segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P17940: Notas de leitura (1011): “A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar; Edições Colibri, 2017 (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2017:

Queridos amigos,

A investigação de María José Tíscar sobre as redes de informações da PIDA/DGS em África abre com um importante capítulo que nos dá em grande ecrã os serviços de informação na guerra colonial, nesse contexto aparece um jovem alferes na Guiné, António Fragoso Allas, que vive fundamentalmente na região de Bedanda, Tombali.

No regresso, tendo-lhe sido obstada a carreira militar, ingressa na PIDE e o seu trabalho ganhará notoriedade quando vai participar na restruturação das informações da PIDE em Angola. Spínola pretende os seus serviços logo em 1968, só depois do que aconteceu na operação Mar Verde é que recebeu assentimento da PIDE em Lisboa.

Neste texto abordar-se-á o assassinato de Cabral, Fragoso Allas montara uma rede de informação que conta com os djilas e atingia o PAIGC em pontos nevrálgicos, houve contactos com figuras guineenses, com destaque para Nino Vieira. E esclarece-se, creio que corretamente, que nem Spínola nem a PIDE tiveram algo a ver com o assassinato do fundador e líder máximo do PAIGC.

Um abraço do
Mário


De leitura obrigatória: o diretor da PIDE/DGS na Guiné, no tempo de Spínola, na primeira pessoa (2)[1]

Beja Santos

O livro intitula-se “A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar, Edições Colibri, 201.

Já aqui se escreveu como Allas chega à Guiné para chefiar a delegação da PIDE/DGS em meados de 1971, depois de muita insistência de Spínola. Do seu depoimento, fica bem claro que o seu trabalho parecia praticamente ignorado pelos serviços centrais da polícia política, não se percebe muito bem se por azedume quando Spínola pretendeu prender o seu antecessor, Matos Rodrigues, de algum modo responsabilizado por deficientes informações que conduziram aos péssimos resultados da Operação Mar Verde. Por que teria sido Allas tão insistentemente solicitado por Spínola? O entrevistado responde:

“O objetivo do general era ter alguma sensibilidade para perceber melhor o que se passava no interior do PAIGC, sem provocar mal-estar. Eu sentia que ele tinha esse interesse em encetar conversações com o PAIGC, mas isso não pode ser feito sem tempo. O mais importante para ele era melhor a pesquisa de informação porque a queria aproveitar para as suas operações. Penso que ele queria chegar a contacto com Amílcar Cabral e, por outro lado, controlar a rede interna do PAIGC na própria província da Guiné, que existia e era importante”.

A conversa centra-se no assassinato de Amílcar Cabral. Spínola terá reagido com desalento à notícia de morte de Cabral: “bem, estamos tramados”. Revela que nunca teve instruções para preparar e mandar executar o assassinato de quem quer que seja: “Matar não tem interesse porque isso complica o problema. Mas nós fizemos muito para levá-los a negociar connosco. Isso é que tinha interesse”.

Nunca a PIDE/DGS em Bissau participou num plano secreto para matar Amílcar Cabral. Não deixa de ser ambígua a resposta que dá à pergunta de um qualquer envolvimento da PIDE em Lisboa: “Eu não sei o que se passava em Lisboa”.

Ambígua e seguramente sujeita a ressentimentos, Fragoso Allas sabia o suficiente para saber que era totalmente impensável montar-se uma operação em Lisboa até Conacri sem ele dispor de informações. Ambígua é também a resposta quanto ao facto dos assassinos de Amílcar Cabral se terem ido apresentar a Sékou Touré, é evidente que os sediciosos, todos guineenses, após terem prendido os quadros cabo-verdianos, teriam que ter um apoio, sem a bênção de Touré estariam perdidos, como ficaram, Touré tinha que dar prova de firmeza e não interferir no conflito entre guineenses e cabo-verdianos, colaborou na cortina de fumo da intervenção da Guiné Portuguesa e até se ficcionou que uma esquadra portuguesa aguardava no limite das águas territoriais a chegada dos sediciosos com os altos dirigentes do PAIGC.




O General Costa Gomes visita a Guiné em Julho de 1973, vive-se uma situação muito crítica. O general pede a Allas para procurar contactar os guerrilheiros guineenses.

“Respondi que depois da morte de Amílcar não tinha contactos válidos no órgão político para esse fim. Poderia contactar o Nino Vieira mas levaria tempo; não tinha peso político na cúpula, mas tinha influência numa parte grande dos guerrilheiros guinéus que já não queriam combater. Este era o nosso melhor trunfo e poderia ter sido aproveitado por nós no palco político internacional”.

Faz reparos críticos a não se ter aproveitado devidamente o contacto com Senghor nem a vontade dos guerrilheiros guineenses se entregarem. Informa que lançou um alerta a Lisboa acerca da possibilidade do PAIGC, em curto prazo de tempo, poder aniquilar algumas guarnições e estabelecer novas áreas libertadas. E mais: “Disse que tínhamos de contemplar a hipótese de se vir a abater um avião, mesmo a hipótese de ser atacado um avião da TAP”.

Como responsável pela PIDE em Bissau, propôs a Lisboa a Operação Safira, destinada a desestabilizar Conacri, isto em fins de 1972 ou princípios de 1973, era uma proposta para se criar uma rede para fazer distúrbios na Guiné Conacri, não obteve resposta, e a operação não chegou a funcionar. Acerca dos aspetos organizativos desta operação, Allas é interpelado sobre a participação de elementos do PAIGC:

“Eles já trabalhavam connosco. Havia um lá dentro que nos vinha dar informações e houve gente dessa que levou explosivos para colocar na Guiné Conacri, em Boké, em Kandiafara, naquelas povoações que mais nos complicavam a vida e onde o PAIGC tinha bases. Um dia punham explosivos numa bomba de gasolina, outro dia num posto de autoridade administrativa… desta maneira, as autoridades de Conacri tinham de tentar controlar a situação”.

O entrevistado deixa a Guiné em Setembro de 1973. “O Governador Bettencourt Rodrigues pediu-me para ficar na Guiné, mas eu já estava muito cansado de tantos anos, seis anos de serviço consecutivos, sem uns dias de férias, e de não ter apoio de Lisboa". 

Perguntado se na altura em que saiu havia alguma inércia nos militares portugueses ou se se continuava a combater como dantes, responde: “Notava-se inércia nos militares portugueses, mas também cansaço da guerra do lado do PAIGC”.

É agora altura de discorrer sobre a obra do princípio ao fim. María José Tíscar dedica o primeiro capítulo aos serviços de informação na guerra colonial, isto para introduzir Fragoso Allas que dedicou a quase totalidade dos seus serviços às informações em África. Este futuro estratega de informações nascido em 1934, que chegou a matricular-se na Faculdade de Medicina de Lisboa, depois de cursar Mafra, embarcou em Agosto de 1957 para Bissau, onde chegou nos primeiros dias de Setembro. Foi colocado em Bolama e mais tarde escolhido para comandar um pelotão que ia ser destacado para Bedanda, na península de Cubucaré, Tombali.

A questão da soberania portuguesa no Sul da Guiné surge em 1959, indicia-se subversão das populações. “Os cipaios diziam que as populações já não estavam tranquilas e que isso era consequência do trabalho dos doutrinadores. Fragoso Allas, não sei baseado em que elementos diz que Amílcar Cabral fez a politização das populações em 1956 e 1957, isto depois de Julião Soares Sousa já ter comprovado que Amílcar Cabral estava a trabalhar em Angola, fez curtas passagens por Bissau para visitar familiares próximos, nunca nesta época e até 1960 Amílcar Cabral fala na existência do PAIGC, certo e seguro esteve em Bissau em Setembro de 1959 onde o rudimentar PAI esboça uma estratégia subversiva para o interior da Guiné e para a sensibilização internacional".

Fragoso Allas escreve o seu trabalho em Bedanda, passou quatro anos nos matos da Guiné. É no seu regresso a Portugal que a sua vida muda, tendo reprovado a entrada na Academia Militar, aceitou o convite do Coronel Homero de Matos, então dirigente da PIDE, para entrar na corporação. Começa trabalhar em cifra e em 1963 vai ter um papel fundamental na reestruturação das informações da PIDE em Angola.

Continua
____________

Notas do editor

[1] - Poste anterior de 30 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17917: Notas de leitura (1009): “A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar; Edições Colibri, 2017 (1) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 3 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17928: Notas de leitura (1010): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

O Fragoso Alas põe uma questão que, felizmente, nunca obteve resposta, de um lado e do outro:

- E se o PAIGC tivesse atacado Bissalanca e temtado derrubar, com o Strela, um avião militar, ou até memso um BOEING dos TMM ou da TAP ?

Teriamos tido outra tragédia, maior do que a do desastre do Che-che,no Rio Corubal, em 6/271969... Imperou o bom, senso do lado do PAIGC, não querendo fazer fazer vítimas civis inocentes ? Era arriscadíssimo, para o Manecas dos Santos, fazer chegar, até ao arame farpado de Bissalanca, um "comando suicída" ? Era uma operação militar com mais custos do que benefícios para o PAIGC ? Bissalanca era "inatacável", a não ser por eventuais aviões MiG que nunca ninguém viu ?

De qualquer modo, Bissau, onde estava tudo concentrado (desde o comamndo-chefe até aos combustíveis...) tinha-se tornado o pé de barro do gigante... Um ataque, a sério, a Bissau teria tido consequências gravíssimas... Claro que o PAIGC, sabemo-lo hoje, não estava em condições de planear e realizar um atque dessa envergadura... Mas os seus aliados, e sobretudo os russos e cubanos, poderiam ser tentados a fazê-lo, depois da Op mar Verde, em 22 de novembro de 1970...