antigo, A emboscada deu-se a meio caminho entre Piche (sede do BCAÇ 3883, 1972/74) e Nova Lamego, no troço Bentem - Cambajã  (,não confundir com Camajabá, entre Piche e Ponte Caium).

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2016)


D. Comentário final de Antº Rosinha

Luís, eu não julgo ninguém, jamais me ouvirás julgar seja quem for. Eu sou daqueles que assumo que fomos nós todos que fomos revolucionários, reaccionários. que fomos simultaneamente salazaristas e anti-salazaristas, colonialistas e anti-colonialistas.

Imagina que eu era de armas pesadas, mas cheguei a fazer[, em Angola,]  de vagomestre,  e até "gamei" como os outros que não se livram da fama, portanto também sou corrupto!

Mas, factos são factos, e temos que analisar os factos.

Como vi a guerra aqui no blogue, melhor do que se estivéssemos lá, porque aqui é desbobinada em câmara lenta, e durante 13 anos vivi a guerra em Angola,  de barraca de campanha às costas de carregadores "contratados", daqueles que "comiam fuba podre, peixe podre", como diz o poeta/colonialista/transmontano/revolucionário [, António Jacinto,][***),. tenho, ou melhor temos, que deixar cair as nossas asinhas, e analisar friamente os factos.

E digo isto, se queremos respeitar a memória principalmente, daqueles que morreram sem nunca vestirem uma farda da mocidade portuguesa, alguns nem aprenderam o que eram as cinco quinas da camisa verde, nem aprenderam qual era a capital da Guiné, quando tinham 10 anos e nem sabiam quem foi Camões, ao contrário dos Comandantes.

Luís Graça, estamos a falar de um lugar de mata relativamente esparsa, a pouco mais de meia hora de Gabu, penso que era sede de Batalhão, já não haveria serviço de informações ao menos? Sem Spínola já se teria começado a desistir sem responsabilidades assumidas?

Luís Graça, como estamos a falar dos "finalmentes,  chegaram a cair mísseis sobre Bissau perto da Dicol e da Central Eléctrica, falava-se que Manuel dos Santos (Manecas) teria lançado esses objectos a partir de Cumeré, será que se chegou a um ponto que por lá por cima se tinha caído já na total desistência irresponsável?

É que tanto para avançar como para recuar, os comandantes têm que o fazer com as devidas responsabilidades, e cautelas, e até para improvisar que é a nossa tradicional competência, tem que ser bem feito.

Se insinuo aqui que já poderia haver relaxamento, mesmo que em vez de duzentos e cinquenta fossem só cinquenta guerrilheiros, num lugar plano e bastante aberto, com uma estrada em construção, uma pista de aviação no Gabú, junto a uma sede de Batalhão, e parece que nem teria havido resultados de uma (inexistente) reacção, o que é que podemos, a sangue frio, sentados ao computador, e depois de tudo o que se seguiu militarmente passados um mês ou dois, quem é que me pode alcunhar de "má língua",  de "fala barato",  "armado em juiz"?

Estou só a tentar ligar os acontecimentos. 
Antº Rosinha (****)
_______________

Notas do editor:

(*) 10 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16074: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (11): Honrando os nossos "mais velhos": Fernando Valente (Magro), cap mil art, BENG 474 (Bissau, 1970/72), que faz hoje 80 anos... Tem 60 meses / 5 anos de serviço militar, e mais 5 manos que serviram a Pátria em Angola, Guiné e Moçambique... Recorda-se também aqui o relevante papel da engenharia militar na Guiné, através do BENG 447

(**) O BCAÇ 3883 foi mobilizado pelo RI 2, tendo partido para a Guiné, de avião, em Março de 1972 (o comando e a CCS em 19/3/1972; a CCAÇ 3544, a 20; a CCAÇ 3545, a 22; e a CCAÇ 3546 a 23). A CCS ficou sediada em Piche.

 O comandante de batalhão era o Ten Cor Inf Manuel António Dantas.  O comandante da CCAÇ 3546 (Piche, Cambor, Ponte Caium e Camajabá) era o Cap QEO José Carlos Duarte Ferreira. As outras companhias do BCAÇ 3883 eram a CCAÇ 3544 (Buruntuma e Piche; teve dois comandantes: Cap Mil Inf Luís Manuel Teixeira Neves de Carvalho; Cap Mil Inf José Carlos Guerra Nunes) e a CCAÇ 3545 (Canquelifá e Piche; comandante, Cap Mil Inf Fernando Peixinho de Cristo).

O batalhão regressou a casa, de avião, em Junho de 1974. Tem página no Facebook.

(***) Letra de António Jacinto (depois musicada por Rui Mingas, aqui na voz de Lura, 2009)

Monangambé

Naquela roça grande
não tem chuva,
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue,
feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém,
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares,
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande,
ter dinheiro?
Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras,
deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras.

- "Monangambéé...'"

António Jacinto (1924-1992) (Poemas, 1961)

(Com a devida vénia ao blogue O Castendo, de António Vilarigues)

7 comentários:

JD disse...

Ora vivam os amigos Luís e Rosinha!
Eis uma bela troca de ideias sobre os capítulos do fim na Guiné, em particular, e no "império" em geral.
Sobre a emboscada de 14/06/1973 na estrada entre Piche e Nova Lamego, totalmente alcatroada e desmatada nas margens, atravessava conforme refere o texto, uma zona de transição para a savana, portanto, não sendo mata densa, era boa para emboscar. O que surpreende, é que tenham tido a ideia de atacar do alto das árvores com RPG's, a arma mais indicada para enfrentar com êxito as viaturas referidas. A Chaimite, que parecia inspirar alguma segurança e mobilidade, era à partida mal municiada para o efeito, pois o canhão, imagino, não teria capacidade de prontidão na localização e na resposta ao fogo IN, e seriam os primeiros alvos. Mas, quem as adquiriu para aqueles fins, devia ter visto e avaliado o potencial da viatura.
Se a emboscada desencadeada com os lança-granadas fosse bem executada, isto é, se os alvos móveis fossem atingidos pelos "rockets" logo nos primeiros disparos, imagino que os estragos seriam grandes. Que eu saiba, naquela época já era costume a coluna ser acompanhada de héli-canhão. Havendo pista em N. L., é provável que depois do efeito "strella", ela estivesse meio-desactivada. Ainda assim, a resposta da FA demoraria o suficiente para o IN pôr-se a milhas depois de uns poucos minutos de acção devastadora e com armas ligeiras na cobertura da retirada. De facto, na direcção do Corubal, para sul da estrada, o terreno era desguarnecido de tropas e população, e, se calhar, também as unidades não insistiriam com patrulhamentos apeados pela margem direita do rio. Mas seria interessante termos acesso a eventuais relatórios sobre o acontecimento. 200 elementos, porém, seriam muitos, e levariam muito tempo a atravessar o rio. E como já aqui foi dito, a FA poderia flagelar com segurança.
Já aqui tivemos acesso a outros relatórios do tempo de Spínola, quando os comandos manifestaram tremendas preocupações, talvez para impressionar os estados-maiores e, por consequência, o governo, no sentido de providenciar melhor armamento e mais pessoal. Pôs-se então a hipótese de aviação IN e constatara-se uns poucos carros-de-combate de rodas, cuja utilização era (cf. o PAIGC) para conquistar localidades de leste. Ora, os aquartelamentos defendiam-se desses meios com mina AC e valas, para além de canhões móveis que haveria em cada unidade.
Quanto à falta de informação sobre os movimentos IN, depois do que acontecera em 1970 na fronteira do nordeste, com aldeias destruídas e as populações obrigadas a sair para o Senegal com os seus bens, era de prever que estas teriam receio de denunciar movimentos para evitarem represálias. Provavelmente não se providenciou um esquema de informações além-fronteiras, esses a merecer mais confiança. Agricultores e pastores é que não podiam arriscar.
(segue)

JD disse...

(continuação)
Faz-se alguma especulação sobre a capacidade dos comandos, e eu partilho de alguma desconfiança sobre os responsáveis, pois tive alguma experiência de várias toleimas alicerçadas no poder inquestionável de alguns comandantes e oficiais de operações.
No geral, eram bons ao bridge. Ora, nunca eu tive oportunidade para assistir a reflexões conjuntas sobre os diferentes aspectos da guerra. E quantas vezes tive que admitir que o IN até era condescendente connosco: não houve notícia de adulteração das águas; não houve notícia do que apenas um RPG poderia provocar à frente de uma coluna. E, no entanto, as NT através dos responsáveis "pensantes" nunca se preocuparam com essas e outras situações, e dou o exemplo de um pelotão deslocar-se apenas em duas viaturas (quando não macaqueava apenas numa), sujeito ao rebentamento de uma (ou duas, como aconteceu), do que poderia resultar mortos e feridos em excesso, porque os responsáveis pelas companhias embolsavam os custos de gasolina de 3 ou 4 viaturas deslocadas, como constava dos mapas elaborados na minha Companhia para Bissau. Assim, a par de militares competentes, responsáveis e que arriscavam como os restantes, havia outros, que nas tintas para a sorte de cada um, apenas faziam rentabilizar o "negócio pessoal". Uns vermes e miseráveis.
Por fim, refiro-me ao poema anexo, uma manifestação modernista das ideias contrárias à situação das colónias, talvez a sonhar que as coisas nasceriam da solidariedade do Leste. Ainda estão para nascer, e oportunidades não faltaram. Fuba e peixe podre - seria peixe sêco?, nunca vi, mas causam boa impressão doutrinária. Porrada? sim, pode ter havido e em excesso, mas noutros tempos, não nos anos que conheci a próspera África. Quem faz o milho crescer e os laranjais florir? Imagino que na China daquela época, era o Mao; e na URSS era o Brejnev. Cá o milho crescia com as espigas para baixo, e àparte a generosidade da natureza, havia mortes de fome em números inverosimeis.
Tenho, no entanto, que reconhecer, que a guerra de África contribuíu para dar um forte impulso ao desenvolvimento das colónias, o que, infelizmente, após o golpe de Abril, não constituíu factor de progresso económico e social, dadas as arbitrariedade bélicas dos movimentos de libertação, libertos de peias para cada um e dentro de cada um, tivessem tentado ganhar ganhar de qualquer modo o mais que era possível. E isso, paradoxalmente, veio a implicar destruição. E com mãozinhas marotas a ajudar, por vezes o próprio MFA.
Abraços fraternos
JD

Tabanca Grande disse...

Angola é de terra de poetas e de músicos. Do António Jacinto, só conheço poemas dispersos...O António Jacinto do Amaral Martins (Luanda, 1924-Lisboa, 1991) é um dos "brancos" do MPLA...

Provavelmente ninguém se vai lembrar dele como militante do MPLA, ministro da cultura (1975-78), mas como como poeta, e sobrevivente do Tarrafal onde passou dez anos (1962-1972)... È improvável que o Rosinha o tenha conhecido, mas atribui-lhe raízes transmontanas... Os pais eram de Alfândega da Fé...

ANTÓNIO JACINTO DO AMARAL MARTINS > Alfândega da Fé nas raízes, África no destino.

http://resistente.3e.com.pt/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=39:antonio-jacinto-poeta-angolano&catid=2:trabalhos-publicados

Aqui vai um excerto com a devida vénia;:


(...) António Jacinto do Amaral Martins nasceu em Luanda (“embora preferisse ter nascido no Golungo Alto”, como diz Ana Paula Tavares, em “Cinquenta Anos de Literatura Angolana”) em 28 de Setembro de 1924, filho de pais Alfandeguenses, José Trindade Martins (conhecido pelos conterrâneos pela alcunha de “trinta e três”) e de Maria Cecília Amaral Martins, que como muitos outros filhos da terra procuraram em Angola uma vida mais próspera. O Pai, “Tio Zé”, como lhe chamavam os familiares mais novos, terá chegado a Angola por volta de 1912, numa época em que o regime republicano incentivava a colonização de África. Uns anos mais tarde veio a Portugal para casar e regressou novamente, já com a esposa, a “Tia Micas”, como era conhecida também pelos familiares. Viveram sobretudo no Golungo Alto (província do Cuanza Norte) e fixaram-se definitivamente em Luanda por volta de 1945.

(...) Conclui os estudos liceais em Luanda, no Liceu Salvador Correia de Sá, não tendo prosseguido os estudos em Lisboa, como era seu desejo. Se isso tivesse acontecido o curso seria engenharia de minas, como nos confidenciou a prima Maria Cecília. Pelos vistos, ainda chegou a despedir-se dos amigos para vir estudar para Lisboa, mas o pai acabou por mudar de ideias e o jovem António Jacinto acabaria por se empregar como funcionário de escritório.
Cedo se destacou como poeta e contista da geração Mensagem. Um dos textos já apresentado em 1997, “Um Perfil”, data de 1945, tinha então vinte anos. O estilo ainda não é o que viria a caracterizar a sua poesia, mesmo a lírica, mas nota-se já o traço crítico e até irónico que encontramos em alguns dos seus textos posteriores e mais conhecidos.

Embora filho de colonos, António Jacinto teve um percurso de vida essencialmente marcado pelo envolvimento político contra a colonização e o regime fascista que perdurava em Portugal. Em consequência disso foi preso a primeira vez em 1959 e novamente em 1961, sendo desta vez condenado a 14 anos de cadeia (o julgamento aconteceu apenas em 1963) pena que iria cumprir no tristemente célebre campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Em 1972 foi libertado, mas com residência fixa em Lisboa. No ano seguinte fugiu para Argel, indo depois integrar a guerrilha do MPLA.~

Foi um destacado dirigente daquele movimento de libertação e após a independência de Angola foi Ministro da Cultura, de 1975 a 1978.

Morreu em 23 de Junho de 1991 em Lisboa e está sepultado em Luanda.

A sua obra está publicada nos seguintes livros: “Poemas”, 1961, “Vôvô Bartolomeu”, 1979, “Poemas”, 1982, “Em Kilunje do Golungo”, 1984, “Sobreviver em Tarrafal de Santiago”, 1985, “Prometeu”, 1987, “Fábulas de Sanji”, 1988.

(...)

Antº Rosinha disse...

Luís, estes "berrancos" como António Jacinto e Luandino Vieira eram muitos em Angola.

Não conheci nem um nem o outro, mas conheci dezenas tal qual eles.

Na tropa, nos Serviços Geográficos, na Junta A. de Estradas, nos C. de Ferro, na DTA, lugares por onde me entreti, e também naquelas esplanadas de Cuca na mão, andavam por todo o lado.

Eram muito cultos, muito letrados, principalmente leitores de escritores brasileiros de preferência baianos, viviam bem, para não dizer, maravilhosamente.

E "brincavam" connosco idos daqui, atrasados, onde a bola era quadrada, onde só havia o azeitinho e a sadinhinha, e andavamos de tamancos, e lá já havia o café e os diamantes e o petróleo, e já tinham produzido o Peyroteo e o Matateu e assim por diante, enfim, estavam prepardos para governarem aquilo, que lhe dessemos a independência.

No fim da conversa davamos-lhe razão, bebíamos umas Cucas íamos para a farra, aquilo era uma farra pegada, até que veio a UPA, terrorista e tribalista.

Aí ficaram todos amigos nossos, aliaram-se a nós "caputos" "chicoronos", só uns tantos, que se contam pelos dedos da mão, se ligaram ao MPLA, como Jacinto e Luandino.

Um ou outro ficou com Savimbi, não sei porquê, após a Independência.

Não menciono os angolanos, figuras públicas que andam por aí como portugas, desde o jornalismo à política e TV para as más línguas não dizerem que os retornados tomamos conta disto e abusámos.

Mas uma grande maioria foi para o Brasil.

Só isto, que foi parte da minha guerra.

Tabanca Grande disse...

"berrancos", "caputos" e "chicoronos": mais três palavras para o meu dicionáio de "angolês"...
Obrigado, Rosinha. De qualquer modo, achas que foi o racismo, o tribalismo e o terrorismo da UPA que lançou estes brancos, filhos de gente humilde do Puto, mas já nascidos em Angola, nos "braços" do MPLA ?

Dos que estiveram ao lado do Savimbi, conheci o dr. Carlos Morgado, seu antigo médico pessoal, há uns anos atrás, quando veio fazer o Curso de Mestrado de Saúde Pública na minha escola, a ENSP/UNL, com uma bolsa da OMS. Foi meu aluno e brilhante, discreto, disciplinado, afável mas fechado...

Sei que, infelizmente, já morreu em 2013, vítima de cancro, se não erro. Disseram coisas horríveis dele, os prórpios colegas médicos, afetos dao MPLA, também se distanciavam dele... Mas o Carlos Morgado, nascido e formado no Porto, é um "caso atípico", foi para Angola depois da independência e caiu nas boas graças do Savimbi...

Antº Rosinha disse...

?achas que foi o racismo, o tribalismo e o terrorismo da UPA que lançou estes brancos, filhos de gente humilde do Puto, mas já nascidos em Angola, nos "braços" do MPLA?

Esses filhos de gente humilde, mas que eles já não tinham humildade nenhuma, (brancos e mestiços)eram uns reisinhos, eram milhares, em Angola e Moçambique.

Mas um dos motivos para irem para o MPLA, era também aquela baboseira que estava na moda dos intelectuais, que era fino ser anti-salazarista, comunista e castrista, até eu deixem crescer a barba e dancava o tango dos barbudos.

Não eram só essa meia dúzia que, repito, meia dúzia que integraram o PAIGC, a Frelimo e MPLA.

Luís Graça, ainda bem que a FRELIMO, o PAIGC e MPLA é que ficaram a tomar conta daquelas terras.

Porque apesar das mortandades tipo 27 de Maio, mais os fuzilamentos e valas comuns, em todos os territórios, tinha sido pior, e até nem haveria PALOPes se têm sido outros a ficar por cima.

Uma coisa esses sacanas desses brancos de segunda tinham razão quando nos diziam aos brancos de primeira, (coisas que aprendi com eles), que os deixassemos governarem-se, porque nós nem
os 89.000 KLm quadrados sabiamos governar.

Luís, e que ninguém se atreva a chamar-me desbocado, porque só conto o que vi e tive que ouvir.



Tabanca Grande disse...

Há ainda "raiva" nas palavras que usamos, 50 anos depois... Eu acho que não temos para onde levar essa "raiva" (tóxica, como se diz agora...) depois de puxarmos a tampa do caixão sobre o nosso próprio cadáver: pessoalmente era a última coisa que eu gostaria de poder antes de partir no "barco de Caronte"...

A ti, Rosinha, chamavam-te "branco de 1ª"... Um desses tais "berrancos" do MPLA que chegou a general e fez toda a guerra da chamada "segunda independência", contava-me ele que em Lisboa era "branco de 2ª segunda" e em Luanda "preto de 1ª"... A maldita cor da pele que continua a nos separa uns dos outros... Recordo-me de me sentir "preto de 1ª" na Guiné, na "minha" CCAÇ 12, que era formada por soldados do recrutamento local, que não tinham o mesmo tratamento dos "tugas", eram pagos como "praças de 2ª classe", e a que eu chamava os meus "queridos nharros", obviamente "pretos de 2ª"...

Acho que nos faz bem "verbalizar" os sentimentos (contraditórios) que experimentámos na guerra, em Angola, na Guiné... Nunca faremos a psicoterapia da guerra mas podemos falar com humor dessas coisas... É para isso que serve o nosso blogue... Um kandando. Luis