quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16985: Os nossos seres, saberes e lazeres (196): Pelos caminhos de Trancoso até chegar a Foz Côa (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 15 de Setembro de 2016:

Queridos amigos,
Quando rememoro esta viagem, não esqueço a ingestão de líquidos e o bálsamo do ar condicionado. Foi um fim de Julho em que estrondeou um calor que deitava abaixo qualquer vontade de andar por ruas, entrar em igrejas, mirar fachadas de edifícios espetaculares, acresce que a Benedita há muito que falava na viagem e a tudo resistiu, divertiu-se à grande numa piscina numa bela casa de turismo de habitação em Terrenho, perto de Trancoso.
Andou-se por castelos, chegou-se a Foz Côa, a riqueza fabulosa das gravuras rupestres está à nossa espera.

Um abraço do
Mário


Pelos caminhos de Trancoso até chegar a Foz Côa (1)

Beja Santos

O passeio foi idealizado a uma certa distância, nada faria supor que se chegava a Trancoso e depois a belos lugares como Terrenho, Penedono e Marialva com temperaturas abrasadoras, o que confrangia, a Benedita estava com cinco anos e meio. É com redobrado prazer que entro em Trancoso, uma cidade que conheci graças à minha amizade com Luís Rodrigues, que habita em Rio de Mel, será aí que de algum modo nos iremos amesendar. Compraz-me o seu belíssimo centro histórico, as suas muralhas, o altaneiro castelo, as ruas e ruelas do passado, a presença judaica. Aqui estão as Portas do Prado, daqui se saía para Viseu ou Lamego, neste caso por aqui entrámos em grupo, o alvo era o centro histórico e depois uma sombra e uns líquidos para matar a sede.




Estamos em Terrenho, ficamos no Solar dos Almeidas, de um equipamento apodrecido um casal lançou-se à empreitada e conseguiu um milagre de renovar sem beliscar o passado de uma casa afidalgada, fez dela um conveniente turismo de habitação. A Benedita só queria piscina, de manhã, à tarde, sempre que possível. Por uso e costume, não exibo fotografias de familiares e outros viajantes. Mas esta imagem faz-me tremer de emoção, o sorriso da Benedita lembra-me o da sua mãe, nesta precisa idade, mostro-a com espevitado orgulho. E passeámos por Terrenho, aproveitámos as sombras.


Terrenho reúne paradoxalmente a imagem da renovação e do abandono, vemos residências quase apalaçadas na decrepitude e por toda a parte há sinais de que se partiu para sempre, mas há quem para aqui venha e refaça, o lugar, no essencial guarda caráter.




Não se pode resistir à esmagadora imponência de Penedono. Basta olhar para estas imagens e vemos que temos castelo antigo anterior a Portugal, aqui houve mesmo pancadaria da grossa no âmbito da reconquista. Em 1812, recebeu um visitante ilustre, Alexandre Herculano, que não escondeu a sua admiração. Escreve-se num folheto alusivo que é pequeno castelo de montanha gótico, de planta poligonal, encontra-se implantada a 930 metros de altitude, tem torreões nos ângulos, por vidros da matacães e flanqueando o acesso único inscrito num arco quebrado. O pelourinho é um monumento quinhentista, tipo gaiola, idêntico ao que encontramos em Sernancelhe. Assenta num soco de cinco degrau oitavados, tem fuste prismático encimado por capitel tronco-piramidal, que grande beleza!


Mudamos de rumo, estamos em Marialva, não muito longe da sede do concelho de Mêda, aqui se chega depois de passar por planícies de alguma aridez e arvoredo fugaz. Sempre o granito a preponderar. Tem cidadela no interior do castelo, agora despovoada, a vila está cheia de vida, percorremos com grande satisfação um empreendimento turístico, Casas do Coro, um exemplo admirável de inserção e recriação numa zona montanhosa cheia de história. Faz-se o percurso urbano e há passado nas pedras, mesmo nas que jazem ao abandono. Aqui chegaram romanos, godos e aqui se ajudou a fundar Portugal. A região é alvo de projetos turísticos interessantíssimos, passaremos mais adiante por Longroiva, outro caso admirável de boa inserção entre socalcos serranos onde vicejam oliveiras.



E chegámos a Foz Côa na mira de conhecer o museu de Côa e de visitar as gravuras. Consta que o seu microclima é mediterrânico, com aquela caloraça vizinha dos 40 graus o que apetecia era um lugar fresco, havia pouco entusiasmo por castelos, monumentos, solares, vilas romanas e até mesmo olhar com a feição os amendoais que ali preponderam. Mas houve coragem para ir ver o Côa e pasmar com as encostas que são verdadeiros cenários do chamado dúrio-trasmontano, assim se pode caraterizar a região. O viandante pôs-se à sombra e tirou do quarto uma fotografia à espetacular cenografia do Côa e antes do jantar tentou-se uma visita à apregoada riqueza da igreja matriz. Estava encerrada, mas a fachada é deslumbrante, como vêem. Amanhã é dia de gravuras e a Benedita não pára de falar no passeio de comboio, entre o Pinhão e a Régua. Depois contamos o que se passou.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16965: Os nossos seres, saberes e lazeres (195): Pedrógão Pequeno e o Cabril do Zêzere (3) (Mário Beja Santos)

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Meu caro Mário, a tua Benedita está uma "mindjer grandi!"... e tu um avô babado...É assim que um gajo fica velho, a ver os netos a crescer felizes e saudáveis...

Obrigado, pela tua partilha..."Isto" também é "serviço público", e está dentro da missão do nosso blogue: dar a conhecer e a amar mais e a defender melhor a nossa querida terra e as nossas gentes, uma e outras tão maltradas em certos períodos, mais negros, da nossa história....

Tabanca Grande disse...

... Lembro-me de ter feito, há unas anos largos este percurso, o das aldeias históricas da Beira... Fiquei (, ficámos, éramos um grupo de 3 casais com filhos...) ans Casas do Coro, em Marialva:

http://www.casasdocoro.pt/

Mas vou tomar boa nota do "teu" turismo de habitação, o Solar dos Almeidas, em Terrenho, Trancoso:

http://www.solardosalmeidas.net/precos.htm

Passei/passeei e almocei na vila de Trancoso, e não deixei de me emocionar ao ver (e fotografar) as cruzes das ombreiras das portas de casas que que foram de cristão novos... São ainais de que a sanha da santa inquisição bateu forte, por estas bandas: eram casas de pobres judeus, obrigados a converter-se ao catolicismo, por volta de 1557, se não erro... Quem era rico, saía para o estrangeirom, quem era pobre tinha que "aparentar", pelo menos, que acatava as sentenças de vida ou de morte dos senhores que mandava no reino... As cruzes nas ombreiras das pedras era uma "afirmação" de catolicismo, e uma certa garantia de que nãos e acabava na fogueira...

Pobre D. Manuel, pobre Dom João III, em plena época de ouro deste país, pobres reis que ficam na história com este "pecado original", o de terem contribuído para a fuga de grande parte da nossa elite técnico-científica (médicos, cirurgiões, matemáticos, astrónomos, banqueiros, comerciantes, diplomatas, artesãos de finais do séc. XV e meados do séc. XVI e também séculos seguuintes até ao Marquês de Pombal ...) que eram os judeus (mas também os mouros...), atingidos pelas perseguições religiosas...

Estes portugueses, tão bons como os melhores, acabaram por espalhar-se pelo mundo: Brasil, Cabo Verde, Marrocos/ Norte de África, França, Holanda, Inglaterra, Império Otomano...

Tabanca Grande disse...

Foz Coa é considerada a terra mais quente de Portugal, a par da Amareleja, em Moura, Alentejo. Uma das veses que lá fui, há muitos anos, em plena polémica `à volta da barragem e da arte rupestre... Até me esqueci que tinha andado na Guiné onde se sofria horrores, com a desidratção e a insolAÇÃO... Nesse dia, em pleno verão, devo ter bebido duas barrafas de 1,5l de água...Deviam estar 40 e muitos graus...

Hoje, no parque de Foz Coa, há um sítio que se chama "Canada do Inferno" onde, ao que parece, já se registaram 51 graus. Os guias do parque aconselham a malta a lá ir à "Canada do Inferno" (onde há um notável seção de arte rupreste) de noite ou de amdruagada...


http://www.arte-coa.pt/index.php?Language=pt&Page=Visitas&SubPage=SitiosdeArteRupestre&Menu2=CanadadoInferno

Está aqui, em Foz Coa, muito da nossa história, da história dos nossos avoengos que, na época do Terciário, passavam por aqui como "recoletopres-caçadores" e já "blogavam", nas pedras de xisto,,, As temperaturas eram muito mias baixas, e eles estavam em itinerância, onde almoçavam não janatava... Estamos a falar de uma época que remonta até à 25 mil anos, muito antes da invenção da agricultura e da sedentarização (c. 10/8 mil anos a. C.)...

Anónimo disse...

Mário

Espero que que alguém te tenha chamado a atenção (e, portanto, tenhas observado) a inclinação muito acentuada das colunas (de granito, em terras de xisto) no lado direito da igreja, para quem entra pela porta principal (na foto) e que suportam a estrutura do tecto. Consequência do Terramoto.

Luís

Esses calores não são só na Canada do Inferno (margem do Côa), acontece em todos os espaços afundados; nas margens do Douro também. Mas no Inverno o frio também é muito: são os ventos de Espanha, que vêm do planalto, a nordeste (exportados de Espanha) e os que vêm encanados pelo vale do Douro.

Abraços
Alberto Branquinho

Tabanca Grande disse...

Alberyo Branquinho, nosso camarada, membro desta Tabanca Branca, escritor...

https://www.wook.pt/livro/cambanca-alberto-branquinho/171938

... e filho ilustre de Vila Nova de Foz Coa.

Obrigado, pelos teus esclarecimentos, observações e ensinamentos: recordo-me, quando lá entrei, de alguém me ter chamado a atenção para (ou mais provavelmente ter lido sobre) este facto insólito, consequência do terramoto de 1755:

"inclinação muito acentuada das colunas (de granito, em terras de xisto) no lado direito da igreja, para quem entra pela porta principal (...) e que suportam a estrutura do tecto".

Sobre esta igreja, de origem manuelina, belissima enquadrada na praça do município, onde se ergue o pelourinho, duas jóias da arte manuelina; ver aqui mais:

http://www.culturanorte.pt/pt/patrimonio/igreja-matriz-de-vila-nova-de-foz-coa/

Foz Coa, capital também da amendoeira (e do lado de lá, já no distrito de Bragança, a "manuelina" Freixo de Espada à Cinta) é daquelas terras que todos os portugueses devem visitar antes de morrer, se quiserm conhecerm em vida os dois lados da vida no além, tal como os artistas no la pintam e os místicos a descrevem: o céu.. e o inferno.

E aqui tiro, mais uma vez o chapéu (ou melhor, o quico) ao Alberto pela explicação, definitiva e cabal:

"Esses calores não são só na Canada do Inferno (margem do Côa), acontece em todos os espaços afundados; nas margens do Douro também. Mas no Inverno o frio também é muito: são os ventos de Espanha, que vêm do planalto, a nordeste (exportados de Espanha) e os que vêm encanados pelo vale do Douro."

Um grande abraço caloroso para ti, Alberto Branquinho.
Luís