Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa (hoje, Quebo) > Janeiro de 1973 > Tabaski ou festa do carneiro > O Cherno Rachide, acompanhado de um dos seus filhos (possivelmente o seu futuro sucessor, Aliu), presidiu à cerimónia, ele próprio degolou (ou ajudou a degolar) o carneiro. Viria a morrer nesse ano, em setembro.
Em segundo plano, o cap mil (e nosso grão-tabanqueiro) Vasco da Gama, cmdt da CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" ( Cumbijã, 1972/74).
Foto (e legenda): © Vasco da Gama (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > Janeiro de 1974 > Da esquerda para a direita, (i) Califa, o homem mais velho de Aldeia Formosa com 83 anos de idade; (ii) Aliú, chefe da antiga Tabanca do Cumbijã; (iii) cap mil cav, Vasco da Gama (cmdt da CCAV 8351, Cumbijá, 1972/74); (iv) Sekúna (filho do Cherno Rachide, falecido, em setembro de 1973, e seu herdeiro como imã) e (v) o Cherno da República do Senegal (irmão do falecido Cherno Rachide).
Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Janeiro de 1973 > A população, na sua maioria constituída por "homens grandes", segue a leitura do alcorão pelo Cherno Rachide. Os fatos que envergam não os usam habitualmente mas só em dias festivos como o "Ramadão" ou "Festa do Carneiro", que significa para eles o início de um Novo Ano.
Fotos do álbum do Vasco da Gama (ex-cap mil cav, CCAV 8351, Cumbijã, 1972/74), disponibilizadas ao Pepito (1949-2012) e, através deste, ao seu amigo Califa Aliu Djaló, filho do falecido Cherno Rachide).
Não-estórias de guerra (6):
O Cherno Rachide que eu conheci
O Cherno Rachide que eu conheci
por Manuel Amaro
1. Mensagem de Manuel Amaro (ex-Fur Mil Enf, CCAÇ 2615/BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71), já publicada em 28/10/2008 (*), e que é agora recuperada como poste da sua série "Não-estórias de guerra" (**). Vem a propósito do poste P27547 (***).
Tem-se aqui discutido, no nosso blogue, qual o posicionamento político
do Cherno Rachide (1906-1973), na altura da guerra colonial. Seria um "agente duplo" ? O Manuel Amaro, em 2008, achava que sim.
Eu conheci pessoalmente o Cherno Rachide Djaló, chefe dos muçulmanos, em Aldeia Formosa [Califa do Quebo-Forreá, chamava-lhe o Pepito].
E confirmo que este grande marabu era amigo do General Spínola e de mais alguém em S. Bento, Lisboa, que lhe pagava as viagens para Meca.
Em dezembro de 1969, era eu professor do Posto Escolar Militar de Aldeia Formosa. Já tinha ouvido algumas histórias sobre a influência, o poder e os "poderes" do Cherno.
Um dia fui abordado por um milícia, com ar preocupado, porque o filho (ou sobrinho?) do Cherno queria falar comigo, mas como não falava português, então ele, o milícia, seria o intérprete.
Recebi o visitante, que estava nervoso, mãos a tremer, que não falava português, mas percebia perfeitamente as minhas respostas.
Recebi o visitante, que estava nervoso, mãos a tremer, que não falava português, mas percebia perfeitamente as minhas respostas.
A preocupação do Cherno centrava-se na possibilidade de as cerca de trinta crianças que frequentavam a escola, serem aliciadas com o ensino da religião católica.
— Nada disso... zero... zero... — respondi, gesticulando. — E mais, se necessário, eu próprio vou falar com o Cherno, para garantir que não será ensinada religião católica.
Proposta aceite. Reunião marcada. No dia seguinte, lá fui à morança grande do Cherno Rachide Djaló.
Primeira surpresa, agradável, o aspecto luxuoso dos tapetes que cobriam aquele chão.Tirei as botas e sentei-me.
Segunda surpresa, desagradável. Tinha na minha frente um homem abatido, com ar doente, olhar distante, que nem as vestas brancas, debruadas de amarelo torrado, conseguiam amenizar. O grande marabu estava mesmo preocupado.
Falei-lhe em voz baixa, pausadamente, reafirmando o que já tinha dito ao ajudante. Apenas ia ensinar os alunos a ler, escrever e contar. Fora da Escola, ao ar livre, faríamos educação física, jogos e canções. Mas nada de religião.
Enquanto o milícia traduzia, o Cherno fazia pequenos gestos de concordância. Depois, fez uma pausa e disse que, se era assim, os meninos podiam frequentar a Escola.
Ficou tranquilo. Menos tenso, mas nunca sorriu. Despediu-se afetuosamente, como se estivesse a abençoar-me. Agradeci, por mim e pelos alunos.
Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento.
Falei-lhe em voz baixa, pausadamente, reafirmando o que já tinha dito ao ajudante. Apenas ia ensinar os alunos a ler, escrever e contar. Fora da Escola, ao ar livre, faríamos educação física, jogos e canções. Mas nada de religião.
Enquanto o milícia traduzia, o Cherno fazia pequenos gestos de concordância. Depois, fez uma pausa e disse que, se era assim, os meninos podiam frequentar a Escola.
Ficou tranquilo. Menos tenso, mas nunca sorriu. Despediu-se afetuosamente, como se estivesse a abençoar-me. Agradeci, por mim e pelos alunos.
Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento.
E ao ler o poste do Luis Graça (***), fez-se luz. Era isso, um "agente duplo".
O Cherno Rachid Djaló era um homem de confiança do PAIGC, pois embora estivesse no terreno ocupado por Portugal, tinha muita influência na população e não deixaria avançar a difusão da cultura e muito menos da religião dos portugueses. Aliás, nos ataques a Aldeia Formosa, os danos civis são quase nulos.
O Cherno Rachid Djaló era um homem de confiança do PAIGC, pois embora estivesse no terreno ocupado por Portugal, tinha muita influência na população e não deixaria avançar a difusão da cultura e muito menos da religião dos portugueses. Aliás, nos ataques a Aldeia Formosa, os danos civis são quase nulos.
Manuel Amaro
(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_________________Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 28 de outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3374: Controvérsias (8): Cherno Rachide Djaló: um agente duplo ? ( José Teixeira / Manuel Amaro / Torcato Mendonça)
(**) Último poste da série > 29 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6065: Não-estórias de guerra (5): O Furriel Dog e o cão Furriel (Manuel Amaro)
(*) Vd. poste de 28 de outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3374: Controvérsias (8): Cherno Rachide Djaló: um agente duplo ? ( José Teixeira / Manuel Amaro / Torcato Mendonça)
(**) Último poste da série > 29 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6065: Não-estórias de guerra (5): O Furriel Dog e o cão Furriel (Manuel Amaro)


4 comentários:
Caros amigos,
Antes de tudo, quero saudar o ex-Furriel e Professor Manuel Amaro e expressar a minha gratidao e respeito pelo trabalho realizado, em tempos, ao servico das criancas da GBissau, colmatando assim um vazio e um atraso de muitos seculos, relativamente a educacao e formacao da nossa juventude rumo a modernidade. Eh importante salientar a grande surpresa que o partido "libertador' teve, logo a seguir a independencia, da avalanche de jovens que, literalmente, invadiram os centros urbanos vindos das tabancas (antigos aquartelamentos) para continuacao dos estudos, nao era nada do que estariam a espera, pois eh preciso desmistificar que a guerra do Paigc nao foi para libertar ninguem, mas de substituir os agentes da administracao colonial, aproveitar-se do espolio colonial e continuar a subjugar o resto da populacao, sobretudo, rural, pobre e nao alfabetizado.
Na sequencia da visita que fez ao Cherno Rachide a fim de esclarecer um mal entendido, o Manuel Amaro escreveu: "Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento".
Nao sei, ao certo, o que quereria dizer com estas palavras de desabafo, mas gostaria de esclarecer que, de lado a lado, entre o regime colonial portugues (nao confundir com o exercito portugues no terreno constituido principalmente de milicianos mobilizados a forca) e a elite muculmana do territorio, de maioria Sunita, predominava um relacionamento cordial e de mutuo respeito e colaboracao, mas ao mesmo tempo, de mutua desconfianca no campo religioso, pois os dois lados actuavam em campos diametralmente opostos e de guerra fria permanente, mesmo se, no fundo, as diferencas nao fossem muito grandes, tendo em conta as suas origens e principios dogmaticos.
Eu, pessoalmente, pertencente a comunidade muculmana por nascenca, soh fui admitido a continuar na escola portuguesa porque um Marabu mandinga,(chefe religioso), amigo do meu pai, garantiu que nao havia qualquer incompatibilidade entre a confissao muculmana (religiao) e a escola portuguesa (conhecimento tecnico profissional) desde que nao incluisse a doutrinacao (catequese) crista.
Tambem, eh preciso dizer, sem ambiguidades que, a politica e a preferencia portuguesa nas suas colonias era claramente a favor da doutrinacao religiosa e a assimilacao social e cultural, mas ainda assim era preciso ter os meios, a capacidade e a disponibilidade para o realizar no terreno.
Quanto a uma eventual ligacao e "duplo jogo" com a guerrilha, eu nao acredito de todo, tendo em conta a forte ligacao com o poder colonial atraves dos seus representantes na provincia que era publica e conhecida de todos , especialmente com o Gen. Spinola, mas tambem, mesmo que houvesse eventuais contatos, seria um sinal da sua importancia enquanto chefe religioso, cuja influencia ia por alem das fronteiras da Guine (dita portuguesa). O reconhecimento da sua importancia e inteligencia intelectual dao-lhe a liberdade, mesmo que condicionada, de viver no seu tempo e espaco, feito de mudancas radicais, de violencia e de guerras permanentes e a sua, relativamente, curta longevidade reflecte o fardo social e a enorme pressao psicologica a que estavam submetidos, actuando entre duas frentes irreconciliaveis e um misto de guerra politica e religiosa. De certa forma, a realidade politica da Guine ainda carrega essas dualidades e ambivalencias que nao foram resolvidas com a independencia, pelo contrario, agudizaram-se no meio da proliferacao da miseria e do obscurantismo em que o pais mergulhou fruto da ma gestao e incuria dos sucessivos governos responsaveis pela governacao e gestao do pais.
Com um abraco amigo,
Cherno AB
Obrigado camarada por este testemunho. Eu vivi intensamente o PREC, fui um defensor de Ramalho Eanes e do 25 de Novembro de 1975, para mim este post é como uma benção. É extraordinário verificar como um puto como eu, que começou com as ideias da esquerda, muda de rumo e começa a defender ideias da chamada direita. Está bem patente nesta mensagem o respeito de muitos de nós pela religião dos outros povos. Sou um cristão não praticante, mas não aceito a falta de respeito dos imigrantes pela cultura e religião do nosso povo e em particular o comportamento de alguns politicos traidores, que nada fazem para defender os nossos valores.
O "fascista" sou eu. Vivam os "democratas" que nasceram com o 25 de Abril...há,há,há.
Quem é este senhor Cherno?
De certeza não é um amigo como subscreve a sua crítica contra aqueles que fizeram da Guiné, um País de progresso.
Ao invés de hoje. Passados mais de 50 anos estão cada vez pior.
Não li o seu comentário, apenas umas partes que deduzo logo não ser meu amigo....
Se estiver enganado, desde já as minhas desculpas.
Vt
Victor Costa,ex.Fur.Mil. C.Caç.4541/72.
Os últimos trinta dias da minha comissão de serviço ( de 3 de Set. a 3 de Out. de 1974, foram passados no Quartel General de Bissau, onde era cozinhada a tranferência da Administração da Guiné. Tive assim oportunidade de ver muitas coisas, entre elas a forma vergonhosa como foram recebidos os nossos prisioneiros e também a armadilha feita às nossas tropas de Comandos Africanos com sede em Brá. Nunca mais poderei esquecer os nossos camaradas prisioneiros, alguns deles com idade próxima dos trinta anos, com cabelo e barba compridos sujos e vestuário miserável. Para mim a culpa pelo que aconteceu, foi em primeiro lugar do nosso Comandante em Chefe, Carlos Fabião.
É muito triste verificar, que o nosso inimigo não era só o PAIGC, mas estava dentro das nossas tropas. É aqui que começo a compreender a forma vergonhosa como decorreu processo de descolonozação.
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