segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16982: Notas de leitura (922): “De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2011)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014 (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2015:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma digressão sobre recensões guineenses, entre as muitas centenas que vêm inseridas nesta obra monumental de recolha de investigações que muitas vezes não aparecem no mercado português. Para o estudioso e mesmo para o leigo interessado sobre acontecimentos dos dois últimos séculos do império colonial, Pélissier é incontornável, e quem põe dúvida a esta afirmação pode esclarecer-se com esta leitura, pois a obra está disponível nas livrarias.
Registo que Pélissier procura repertoriar tudo que tem a ver com a literatura da guerra colonial.

Um abraço do
Mário


De África a Timor: uma maratona de livros por René Pélissier (2)

Beja Santos

“De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2001)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014, é uma obra indispensável para leigos e investigadores sobre trabalhos que se prendem com as diferentes parcelas do antigo império português. Pélissier é um nome gigante nas investigações da colonização portuguesa e não se conhece mais ninguém com este palmarés de milhares de recensões inicialmente publicadas em revistas especializadas e depois em diferentes volumes. Como é óbvio, neste espaço procuramos referenciar estudos e recensões centrados na Guiné. A propósito de um escritor português, Luís Rosa, Pélissier observa:
“A literatura dos antigos combatentes é um género, ou subgénero, que mobiliza e mobilizará os professores de literatura portuguesa durante muitas gerações, bem depois do desaparecimento dos que a escreveram. Estes académicos, em geral, não têm as mesmas preocupações dos autores e ainda menos as dos historiadores. Os últimos desejam saber o que não se encontra nos comunicados de imprensa da época nem na história oficial estabelecida a posteriori pelos Estados-Maiores. Para os historiadores o estilo e o lirismo, a poesia e o vocabulário das emoções não são mais do que acessórios. O aborrecimento chega depressa após a leitura das proezas desta ou daquela Unidade; não nos devemos desencorajar pois acabamos por descobrir pepitas mesmo nos romances históricos, redigidos por certos atores (em geral oficiais milicianos) que tiveram de combater a sério.
"Memória dos Dias sem Fim", por Luís Rosa, Editorial Presença, 2009 é disto um bom exemplo. Luís Rosa está numa guerra absurda e enfrenta na Guiné um inimigo decidido e combativo. O alferes Rosa e a sua Companhia estão na zona nevrálgica fronteiriça do Sudeste, entre o rio Cacine e o limite artificial da Guiné Conacri. É um lugar de passagem obrigatória do PAIGC, que está encarregado de retomar e defender. Um historiador que já sublinhou abundantemente o caráter arbitrário do traçado dos contornos da Guiné não pode ficar insensível esta demarcação que devido o país dos Nalus. De entre as caraterísticas mais importantes do livro, limitar-nos-emos a citar as mais originais: a) a presença de um comerciante português em Gadamael que explora impiedosamente os Nalus; b) a tortura de um louco, prisioneiro; c) a execução em Guileje, por um alferes, de um velho informador/agente duplo, a quem obriga a cavar o próprio túmulo antes de arrancar uma orelha do seu cadáver; d) o bombardeamento com morteiros do posto de Sangonhá a partir do campo de Marela do PAIGC, na Guiné Conacri e o franqueamento, em represália, da fronteira pelos Comandos e milícia local; e) a receção dos refugiados que fogem da fome; f) a primeira destruição pelas unidades regulares de artilharia do PAIGC da guarnição portuguesa de Guileje; g) o fornecimento de informação contra o PAIGC por um chefe Nalu, refugiado na Guiné Conacri, em troca de um tratamento contra as doenças venéreas”.

Foi com surpresa que tomei conhecimento do romance “Deixei o meu coração em África”, por Manuel Arouca, Oficina do Livro, 2006. Segundo Pélissier, trata-se de uma extraordinária reconstituição da realidade vivida pelos soldados portugueses em Guileje. Esta reconstituição é tanto mais notável quanto Manuel Arouca não parece ter conhecido a Guiné no seu crepúsculo caetanista. E é mesmo um romance em que tudo o que o autor narra sobre este país em guerra lhe foi contado por um primo. Vejamos os termos, segundo Pélissier:
“Assim, encontramos Spínola, mas sobretudo o quotidiano de uma guarnição, ameaçada e rotineira, que só se anima com as escoltas dos comboios de provisões, a chegada do correio, os bombardeamentos de napalme, as emboscadas, as personalidades fortes, como a do capitão cabo-verdiano que comandava a Companhia e que era o único patriota otimista neste posto português. Assistimos, em seguida, ao casamento em Gadamael-Porto de um suboficial de Coimbra com a filha de um chefe Fula: um caso de luso-tropicalismo que acabará mal (ao pisar uma mina, o marido perderá as duas pernas). Conhecemos também um soldado marxista que denúncia as operações em proveito do PAIGC e o herói do livro, um furriel, é adotado por uma família Balanta cujos filhos gémeos são, um, um chefe de guerrilheiros e, o outro, um capitão dos comandos africanos portugueses. A obra abarca o período de 1968 a 1971. O maior problema do Exército Português prendia-se com o facto de serrem raros – exceto entre as tropas especiais – aqueles que acreditavam verdadeiramente na utilidade daquilo que faziam. E não estavam provavelmente enganados”. 
Refere também o “Diário da Guiné” de António Graça de Abreu, Guerra e Paz Editores, 2007, dizendo:
“Graça de Abreu observa a política contestada de Spínola e permanece duvidoso quanto às pretensões do PAIGC em dominar todo o território, mas cedo se apercebe de que, pelo menos entre os Manjacos, décadas de exploração colonial não podem ser apagadas por tardias reformas materiais”. 
E, mais adiante: 
“No final de 1973, Cufar e todas as guarnições em redor são bombardeados pelos 122. As tropas sabem que vão para a morte na ofensiva contra o Cantanhez e as minas que os esperam. Os sábios de uniforme escrevem poemas que Camões não teria imaginado, mas todos mergulham no álcool para adormecer os seus medos. O Estado-Maior e os serviços de saúde pública terão elaborado, posteriormente, estatísticas sobre a dependência alcoólica dos antigos combatentes portugueses? A água pura era rara na Guiné no início de 1974. Sabemos a que é que tudo isto conduziu Exército e o Estado-Novo”.

Temos aqui centenas de recensões numa edição cuidada, incluindo lista de autores, a ordenação geográfica da respetiva bibliografia e o facilitador índice toponímico.

Trata-se de um levantamento de um historiador infatigável, de alguém que anda há várias décadas a coligir, peça a peça, a desmesurada bibliografia de antigos combatentes e de investigações dos mais diferentes matizes.
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16972: Notas de leitura (921): “De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2011)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

3 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Porque sou referido em mais este criteriosa recensão do MBSantos,à imaginativa prosa do Pélissier, o tal que nunca foi à Guiné e considera os portugueses em África como uma espécie de corja da pior espécie (já me referi a esse "grande historiador" em posts passados, é só procurar as suas afirmações no blogue), leio:

"Refere também o “Diário da Guiné” de António Graça de Abreu, Guerra e Paz Editores, 2007, dizendo:
“Graça de Abreu observa a política contestada de Spínola e permanece duvidoso quanto às pretensões do PAIGC em dominar todo o território, mas cedo se apercebe de que, pelo menos entre os Manjacos, décadas de exploração colonial não podem ser apagadas por tardias reformas materiais”.


Onde é que eu digo isso?
E, mais adiante:


“No final de 1973, Cufar e todas as guarnições em redor são bombardeados pelos 122. As tropas sabem que vão para a morte na ofensiva contra o Cantanhez e as minas que os esperam. Os sábios de uniforme escrevem poemas que Camões não teria imaginado, mas todos mergulham no álcool para adormecer os seus medos. O Estado-Maior e os serviços de saúde pública terão elaborado, posteriormente, estatísticas sobre a dependência alcoólica dos antigos combatentes portugueses? A água pura era rara na Guiné no início de 1974. Sabemos a que é que tudo isto conduziu Exército e o Estado-Novo”.

Verdades, inverdadades, "todos" a mergulhar no álcool, etc. Admirável rigor deste grande historiador tão admirado pelo MBSantos!
Terá o senhor francês entendido que aquilo que vivíamos era mesmo uma guerra?
Água pura éramos nós,soldados portugueses,na pureza dos nossos vinte e poucos
anos lançados numa guerra, injusta como todas as guerras. Mas que nos uniu, nos fez homens, e para o bem, e para o mal, faz parte das nossas vidas, e de que não temos de que nos envergonhar. Isto são coisas que o Pélissier e o seu grande admirador Mário Beja Santos parecem não ver.

Abraço,

António Graça de Abreu

Antº Rosinha disse...

Obrigado Beja Santos, por mais este trabalho.

Sem Beja Santos e sem António Graça de Abreu, e sem todos nós, Luísgraca não era o mesmo, mesmo sem alguns que vão desistindo mas acompanhando.

AGA, sou de opinião que qualquer francês que saiba o que foi Argélia, Indochina com Den-Bien-Phu, e outras vergonhas coloniais francesas, como Pelissier sabe de cor e salteado, deve dar cambalhotas e trambolhões para compreender a Guiné-Portuguesa desde Vasco da Gama, passando por Albuquerque, Pedro Alvares Cabral, Padre Vieira, e acabando no Amílcar Cabral, e Spínola.

Mas nós aqui devemos ler e acompanhar tudo e analisar, mas devemos defender e denunciar algo que seja mentira ou excepções que queiram passar por regra.

E é o que quero aqui, e apenas, como faço muitas vezes, denunciar um pormenor que não sendo de Pelissier nem de BS, é de Luís Rosa, mas que erradamente passa também pela cabeça da maioria dos portugueses.

E quando digo erradamente, até contra muitos, digo simplesmente a maior ignorância.

É quando se fala dos exploradores "comerciantes do mato" ou os "comerciantes dos pretos".

A passagem é esta: " De entre as caraterísticas mais importantes do livro, limitar-nos-emos a citar as mais originais: a) a presença de um comerciante português em Gadamael que explora impiedosamente os Nalus, b)..."

Eu só digo, como conheci milhares de comerciantes "brancos" em Angola, isolados no meio de milhares de pretos, "coitados desses brancos" eram os únicos portugueses com quem os africanos tinham um diálogo aberto, sincero, franco, de confiança mútua.

E se excepcionalmente não acontecesse assim, esse comerciante branco, podia fazer as malas e desaparecer porque de certeza que ia à falência e morria à fome por falta de fregueses.

Quem não acredita no que eu aqui afirmo, menospreza as capacidades intelectuais dos africanos.

"Isto dava pano para mangas"

Cumprimentos


Manuel Bernardo disse...

Boa Graça Abreu! Já tinha ouvido falar nas "obras" de Pélissier, que parece ter bastantes admiradores em Portugal, nomeadamente na dita "esquerda" da Cultura. Enfim, pelo seu cmentário parece que este senhor não corresponde ao que "pintam" dele. Ab e Bom Ano/o melhor possivel, para todos.