sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18910: Memória dos lugares (378): Restaurante, pensão e "boite", o Chez Toi fazia parte do roteiro de "Bissau, by night"... O estabelecimento situava-se na rua engº Sá Carneiro... Desdobrável publicitário: cortesia de Carlos Vinhal.













Desdobrável publicitário do "Chez Toi", restaurante, pensão e "boite", sita na rua eng Sá Carneiro. Exemplar da coleção do nosso coeditor Carlos Vinhal. Data: Bissau, 15 de fevereiro de 1971. Parece que em 1973 também era conhecido por "Gato Negro"...

Foto (e legenda): © Carlos Vinhal (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Afinal, em que é que ficamos ? "Nazareno", casa de fados e restaurante (em 1968) ? "Chez Toi", pensão, restaurante e "boite"  (em 1970/71) ? "Gato Negro", de novo casa de fados  (em 1973) ? (*)

O Carlos Vinhal (ex-Fur Mil Art e Minas e Armadilhas da CART 2732 (Mansabá,1970/72),  nosso coeditor, tinhs guardado, no seu "baú",  esta precioso documento a que já tinha feito referência num poste de há 12 anos atrás (**)-

Na altura, no início  de 1971, o Chez Toi era pensão, restaurante e "boite"... O Carlos mandou-nos também  outros documentos, dizendo:

(...) Luís: Junto envio uma factura referente à estadia de dois dias no Hotel Portugal, onde estive na companhia dos camaradas Furriel de Alimentação Costa e Cabo Maciel. Como te deves lembrar, podíamos ser muito ricos, que mesmo assim nos estava interdito o acesso ao Grande Hotel, onde só podiam ficar Oficiais (por mais labregos que fossem) e civis. Nós, os furrielitos, praças e demais maltrapilhos estávamos confinados ao melhor que havia, nomeadamente o Hotel Portugal ou o Chez-Toi.

A propósito do ChezToi, eles tinham um desdobrável, do qual junto parte, que sucessivamente ia aparecendo: Abra com cuidado, Desdobre de vagar e leia com atenção, Vá..., comer..., no..., CHEZ TOI... Especialidade em Cachupa Rica, etc. (...) 

Ora a cachupa é um prato típico cabo-verdiano... Será que a gerência era cabo-verdiana ?

Em 1968/70, o Carlos Pimheiro diz-nos que a casa de fados Nazareno foi  "mais tarde rebatizada de Chez Toi" (***).

O Tó Zé Pereira da Costa, na altura capitão de artilharia, garante que "o Chez Toi chamava-se Gato Negro em 1973"... E acrescenta: "Era a mesma coisa, mas com nome mais pomposo. Até tinha uma fadista que cantava axim, mas tirando isso era uma casa muito respeitável" (***)

No logue Lamparam III, editado pelo nosso amigo e grã-tabanqueiro da primeira hora, Leopoldo Amado,  também enocntrámos uma referência a um guitarrista, guineense,  Zeca Fernandes, que animava as noites de gala do Chez Toi, considerado " um dos primeiros Night Club de Bissau" (****)

2. Destaque, por fim, para o testemunho do nosso camarada Paulo Santiago, ex-comandante do Pel Caç Nat 53 (Saltinho e Bambadinca, 1970/72) ("Uma ida ao Pilão"), para quem o "Chez Toi", em 1972, era um "cabaret chungoso", equivalente hoje a "um bar de alterne":


(...) Foi aí por volta de 30 ou 31 de Março de 1972 que os acontecimentos se passaram. Estava eu em Bissau, de passagem, para mais um mês de férias na Metrópole, embarcava no avião da TAP em 2 de Abril.

O NRP Orion (...)  foi onde jantei naquela noite, a convite do Comandante Rita, sendo também convidado o ten RN [reserva naval] Alves da Silva, conhecido entre nós pelo petit-nom de Eduardinho. Não me lembro da ementa, mas foi excelentemente acompanhada pelos belíssimos néctares existentes na garrafeira daquele navio.

O [alf mil ] Martins Julião estava em Bissau a chefiar a comissão liquidatária da CCAÇ 2701 [, Saltinho, 1970/72]: sabendo que me encontrava a bordo da Orion, apareceu no fim de jantar, ainda a tempo de beber uns uísques.

Por volta da meia-noite, ou ainda mais tarde, resolvemos ir ao Chez Toi, um cabaré chungoso, o que se chama agora casa de alterne. 

Apanhámos um táxi no porto e lá seguímos para a má vida. O Rita, como habitualmente, ainda poderia beber mais uma garrafa nas calmas, eu, o Alves da Silva e o Julião já estávamos um pouco mal tratados. O cabaré estava repleto, já não cabia mais ninguém. Convencemos o empregado a trazer-nos uma Old Parr, mais quatro copos e ali ficámos encostados ao muro a dar conta da garrafa.

Subitamente chega um carro em alta velocidade, Peugeot 404 preto, que faz uma travagem maluca ali em frente, e donde sai o Cap Tomás, ajudante [de campo] do Caco [, gen Spínola]. Vinha bastante encharcado, mas deitou a mão à nossa garrafa bebendo uma boa golada. A única pessoa que ele conhecia bem era o Rita. Queria ir para as gaijas, não sei fazer o quê, naquele estado. Convenceu o Comandante e lá entrámos os quatro para o 404, era o carro da D. Helena [Spínola], onde o único meio sóbrio era o meu amigo Rita." (...).

_______________


(....) Mais tarde, um encontro fortuito ou o retomar de uma velha amizade, viria a ligar o José Carlos ao Duco Castro Fernandes. O irmão deste, o Zeca, do mesmo apelido, considerado na época um bom guitarrista, dava noites musicais de gala no Chez Toi , um dos primeiros Night Club de Bissau. 

Duco aprende com o irmão os segredos da viola e transmite-os ao seu fiel companheiro que se aplica na técnica da utilização do instrumento com uma relevada paixão. Este exercício daria nascimento ao grupo recreativo “Roda Livre” e ao conjunto musical “Sweet Fanda”. Mas a vida não era só a alegria dos momentos de confraternização ou o carinho que brota de um lar familiar. Com a idade, novos desafios se lhe defrontaram. (...)

(ªªªªª) Vd. poste de 24 de novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1314: Estórias de Bissau (8): Roteiro da noite: NPR Orion, Chez Toi, Pilão (Paulo Santiago)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

O desdobrável publicitário, sem ter nada de inovador ou original, tinha uma particularidade no mínimo curiosa, em 1971: omitia a atividade principal do "Chez Toi", a "pensão" e o "cabaré" que eu conheci em meados dem 1970... Por pudor ?

Éramos ainda um "país de brandos costumes", mas os bares de alterne já proliferavam pelas Reboleiras dos Jotas Pimentas, "patos bravos", do fim do Salazarismo... A indústria da noite e do sexo, "semi-clandestinos", nunca esteve tão florescente como então... Acabaram-se as casas de passe, em 1963, apenas por mera hipocrisia...

Sob o manto diáfono da moral puritana da flor da Nação, escondia-se a realidade, um pouco mais sórdida, das pulsões humanas dos dirigentes... Mas em Bissau estava-se em guerra, bem dura para muitos de nós, enquanto que em Lisboa a vida era, para alguns, cor de rosa...

Relembre-se aqui o escândalo Ballet Rose em 1967:

(...) "Em dezembro de 1967, o inglês 'Telegraph' noticiou que altas figuras do governo de Salazar e da alta sociedade portuguesa estavam envolvidos num escândalo de abuso sexual de menores. Mário Soares, acusado de ser a fonte da notícia, foi preso e deportado para São Tomé. Três meses antes da notícia vir a público, Antunes Varela, o ministro da Justiça que não quis abafar o processo, é exonerado por Salazar. Havia menores com nove anos envolvidas nas orgias". (...)

Fonte: Ana Sá Lopes - Ballet Rose. E a moral salazarista deportou Soares para São Tomé. Jornal 'i', 23 de dezembro de 2017.

https://ionline.sapo.pt/593589

José Diniz Carneiro de Sousa e Faro disse...

De facto no início de 1970(MAR a Jun) existia o Chez-Toi onde eu e os meus camaradas da BAC 1 juntávamos para umas bebidas, era o tempo de partida para a Metrópole (17Jun no C. Araújo) Nessa altura creio, foi quando mudou de nome e o gerente era um locutor da Emissora Nacional que esteve na Índia (Goa) de nome Oliveira Duarte? ex-sarg. Era um local simpático, com bailarinas recrutadas nas "Bôites" de Lx. Um dos fadistas era o Marco Paulo já com muito sucesso. Uma das bailarinas era a Luísa uma mocinha atraente que encontrei em Lx na Cova da Onça (Av da Liberdade). Como estávamos no fim da comissão(27Meses), não ficávamos muito tempo nesses locais de risco, passando o resto da noite no Bar do Biafra,(QG-Stª Luzia) ouvindo as aventuras e desventuras dos Piriquitos(era só cheiro a pólvora) em transito de e para o Mato.A propósito nunca me considerei Mercenário conforme as palavras de ordem escritas nos muros de Lx. Saudações. J. D. Faro.(Ex-SArgº Milº de Artª Campª).

Tabanca Grande disse...

Obrigado, José Diniz, é um importantíssimo testemunho, o teu. O Virgílio Teixeira que conheceu bem, como poucos de nós, o "ventre de Bissau" e a "noite de Bissau", no período de meados de 1967 a meados de 1969, estava há dias "irritadíssimo" por lhe passar ao lado da memória o "Chez Toi"...

Na realidade, ele sempre foi cliente (e bom cliente) do "Chez Toi", só que no tempo dele chamava-se "Nazareno" e devia ser mais respeitável: restaurante onde, à noite, se podiam ouvir uns fadunchos...

É de facto no nosso tempo (segunda metade de 1969/primeira metade de 1971), que o Chez Toi (agora, Chez Toi) cresce, floresce e muda a noite de Bissau... Já não é simples casa de fados: é cabaré, é bar de alterne, é local de engate... com miúdas "brancas", "imigrantes"...

Há razões para explicar tudo isso: em Lisboa, Marcelo Caetano substitui Salazar, em Bissau Spínola substitui Schulz... A tropa já é "outra", Portugal a mudar, "rapidamente e em força"...

Quem deu conta dessas transformações, quase quotidianas (nos comportamentos, atitudes, valores, conhecimentos dos jiovens da nossa geração...), é porque andava mesmo distraído... O mundo, em geral, e Portugal, em particular, era um verdadeiro "carrossel"... A malta queria viver,amar, foder, beber, comer, divertir-se, gozar a puta da vida, sem a canga dos pais, e muito menos dos pais da pátria, dos generais, dos pides, dos tenentes coronéis...

À minha escala, bem mais modesta, eu orgulho-me de, em Bambadinca, em 26 de novembro de 1970, no final da Op Abencerragem Candente, em que tivemos 6 mortos e 9 feridos graves, por um estudo erro de planeamento operacional, ter chamado "filho(s) da puta, assassino(s) e criminoso(s) de guerra" a um merdas de um professor da acadenia militar que puseram a comandar um batalhão e que era um militarista de opereta... que nunca pegiu numa puta de um GA para alinhar no mato connosco... Só cagava postas do alto do seu PVC (DO 27, posto volante de comando)...

Podiam ter-me fodido a vida, e dar-me uma porrada, mas já não tinham tomates para isso... Há limites para o nepotismo, a arrogância do poder, os pequenos poderes... Veio a seguir o spinolista Barbosa Henriques que pôs em sentido o senhor tenenente coronel, prof da Academia...

Meu Deus, como é que "eles" queriam ganhar a guerra com os senhores professores da Academia Militar!...

Anónimo disse...

Belo enquadramento desta incógnita, que já não é. Eu estou fora disso, O Nazareno era mesmo para comer e beber e ouvir fados, mulheres nem vê-las.
Tudo mudou então a partir da minha saída, ainda bem, pois senão arranjava mais sarilhos.
Quanto aos comentários aprovo de uma forma incondicional, todos eles e a forma 'liberta' como se fala daquilo que era aquela vida 'social'.
Estou a tentar ser mais soft nas palavras, porque já escrevi demais, estes meses todos, mas não me arrependo de nada, faria tudo hoje de igual modo, nas mesmas circunstâncias.
Com militares profissionais 'cagões' não se ganha guerra nenhuma.
Virgilio Teixeira