sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16815: (D)o outro lado do combate (Jorge Araújo) (2): As más notícias de Amílcar Cabral, no início de 1969: o caso das baixas do PAIGC no ataque a Ganturé, no dia 6 de janeiro

1. O nosso Camarada Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CART 3494, (Xime-Mansambo, 1972/1974), enviou-nos a seguinte mensagem. 

(D)O OUTRO LADO DO COMBATE
AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969
- O CASO DAS BAIXAS DO PAIGC NO ATAQUE A GANTURÉ -


1. – INTRODUÇÃO

Quando em narrativa anterior [P16662], a propósito do terceiro fragmento da entrevista ao médico-cirurgião Virgílio Camacho Duverger (1934-2003), fiz referência às notas manuscritas por Amílcar Cabral (1924-1973) classificadas por si de «más notícias», e comunicadas, como conteúdo para reflexão, a todos os dirigentes do PAIGC durante o mês de Janeiro de 1969, prometi voltar a elas, em novo enquadramento historiográfico, pois havia excluído o seu primeiro ponto por não ter, então, qualquer pertinência temática.

Relembro que nesse memorando, escrito pelo punho do secretário-geral, estavam em destaque duas “más notícias”; a primeira relacionada com o número de baixas contabilizadas pelos seus guerrilheiros no ataque a Ganturé, em 6 de janeiro de 1969, a segunda lamentando a inacreditável fuga do Daniel Alves, desertor do exército português, ocorrida em Dacar em finais de 1968 [o ponto abordado anteriormente].


2. – AS MÁS NOTÍCIAS DE AMÍLCAR CABRAL NO INÍCIO DE 1969

Em conformidade com a questão de partida, resgato agora a primeira “má notícia”, transcrevendo na íntegra a primeira página desse memorando.

“Depois de sair daí [passagem de ano de 1968], tive más notícias que são as seguintes:

No ataque do dia 6 [de janeiro de 1969] contra Ganturé [CART 2410], o qual corria muito bem, porque os camaradas atingiram o paiol [?], houve erro da nossa parte face aos aviões que intervieram. Tendo repelido a 1.ª vaga de aviões, os camaradas não se retiraram nem tomaram medidas de segurança, pelo que, duas horas depois, nova vaga de aviões os atacou quando estavam concentrados elementos de artilharia e de antiaérea. Perdemos 16 camaradas e 1 companheiro cubano [Pedro Casimiro], tendo mais 12 camaradas sido feridos. Um desastre devido a erro imperdoável, mas a guerra.

Estive na fronteira [Sul] com os camaradas, o moral não está mau e há que continuar a luta, tanto mais que o inimigo está mal. Mas há necessidade urgente de canhoneiros e morteiristas além de gente para AA [artilharia antiaérea]. Por isso tenho de vos pedir para mandarem urgente 9 dos canhoneiros formados na URSS e incluídos no Corpo de Artilharia. Devem também fazer vir urgente 6 dos morteiristas que eu disse para irem esperar em Madina [do Boé], porque não estavam incluídos no Corpo de Artilharia”.



Citação:
(s.d.), Sem título, CasaComum.org, Disponível http:
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34366 (2016-11-8), (com a devida vénia).
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07197.166.017

Assunto: Perda de 16 combatentes do PAIGC e 1 cubano (Pedro Casimiro) na resposta aérea ao ataque desencadeado pela artilharia do PAIGC a Ganturé. Instruções para o destacamento de canhoneiros e morteiristas, entre outros.

Remetente: Amílcar Cabral
Destinatário: [Responsáveis do PAIGC]
Data: s.d.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Manuscritos de Amílcar Cabral.
Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Correspondência.


No centro das “más notícias” para o PAIGC, que Amílcar Cabral diz ter recebido, pois não presenciou nenhuma das duas ocorrências, emerge a pergunta sobre o modo como e quando delas teve conhecimento, uma vez que omite a respectiva fonte? Por outro lado, como funcionavam as comunicações em contexto de ataques, pois não tenho memória de alguma vez se ter referido a captura desse equipamento específico?

Admitindo a probabilidade de terem-se verificado alguns ruídos semânticos, entre o emissor e o receptor, na comunicação dos factos significantes relacionados com a primeira notícia [ataque a Ganturé], procedemos à triangulação de outros elementos obtidos em informantes privilegiados, nomeadamente nos arquivos da Fundação Mário Soares, nos depoimentos de alguns dos actores das NT envolvidos naquela missão [Força Aérea e Exército] publicados em blogues e na literatura consultada, tendentes a encontrar pontos convergentes vs divergentes relacionados com este caso. 


2.1 – O que diz a literatura [La Historia Cubana en África]

“No primeiro dia de janeiro de 1969 haviam começado as acções na Frente Sul contra o quartel de Tite. No dia 6 foi atacado por forças de infantaria e artilharia do PAIGC o quartel de Ganturé. Nesta acção participaram três cubanos. Nesse dia a aviação portuguesa entrou em combate e surpreendeu os guerrilheiros, destruindo-lhes vários equipamentos de artilharia e causando-lhes elevadas baixas: dezasseis guerrilheiros mortos e vários feridos.

Nessas baixas estavam os três cubanos que haviam participado na acção. O primeiro-tenente Pedro Casimiro Llopis, de 29 anos (1940-1969), morreu ao ser atingido pelo fogo da aviação, enquanto o primeiro-tenente Marcelino Araújo Pina e o soldado Plácido Veja Ramirez ficaram feridos durante o bombardeamento”. 

[In: Ramón Pérez Cabrera, “La historia cubana en África: 1963-1991: pilares del socialismo en Cuba” (edição de 2005), pp. 154/155, tradução do castelhano. [Consult em 25/11/2016. Disponível em


2.2 – Relato dos acontecimentos - Depoimentos da Força Aérea

A poucos dias de completar quarenta e oito anos, eis uma síntese [análise de conteúdo] sobre o ataque a Ganturé, elaborada a partir da narrativa intitulada «Um ataque com “olhos azuis”», da autoria do Tenente-General PilAv José Francisco Fernando Nico [José Nico], hoje na situação de reforma, publicada no blogue da “Tabanca Grande” [P15035-I Parte + P15038-II Parte] e no blogue “Operacional”, em www.operacional.pt.



Guiné - Imagem inserida no texto referente a um Fiat G-91 descolando de Bissalanca nos finais dos anos 60. “Em breve estará sobre o inimigo. «… O carrocel de ataque estava em marcha e com reacção ou sem reacção antiaérea tinha era que acertar com as bombas no alvo, o maior de todos os alvos que atacou durante toda a comissão. Não falhou como não falharam os outros…»”.



De referir que o Tenente-General José Nico foi piloto de aviões de caça, e entre 1967 e 1970 cumpriu uma comissão de serviço na Guiné. Neste âmbito, afirma que das muitas missões que desempenhou na Força Aérea Portuguesa, “a comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida”.Como introdução recorda que, mesmo não tendo tomado parte directa na acção de apoio às NT, por estar envolvido noutras missões, aquele dia 6 de janeiro de 1969 nunca o esqueceu, pelo muito que se comentou na Base [BA12] e pelos resultados obtidos, acabando por dar lugar à elaboração desta sua narrativa historiográfica.

Naquele dia 6 de janeiro de 1969, por volta das oito horas da manhã, a guerra no CTIG continuava bem viva com o PAIGC a ter a iniciativa de atacar, uma vez mais com os seus canhões Zis-2 AC 57 mm, o Aquartelamento de Gadamael Porto, sede da Companhia de Artilharia 2410 [CART 2410].

Da sede da Unidade é solicitado apoio aéreo a Bissau, com o comando-chefe a encaminhá-lo para a Base Aérea n.º 12 [Bissalanca] a fim de procederem em conformidade. Os dois pilotos da parelha de alerta [Fiat G-91], que naquele momento estavam a tomar o pequeno-almoço, logo apanharam o equipamento e meteram-se no jeep de apoio em direcção da linha da frente.

Os dois Fiat’s estavam prontos e configurados com tanques de combustível externo, 8 foguetes 2,75” e 4 metralhadoras 12,7 mm, sendo o ex-tenente Balacó Moreira um dos pilotos, o qual está na base de muita da informação obtida nesta missão. Esta teve início por volta das nove horas, uma hora após o início da flagelação, tendo constatado, depois, que o ataque visava objectivamente Ganturé, situado a curta distância de Gadamael Porto, onde se encontrava destacado o 4.º Gr Comb da CART 2410, para além de um pequeno núcleo populacional.

Numa primeira fase os rebentamentos estavam a ser espaçados e compridos, com as NT a responderem com morteiro 81 mm, operado pelo ex-furriel Luís Guerreiro [imagem ao lado]. A frequência/intensidade dos disparos do PAIGC ia aumentando com o correr do tempo mas sem consequências, pois as granadas passavam sobre Ganturé explodindo no contacto com o arvoredo existente muto para além da área do quartel.

Entretanto, a parelha de alerta que se encontrava em rota solicita mais informações do solo tentando sinalizar o local. Ao seguirem em direcção a Bricama, a cerca de dois km a SW de Gadamael Porto, qual não foi o espanto dos pilotos quando avistaram, no perímetro do antigo aquartelamento de Sangonhá, abandonado pelas NT em 29 de julho de 1968, num espaço completamente aberto e sem qualquer espécie de camuflagem, um numeroso grupo de indivíduos, que só poderiam ser os guerrilheiros responsáveis pelo ataque que se estava a verificar contra Ganturé.

Lá do alto era possível identificar a presença de três armas com rodado, sendo uma delas, colocada entre o perímetro do aquartelamento e a antiga pista, uma antiaérea ZPU-4 [tubos com quatro bocas] que, de imediato, abriu fogo contra os aviões [G-91] obrigando os pilotos a entrarem num circuito alargado para manter uma distância de segurança. No interior do perímetro do aquartelamento, no meio dos destroços das antigas instalações, estavam duas peças de artilharia com um cano relativamente comprido e na picada que saindo de Sangonhá se dirigia à Guiné-Conacri [talvez na direcção da base de Sansalé], viam-se algumas viaturas incluindo uma ambulância.

Esta situação levou o ex-tenente Balacó Moreira a confessar que da sua experiência em operações quase diárias no teatro de operações da Guiné nunca tinha dado de caras com o inimigo numa situação tão vulnerável. Porque os aviões da parelha de alerta não estavam equipados para intervir naquele cenário atípico, cujo sucesso impunha disparos a uma distância mais curta do alvo, o Cmdt da parelha decidiu abandonar a área e regressar de imediato à BA12 para que a situação fosse ponderada e tomada uma decisão adequada às circunstâncias. Tinham decorrido trinta minutos.


Citação:
(1963-1973), "Combatentes do PAIGC deslocando uma peça de artilharia anticarro", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43454 (2016-12-2) (com a devida vénia). (Será que está relacionado com este ataque?).


Ao decidir regressar à BA12, o Cmdt da parelha [capitão Amílcar Barbosa?] entrou em contacto com o CCOA [Centro Conjunto de Operações Aéreas] dando conta do que vira e que o ataque continuava a partir da pista de Sangonhá. Era necessário decidir o que fazer no menor espaço de tempo, uma vez que ao serem detectados, a guerrilha poderia desmobilizar e desaparecer rapidamente. […] 

Da reunião entre o tenente-coronel Costa Gomes, Cmdt do Grupo, e o Cmdt da Zona Aérea, coronel PilAv Diogo Neto, visando encontrar a melhor solução para o problema que tinham em mãos, as hipóteses encontradas de modo a dar sequência à missão ficaram reduzidas aos G-91 e a quatro pilotos: os dois da parelha de alerta e os dois comandantes, o do Grupo Operacional e o da Zona Aérea, respectivamente tenente-coronel Costa Gomes e o coronel Diogo Neto.

Entretanto, o comandante-chefe do CTIG já tinha sido informado do que se estava a passar e quis falar com o coronel Diogo Neto. Este de imediato deslocou-se ao Forte da Amura onde explicou ao brigadeiro Spínola o que lhe parecia ser o mais razoável e eficaz. Este tinha preferência para o emprego dos “páras”, mas depois de ouvir as explicações da Força Aérea deu o seu aval ao “plano de acção” apresentado. […] 

Depois dos mecânicos e do pessoal de armamento se terem esforçado para aprontarem os quatro aviões o mais rápido possível, eis que estes descolam por volta das onze horas, ou seja, duas horas após a primeira missão ou três horas em relação ao início do ataque a Ganturé.

Cumpridas as instruções técnicas dos ataques aéreos, escolhida a rota mais aconselhada no caso em presença e após passarem sobre o rio junto à povoação de Cacine, é que foi possível perceber alguma coisa do que se passava no solo. O tenente Balacó Moreira recorda-se que a quantidade de pessoas que avistou na zona do antigo aquartelamento de Sangonhá era muito menor do que da primeira vez (duas horas antes) e que havia viaturas em movimento. Contudo, “era impossível falhar um alvo daquele tamanho”.

Na sequência do carrocel de ataque e dos bombardeamentos efectuados por cada um dos pilotos, os quatro aviões reencontram-se à vertical do objectivo, circulando à altitude de ataque. Em baixo, Sangonhá ficara obscurecida pelo fumo e pelos detritos projectados pelas explosões dando a impressão, lá do alto, que tudo tinha sido arrasado, pois nada parecia mexer.

Porque nenhum dos aviões tinha sobreposto o tiro ao dos outros e as dezasseis bombas tinham produzido uma cobertura relativamente densa, não era possível determinar se o ataque tinha sido eficaz em termos de baixas ao inimigo. Depois de ficarem sem armamento nada mais havia a fazer e o Cmdt da formação deu ordem para abandonar a área e regressar à BA12.


2.3 – O reconhecimento a Sangonhá – CART 2410

A 9 de janeiro de 1969, três dias após o ataque a Ganturé, um efectivo da CART 2410 constituída por cerca de cem elementos, entre militares, milícias e caçadores nativos, executou um reconhecimento a Sangonhá, comandado pelo ex-Alf. Mil. Albino Rodrigues, Cmdt do 1.º Gr. Comb., a qual contou com apoio aéreo em determinados momentos da sua marcha apeada.

Ao longo do percurso até Sangonhá não foram detectados trilhos novos, nem foram encontrados os habituais invólucros de granadas de morteiro ou de canhão s/r que os guerrilheiros deixavam espalhados no terreno após as flagelações. Após terem passado o vau do rio Queruane/Axe, a uns duzentos/trezentos metros à frente, numa pequena elevação do terreno, foram encontrados os restos de uma fogueira, feita durante a noite, junto a uma árvore alta com vestígios de ter sido utilizada como posto de observação. 

Três ou quatro metros depois encontraram fio telefónico que foi seguido até ao respectivo carretel vazio. Por isso se concluiu que naquela árvore teria estado um observador avançado munido de linha telefónica para orientar o tiro dos canhões AC estacionados em Sangonhá.

Em determinado momento da sua progressão, que consideraram como um sinal de estarem próximos do objectivo foi dado pela grande quantidade de abutres, uns pousados nas árvores, outros voando em círculos. A este sinal, um outro se adicionou transmitido pelo cheiro nauseabundo de corpos em decomposição. A partir daquele momento o avanço foi feito com muitas cautelas até que descobriram algo que nunca pensaram encontrar.

Sobre esse macabro achado, o ex-Alf. Mil. José Barros Rocha, Cmdt do 2.º Gr Comb., e membro da nossa Tabanca Grande,  refere o que viu e sentiu da seguinte forma: “na antiga pista de Sangonhá, armas destruídas e pedaços de corpos de negros e brancos e treze sepulturas. Uns dias depois tivemos a informação de trinta e seis mortos confirmados e muitos feridos. (…) O aspecto do local era medonho! A terra, cuja cor natural é avermelhada, tinha a cor cinza! O intenso cheiro a putrefação! (…) Recolhemos três carretéis carregados de fio telefónico e um vazio, uma mina A/P, uma ferramenta de aperto de rodas, invólucros de granada de canhão AC 57 mm, meia pistola, munições intactas da AA de calibre 14,5 mm, bonés, chapéus tipo colonial, uma bandeira, uma caixa de ferramenta, e algumas bugigangas…”.

Depois de ter permanecido em Sangonhá cerda de duas horas, a força chegou a Gadamael por volta das três horas da tarde, sem mais ocorrências.


3. – CONCLUSÕES

Em primeiro lugar, aproveito para vos confidenciar de que desconhecia, em absoluto, esta história (como desconheço, seguramente, outras que ocorreram antes, durante e depois da minha presença no CTIG). Não podemos ter a pretensão de, alguma vez, ficarmos ao corrente de tudo o que aconteceu naquele território durante os treze anos do conflito. Daí a partilha de memórias que todos os dias se dão a conhecer neste espaço plural.

Quanto ao que nos propusemos analisar, são convergentes os relatos das NT e o escrito por Amílcar Cabral, com relevância para a referência às duas missões efectuadas pela Força Aérea [G-91] e os intervalos entre cada uma delas [duas horas].

Sobre o número de baixas, um assunto sempre difícil de abordar ou quantificar, constata-se uma dupla situação. Os referidos por Amílcar Cabral são convergentes com os publicados no livro de Ramón Cabrera. Estes, quando comparados com o depoimento resultante do reconhecimento a Sangonhá [CART 2410], existem diferenças, uma vez que foi referida a existência de treze sepulturas [recentes ou antigas?] e ainda pedaços de corpos de negros e brancos espalhados no solo. Mais tarde, por informação exterior, foram confirmadas trinta e cinco mortes.

No que concerne a baixas entre o contingente cubano, são referidas três, a totalidade dos elementos envolvidos no ataque, ainda que no texto se indique, também, tratar-se de um morto e dois feridos [mas que seriam muito graves, vindo a falecer].

Neste sentido, e por curiosidade, apresentamos um quadro das baixas contabilizadas no contingente cubano, entre 3 de junho de 1967 e 6 de janeiro de 1969 [18 meses]. Estes números foram escrutinados a partir do livro acima citado. 

Quadro estatístico de JA

Fonte: Adapt de Ramón Pérez Cabrera, op.cit.

Por último, resta-me levantar a seguinte hipótese:

Será que o pedido de nove canhoneiros e seis morteiristas “requisitados” no memorando, num total de quinze elementos, destinavam-se a substituir aqueles que tombaram neste ataque a Ganturé? 

Com um forte abraço e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
___________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

25 de novembro de 2016. > Guiné 63/74 - P16758: (D)o outro lado do combate (Jorge Araújo) (1): Amílcar Cabral e os desertores portugueses: os casos dos 1ºs cabos Armando Correia Ribeiro e José Augusto Teixeira Mourão

9 comentários:

Anónimo disse...

Eu estava em Ganturé em 6 de Janeiro de 1969.

O Amílcar diz que o ataque estava a correr bem. e que tinham destruído paiol.

Tudo propaganda, pois nenhuma granada caiu dentro do destacamento.

Luís Guerreiro

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Luís Guerreiro, pelo teu conrtributo. Tu tens estado (ou estiveste estes anos todos) no Canadá, mas sempre que podes dás uma vista de olhos ao nosso blogue... Tens pelo menos 15 referências.... Bom Natal para ti e família. LG


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Lu%C3%ADs%20Guerreiro

Tabanca Grande disse...

Jorge: alguns camaradas poderão não perceber a tua "paixão" ou "obsessão" pela presença dos cubanos no TO da Guiné... Mas, honra te seja feita, já nos a ajudaste (e vais continuar a ajudar-nos) a esclarecer muitos pontos obscuros, ou nem sequer referidos, na nossa historiografia da guerra...

Os cubanos no TO da Guiné não eram OVNI, extraterrestres ou coisa parecida...Estiveram lá, desde 1966, uns como médicos, outros como instrutores, outros como artilheiros... De armas na mão. Lutaram e morreram cubanos naquela guerra. 17 (dezassete) ao todo, até ao fim da guerra, citando uma fonte oficiosa cubana.. O que é uma taxa de letalidade brutal, num contingente de cerca de 100 homens (contas minhas por alto)...

Ab. LG

Antº Rosinha disse...

Luís e Jorge, este capítulo dos cubanos, deve ser escalpelizado até ao tutano, tal o efeito nefasto e totalmente inapropriado e inoportuno em toda a África da sua intervenção.

Castro e a ideologia da guerra fria em África, foi tudo uma catástrofe para toda a África, Colónias portuguesas, Corno de África e Argélia principalmente, mas toda a África em geral, uns países directamente e outros de maneira indirecta.

Castro, Soviéticos e Estados Unidos provocaram que hoje humanamente falando, toda a África (RSA de Mandela e dos boers fica de fora)ficou inabitável, insuportável para milhões e milhões de jovens africanos todos estes últimos 50 anos e não se sabe até quando.

A Europa está a sofrer também a consequências da própria leviandade com que encarou as descolonizações.

Temos que bater na tecla da intervenção cubana na Guiné e mesmo na tecla dos suecos, agora que os africanos dos PALOP principalmente caboverdeanos se estão a queixar na ONU e na televisão quando ao racismo "tuga" e a não atribuição de nacionalidade "tuga" a cidadãos de origem caboverdeana.

Todos sabemos, mas muitos mal intencionados negam, que a grande maioria de dos Caboverdeanos queriam um estatuto igual às ilhas adjacentes portuguesas.

Nunca pensaram numa solução à PAIGC de Cabral, de Cuba da Suécia e da União soviética.

Jorge e Luís, tudo o que haja sobre Castro, Suecos etc., deve ser posto cá fora até ao tutano, para podermos gritar que nós somos os últimos a quem deve ser pedidas certas responsabilidades.

Que os caboverdeanos vão ao PAIGC, PAICV, em primeiro lugar, e à própria ONU, e que peçam a esta para lhes fornecer todos os discursos mensais, dos ministros dos negócios estrangeiros portugueses de 1961 a 1974.

Falo nos Caboverdeanos, mas compreendo-os muito bem a eles e aos comandos e flechas e não me esqueço dos velhos régulos que nunca acreditaram até morrerem.

Mas a todos os jovens africanos dos PALOP, de telemóvel e internet na mão, cujos pais andaram apenas de flecha e zagaia na mão, deve-lhe ser avivada a HISTÓRIA dos "heróis do mar nobre povo" a que hoje muitos querem pertencer.

Espero não ter falado de mais, mas ainda ficou cá dentro mais de metade.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Camaradas,

Na sequência dos comentários supra, permitam-me acrecantar o seguinte:

Quando se olha para um objecto, ou para um fenómeno, onde se analisa a temática do conflito político-militar por nós vivido no CTIG, o que se retem é o que é percebido ou pensado de forma individualizada, ou seja, o que é observável (ou foi observado).

O que pretendo com estas pequenas e simples narrativas, sem complexos, é colocar o objecto (assunto, tema, factos, histórias, fenómenos, o que seja) em várias posições, de modo a que possamos ir mais além dessa percepção, organizando-a em algo dotado de sentido, por efeito da conjugação das diferentes partes.

A referência aos cubanos só acontece porque são uma parte desse fenómeno global, que continuarei a aprofundar até que o assunto não faça mais sentido.

Eis, em suma, o que visa a minha participação neste espaço de partilha.

Em relação ao paiol, referido por Amílcar Cabral nas suas notas, e desmentido pelo camarada Luís Guerreiro, porque estava lá nesse dia e nesse local, acresce referir que, provavelmente, a informação dada foi igual à que recebeu de quem a fez chegar. Segundo julgo saber, o Cmdt da Frente Sul, naquele tempo, era o Nino Vieira. Vou tentar aprofundar esta hipótese.

Bom fim-de-semana, sem stress.

Ab. Jorge Araújo.

Tabanca Grande disse...

Jorge e demais camaradas:

Alguns dirão: "para quê perder tempo com propaganda" ?... Nas guerras, a propaganda, de um lado e do outro, é levada "muito a sério", pelo serviços de "inteligência". A propaganda, quando bem analisada, pode dar pistas preciosas, elementos informativos, indícios, etc.

Felizmente que estamos a falar de uma guerra de há meio século atrás, da qual a maior de nós ficou com recordações muito parcelares, pulverizadas, nalguns casos mesmo "anedóticas", no sentido do termo em inglês "anedoctal", adjetivo, que se usa para dizer "(of an account) not necessarily true or reliable, because based on personal accounts rather than facts or research"...

A maior parte de nós, que combatemos na Guiné (e eu aqui não faço distinção entre operacionais e não operacionais), não tinha acesso a informação "classificada"... Para além das instruções recebidas por via hierárquica, só tínhamos a nossa experiência, a informação e perceção do que se passava à nossa volta, a visão (restrita) do nosso subsetor.... E, claro, as "bocas", os "boatos" de caserna, ou da 5ª Rep (o café Bento) quando íamos a Bissau...

Por outro lado, a maior parte dos nossos camaradas não tem (nem tem que ter) a formação e/ou a prática de recolha e tratamento de informação, ou seja, de investigação (científica, documental ou jornalística) que tu tens, que alguns de nós temos, inerente à(s) nossa(s) profissão(ões)... Nem hábitos de escrita, infelizmente... Poucos de nós escreviam no TO da Guiné, para além das cartas e aerogramas...

No fundo, o que estamos a fazer no nosso blogue, nestes anos todos, é a tentar reorganizar o "puzzle" esburacado das nossas memórias e vivências... Daí a importãncia de toda a documentação que temos vindo a publicar (desde textos de ontem e de hoje, de preferência, nossos, além de fotos, etc.)... Daí a importância também dos teus postes sobre "o que se passava do lado de lá"...

Bom fim de semana para todos/as. LG

António Duarte disse...

Boa tarde Camaradas

Em primeiro lugar um abraço de parabéns ao Jorge pelo seu excelente trabalho.

É importante que nos aproximemos, dentro do possível, mas nunca lá chegaremos, porque em investigação histórica há e haverá várias verdades.

Sublinho a intervenção apaixonada do Rosinha, o que atesta bem que ainda é cedo demais para se tirar conclusões finais sobre a dita verdade histórica.

Entretanto vá-se recolhendo detalhes, analisando dados.

Abraços
António Duarte
Cart 3493 e Ccaç 12 - dez 71 a jan de 74

Anónimo disse...

Boa tarde, Camaradas!
Confirmo o que o Luis Guerreiro referiu : "tudo propaganda".
Relativamente a tratar-se de sepulturas "recentes" ou "antigas", posso afirmar que, ao tempo, eram "recentes", pois algumas nem vinte centímetros teriam de terra na sua cobertura.
A divergência do número de mortos é compreensível, seja pelo facto de estarmos perante corpos destroçados, seja pelas informações que os intervenientes do PAIGC entenderam dever transmitir a Amílcar Cabral.
Em resumo, não há divergências de fundo na recolha dos dados efectuada pelo Jorge Araújo, a quem endereço o meu agradecimento pelo seu trabalho.
Cumprimentos e um Feliz Natal a todos os CAMARADAS da Tabanca Grande!
José Rocha
CART 2410

Jasmim Gerivaz disse...

Procurem na net e irão encontrar 25 brancos de olhos azuis mortos em combate pelos Comandos Africanos pouco antes do 25 de Abril de 74. Salvo erro em Março. Tenho um inquilino Russo, piloto de Helicópteros que terá estado na Guiné em confronto com os portugueses, o qual me afirmou que os comandos Africanos eram muito perigosos. Ele lá sabe porquê. O PAIGC, tinha apoio das tropas Cubanas, Soviéticas, Senegalesas, Mauritanas, de Conakry e outras. Mais para o fim da Guerra aquilo era uma aliança internacionalista. Foi pena não termos obtido os Mirage, pois o contrato ia ser assinado a 25 de Abril de 74 e a artilharia pesada fornecida por Israel. Ia ser o bom e o bonito.Sou um estudioso da guerra do Ultramar, embora natural de Moçambique, onde vi melhor o que se passou.