segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16848: O nosso querido mês de Natal de 2016 e Ano Novo de 2017 (4): Alberto Branquinho / António Gedeão (com o poema "Dia de Natal")


Lourinhã > 10 de dezembro de 2016 > "Boneco" de Natal > Há muito que a economia "mercantilizou" o Natal dos cristãos... Não há terra nem terrinha que escape à ideologia do consumo e e à compulsão do "shopping" natalício...

Foto (e legenda): © Luís Graça  (2016). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário, ao poste P16841 (*), pelo nosso camarada, 
gã-tabanqueiro e escritor Alberto Branquinho [ex-alf mil op esp, CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69); ver aqui algumas das suas obras publicadas]

Pois é, Zé Teixeira!

Ou, melhor, FOI.


E veio, também, essa espécie de "coisa" a que chamam "árvore de Natal". E anda toda a gente excitada neste tempo de Natal, não pela ideia de "nascer" qualquer coisa de novo (ou renovada), mas por causa das compras, compras, compras... prendinhas, prendas e prendonas...

No poema "Dia de Natal" do António Gedeão está lá isso TUDO! Só tem que se substituir o "relógio de pulso anti-magnético" pelos mais recentes "gadgets" das novas tecnologias (?) inúteis ou fúteis.

Abraços
Alberto Branquinho


P.S. - Isto lido por muita gente que a gente sabe, será seguido por um pensamento ou uma afirmação:- Velhada!Cotas! (**)



2. Dia de Natal


por António Gedeão [1910-1997]

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

M
as a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

[O poema «Dia de Natal» é publicado, em 1967, num jornal de estudantes do Liceu Camões, Lisboa,  que é apreendido pelo reitor. Fonte: Cronologia :: Rómulo de Carvalho :: Biblioteca Nacional]
______________

Notas do editor:

(**) Poste anterior da série:

18 de dezembro 2016 > Guiné 63/74 - P16843: O nosso querido mês de Natal de 2016 e Ano Novo de 2017 (3): Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes (...um núcleo, formidável, ativo e solidário, mas também com preocupações culturais, seguramente um dos melhores que integram a Liga; um alfabravo também para eles, seus associados e dirigentes, por parte da nossa Tabanca Grande)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Camarada Branquinho, ninguém te deu os parabéns , mas eu dou-tos pela oportuna escolha deste poema de Natal do Rómulo de Carvalho /António Gedeão...

Não admira que fosse incómodo, em 1967, quando o regime estava a cair de podre como a cadeira de Salazar... Mas continua a ser ainda mais atual pela crítica (mordaz, corrosiva...) do nosso consumismo irresponsável, gerado por uma economia predadora, agora cada vez maia globalizada... O lixo, o plástico, a desperdício, as substâncias tóxicas... chegam a todo o lado, dos corais de recife às florestas do Cantanhez...

Em Bambadinca gostávamos de cantar em coro, na messe de sargentos, a "Pedra Filosofal" da dupla António Gedeão / Manuel Freire...

Um Natal "despoluído" para ti e para os teus... LG

Anónimo disse...

Luís

Eu não escolhi o poema "Dia de Natal", como dizes. Limitei-me a citar uma pequena passagem porque me pareceu enquadrar-se na ideia que norteou o texto do Zé Teixeira.

Aliás, quando vi, no cabeçalho do Post, o meu nome ao lado do António Gedeão, senti um aperto no peito. É demais! O meu nome ao lado do grande António Gedeão/Rómulo de Carvalho?!

O poema não buliu só com o aspecto político, questionou a estrutura SOCIAL em vivemos e que transformou o Natal, deturpou a ideia de renovação contínua, o renascer contínuo do Homem, afastando o seu semelhante. E, ao longo dos anos, foi esquecido o Menino, surgiu a "árvore", o "pai natal" (Santa ou Santa Claus, na marca de origem...) Em vez disso, implantou-se neste período, de forma exacerbada, o TER em vez do SER. E isso causa ainda mais infelicidade naqueles que, ao longo do ano, não podem TER o estritamente necessário para o dia-a-dia e, agora, não podem, como os outros, COMPRAR!!!.

Um bom Natal para ti e todos os Teus.

Abraço
Alberto Branquinho

P.S. Há uma gralha na transcrição do poema "Dia de Natal": no verso 37, em vez "comprado", deve ser escrito "comprar". (Mais uma vez COMPRAR!)

Anónimo disse...

Obrigado pelo belo poema de António Gedeão/Rómulo de Carvalho que trazes a este espaço nesta altura.
Talvez não saiba ou não queira ser "bonzinho", daí gostar deste poema.
Um abraço de Boas Festas.
BS

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Espero que todos nós estejamos a "tirar apontamentos" a fim de aprendermos como se faz um bom poema.
É o conteúdo, a ideia, o que se quer dizer e diz.
Mas a forma é fundamental e só da junção da forma com o conteúdo se faz boa poesia.
Reparem no rimo, na rima e na certeza de cada verso e até numa certa musicalidade.
Escrever em texto corrido e pôr os "versos" uns por cima dos outros, como se fosse uma resma de grupos de palavras pode ser uma boa ideia e transmitir uma mensagem importante e que acerta e atinge o leitor, mas não é poesia. É só dispor as palavras de uma forma "original". Podemos chamar-lhe literatura poética e será muito útil e até gratificante, mas não é poesia.
Quem escreve empilhando, pode ser bom (óptimo) a escrever, mas não é poeta.
Às vezes, vale mais um bom naco de prosa, assumido como tal, do que uma tentativa presunçosa, mas falhada de poesia.
Eu sei que rimar é difícil, mas só tenta quem quer...

Um Ab.
António J. P. Costa