terça-feira, 6 de agosto de 2019

Guiné 61/74 - P20039: Blogoterapia (292): Os Impérios (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616 e CART 2732)



1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia", com data de 4 de Agosto de 2018:


Os Impérios

Hoje acordei com uma dor de cabeça ligeira mas desagradável. Quando isto me acontece vou andar alguns quilómetros no Parque da Cidade e esse estado de espírito maléfico e doentio tende a desaparecer ou pela influência do ar livre e da natureza, ou talvez por causa do aquecimento, que dá o exercício físico, que obriga o sangue a circular melhor e activa neurónios cerebrais que estavam adormecidos.

Fui fazer essa caminhada matinal e já no regresso aconteceu-me o seguinte percalço:
Numa rua não muito distante de casa vi uma gaivota a voar entre algumas casas e como já a tinha visto em dias anteriores, decidi parar para verificar se haveria alguém que lhe abrisse uma porta ou janela para lhe dar de comer. Não vi nada, continuei o meu caminho mas logo que virei costas ela fez voo rasante sobre a minha cabeça e tocou-me com os dedos das patas nela. Fez mais três voos rasantes mas eu como já estava prevenido, quando a sentia próxima levantava o punho para a atingir, se ela se aproximasse demasiado.
Os antigos romanos rotulavam alguns dias como nefastos, que para eles, eram dias azarentos, nocivos, sombrios, tristes.

Para sublimar outras adversidades que entretanto me aconteceram, falarei da angústia de viver. Li alguns existencialistas, "A Náusea" de Sartre, o mestre dessa escola filosófica, "A Manhã Submersa", entre outros, de Virgílio Ferreira que talvez me tenham dado alguma capacidade para resistir ao pessimismo.
Arthur Shopenhauer o filósofo do pessimismo, dizia: "a vida é trabalho, é dor" e assim se defendia ele dos dias nefastos. "Quem nunca pensou em subir à torre mais alta da terra, para se lançar dela, descobrir a sensação de liberdade desse voo, sem se preocupar com o fim que o pode esperar", não sei se o pensei ou se algum poeta louco o escreveu.

Quando os nossos desgostos são muito prosaicos, mais vale abrigar-nos no guarda-chuva das escolas filosóficas que têm a virtude de integrar os nossos males particulares em pandemias universais . Todos temos uma filosofa de vida que nos orienta, que pode estar dentro de alguma religião ou fora de todas elas. Os antigos romanos, pelo grande império que criaram, estão na base da formação da Europa moderna. Tendo aproveitado grande parte do saber dos egípcios, gregos, fenícios, judeus, e doutras civilizações antigas de povos que habitaram as margens do Mediterrâneo.

Nós europeus retalhados em muitas nações que têm tentado alguma união com muita dificuldade, somos os herdeiros do Império Romano e dessas civilizações. Roma foi um Império imenso, maior do que a Europa do Mercado Comum. Talvez um dia explique porque me fascina.

O Império Português também foi imenso, criado através dos descobrimentos, espalhou-se por terras longínquas de todo o Mundo. Nós fomos os seus últimos soldados, os que o abandonamos, os que o perdemos, os que não o soubemos defender. Quando nos fardaram e armaram, o Império já não tinha defesa possível e o velho ditador, por maldade, quis-nos dar essa responsabilidade.

Este texto desdobra-se em dois mas por todo ele perpassa o tédio, o cansaço, a apatia, o fantasma da derrota.

Estou cansado da guerra, há já cinquenta anos que convivo com ela
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19456: Blogoterapia (291): Graças à vida... e ao nosso blogue (Virgílio Teixeira / Luís Graça)

10 comentários:

Valdemar Silva disse...

Francisco Baptista, um grande escritor do nosso blogue, sem pseudónimos ou 'pseudo-heteronímias'.
Já há algum tempo que não aparecia por cá.

Valdemar Queiroz

José Botelho Colaço disse...

Felizmente sou pouco afecto a dores de cabeça, mas quando tal acontece o pior que posso fazer é ficar na cama, então levanto-me faço o normal "estrafego como dizia o meu velho" e passado pouco tempo nem me lembro se me doeu a cabeça. Nesta altura do campeonato as dores são mais normais é por todo o cabedal. Um abraço amigo.

JD disse...

Meu amigo Francisco,
Achei curiosa a temática variada do teu texto, mas confesso não ter alcançado alguma figura de estilo na descrição agressiva que fazes do voo da gaivota. Sei perfeitamente, que algumas vezes os animais têm manifestações inesperadas e surpreendentes, o que pode ter sido o caso, mas como sabê-lo?
No entanto, o que me trouxe a terreiro, foi a adopção do discurso desculpabilizador para o abandono de África pelos militares portugueses, em atitude miserável e indigna, com consequências criminosas em vários planos. Não que eu goste da guerra, que abomino, por constituir a negação da capacidade de entendimento entre os homens, mas porque em Angola e em Moçambique este pequeno País tinha conseguido o "milagre" de juntar raças em harmonia, que construíam sociedades novas e progressivas, apesar das provocações e dos ataques do exterior. Ainda há cerca de 20 anos, quer em Moçambique, quer na Guiné, tive oportunidade para constatar o portuguesismo de muitos aldeões, a sonharem com o mais que improvável regresso à soberania portuguesa.
Referes a certo passo, «quando nos fardaram e armaram, o império já não tinha defesa possível», afirmação que não aceito como certa. O que houve, foi uns patetas-funcionais, que no Governo e nas Forças Armadas não tiveram a sensibilidade necessária para conduzirem as situações, e ao contrário do que alguns episódios históricos reflectem, decidiram por uma estratégia de desgaste e longa duração, que foi o nosso pecado. Apesar disso, o nosso tertuliano Gen. António de Matos, publicou no blogue uma notícia de como os meios deviam ser coordenados e usados no combate ao inimigo, tendo em vista que qualquer guerra deve ser tão menos desastrosa em meios humanos e económicos, quanto possível.
Um grande abraço
JD

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Infelizmente, não podemos falar dos "CAVALOS DE TROIA" que existiam no seio das forças armadas, tanto na metropole como nos teatros de operações, porque isso é "politicamente incorreto", mas que tanto dano causaram.
Um abraço,
JS

Anónimo disse...



Muito obrigado ao Valdemar Silva e ao José Botelho Colaço pelo cumprimento. Obrigado igualmente ao J.D., por se lembrar de mim , no seu jeito polémico. Tu dizes que não aceitas como certa a minha afirmação mas acabas por não a rebater e remetes-nos para um texto do General António de Matos, que eu não li, que reflectirá a análise dele, com bons argumentos e fundamentos, não duvido, mas sujeita a erros de visão e à critica como qualquer outra.
No Ultramar, com bons comandantes e boa organização podíamos ganhar muitas batalhas mas a guerra continuaria e nunca alcançaríamos a paz e a vitória. Erámos uma nação pobre e pequena a lutar contra guerrilhas, com uma boa base de apoio na população e apoiadas pelas maiores potências mundiais.
Abraços

Anónimo disse...


Muito obrigado igualmente ao J. Gabriel Sacôto.
Um abraço
Francisco Baptista

Anónimo disse...

”Ascensäo-Apogeu-Queda” dos Imperios?
Quando as economias centrais perdem a capacidade de os sustentar.
O Romano,os das grandes potencias europeias,o sovietico,e näo menos o actual norte-americano que para la caminha a passos largos.

Os cavalos de Troia,as mulas reacionarias,os asnos politicos,mais näo seräo do que ”palhacos-pobres” de um vasto circo que os ultrapassa.
Pequenos-grandes ”egos” em nota de pe de pagina na morte economica dos...imperios.

Um abraco do J.Belo

Manuel Luís Lomba disse...

Bom dia, Francisco!
A gaivota não teria escolhido a tua cabeça para se aliviar "daquela coisa"? Falhou a pontaria ou a tua "anti-aérea" foi eficaz?
Como lês Shopenhauer, podes contrair o shopenhauerismo e as suas formulações. A vida é trabalho, é dor? Não será: o trabalho, a dor são a vida?
Evoco-te uma anedota do Herman. Eram dois amigos, um pessimista, o outro optimista e faziam anos no mesmo dia. O pessimista recebeu uma bicicleta de prenda e reagiu:- Bolas, uma prenda para dar um tombo e partir a cabeça; o optimista recebeu uma caixa com excrementos de cavalo e reagiu: -Boa, vou à procura do cavalo!
Somos da geração dos "últimos soldados do Império" e que foram "até onde a pátria foi". É nosso dever e orgulho exaltar a nossa história nacional. Povo sem história é povo sem futuro.
Perdemos o império à sendeiro, é verdade; mas a verdade maior foi tê-lo ganho à leão!
A propósito, façamos a nossa oração pelo restabelecimento da saúde do Vasco Lourenço, essa "relíquia nacional" do MFA, protagonista do que correu mal, mas, sobretudo, o motor do que conseguiu de bem.
Olha, Francisco. Se a "tristeza te invade", o teu lenitivo estará numa a "ampola bebível" de Douro DOC...
Os mais velhos estão mais fracos, mas dão os melhores conselhos.

Anónimo disse...


O José Belo envia uma mensagem encriptada, como ele gosta, mas eu no meu fraco entendimento para decifrar, consegui entendê-la. Resumiste muito em poucas palavras, como tu gostas. Quando eu era um garoto rústico da aldeia,muitas vezes descalço com os sapatos às costas, com cuadas no cu (remendos uniformes atrás) e olhava os montes a perder de vista, sonhava com o mundo para além deles. Mais tarde conheci algum, até fui à Guiné. Quando tu surges no blogue,lembras-me um pássaro, uma águia que voa pela terra inteira, voas noutro tempo e noutro espaço e desse modo atinges uma sabedoria que eu nunca alcançarei num tempo e espaço limitado.
Manuel Luís Lomba, tu és um filósofo, com tantos conhecimentos, ironia e humor , gostaria de falar contigo só para te ouvir. Há cerca de um mês, almocei com outros camaradas e com um homem do teu estilo, mais sustentado pelo espírito do que pelo pão e pelo vinho. Imaginei, esse homem que é padre, a viver entre o céu e a terra. É o padre Mário da Lixa. Nem sempre, nem sei se no fundamental, concordo com as tuas ideias ou com as dele. Sinto-me atraído pela vossa espiritualidade, que se formou no convívio com muitos livros e no caso do José Belo também com uma certa universalidade.
Hoje veio cá almoçar um casal amigo, abri uma reserva do Douro e bebi também à vossa saúde
Um abraço
Francisco Baptista

Anónimo disse...

Meu caro Camarada de Buba e,näo menos,meu Amigo.

Terei procurado resumir mas ,quanto a mim,ao escreveres.....”Quando nos fardaram e armaram o imperio ja näo tinha defesa possivel”......resumes genialmente o que gostaria de ter escrito.

Distäncias geograficas mais näo säo que pequenos pontos nos mapas.
Lembro ser a distäncia geografica do meu Karesuando,ja bem dentro do Circulo Polar Arctico ,onde a estrada nacional sueca termina,e Brunhoso ser igual å de Brunhoso a...... Buba!

E,por aqui, as minhas renas continuam a pastar calmamente ao mesmo tempo que em Key West,extremo sul da Florida,os daiquiris continuam a ser servidos......bem gelados!
A ser-me desculpada a saudosa ”linguagem da caserna” :
Os sacanas dos ”progressistas” säo uns privilegiados !

Um abraco do J.Belo