sábado, 9 de abril de 2022

Guiné 61/74 - P23155: Os nossos seres, saberes e lazeres (500): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (45): Trancoso castelo e muralhas, uma manhã de neblina, a presença judaica (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Janeiro de 2022

Queridos amigos,
Prossegue a vagabundagem por Trancoso, as muralhas são admiráveis e não menos admiráveis os panoramas que ali se desfrutam, não basta olhar é preciso ver e conhecer para ter em conta as refregas aqui havidas, os muçulmanos deram bom trabalho para daqui sair; e houve a neblina matinal, rompeu o sol e deu gosto voltar a percorrer o casco histórico com alguma minúcia, já se chegou à presença judaica, ainda vamos continuar, mas com algum amargo de boca pois Trancoso merece mais tempo, merece enamoramento, tem muitíssimo para oferecer, e já não falo do Trancoso corográfico e etnográfico, e convém não esquecer para quem gosta de itinerâncias por outras aldeias históricas que há passeios bem perto que nos podem deslumbrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (45):
Trancoso castelo e muralhas, uma manhã de neblina, a presença judaica


Mário Beja Santos

Impressionante e esplendoroso, é o que se impõe dizer desta fortaleza que é anterior à nacionalidade, que D. Dinis mandou reforçar com sete torres amuralhadas, restauros que começaram no século XII e que chegaram a 1940, era o ano dos centenários, e reconhecia-se que Trancoso era ponto paradigmático da reconquista cristã, da afirmação da identidade nacional, inclusivamente marcara presença nas invasões francesas e na guerra entre liberais e miguelistas. Já se disse que a torre de menagem é uma peça rara, tem forma de pirâmide truncada, uma janela árabe com arco de volta de ferradura. Terá sido, quando por ali andaram árabes, a torre albarrã, presume-se que ali se guardava o tesouro do califado. Atenda-se ainda que este castelo foi entregue aos templários por doação. Leio no texto que acompanha o mapa do centro histórico que o castelo possui restos de uma torre, que foi capela da cidadela sob a evocação de Santa Maria Madalena. Por aqui cirando, não me cansa a magnitude desta pedra e o panorama que é envolvente do castelo oferece, por 360º, é o desafogo total, foi mesmo o local privilegiado, a melhor atalaia que se podia ter encontrado.

Acabou-se a luz do dia, amanhã aqui se regressa, sai-se do local da pernoita, bem perto do teatro e do cinema, com o enorme espaço da feira pela frente, confio ter muito sol por minha conta, puro engano, mal sabia o que me esperava quando me despunha a peregrinar, bem dormido e aconchegado com uns bons ovos mexidos, pão fresco e café a preceito. Atónito, encaminhei-me para a neblina, e palavra que me entusiasmei diante daquele cruzeiro que não é o Cruzeiro do Senhor da Boa Morte, mas está perto até me recordei daquele cinema do sobrenatural e de conversas com almas de outro mundo. Encantado com tanta beleza, era só questão de agarrar aquela imagem, para nunca mais esquecer como pode ser fascinante esta neblina trancosense.

Regressa-se ao núcleo histórico a meditar em papéis lidos na véspera, até chegar o João Pestana: conquistas e reconquistas, árabes, o senhor de Leão e Castela, a chegada de D. Afonso Henriques que de tão agradecido prometeu construir um mosteiro em Tarouca, em todos os papéis lidos diz-se com ufania é que se depois desta vitória de Trancoso é que ele usou pela primeira vez o título de Rei de Portugal; por aqui também se batalhou depois da morte de D. Fernando I em prol do mestre de Avis, dá-se como inequivocamente comprovado a batalha de Trancoso em 29 de maio de 1395, Trancoso também tem a ver com o Magriço, um dos 12 de Inglaterra, Camões concedeu-lhe espaço no Canto VI d’Os Lusíadas, e temos os judeus, Bandarra, Trancosenses ilustres como o Padre António Soares ou a pintora Eduarda Lapa, isto em notas soltas, entro novamente pelas Portas D’El Rei, impossível não admirar a harmonia daquelas torres ameadas, a neblina favorece esta ilusão que toda a pedra vai levitar, e por aqui prossigo, pela Corredoura, até ao edifício da Câmara Municipal, quero ir conversar com o Bandarra, tem escultura em frente do edifício camarário, espero mais adiante visitar a sua casa, isto é um espaço dedicado à memória deste sapateiro e profeta.

Primeiro, a estátua. É bem recente, data de 2001, um bronze de Manuel Lopes Cardoso, em tamanho natural, parece desafiar quem tem pela frente. Tem por detrás os Paços do Concelho, estamos no antigo Terreiro de São João. Li algures que antes desta imponente construção existiam no local as casas da Abadia de Santa Maria. Em 1814, as casas estavam em ruínas, foram reconstruídas, umas décadas depois foram reparadas, não devem ter sido grande coisa, foram vendidas à Câmara que aqui edificou a sua sede, concluída em 1919. Consta que ainda nos anos 40 do século passado existia um muro que pertencia ao quintal do edifício ao lado, hoje existe uma rua, e ainda bem, de frente do Bandarra e olhando e esta bela construção há graciosidade por estar desapertada de quaisquer cercas, muros ou taludes.

Não há livro sobre a iniciação a Trancoso que não nos fale do judaísmo, são uma presença na região na Idade Média, depois veio aquela decisão catastrófica de D. Manuel I em expulsar os judeus ou obriga-los à conversão, era o preço para poder casar com a filha dos Reis Católicos. Escreve-se que o monarca não queria que os judeus saíssem de Portugal e que terá impulsionado a sua conversão, fez promessas de tentar proteger os cristãos novos, acontece que a seguir veio a Inquisição que implantou terror. O centro histórico de Trancoso contém o maior número de marcas mágico-religiosas, 117, distribuídas essencialmente na parte Este do aglomerado urbano – é uma das heranças deixadas pelos judeus e cristãos novos, marcas de simbologias e abreviaturas religiosas. Há esculturas como as que encontramos na fachada da Casa do Gato Preto. Sem certezas, aponta-se que o antigo Bairro Judeu estaria localizado na zona mais rica da cidade, junto às Portas d’El Rei, na Corredoura.

Casa do Gato Preto, é visita obrigatória na peregrinação ao judaísmo em Trancoso, trata-se do Leão de Judá

Pode não ser, mas quem por aqui deambula encara esta escada como resquício medievo, é evidente que temos as muralhas, alcáçova, talvez o passo episcopal, as moradias de gente abastada, as igrejas e capelas, pode tudo ser ilusão de quem tira a imagem mas é um mundo antigo quem aqui venero, mesmo com todos os sinais à volta de acrescentos e adaptações, no mínimo é sinal de que estou numa aldeia histórica, e isso me satisfaz.

Aqui é o Centro de Interpretação da Cultura Judaica, tem o nome de Isaac Cardoso, pretende informar acerca da presença judaica e cristã-nova em Portugal, fornecendo conteúdos acerca do património material e imaterial do concelho. Na sala dedicada à diáspora é dado o destaque a Fernando Cardoso, foi médico na corte espanhola, andou por Veneza e fixou-se em Verona, mudou o nome para Isaac Cardoso, nome ilustre e que nos faz recordar o flagelo da Inquisição. O edifício é uma réplica de sinagoga sefardita, está construída numa perspetiva ecuménica. O passeio está prestes acabar, digo-o com pena, na posse da literatura que tão amavelmente a autarquia me cedeu descubro um bom número de edifícios que eu devia ter visitado, caso do Quartel-General de Beresford, a Igreja de Nossa Senhora da Fresta, um importante exemplar da arquitetura taro-romântica, a Igreja da Misericórdia, paciência, talvez muito em breve este meu amigo dileto tenha outro livro para apresentar e me convoque, virei prestes, sem hesitar.

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de 2 DE ABRIL DE 2022 > Guiné 61/74 - P23134: Os nossos seres, saberes e lazeres (499): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (44): Nunca me canso com as belezas de Trancoso, o regresso é inevitável (Mário Beja Santos)

2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Bem hajas, Beja Santos, por esta reportagem fotográfica de Trancoso, portuguesíssima terra em que cada pedra, talhada no duro granito beirão, evoca a nossa História.

Já Gil Vicente, no séc. XVI, nos falava de Trancoso, no Auto de Mofina Mendes.

(...)
Paio Vaz

Pois Deos quer que pague e peite
a tão daninha pegureira
em pago desta canseira
toma este pote de azeite
e vai-o vender à feira…

Mofina

E quiçais, medrarás tu
o que eu contigo nam posso.
Vou-me à feira de Trancoso
logo nome de Jesu
e farei dinheiro grosso.

Do que este azeite render
comprarei ovos de pata
que é a cousa mais barata
que eu de lá posso trazer.

E estes ovos chocarão
cada ovo dará um pato
e cada pato um tostão
que passará de um milhão
e meo a vender barato.

Casarei rica e honrada
per estes ovos de pata
e o dia que for casada
sairei ataviada
com um brial de escarlata.

E diante o desposado
que me estará namorando
virei de dentro bailando
assi desta arte bailado
esta cantiga cantando.

Estas cousas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça, e andando enlevada no bailo cai-lhe, e diz Paio Vaz:

Paio Vaz

Agora posso eu dizer
e jurar e apostar
que és Mofina Mendes toda.

Pessival

E se ela bailava na voda
que está inda por sonhar…

E os patos por nacer
e o azeite por vender
e a Mofina a bailar,
que menos podia ser?

Vai-se Mofina Mendes cantando:

Mofina

Por mais que a dita me enjeite
pastores nam me deis guerra
que todo o humano deleite
como o meu pote de azeite
há de dar consigo em terra.

(...)

http://www.gilvicente.eu/autos/textos/Auto_de_Mofina_Mendes.html

Valdemar Silva disse...

A fotografia da árvore e do cruzeiro em dia de nevoeiro é enigmática.
No pedestal, talvez, reservado ao cruzeiro está uma árvore como se fosse uma estátua.

Valdemar Queiroz