quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16810: (De)caras (65): O picador e guia das NT, Malan Djai Quité que eu conheci e que foi gravemente ferido em combate, na Ponta Coli em 22/4/1972 (Jorge Araújo)


O guia e picador das NT, Malan Djai Quité, mandinga do Xime, ferido em combate, na Ponta Coli, em 22 de abril de 1972, ao serviço da CART 3494 (Xime e Mansambo, 1971/74)

Foto: © Jorge Araújo  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



I. Comentário de Jorge Araújo ao poste P16804 (*)


[O nosso colaborador assíduo do blogue, Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Especiais da CART 3494. Xime e Mansambo, 1971/74): tem já mais de 105 referência no nosso blogue; ainda está no ativo, é  professor universitário.]

Caros Camaradas, Luís Graça e Pereira da Costa, meu Cmdt no Xime, entre 22 de junho de 1972, dia do seu aniversário, e 10 de novembro de 1972, dia do meu (coincidências!) e que não tive a oportunidade de dele despedir-me naquela data, pois encontrava-me de férias em Lisboa. Pelas imagens e pelas histórias nele narradas, o presente texto fez-me recuar quarenta e quatro anos recordando algumas das vivências e ocorrências daquela nossa estadia no Xime, já baptizada por “pedaço do inferno”. Eis um novo olhar sobre o seu conteúdo. 

1. – A pergunta do Luís Graça sobre quem seria o velho habitante por detrás do Lúcio Silva, não consigo identificar. É que entre março de 1973 e novembro de 2000 passaram quase dezoito anos… é muito tempo! 
 
2. – Quanto aos guias/picadores: Malan Quité e Mancaman Biai (tenho uma foto do Malan no P14495 e que se reproduz acima) (**), da minha memória cronológica consigo ainda identificar o seguinte: 

a) – Até à primeira emboscada na Ponta Coli, ocorrida em 22 de abril de 1972, o Malan foi o único guia/picador que me acompanhou em todas as missões em que participei. O nome de Mancaman Biai e a sua pessoa não me diziam nada. 

b) – Em consequência de ele ter ficado ferido com alguma gravidade naquele combate, foi evacuado para o Hospital Militar, em Bissau, aonde esteve algumas semanas (2/3 meses). 

c) – No período que vai de 23 de abril a 22 de junho de 1972 (dois meses) a CART 3494 ficou sem comando, uma vez que o seu líder decidiu rumar ao Serviço de Psiquiatria do HM, para nunca mais regressar à sua Unidade. 

d) – Mesmo sem liderança, o contingente da CART 3494 nunca deixou de cumprir com as suas missões, não entrando em histeria ou entropia, pois já tínhamos interiorizado o quão seria difícil viver naquela região. 

e) – Com três Gr Comb apenas (1.º, 3.º e 4.º, pois o 2.º estava destacado no Enxalé), e sem oficiais disponíveis para as diferentes actividades [ somente dois; Alf.Mil. Manuel Carneiro; que depois foi para uma Companhia Africana; e o Alf. Mil. Manuel Gomes (1948-2014), que, entretanto, tivera que se deslocar a Bissau], foi o colectivo de furriéis que garantiram todas as missões protocoladas. Neste período atípico não me recordo de ter a companhia de qualquer picador do Xime.

f) – Já não tenho memória de quem era (no caso de ter havido) guia/picador na acção «Gaspar 5», em conjunto com a CCAÇ 12, no dia 25 de maio de 1972, onde viria a morrer o Mário Mendes, cmdt do bigrupo que nos emboscou na Ponta Coli.

g) – Curioso é o facto de somente a 26 de junho de 1972, segunda-feira, às 20h15, o aquartelamento do Xime voltar a ser atacado, quatro dias após o camarada Pereira da Costa aí ter chegado.

h) – Para concluir, gostaria de deixar uma pergunta para o meu amigo e camarada Pereira da Costa: Se existe um relatório da acção, quem o terá redigido? Como é possível escrever-se que o Malan fez fogo com duas G3, se ninguém me pediu que relatasse o que quer que fosse, pois acabei de assumir a gestão total do grupo, uma vez que o ex-furriel Manuel Bento (1950-1972) teve morte imediata e o ex-furriel Sousa Pinto (1950-2012) ficara ferido e com pouca mobilidade ?!

Voltando ao Malan Quité recordo, como se tivesse sido ontem:

Chegava à messe de sargentos, cumprimentava à sua maneira o pessoal, e de seguida perguntava “quem parte coca-cola com Malan”. A resposta era sempre a mesma: “Almeida (impedido da messe) dá uma ‘coca’ ao Malan, e põe na minha conta”.

Quanto ao Homem, resgato o que escrevi no P14495:

O guia/picador Malan sempre me mereceu o maior respeito, admiração e apoio, pois era um homem solitário, tendo como única companhia o seu cachimbo artesanal, mas nosso amigo, e que muito nos ajudou nos diferentes itinerários que tivemos de percorrer, numa mata extremamente difícil, com muitas armadilhas, ratoeiras e outros obstáculos [já relatados neste espaço por outros camaradas que por lá passaram].


Parece que ainda o estou a ver sangrando com alguma abundância da cabeça, onde existiam pelo menos duas perfurações, empunhando duas G3 [a sua e outra que encontrou abandonada no solo]. […] Foi depois evacuado para Bissau, onde ficou internado algumas semanas, regressando ao Xime ainda a tempo de participar na segunda emboscada.

Fez na passada quinta-feira, dia 1 de dezembro, quarenta e quatro anos.

Boa semana, com saúde.
Ab.
Jorge Araújo.


II. Resposta do [António José Pereira da Costa, cor art ref (ex-alf art , CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art e cmdt , CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74; tem mais de 110 referências no nosso blogue]


Olá,  Jorge Araújo

Não li ou se li não me lembro do relatório da emboscada onde morreu o Bento. 

Quando cheguei ao Xime, o Alferes Manuel Gomes debatia-se com vários autos por ferimentos em combate e um por morte relativos à emboscada. Tinham passado dois meses e ele não tinha a mínima ideia do que havia a fazer e parece que ninguém lhe explicou. 

Em cada um destes autos deveria haver uma cópia do trecho do relatório da acção onde constasse o ferimento do elemento em causa.

Confirma-se que o Malan empunhou duas G3 [provavelmente a sua e outra que encontrou abandonada no solo]. Será problemático afirmar que fez fogo com as duas, acredito. A precisão do tiro não seria grande e a necessidade de o fazer também. Foi evacuado para Bissau, mas já tinha regressando ao Xime quando lá cheguei. Lembro-me de ter remetido o auto relativo ao ferimento dele para Bissau.

Posso ter ouvido falar a algum dos que foram emboscados, mas não posso dizer quem.

Um Ab.
António J. P. Costa


III. Resposta do Jorge Araújo:

Caro Camarada Cmdt Pereira da Costa,

Obrigado pelos esclarecimentos.

Ainda hoje não acredito que alguém tenha elaborado um relatório credível, mesmo desconhecendo as normas para a sua elaboração, tanto mais que nunca participei em actos administrativos, com a excepção do naufrágio, em que os dois fomos intervenientes.

A própria História do Batalhão resume a sua redacção a três linhas:

"Em 220600ABR72 grupo IN emboscou a segurança da PTA COLI (01 GRCOMB da CART 3494). As NT e Artilharia do XIME pôs o IN em fuga. Sofremos 01 morto (Furriel, 07 feridos graves e 12 feridos ligeiros)" p.59.

Acresce dizer que o então Cmdt da companhia seguiu para Bissau no domingo, 23 de abril, ou seja, no dia seguinte, e caso tenha escrito algo, fê-lo de modo (muito) resumido...

Ab.
Jorge Araújo.


IV. Comentário de Sousa de Castro [o nosso grã-tabanqueiro nº 2,  ex-1º cabo Cabo Radiotelegrafista da CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, 1971/74; editor do blogue  CART 3494 & Camaradas da Guiné; tem mais de 130 referências no nosso blogue]

Caros amigos, quanto à veracidade se o Malan empunhou duas G-3, confirmo pelo relato da época de vários intervenientes, assim como o empenho do 1º cabo Manuel Amorim do Alto com o seu morteiro de 60 mm e o Sold. Manuel de Sousa Monteiro com o seu lança-granadas, daí terem sido distinguidos com o Prémio Governador da Guiné que consistiu na vinda à Metrópole em gozo de férias.

SdC
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Notas do editor:

(*) Vd. último poste da série > 5 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16804: (De)caras (64): Os picas e guias das NT, Malan Djai Quité e Mancaman Biai, que eu conheci, no Xime, em 1972 (António J. Pereira da Costa, cor art ref)

(**) Vd. poste de  > 20 de abril de 2015 > Guiné 63/734 - P14495: História da CART 3494 (6): Recordando a 1.ª emboscada na Ponta Coli em 22 de abril de 1972 e a morte do furriel Bento, a  única baixa em combate da CART 3494 (Jorge Araújo)