segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16851: O início da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) – Parte Final (José Teixeira): os frutos (amargos) da aventura...


Guiné > Região de Quínara > Tite > Julho de 1965 > O Santos Oliveira, em pacato  passeio pela tabanca


Guiné > Região de Quínara > Tite > Agosto/setembro de 1965 > Uma cena de caça


Guiné > Região de Quínara > Tite > Julho de 1965 > Uma DO27 (Dornier) na pista de reabastecimento.


Fotos do álbum do nosso camarada, grã-tabanquerio da primeira hora, de Santos Oliveira, ex-2.º  sgrt mil armas pesadas inf, Pel Mort 912, Como, Cufar e Tite, 1964/66). Esteve em Tite ao tempo do BCAÇ 1860 (Tite, abril de 1965/abril de 1967)

Fotos (e legendas): © Santos Oliveira (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




O Zé Teixeira, em 2008, em Iemberém,
com  população local. Foto de Luís Graça (2008)
O início da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) – Parte Final (José Teixeira): os frutos (amargos) da aventura...



1. Preâmbulo

Todos nós, os que passamos pela guerra (e em particular pelo TO da Guiné), temos vindo com o tempo, a tentar passar aos vindouros as situações vividas (, "com sangue, suor e lágrimas"...)  num  ambiente hostil e agressivo, próprio dos confrontos militares . É o nosso ponto de vista. Com mais ou menos romantismo; com mais ou menos realismo, vamos escrevendo o que a nossa memória registou.

É comum ouvirmos camaradas nossos contar testemunhos de situações que vivemos em conjunto e encontrarmos diferenças, às vezes pormenores que nos escaparam ou a que não demos atenção. Foram situações (ataques, flagelações, emboscadas, explosões de minas e armadilhas, etc.) vividas em comum, mas analisadas por outro ponto de vista. Alguém com outra base académica ou cultural, ou até com outra visão politica e militar da situação, é capaz de "ver" e "narrar" os acontecimentos de outra maneira... O local e ângulo de onde se está a vivenciar o acontecimento, afeta a informação registada na memória (e depois a narrativa, a reconstituição, o depouimento...).

Neste caso concreto, estamos a tomar conhecimento de um testemunho de alguém que vivenciou o ataque a Tite, de 22 para 23 de janeiro de 1963, data (polémica) do in´´iio "oficial" da guerra colonial (ou de "libertação", para os nacionalistas). Foi o seu comandante, mas do outro lado da barricada, logo, o relato dos acontecimentos que viveu e a visão global do ataque são à partida diferentes da "narrativa" daqueles que,  na altura, defendiam a bandeira verde e rubra. Pontos de vista diferentes, mas tespeitáveis, já que tal como a moeda, a "verdade" tem um verso e um reverso.  São estes conjuntos de ponto de vista, diferentes entre si, dos acontecimentos que vão permitir escrever a História.

Estranhamente pouco ou nada se tem escrito, oficialmente,  sobre este acontecimento tão marcante, (seria?) para o desenvolvimento da guerra na Guiné.

Na parte da entrevista que se segue, o entrevistado assume que o ataque a Tite foi uma aventura, a qual serviu de alerta para as tropas portuguesas. Na realidade, podia ter sido uma grande catástrofe para os guineenses envolvidos pela sua ingenuidade de fazer avançar cerca de 150 africanos (!) – diz ele – com reduzido armamento e nenhuma formação nem prática de combate, contra uma instituição militar devidamente apetrechada e homens bem trenados no manuseamento de armas. Valeu-lhes o ato de surpresa e creio mesmo que a população local envolvida fugiu a sete pés, mal se iniciou o tiroteio.

Com este "ato de loucura", o PAIGC terá ganhado mais alguns aderentes e talvez notícias de primeira página nos jornais, por esse mundo fora, vacinado contra o colonialismo via URSS e EUA, as grandes potências em conflito latente, empenhadas em “abocanhar” a África e a afirmar a sua hegemonia geopolítica,,,. Claro que foi um ato que deu “gás” aos militantes do PAIGC, fazendo sentir que era possível lutar contra os "tugas" (sic), de "armas na mão", bastante para isso terem armas, pois que vontade não lhes  faltava.

Mas,  como acontecimento de guerra, o ataque a Tite não passou de um fracasso, para ambos os lados da barricada. Desgraçadamente, foi o início de uma escalada que só parou 11 anos depois... e que nos envolveu a todos.

A três anos de morrer, Arafam Mané faz também o balanço de uma vida:  "filho de camponês", com passagem pela escola do maoismo, e tendo conhecido as misérias e as grandezas da luta de libertação nacional, da independência, do exercício da governação e das lutas fratricidas no seio do PAIGC, Arafam Mané termina a entrevista em tom "politicamente correto", mas nem por isso menos "coerente" e "humano" e até com uma ponta de "amargura":

Isso para mim, é um grande orgulho. Vejo que, de facto fiz algo de importante para este país a Guiné-Bissau. Mesmo, se morrer hoje não ficarei arrependido. Cada um de nós conhece bem o que é a vida de um camponês. O filho do camponês é sempre condenado na sociedade dos intelectuais mesmo nos países mais desenvolvidos do mundo. Somente nos países socialistas é que vimos que o filho do camponês tem valor. Eis as recordações palpáveis que tenho sobre o ataque de Tite.

Em todo o caso, convirá dizer que esta versão dos acontecimentos de 23 de janeiro de 1963 não é consensual entre os próprios protagonistas (***)... Como sói dizer-se, quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto... Por exemplo, não fica esclarecido quem é que "comandou" a operação, se fosse o Malam Sanhá ou so seu adjunto, o Arafam Mané...Como os dois já morreram, nunca mais irão esclarecer esta minha pequena dúvida...



II. Sinopse da entrevista – Parte Final
Arafam Mané com uma "costureirinha", c. 1963. Foto
do Arquivo Amílcar Cabral / Casa Counm.
Com a devida vénia......


No texto anterior o entrevistado dizia, continuando a responder à pergunta, " Mas como é que conseguiram penetrar facilmente no interior do quartel?"

“A nossa missão podia ter maior sucesso se um dos nossos companheiros não tivesse falhado no cumprimento da ordem. Não obstante tudo, a operação planeada para esse dia não podia ser adiada custe o que custasse. Considero que o acto foi uma aventura que serviu de alerta para os tugas; porque queríamos que soubessem que voltamos com força para a zona. Foi uma guerra psicológica porque, na realidade, nós não tínhamos uma força palpável. Mas essa acção desorientou as tropas coloniais que a partir daquele momento receavam sair do quartel para fazer patrulhas.”

E continuava:

"No entretanto, após esta corajosa operação, mais de 300 jovens voluntários aderiram ao movimento de guerrilheiros para, do nosso lado, lutar contra os colonialistas portugueses. Não havia armas nem tão pouco baionetas mas esta realidade não desanimou os jovens cujo número de aderentes crescia constantemente na minha barraca [acampamento temporário]."

Publicamos a seguir a resposta de Arafam Mané às duas questões finais.


III. Entrevista com o coronel Arafam Mané - Parte IV ( e última)


Esta entrevista foi concedida em 2001 ao jornal “O Defensor”, órgão, de periodicidade mensal, das FARP - Forças Armadas Revolucionárias do Povo, Guiné-Bissau, no quadro da recolha de depoimentos dos Combatentes da Liberdade da Pátria sobre os acontecimentos históricos que marcaram a luta armada de libertação nacional, entrevista essa reproduzida no sítio das FARP, em novembro de 2015.

Excertos transcritos com a devida vénia.(A entrevista completa pode ser lida aqui. no sítio das FARP, Guiné-Bissau.)

(Continuação)

O Defensor – Coronel, o que pensa que poderia acontecer durante a operação 
se o vosso comando inexperiente
 tivesse armas de fogo suficientes?


Malam Sanhá, c. 1963.
Foto do Arquivo  Amílcar Canral
/ Casa Comum

Com a devida vénia...
Coronel ADM - Penso que a falta de armas ou a sua insuficiência na altura da operação de Tite foi uma coisa positiva, porque se houvesse muitas armas, isso teria talvez constituído um golpe fatal para o nosso próprio comando que, certamente, devido a falta de experiência sobre o uso de armas poderia provocar vítimas nas nossas fileiras mesmo, como referiu o célebre cantor guineense José Carlos Schwarz,“caçador desconhecido falhou e virou a sua arma contra a aldeia”.

Se não fosse a falta de experiência, teríamos ocupado Tite naquele dia, porque as tropas coloniais,  surpreendidas pela operação,  tinham já fugido. Do nosso lado, a única baixa do assalto foi o meu guarda costa Wagna Bomba, natural de Gambala, que sucumbiu atingido por balas do inimigo. Do lado do inimigo, não posso avançar um número preciso de vítimas mas deve ter sido considerável, porque o camarada Malam Sanhá conseguiu lançar uma granada dentro da caserna onde dormiam soldados. Foi um sucesso, camarada jornalista.

Portanto, depois da operação em Tite, os ataques da guerrilha se multiplicaram, alastrando-se para os diferentes pontos do sul.

A notícia sobre o início da luta armada contra os colonialistas portugueses, como já disse anteriormente,  foi tornada pública por Amílcar Cabral em Londres (Inglaterra), numa Conferencia de Imprensa. Em África, a notícia foi imediatamente publicitada pelas Rádios de Conacri, Rádio Nacional do Senegal e mais tarde pela “Rádio Libertação” do PAIGC.

A divulgação dessa notícia nos órgãos de comunicação social levantou o moral no seio dos camaradas e a vontade de lutar fortemente para libertar o nosso povo. Enquanto para os "tugas", a divulgação da notícia constituiu uma dor de cabeça.

O Defensor  - Mas no fundo 
qual foi a reacção de Amílcar Cabral 
logo que foi informado do ataque 
contra o quartel de Tite?


Coronel ADM - Foi positiva. Fui logo promovido ao posto de Comandante Regional. E, antes da minha ida para a República Popular da China, que ocorreu em Abril de 1963, consegui mobilizar um número considerável de camaradas para a luta. Tive inclusive contactos com Bissau na pessoa de Rafael Barbosa que na altura era grande membro do Comité Central do PAIGC.




FACTOS HISTÓRICOS INESQUECÍVEIS 

São recordações de encorajamento, isso porque depois da operação as nossas populações chegaram a conclusão de que, afinal, nós naquela altura não podíamos fazer nada porque não tínhamos armas. Reconheceram, por outro lado, que nós podíamos ser bons soldados se tivéssemos armamento. Depois dessa acção, passamos a receber géneros da população e recebemos também medicamentos.

Houve igualmente o congresso de Cassacá que deu o acento tónico que a população esperava do grande partido. O congresso permitiu acabar com as barbaridades praticadas por alguns camaradas, reorganizar a nossa luta armada, entre outros. O povo voltou a ganhar a confiança no partido, nos seus dirigentes e no destino da Luta de Libertação Nacional.

Mas a maior satisfação que tenho é, precisamente, o facto de ver hoje os camaradas que ontem eram camponeses analfabetos que tinham como vestuários “lopé” (tanga), panos rodeados no corpo com os pés descalços, tornarem-se agora grandes oficiais das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP), outros são Engenheiros, Aviadores (Pilotos), Médicos, Deputados, Condutores, pilotos de barcos...

Isso para mim, é um grande orgulho. Vejo que, de facto fiz algo de importante para este país a Guiné-Bissau. Mesmo, se morrer hoje não ficarei arrependido. Cada um de nós conhece bem o que é a vida de um camponês. O filho do camponês é sempre condenado na sociedade dos intelectuais mesmo nos países mais desenvolvidos do mundo. Somente nos países socialistas é que vimos que o filho do camponês tem valor. Eis as recordações palpáveis que tenho sobre o ataque de Tite.


IV. Comentário final

Vejo nesta entrevista um documento histórico de relevante interesse, pois acaba por desmistifica um acontecimento propalado aos quatro ventos como um verdadeiro ato de guerra, heróico e grandiloquente... Afinal não passou de uma "aventura", uma ação, tosca,  que escapou à própria direção política do PAIGC, quase sem consequências imediatas, a não ser a de alertar as tropas portuguesas...

Em todo  caso, e usando a terminologia dos historiadores da guerra colonial Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, mal ou bem o "ataque a Tite" marca o fim da "fase pré-insurreccional e de doutrinação políticia (in; Afonso, A, e Matos Gomes, C. - Guerra colonial; Angola, Guiné, Moçambique. Lisboa: Diário de Notícias, s/d, p. 421),

O PAIGC estava em fase de mentalização e mobilização das populações, e de organização das suas estruturas enquanto  a tropa portuguesa ainda “dormia na forma”. Por outro lado, está bem patente o medo que os militares portugueses impunham sobre as populações através de atos violentos na tentativa de travar o avanço do movimento independentista.

Hesitei em por o texto no nosso blogue, com receio de que iria abrir "velhas feridas mal curadas". Por outro lado o seu valor histórico impunha que fosse dado a público, mas para meu sossego passou incólume, sem o mais pequeno contraditório, o que me preocupa, confesso.


[Introdução, seleção, notas, incluindo parênteses retos, revisão e fixação de texto: Zé Teixeira, ex-1ç cabo aux enf, ]

____________

Notas do editor:

(*) Postes anteriores da série:

3 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16794: O inicio da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte I (José Teixeira)

8 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16812: O inicio da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte II (José Teixeira)

11 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16823: O início da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte III (José Teixeira)

(**) Vd. portal noticioso > Guiné-Bissau > 24/1/2013 >23 de janeiro, dia de início da luta armada de libertação nacional, celebrado no país

(...) Bissau (Rádio Bombolom-FM, 23 de Janeiro de 2013) – A Guiné Bissau marcou ontem, quarta-feira, cinquenta anos do início da luta armada de libertação nacional a 23 de janeiro de 1963 no quartel de Tite, região de Quínara, no sul da capital, Bissau.

Em homenagem a esse acontecimento histórico do país, o Estado-Maior General das Forças Armadas, através da Divisão para os Assuntos Cívicos e Sociais e Relações Públicas, promoveu uma palestra subordinada “Início da Luta Armada pela Independência da Guiné e Cabo Verde”.

Um dos participantes nesse primeiro ataque com armas de fogo contra um reduto militar português na então Província Ultramarina da Guiné, Daúda Bangura (Comissário Político), lembra ainda dos nomes de heróis que haviam constitudo o grupo de assalto, entre eles, Arafam Mané (na altura Adjunto de Comandante), Malam Sanhã (na altura Comandante Geral da Operação) e Tchambu Mané, que era Comandante de Grupo.

Apesar de o assalto ter sido de surpresa para as tropas portuguesas, Daúda Bangura lembra que na operação, o grupo sofreu duas baixas, nas pessoas dos guerrilheiros NFamará Dabó e Malam Dabó. (...)



11 comentários:

Tabanca Grande disse...

Zé, afinal o paleio alongou-se... A "entrevista", que tu consideras "histórica", devidamente enquadrada por ti, deu quatro postes, publicadas espaçadamente ao longo de quase semanas,

Quanto ao teu desalento ou desafogo: "Hesitei em pôr o texto no nosso blogue, com receio de que iria abrir 'velhas feridas mal curadas'. Por outro lado o seu valor histórico impunha que fosse dado a público, mas para meu sossego passou incólume, sem o mais pequeno contraditório, o que me preocupa, confesso."

... Queres tu dizer que não tiveste grandes comentários ?!... Zé, não fiques desolado, não podemos pedir aos nossos leitores que leiam e comentem tudo o que aqui se publica.. Seria humanamente impossível"...

Não te pdoes queixar, todavia, do nº de visitas... Aqui vai uma estatística (comentários e visualizações):


3 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16794: O inicio da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte I (José Teixeira)


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8 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16812: O inicio da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte II (José Teixeira)


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11 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16823: O início da guerra colonial no CTIG, contada pelo outro lado: entrevista, de 2001, com o homem que liderou o ataque a Tite, Arafam 'N’djamba' Mané (1945-2004) - Parte III (José Teixeira)

1 comentário | 252 visualizações


... Feitas as contas, são 6 comentários e 670 visualizações!... Não é bom, é ótimo!.. Infelizmente não temos aqui ninguém que tenha estado em Tite nessa noite de 23 de janeiro de 1963... Esperemos poder publicar, para os princípios do ano (?), o texto (extenso, c. 200 pp., se não erro), do camarada Grabriel Moura, já falecido. A filha ficou de digitalizar uma série de fotos...


Zé, espero que tenhas o Natal que mereces: quentinho, fofimho, sorridente como o esqulio, apaparicado pelos que te amam... LG

josé Teixeira disse...

Luís. Agradeço a tua preocupação em transmitires os dados sobre quantos ex-camaradas acederam aos PT sobre a tentativa do assalto a Tite. Na realidade, trata-se de um acontecimento histórico, do qual apenas conhecemos agora duas versões, felizmente de ambas as partes da contenda.Espero que os historiadores façam uma leitura desapaixonada e transmitam aos vindouros a verdade. Esta, seria mais consistente se tivesse mais elementos fornecidos pelos atores. Eu tinha alguma esperança que aparecesse alguém a confirmar ou contestar os dados que consegui recolher.
Espero que o nosso blogue seja consultado para se apurar a verdade dos fatos.

Não te esqueças de arranjar um tempinho para tomarmos uma bica/café/ cimbalino.
Entretanto, espero e desejo que o vosso Natal seja um Natal pleno de sorrisos. Mais que dar ou receber presentes, o importante é estar presente a transmitir paz e bem-estar.

Tabanca Grande disse...

Zé, tenta clarificar o papel do Malan [Bacai] Sanhá, que é dado como comandante da operação (contra tiote, sendo o Arafam Mané seu adjunto)... O Malam seria mais novo do que o Arafam, tendo nascido em Empada, em 5 de maio de 1947!...

Se assim for, teria 14 (!) anos aquando do ataque a Tite... Há aqui qualquer coisa que não bate certo: em África,. a idade éum posto...

Morreu em França, em 2012, quando exercia interinamte o cargo de presidente da República da Guiné-Bissau... Julgo que ele e o 'Nino' não morriam de amores um pelo ooutro... O Malen e o Arafam eram biafadas. se não erro... Ab. Luis


https://pt.wikipedia.org/wiki/Malam_Bacai_Sanh%C3%A1

Tabanca Grande disse...

Zé, afinal, o Malam Sanhá, de acordo com a sua biografia oficiosa, nasceu em Darsalame, Empada, regão de Quínara... A data é que deve estar aldrabda (1945)...O Arafam é de 1943...

Darsalame,tanto quanto sei, terá sido a tabanca onde o cmdt Vitorino Costa, do PAIGC, foi morto por um grupo de combate especial da CCAÇ 153, comandandado pelo cap Curto... O Malan Sanhá também tinha o pai na guerrilha...

Vê4 aqui, no Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum, um documento de 5 páginas, em que Malam Sanhá faz a descrição detalhada, com nomes e tudo - santa ingenuidade (!) - do trabalho "político" feito em Fulacunda, talvez em 1962... Traz nomes, contactos, etc., em linguagem não codificada, como de resto, são todos os documentos do Arquivo Am+ilcae Cabral... Comum partido clandestinio, infiltradio por agentes iou informadores da PIDE, esrtá-se mesmo a ver o destino de alguns destes desgraçados... O Vitorino Costa terá sido denunciado pelo chefe da tabanca da Darsalame...Isto também ajuda a explicar porque foi difícil ao PAIGC fazer a tão desejada (por nós...) "reconciliação nacional" a seguir à independência.

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=07073.129.013

Antº Rosinha disse...

Cada um tem o seu ponto de vista, mas se toda a gente for fazer o seu comentário, sem ideologias nem facciosismos, dificilmente apareceriam dois comentários iguais, quer a contradizer quer a concordar.

Mas, como eu tenho aqui colocado sempre os meus comentários requentados alguns, novidades outros, venho aqui apresentar um requentadíssimo e que não me canso de repetir:

Toda a guerra do PAIGC, ou seja, quando Amílcar resolve a sério entrar na guerra contra a colonização portuguesa, foi feito um ensaio em Angola, a 4 de Fevereiro de 1961.

Amilcar, todos já estamos carecas de saber que, foi co-fundador do MPLA e Luanda era a verdadeira "capital", ou "símbolo" do império Português.

E a ideia original e lógica dos "civilizadíssimos" estudantes do império era fazer a guerra urbana, tal como Mandela e o ANC e o Doutor Kenniata e outros faziam, e seria em Luanda que dava o verdadeiro escândalo.

Andar no mato como o tarzan, como diz o Arafan, descalços e de panos, não condizia com Amílcar, Agostinho Neto, Lúcio Lara, irmãos Pinto de Andrade etc.

Mas como em Março de 1961 apareceu em Angola um inimigo mais perigoso do que o "Colon" "tuga", os turras da UPA, que matavam tudo o que não fosse bacongo, e na Guiné já havia escaramuças e movimentos muito estranhos (MLGC, UPG, RDAG, UNGP, MLG, FLING), resolveram o MPLA e o PAIGC usar as mesmas armas, ir para o mato e ocupar o espaço desse "estranho inimigo".

Esse tal ataque a Tite, usado como data de início da guerra do PAIGC, não seria apenas um pequeno episódio e já teria havido outros mais marcantes, cuja data não interessava a Amílcar e ao historial do PAIGC?

Hoje já podemos analisar sem complexos o que estava por traz das motivações dos dirigentes caboverdeanos, e angolanos e guineenses que conscientemente e com espírito nacionalista dirigiam a luta anti-colonial.

Faltou muita sinceridade na luta "anti-colonial" dos dirigentes africanos, e nunca falavam a verdade ao povo, apenas o básico, o "branco vai embora" e ficavam felizes, não precisavam de trabalhar mais para o branco nem ser explorados pelo "branco", e como diz o Arafan, agora temos engenheiros e já não andamos de tanga...simples e tudo explicadinho!

Por causa das mentiras aos povos, hoje a fuga de milhões de africanos novamente para "o colinho" do ex-colon europeu neste conflito actual no mediterraâneo em Lampedusa e em Calais.

Vamos perder o complexo e denunciar o logro que provocou o actual conflito euro-africano em que uns de cá e outros de lá tiveram culpa, e nós aqui andámos a lutar e dar murros em ponta de faca, enquanto fomos capazes.

Mandela não mentiu!

Cherno disse...

Caros amigos,

Concordo com o Rosinha, pois tudo indica que os intelectuais da casa do Imperio, portugueses de origem angolana e caboverdiana, sobretudo, nao teriam como objectivo fazer a Guerra que depois foram obrigados a fazer, mas tambem nao podiam ficar de bracos cruzados, sob risco de ficar para tras e perder o comboio da historia.

Da leitura desta entrevista pode-se concluir que enquanto no sul, mais concretamente na regiao de Quinara (Chao Beafada), houve uma real sublevacao da populacao encarnada pela camada mais jovem e que, mais tarde, fornecera grandes comandantes a guerrilha e as FARP (Arafam Mane, Malam Sanha (nao confundir com Malam Bacai Sanha 'ex-presidente da Republica' que nunca foi militar), Quemo Mane, Tchambu Mane, entre outros; ja na regiao do Centro, Leste e Nordeste (Chao fula ou de predominio fula) a populacao era contra a sublevacao e nao partilhava das ideias do PAIGC e dos outros movimentos nacionalistas que pululavam no Senegal. Os velhos fulas e os regulos disseram a Amilcar: Deixa os brancos em paz, pois sozinhos nao nos entenderemos e, mais tarde solicitariam armas e apoio militar para defender o seu chao. Com o 25A74 os jovens militares portugueses, no seu entusiasmo frenetico de corrigir erros do passado e fazer justica revolucionaria entregaram o territorio
aos guerrilheiros ignorando e fazeando tabua raza do passado.

Assim, enquanto no sul queriam correr com os brancos colonialistas para poderem reinar a imagem e a semelhanca dos seus antigos suseranos mandingas do sec. XIX (a presenca do Djali de Kora no ataque ao quartel de Tite e a adopcao dos apelidos mandingas "Mane, Sanha, Dabo, Indjai, etc." ilustra bem este imaginario colectivo dos Beafadas que apostaram forte na guerrilha, mas sem nunca deixar de criar serios problemas no seu seio, durante e apos a Guerra colonial, inclusive na propria morte de Amilcar Cabral).

Com um abraco amigo,

Cherno Balde

Cherno disse...

PS/

Em 1998, durante o conflito militar de "7 de Junho" informacoes que circularam davam conta de que entre o Presidente Nino Vieira e o Coronel Arafam Mane houvera um forte desentendimento tendo este ultimo devolvido ao primeiro uma agressao com 'bofetada'. De acordo com as mesmas informacoes, de resto pouco fiaveis, a discussao tinha tido origem em suspeitas de participacao na conspiracao chefiada, na altura, pelo Brigadeiro Ansumane Mane (mandinga originario de Gambia) e/ou a estrategia adoptada na tentativa de acabar com a sublevao militar que se alastrava no seio dos antigos combatentes. Muitos suspeitam que a sua morte ocorrida poucos anos depois esteja relacionada com a agressao fisica e tortura que seria vitima na mesma ocasiao.

Cherno AB

José Teixeira disse...

Obrigado Bom amigo Cherno - Sempre presente com a Tua clarividência. Em poucas palavras disseste.me muito e esclareceste muitas dúvidas.
Na realidade, o Sul parece que estava a ferro e fogo ou seja, "Chapa ou fogo" que marca a História do teu povo. Talvez um pouco desajustada, pois tanto quanto consegui saber, o PAIGC actuava do mesmo modo, para quem não aderisse às suas ideias e não desse cobertura ás suas acções, nomeadamente no Chão Fula ou de influência Fula. Eu tive a sorte de passar grande parte da missão militar como enfermeiro, em Chão Fula - Gente que me ficou no coração.Foi a sua forma de estar e querer viver em paz que me ajudou a ver a crueldade que estávamos - Portugal e PAIGC - a fazer. Ajudou-me a mudar a foram de estar entre vós e pôr a arma de lado como era o meu sonho desde que fui mobilizado.
Olhando para o teu povo e gostava que acabasse de vez a marca étnica, ou seja se diluísse em "Povo da Guiné Bissau, lamento e sofro com a mágoa que vejo em todos e quantas vezes se pergunta - Liberdade para quê?! Para isto que está a acontecer? - miséria, fome, falta de perspectivas de futuro.
Abraço irmão
Zé Teixeira

Anónimo disse...

Luís.
Como o Cherno escreve, o Malan Sanhá que atacou Tite ,não o mesmo que foi presidente da Republica - Malan Bacar Sanhá.
Não encontro elementos que permitam seguir o atacante Malan Sanhá - Talvez se tenha "perdido" durante a guerra.
Uma coisa é certa o Arafan afirma-se como o organizador e comandante, à rebelia do A. Cabral, no ataque a Tite.
No meu ponto de vista, depois de uma reflexão à sua entrevista, pela forma desorganizada e aventureira como o fez, qualquer superior hierárquico devidamente capacitado ter-lhe ia dado quatro açoites. Todavia hoje é um herói nacional da Guiné-Bissau.
José teixeira

Cherno disse...

Caro amigo Teixeira,

No comentario que fiz num dos primeiros postes desta serie, disse que o tal Malam Sanha, que deve ser o mesmo do grupo que assaltou o quartel de Tite, teria caido em desgraca nas vesperas da independencia e dissidente teria mobilizado um grupo de rebeldes onde se incluiam antigos militares guineenses do exercito portugues, para um golpe de estado em meados de 1977/8. Quando estavam as portas de Bissau outros dizem que dentro de Bissau foram denunciados e em seguida exterminados. Na altura os rumores faziam ligacao do grupo com o gen. Nino Vieira que teria recuado a ultima da hora. Em Novembro de 1980 acontecia o golpe de estado que pos fim ao regime do Luis Cabral. Enfim coincidencias!


Cherno Balde

Cherno disse...

Caro amigo Teixeira,

No comentario que fiz num dos primeiros postes desta serie, disse que o tal Malam Sanha, que deve ser o mesmo do grupo que assaltou o quartel de Tite, teria caido em desgraca nas vesperas da independencia e dissidente teria mobilizado um grupo de rebeldes onde se incluiam antigos militares guineenses do exercito portugues, para um golpe de estado em meados de 1977/8. Quando estavam as portas de Bissau outros dizem que dentro de Bissau foram denunciados e em seguida exterminados. Na altura os rumores faziam ligacao do grupo com o gen. Nino Vieira que teria recuado a ultima da hora. Em Novembro de 1980 acontecia o golpe de estado que pos fim ao regime do Luis Cabral. Enfim coincidencias!


Cherno Balde