sábado, 9 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16288: (In)citações (95): "Terra vermelha quente e de paz, / lugar onde tive medo, fui feliz e vivi, / amar-te-ei sempre, / minha Guiné menina velha encantada"... (Adelaide Barata Carrêlo, filha do tenente Barata, que viveu em Nova Lamego, no início dos anos 70, durante a comissão do pai, e aonde regressou, maravilhada, quarenta e tal anos depois)


Foto nº 1 A  > Inauguração pelo Gen Spínola de uma nova escola em Nova Lamego: Adelaide Barata Carrelo é a menina branca que segurava a fita numa ponta (enquanto uma menina negra segurava a outra ponta)


Foto nº 1  > Spínola, em primeiro plano, enquanto a menina branca olha,  muito atenta, para ele...


Foto nº 2A > Tenente Barata 


Foto nº 2 > Tenente Barata 

Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Nova Lamego > 1970

Fotos: © Adelaide Barata Carrêlo (2016). Todos os direitos reservados.


1. Mensagem de Adelaide Carrêlo, nossa leitora, filha do tenente Barata que, presumimos, pertencia  à CCS do batalhão que estava em Nova Lamego em 1970, o BCAÇ 2893 (1969/71) (e que sofreu uma forte flagelação em 15/11/1970)


De: Adelaide Carrelo
Data: 8 de julho de 2016 às 14:16
Assunto: Guiné Bissau - Nova Lamego

Boa tarde,

Tendo tido conhecimento do vosso blog, é com grande satisfação que gostaria de partilhar convosco a minha vivência nesta terra que me acompanhou durante mais de 40 anos.

Em 1970 aterrámos em Bissau onde o meu pai nos esperava ansiosamente, seguimos alguns dias depois para Nova Lamego onde ele estava colocado.

Eu tinha 7 anos, sou gémea com uma irmã e tenho um irmão mais velho 1 ano. Somos a família Barata.

Quando chegou a hora dos meus pais decidirem juntar-se naquela terra, não conseguiram convencer-nos de que poderíamos separar-nos, não, fomos também. E até hoje agradeço por ter conhecido gente tão bonita, tão pura.

As primeiras letras da cartilha, foram-me desenhadas pelo Prof. José  Gomes, na Escola que hoje se chama Caetano Semedo.

Aquele cheiro, a natureza comandada pelo calor húmido que sufoca e a chuva que cai como uma cascata sobre a pele e o cabelo que teima em não se infiltrar...cheguei a pedir à minha mãe para me deixar correr como aqueles meninos que se ensaboavam no meio da rua e com um chuveiro gigante que deitava tanta água de pingos grossos e doces.

Também me lembro de quem lá ficou para sempre, não éramos muitos.

Tantas lembranças que me acompanharam toda a minha vida e eis que em 2015 o meu filho, foi trabalhar para a Tese em Bafatá, uma ONGD (energias renováveis) e eu voltei lá, agora com a possibilidade de visitar tudo, foi a viagem da minha vida.

O reencontro com gente que parece ter ficado à nossa espera este tempo todo.

É com amor que falo desta terra, desta gente e aqui fica o que sinto:


"As mãos de deus

Estas mãos escavam afectos,
que nos prendem o coração,
são as mesmas que aparam as crianças que nascem e vivem nuas,

Numa nudez de bens, mas uma capacidade infinita de sofrer, sorrir e amar.

Uma mão que se ergue no meio da terra vermelha 
e acena até ao dia em que nos encontramos.
Esta capacidade infinita de sonhar que há uma terra melhor e um sonho maior.

Terra vermelha quente e de paz,
lugar onde tive medo, fui feliz e vivi
amar-te-ei sempre, 
minha Guiné menina velha encantada."

Adelaide Barata Carrêlo

PS -E como não podia deixar de ser, anexo uma fotografia do meu pai, na altura Tenente Barata (foto nº 2)  e uma foto minha  (foto nº 1) na inauguração de outra escola em Nova Lamego (na qual eu fui a menina branca a pegar na fita segura do outro lado por uma menina preta, que se vê perto de mim) para o Gen António Spínola cortar, como era habitual!!!
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Nota do editor:

10 comentários:

Anónimo disse...

Adelaide, foi das coisas mais lindas que temos editado nos últimos tempos. Essa capacidade de maravilhamento só pode ser de quem guarda, numa caixinha especial da memória, todas as cores, sabores e cheiros da Guiné, do tempo da infância. Fica deste já convidade para se sentar à sombra do poilão da nossa Tabanca Grande. Trataremos depois dos pormenores!... Um abraço fratermo.LÇuis Graça

Anónimo disse...

Amiga Adelaide,

Obrigado pelas bonitas palavras dirigidas a nossa sofrida Guine, que Deus te proteja e guarde por muitos anos para poderes voltar a pisar esta terra vermelha da tua infancia feliz e motivo de todas as saudades que engrandecem o teu grande coracao de mulher.

O sentimento que tenho agora, como homem maduro e que acompanhou as vicissitudes e peripecias desta terra desde a infancia, eh que o Gen. Spinola queria fazer na Guine o mesmo que, mais tarde, o Nelson Mandela fez na Africa de Sul, isto eh uma nacao arco-iris, onde o mais importante nao seria a origem das pessoas nem a cor da pele. Por diversas, que agora nao interessa invocar, nao resultou, paciencia.

Um fraterno abraco para ti e a todos os amigos da Guine.

Cherno AB

Anónimo disse...

Um dia tinha que ser.
Estava escrito, só não tinha sido ainda a altura certa.
Obrigado.
BS

Valdemar Silva disse...

'...meninos que se ensaboavam no meio da rua e com um chuveiro gigante que deitava tanta água de pingos grossos e doces.'
Que maravilhosa descrição, amiga Adelaide.
Abraço fraterno
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Amiga Adelaide

O seu testemunho é LINDO...

A minha filha Luísa faz hoje 45 anos...

Que prenda tão forte para o pai... Obrigado.

Jorge Rosales (farda amarela)

Tabanca Grande disse...

*recisava que alguém me comfirmasse se conheceu o tenente Barata e se ele pertencia à CCS do batalhão que estava em Nova Lamego em 1970, o BCAÇ 2893 (1969/71). Se sim, a nossa Adelaide (e irmãos) devem ter tido o seu "baptismo de fogo" na nouite de 15/11/1970, quanod Nova Lamgeo soufreu uma flagelação de 35 minutos em que morreram diversos miloiatres e civis:

(...) GRUPO INIMIGO, CONSTITUÍDO APROXIMADAMENTE POR 150 ELEMENTOS, FLAGELOU NOVA LAMEGO DURANTE 35 MINUTOS, COM FOGO DE 4 MORTEIROS 82 (CERCA DE 122 GRANADAS) E ARMAS LIGEIRAS, CAUSANDO ÀS NT 3 MORTOS (1 SARG.), 4 FERIDOS GRAVES (1 MILÍCIA) E 8 LIGEIROS; A POPULAÇÃO SOFREU 8 MORTOS, 50 FERIDOS GRAVES, 30 LIGEIROS. AS NT REAGIRAM COM FOGO DE MORTEIRO 81 E DE CAN / S / R, MANOBRA DE ENVOLVIMENTO E PERSEGUIÇÃO, APOIADAS PELA FAP, CAUSANDO AO IN BAIXAS PROVÁVEIS; ARTª CABUCA E PICHE BATERAM COM FOGO DE OBUS PROVÁVEIS ITINERÁRIOS DE RETIRADA DO IN. (...)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2006/10/guin-6374-p1160-lembranas-de-nova.html


abilio duarte disse...

Quem pode descrever bem esse dia/noite, é o meu camarada F.Mil. Aurélio Duarte, que esteve no meio dessa total confusão, e ainda teve um processo disciplinar em cima
Felizmente safou-se militarmente e disciplinarmente, mas o cagaço, não foi pequeno.em Maio no nosso almoço anual, ele relembrou aquelas horas, pois estava emboscado na estrada, de Nova Lamego para Piche, e segundo ele turra era mato.

Anónimo disse...

Adelaide Carrelo
11 mjul 2016 14:43


Boa tarde,

Agradeço de coração todas as palavras que me foram dirigidas.
Em relação ao que escrevi, na parte " (...)Também me lembro de quem lá ficou para sempre, não éramos muitos" e " Lugar onde tive medo, fui feliz e vivi(...), referíamos à trágica noite de 15 de Novembro de 1970. Ficou também por contar; e que se me permite; o farei brevemente.
Obrigada mais uma vez, pelo convite para me sentar convosco à sombra do poilão da vossa querida Tabanca Grande.

Um abraço apertado

Adelaide

meusdvdsfilmes disse...

Sou o Constantino Neves, mais conhecido na Tabanca como Tino Neves.
Era o 1º Cabo Escriturário do Comandante da CCS/BCaç. 2893, por esse facto confirmo que conheci, aliás tive o enorme prazer de conhecer o NOSSO Tenente BARATA, que era o Oficial da Secretaria do Batalhão, que mais tarde foi substituído por outro Oficial, devido a doença.
Organizei 8 Encontros/Convivio ao nivel do Batalhão, e comecei do ZERO nas pesquisas dos contactos e nunca consegui o seu contacto, e por essa razão aproveito a oportunidade para lhe pedir o contacto, para futuros Convívios.
E estive também nesse dia/noite fatídico em que celebrava-mos um ano de comissão
Quero também expressar-lhe a minha gratidão, porque é para mim uma grande satisfação saber de alguém da família de um camarada da minha Companhia (CCS) de quem gostava-mos muito era uma jóia de pessoa todo o mundo o adorava.
Bem aja

Um Abraço
Tino Neves

Anónimo disse...

Adelaide Carrelo
13 jul 2016 10:52

Bom dia Constantino,

A gratidão é toda minha por saber que fez parte da vida do meu pai e pelas palavras com que o descreveu, claro que a minha alegria só se podia manifestar em lágrimas, lágrimas de alegria, orgulho e saudade.
Obrigada, muito Obrigada Constantino.