sábado, 14 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16089: Memórias de Gabú (José Saúde) (62): Bafatá, cidade com o rio em pano de fundo. Olhar o Geba. (José Saúde)



Foto nº 1 > Bafatá, com o Geba ao fundo


Foto nº 2 > Uma coluna a Bafatá


Texto e fotos; © José Saúde (2016). Todos os direitos reservados.



1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

As minhas memórias de Gabu

Bafatá, cidade com o rio em pano de fundo

Olhar o Geba

Recordo as idas a Bafatá! O zumbido dos velhos motores das Berliet e dos Unimog que rompiam o silêncio de um misterioso capim onde se camuflavam homens que preparavam emboscadas à tropa tuga. Era o tempo da guerra. Ninguém passava imune a uma guerrilha tremendamente desleal. Sou de um tempo em que a estrada que ligava as duas cidades, Bafatá-Nova Lamego, já se encontrava alcatroada.

Bafatá, terra natal de Amílcar Cabral, cabo-verdiano de sangue mas um cidadão guineense que nasceu no mês de setembro de 1924, situa-se na região centro da Guiné-Bissau, sendo a sua população predominante de etnia fula e mandiga, a que acresce a sua principal fonte económica passar pela produção de arroz e de tubérculos. Bafatá era ainda uma cidade anfitriã para eminentes encontros. Dissecavam-se as agruras da guerra, bebiam-se uns líquidos fresquinhos e os repastos eram de bom grado.

Recordo as cívicas “emboscadas” preparadas pela rapaziada numa ida a Bafatá e que desembocavam normalmente no “Transmontano”, se a memória não me falha o nome. De parte ficava o rancho do quartel, pelo menos por um dia.

Historicamente debruço-me, como é óbvio, sobre a zona de Bafatá. Neste contexto, o seu clima tropical, geralmente quente e húmido, apresentando-se chuvoso entre os meses de junho a outubro e seco entre novembro e maio, era abrasador e ali se recolheram histórias de encanto e desencanto de gentes atirados para as frentes de combate.

Banhada pelo rio Geba a população tinha na pesca uma das suas fontes de rendimento. Todavia, Bafatá era essencialmente uma urbe onde uma visita alvitrava um olhar sobre as águas do Geba que corriam mansamente num leito onde se extraiam outras compensações.

Geba, que em dado momento da minha comissão, tive a oportunidade em conhecer numa viagem fluvial feita entre Bissau e o Xime. Lembro a azáfama que aquela jornada me proporcionou.

Numa LDG amontoada de viajantes lá partimos rio Geba acima. A guerra, nesse tempo, estava ao rubro. Esperei alguns dias pelo embarque para Gabu por via aérea, todavia o tempo protelou-se e a solução passou por aceitar a inexperiente viagem fluvial.

A curiosidade da opção foi quando me deparei com os meus companheiros de viagem. Negros em maioria transportavam consigo todos os seus utensílios pessoais e nem as galinhas faltaram à ordem de chamada.

O instante mais delicado da viagem foi quando chagámos à zona de Ponta Varela. Ordens para o pessoal se deitar e adiantado ainda o comandante da lancha que nem uma cabeça a ver-se do exterior. 

Comentava-se que aquela passagem por Ponta Varela, local onde o rio estreitava, era perigosa e já tinha conhecido fins dramáticos. O PAIGC de quando em vez preparava ataques a partir das margens do Geba. Porém, a passagem foi tranquila e lá navegamos em águas pacatas até desembarcarmos no Xime.

Seguiu-se uma viagem que cruzou Babadinca e logicamente Bafatá. Ali aguardei pela coluna que me levou até Gabú, ficando para trás um outro olhar pelo rio Geba onde o medo a certa altura mexeu com o meu ego. 

Eram os tempos de guerra!... 

Legendas para as fotos:

1 - O Geba como paisagem de fundo
2 - Numa coluna a Bafatá 


Um abraço, camaradas 

José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
___________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em: 


4 comentários:

José Botelho Colaço disse...

Eu sou do tempo em que a estrada Bafatá Nova-Lamego era de terra batida (1965). Bafatá também me calhou em sorte nos últimos 6 meses da comissão, é bem possível que tivesse sido uma recompensa dos 2 meses de operação tridente com 55 dias ininterrupto a ração de combate e os 10 meses e uma semana no "inferno" do Cachil Ilha do Como.
Um abraço.

Tabanca Grande disse...

Zé, para vocês poderem passar tranquilos na Ponta Varelam, alguém do Xime montava segurança por ali perto... Sem dúvida, a Ponta Varela entre o Xime a a Foz do Corubal era um sítio temido...

A partir do Xime e ao longo de toda a margem direita do Rio Corubal até ao Xitole / Saltinhho não havia tropa nossa... Depois do Xime, e com estrada alcatroada até quase a Buruntuma, era um alívio... No meu tempo (1969/71) só tinhas, alcatroado, o troço de 30/35 km, Bambadinca-Bafatá... Conheci Bafatá no seu esplendor!... Era a "princesa do Geba!... LG

António Bernardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tabanca Grande disse...

Sobre o restaurante "Transmontana" (e não Transmontano...), o preferido da malta da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), e outros lugares de referência de Bafatá, ver aqui:


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search?q=Transmontana