sábado, 2 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24611: Os nossos seres, saberes e lazeres (588): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (118): Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (9) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Junho de 2023:

Queridos amigos,
Não se viaja impunemente até à Antuérpia, a expectativa era enorme, ir conhecer o resultado de 11 anos de obras no interior do Museu Real de Belas-Artes, não vinha aqui desde 1991, saio daqui profundamente agradado, uma inteligente requalificação, espaços amplos, a despeito da manutenção de lugares marcados pelo classicismo do início do século XIX, lindamente restaurados. Despeço-me percorrendo uma área onde coabitam tesouros artísticos do século XV ao nosso tempo. Faço votos para regressar daqui a alguns anos, acontece até que, por falta de transportes públicos, vou agora em marcha forçada percorrer uns quilómetros até à gare rodoviária. Guardei uma imagens que vos vou mostrar. Amanhã o dia será passado em Namur, uma amiga prometeu-me um programa diversificado entre a arte e a natureza, e regresso a Bruxelas feliz e contente, ainda por cima tenho agendada mais uma visita à Feira da Ladra, nesta altura nem posso imaginar que vou comprar, no meio de enorme quinquilharia, um prato na porcelana de Meissen.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (118):
Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (9)

Mário Beja Santos

Despeço-me a custo do Museu Real de Belas-Artes de Antuérpia, a idade não perdoa, há horas a fio que ando para aqui a flanar, ainda com ingenuidade de que a memória consegue absorver todas estas amostras do génio humano. Em jeito de despedida, fujo às secções temáticas, ao tardo-gótico, aos primitivos flamengos, à arte espanhola, deixo os séculos XVII e XVIII em paz e atiro-me com a última energia ao que ainda me é possível lavar a alma entre o impressionismo e a contemporaneidade. Bem gostaria de ir pontuando obra de arte por obra de arte, só servia para entediar o leitor, a ver se reservo a grande salva de artilharia para um incontestável santo do meu culto, René Magritte. Vamos ao desfile, acabo por descobrir que entrei numa sala de exposição com tesouros dos vários séculos, assim seja, já não volto atrás.

Autorretrato, por Rik Wouters.
É para mim um mistério como este desafortunado pintor (morreu com 34 anos e deixou um legado impressionante de centenas de obras) é praticamente desconhecido fora do seu país. É excelente em tudo o que lhe saiu das mãos, a escultura, a pintura, o desenho, um fauvista incondicional a cuja arte plástica tão personalizada me sinto rendido desde que ponho os pés na Bélgica. E quando permaneço em Watermael-Boitsfort há sempre uma visita obrigatória, contemplar uma escultura sua no centro da povoação.

Já aqui mostrei algumas imagens das transformações no interior do Museu de Antuérpia, o arquiteto criou espaços amplamente desafogados, conectados, uma atrativa forma de expor, permitindo que se faça uma circunavegação sem molestar quem queira estar a contemplar, confortavelmente sentado.
Tive a sorte de visitar em Bruges, no ano de 1994, a grande retrospetiva de Hans Memling, alusiva aos cinco séculos da sua morte. Até o quadro dele que pertence ao Museu Nacional de Arte Antiga lá foi parar. O génio deste flamengo mede-se pela intensidade dramática (veja-se a cena clássica da morte de Cristo, o desfalecimento da Virgem), os panejamentos, uma muito peculiar ocupação dos espaços, neste caso do tríptico uma disseminação das figuras em que a espiritualidade é também dada pelos anjos que assistem ao momento dramático da morte de Cristo e assegura uma visibilidade não só à arquitetura da época como aos usos da indumentária. Tudo somado, um pintor à parte, daqueles a quem é possível rapidamente identificar a obra pictórica e dizer instantaneamente: é Memling!
Deus Pai com Cantores e Músicos feitos Anjos, Hans Memling. Peças do altar-mor de uma igreja de um mosteiro em Espanha.
Pormenor do retábulo mencionado acima.
Escultura de Panamarenko, Chisto 1
Hans Memling, retrato de Bernardo Bembo, Homem de Estado e Embaixador de Veneza
Retrato de Pieter Gillis, por Quinten Massys
Madame Récamier, por René Magritte
Uma das muitíssimas versões de René Magritte sobre O Império das Luzes

Não escondo o meu assombro, curvo-me perante a ousadia museográfica, colocar uma escultura de Magritte num espaço de classicismo. A pintura de Magritte baseia-se em jogos conceptuais que nos desconcertam, é uma pintura com uma intensa carga metafórica. Tenho para mim que é o mais original dos génios do surrealismo nas artes plásticas. Já consagrado, e respondendo a encomendas de peso, como a pintura do Teatro Real das Galerias de Bruxelas, alvo de uma retrospetiva em Nova Iorque que culminou numa grande procura dos seus quadros, hoje espalhados por coleções públicas e particulares, nunca deixou o ateliê e as experiências, daí podermos distinguir as diferentes dimensões do seu génio, falando de objetos deslocados, metamorfoseados, em conflitualidade, até mesmo a sua obsessão por variações sobre o mesmo tema, caso do conjunto de pinturas que fez intituladas O Império das Luzes, o que nestas obras se vê é simplesmente uma casa ou um grupo de edifícios entre a folhagem, iluminados pela luz elétrica que irradia das janelas, assim como pela de um ou mais candeeiros. O insólito é que o céu que cobre a cena é de um azul absolutamente diurno, sulcado por nuvens brancas e algodoadas. A coerência da cena é tal que a incompatibilidade do céu com a noite em que se destaca a luz elétrica só se nota após um exame atento do espectador.
Pieter Bruegel, A Dança do Casamento
Obra do artista Christophe Coppens
O jovem imperador Carlos V, por Jan van Beers
Léon Frédéric, Duas Raparigas Camponesas da Valónia
Paisagem com rapariga a saltar à corda, Salvador Dali
Julguei que me ia despedir desta casa que acolhe um acervo de obras plásticas do maior valor andando a cirandar talvez entre o fauvismo e o abstracionismo em moldes atuais; enganei-me na sala, e ainda bem, acabei por rever grandes mestres do século XV, reencontrei Magritte e Dali, saio daqui de papo cheio, agora é só atravessar Antuérpia, ruminar nas coisas belas que vi e sonhar com o dia de amanhã, porventura em Namur, há lá uma amiga que me promete um passei de arromba.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 26 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24590: Os nossos seres, saberes e lazeres (587): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (117): Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (8) (Mário Beja Santos)

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