sábado, 12 de outubro de 2013

Guiné 63/74 - P12142: A guerra vista do outro lado... Explorando o Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum (1): Comunicado do comandante do setor 2 da Frente Leste, de 27/1/1971, relatando duas ações: (i) A instalação de 2 minas A/C em Nhabijões, acionadas pelas NT em 13/1/71; e (ii) Flagelação ao aquartelamento do Xime, no dia seguinte


Página de rosto do portal Casa Comum, desenvenvolvido pela Fundação Mário Soares, e de  que se transcrever a seguir uma sinopse sobre "Arquivos e Memórias:"

"Os arquivos são essenciais à Memória. Preservar e disponibilizar a documentação dos nossos arquivos é, por isso, uma tarefa de grande prioridade. Para a gradual constituição de uma comunidade de arquivos de língua portuguesa temos, a partir de agora, esta Casa Comum.

"Com este projeto, sublinhamos a importância da conservação dos documentos para as gerações futuras, a confiança que os arquivos devem inspirar em matéria de preservação da autenticidade e da fiabilidade da informação de que são guardiães e a sua relevância enquanto elementos de identidade da memória e da história individual e coletiva."


Sobre o Arquivo Amílcar Cabral, disponível na Net desde 20/1/1973 (40º aniversário do assassinato do líder histórico do PAIGC), pode ler-se o seguinte: 

"Constituído por mais de 10.000 documentos (com cerca de 27.600 páginas), incluindo 1.300 fotografias, o âmbito cronológico dos Documentos Amílcar Cabral situa-se entre 1956 e 1976, com excepção de alguns documentos posteriormente incorporados por sua Filha, Iva Cabral, que se referem a actividades profissionais de Cabral e, também, a acontecimentos posteriores à sua morte. O Arquivo Amílcar Cabral, essencialmente organizado em Dakar e em Conakry, é constituído por documentação de cariz político, militar e diplomático produzida pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e pelo seu fundador, Amílcar Cabral." (...)

1. Em 23 de setembro passado, mandeio o seguinte email para a o portal Casa Comum, ao cuidado do administrador do arquivo e biblioteca da Fundação Mário Soares, o dr. Alfredo Caldeira: 

Meu caro Alfredo Caldeira:

Antes de mais, boa saúde e bom trabalho. Como já em tempos te manifestei verbalmente, tenho particular apreço pela paixão e rigor com que foram salvos, recuperados, tratados e disponibilizados, aos estudiosos e ao grande público, os documentos (ou parte deles) do Arquivo Amílcar Cabral. Esse trabalho é mérito da Fundação Mário Soares e dos seus dedicados e competentes técnicos, sob a a tua direção.

Esse trabalho merece ser melhor conhecido e reconhecido pelos antigos combatentes portugueses, mas também pelos guineenses que têm acesso à Net. É nesse sentido, e celebrando-se amanhã a efeméride dos 40 anos da independência da Guiné-Bissau, que eu te venho pedir a competente autorização, na tua qualkdiade de coordenador do projeto, para reproduzir, de acordo com as vossas normas técnicas e legais, alguns ou a totalidade dos documentos (na a maior parte fotos, incluindo as da Bruna Polimeni) a seguir listados, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné de que, como sabes, fui o fundador, e sou o principal administrador e editor. Publica-se há mais 9 anos, tem mais de 5 milhões de visualizações, possui um espólio de dezenas de milhares de fotos e documentos. 

Se assim o entenderes, contiunua a dispor do nosso blogue para os devidos efeitos, como fonte de informação e conhecimento,

Um Alfa Bravo (Abraço),
Luís Graça

2. A resposta veio a 2 do corrente:

Caro Luís Graça,
Obrigado pela tua mensagem e, como sempre tenho referido, pelo trabalho fantástico que tens feito no blog. 

Quanto às imagens solicitadas, levantam-se alguns problemas, que temos procurado evitar. Por isso, proponho a seguinte solução:

(i) Fotografias: cedemos cópia das fotografias com 72dpi de resolução e a dimensão máxima de 400 pixels;

(ii) Documentos: podem ser referenciados com um thumbnail (dimensão máxima 200 pixels) que serve de link para o documento em www.casacomum.org.

Todos estes elementos devem ser devidamente referenciados, conforme consta do campo "Fundo" na descrição que encontra no site.

Espero que entendas a solução proposta, que resulta de compromissos e equilíbrios com outras instituições.

Um grande abraço,
Alfredo Caldeira

Administrador
Arquivo & Biblioteca
Fundação Mário Soares
Rua de São Bento, 176
1200-821 - Lisboa
Tel: (+351) 21 396 4179
Fax: (+351) 21 396 4156
www.fmsoares.pt
www.casacomum.org

3. Transcrição de comunicado do PAIGC sobre acções levadas a cabo em Nhabijões (13/1/1971) e Xime (14/1/1971), referidas no poste P12139 (*), com revisão/fixação  de texto pelo editor L.G. O comunicado é manuscrito em papel de carta, com linhas.

Comunicado


No dia 13/1/71, um grupo de 5 camarada[s] armados estalaram [instalaram] 2 minas anti-carro na estrada entre Nhabions [Nhabijões] e Bambadinca, causou os [causando aos] inimigos de grandes perdas em vidas humanas, e destruiu [destruindo] 2 viaturas cheio[as] de tropas tugas que tinham ido [iam] pra [para] Bambadinca buscar comida para aqueles que ficaram na[em] Nhabions [Nhabijões].


Os Inimigos sofreram grandes percas em vidas humanas, entre mortos e feridos.

Por no [nosso] lado não houve nada mau.
Dirigido por [pelos] camaradas:
Mário Mendes e Mário Nancassá.

No dia 14/1/71, os nossos artilheiros bombardiaram [bombardearam] guarnição fortificada de militares tugas no Xim[e], com canhões e morteiros 82, causou os [causando aos] inimigos estagionados [estacionados ] de grandes percas em vidas humanas, entre mortos e feridos.
Por nosso lado, não houve nada mal.

Bombardiamento [bombardeamento] foi dirigido por [pelos] camaradas:

Djambu Mané, António da Costa e Bicut Iula [ou Tula] [?]

[Assinatura ilegível]

Sector 2 da Frente Leste, 27/1/71


Fonte:

(1971), "Comunicado - Frente Leste", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40689 (2013-10-12)


Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07200.170.117
Título: Comunicado - Frente Leste
Assunto: Comunicado da Frente Xitole Bafatá sobre as acções militares do PAIGC em Nhabiam, Bambadinca e Xime.
Data: Quarta, 27 de Janeiro de 1971
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Diversos. Guias de Marcha. Relatórios. Cartas dactilografadas e manuscritas. 1960-1971.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Documentos

4. Comentário do editor:

Segundo informação do António Duarte, nosso camarada, membro da Tabanca Grande, ex- furriel miliciano da 3ª terceira geração de quadros metropolitanos da CCAÇ 12, o "Mário Mendes, comandante de bi-grupo na zona do Xime, foi morto numa acção da CCaç 12 no final de 1972: numa deslocação feita para lá de Madina Colhido, foi abatido pelo apontador de HK21 do 4º pelotão".

O Mário Nancassá era, por seu turno, o chefe do grupo de sapadores do setor 2 (Xime/Xitole). Foi ele que montou as minas em Nhabijões. Foi ele que matou o sold cond auto Manuel Costa Soares, da CCAÇ 12... A guerra também tem rostos!

Cotejando as versões dos acontecimentos, do nosso lado e do lado do PAIGC, é óbvio que eram diferentes as preocupações de rigor factual, bem como a literacia dos combatentes de um lado e doutro.  Mas fica aqui, para informação e conhecimento dos nossos leitores, o que sobre nós diziam e escreviam os homens que. no passado, foram nossos inimigos e contra os quais combatemos,

______________

Nota do editor:

(*) Vd. poste de 11 de outubro de 2013 > Guiné 63/74 - P12139: A minha CCAÇ 12 (29): 1 morto e 6 feridos graves em duas minas A/C, no reordenamento de Nhabijões, Bambadinca, em 13/1/1971, aos 20 meses de comissão (Luís Graça)

Resumo: Em 13/1/1971, às 11h24, na estrada Nhabijões-Bambadinca um Unimog 411 que ia buscar a comida para o pessoal do destacamento, accionou uma mina A/C, causando um morto e 3 feridos graves.

O gr comb da CCAÇ 12, que estava de piquete em Bambadinca,  dirigiu-se de imediato ao local... No regresso, duas horas depois, cerca das 13h30, a GMC que transportava duas secções,  accionou outra mina A/C, não detectada, na berma da estrada, a 10 metros da anterior. As NT sofreram mais cinco feridos graves, de imediato evacuados para o HM 241. 

No dia seguinte, em 14/1/1971, o IN flagelou o Xime, da direcção de Ponta Varela, com morteiro 82, "à distância,  sem consequências".

11 comentários:

Luís Graça disse...

(..:)… Ali, à uma e meia da tarde,
em Nhabijões,
na Guiné,
far from the Vietnam.

Tinhas acabado de fazer o reconhecimento das imediações,
detectando o trilho dos guerrilheiros
que, durante a noite,
tinham vindo pôr as minas assassinas…
Eles faziam a guerra deles,
tão cruel e tão suja como a nossa.
Esse trilho, mais fresco,
acabava por confundir-se
com os usados pela população de Nhabijões
que a gente sabia
não morrer de amores por nós… (...)

28 DE JANEIRO DE 2010
Guiné 63/74 - P5717: Blogpoesia (64): À uma e meia da tarde... Em homenagem ao António Marques, que sobreviveu, dois anos depois, à explosão de um vulcão (Luís Graça)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2010/01/guine-6374-p5717-blogpoesia-64-uma-e.html

... António Marques:

Ao menos sabemos hoje quem te queria matar: o Mário Nacassá, chefe dos sapadores do PAIGC da região (Xime/Xitole, setor 2 da Frente leste)...

Foi ele quem veio, em pezinhos de lã, até ás portas de Nhabijões, pôr a primeira mina que ceifou a vida ao Manuel Costa Sores bem como a segunda, a 10 metros de distância, que te ia custando a vida, ou te roubou pelo menos 2 anos de vida...

Anónimo disse...

Caro camarada Luís Graça,

Manda a verdade dizer que sobre a morte de Mário Mendes, cmdt de bigrupo que actuava na zona do Xime/Bambadinca, ela ocorreu em finais de Maio/1972, na sequência de uma acção conjunta da CART 3494 (3 GComb, onde eu também estive) e a CCaç 12 (1 ou 2 GComb.?) sendo atribuído, de facto, a elementos da CCaç 12 a morte de MM.
Vd História da Unidade Bart 3873, Cart 3494, p.66. Vd poste 9882 - Emboscada ponta coli II.

Jorge Araújo
CART 3494

Luís Graça disse...

Jorge:

Obrigado pela retificação. Presamos o rigor factual, a verdade dos factos. O Mário Mendes é morto em maio de 1972 e nâo em dezembro. Não é relevante quem o matou. A ironia foi ter sido alguém da CCAÇ 12, e logo do 4º pelotão, que foi grande parte dele (duas secções, a minha e a do António Marques) vítima da 2ª mina A/C posta em Nhabijões pelo Mário Nacassá, sapador, com a cobertura do Mário Mendes, chefe de bigrupo.

Fiei-me na memória, o que nunca se deve fazer. Mas a edição do blogue consome tempo e a gente às vezes, se calhar demasiadas vezes, comete as tais "inexatidões" a que se refere o Tó Zé Pereira. Já agora vê se me arranjas a história do teu batalhão, em formato pdf ou doc. Um beijinho à tua doutora. Um abração. Luis

Anónimo disse...

Olá Camaradas
Quando cheguei ao XIME (22JUN72)já o Mário Mendes tinha sido morto.
Creio que foi morto pela CCaç 12, nos primeiros tempos da permanência da CArt 3494.
Um Ab.
António J. P. Costa

Unknown disse...

O meu contributo é pequeno pois só em janeiro de 1973 cheguei à Ccaç 12 ainda estacionada em Bambandica. Depois de algumas peripécias que provavelmente devem estar registadas, gostava de ler alguma coisa sobre isso, envolveu a presença do General Spínola, lá fomos para o Xime. Quando estávamos em Bambandica, talvez em fevereiro de 1973, fomos fazer uma operação, não sei se tinha nome, lá para os lados de Ponta Varela. Ao fim de umas duas horas de caminhada sofremos uma emboscada. Pedimos apoio aéreo e a zona foi batida pelos obuses do Xime.
Como sempre aconteceu também nesse dia saímos a nível de companhia e verdade seja dita o capitão seguia na frente. O meu grupo de combate, o 4º, na retaguarda. Após o contacto recuamos, em passo acelerado nas clareiras, até ao Xime. O furriel Duarte acompanhou-me nessa operação. Mais tarde, no Xime, ficamos no mesmo quarto onde tinha-mos como companhia o furriel enfermeiro Osório. Não sofremos baixas. O IN não sei. Sei que sempre que fui flagelado, tanto em Cabuca, como no Xime e até em Bolama quando ouviam-mos a "Maria Turra" as consequências físicas para homens e material quase nada continha de verdade. Pecavam sempre por excesso. Durante a minha curta passagem pela 12, penso que uns 6 meses no total, sofri duas emboscadas na mata. Na última sofremos vários feridos todos naturais da província. Flagelações no quartel não sei precisar, foram várias, mas todas sem causar danos graves nos militares ou nas instalações. Talvez o Duarte se lembre do nome do capitão que comandou a 12 em Bambandica e depois no Xime. Sei que era miliciano. Mais tarde em 1974 e já ambos na "peluda" encontramo-nos, por mero acaso me Canal-Caveira.

Um abraço especial para o António Duarte se por aqui aparecer.

João Silva ex-Furriel Mi At. Infantaria, Ccaç 12, Ccav 3404 e CIM

Sábado, Outubro 12, 2013 10:17:00 PM

Luís Graça disse...

João Silva, obrigado pelos teus esclarecimentos... Tenho ideia que já não é a primeira vez que apareces por aqui. Se sim, já devo ter-te convidado para ingressar na Tabanca Grande onde tens um lugar à tua espera. Os meus camaradas da CCAÇ 12 merecem-me um particular afeto, mesmo que sejam da 3ª geração, como é o tei caso e o caso do Duarte. Manda-me duas fotos, uma atual e outra do teu tempo de Guiné. Será uma honra ter-te aqui ao nosso lado.

Quanto ao António Duarte (que está connosco desde 21/10/2010, formalmente(, tens aqui mais informações sobre ele:


21 DE DEZEMBRO DE 2010
Guiné 63/74 - P7482: Tabanca Grande (256): António Duarte, ex-Fur Mil, da CCAÇ 12, da 3ª geração (Bambadinca e Xime, 1973/74)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2010/12/guine-6374-p7500-tabanca-grande-antonio.html


O Mário Mendes não foi, pois, morto no vosso tempo, mas sim um ano antes, por volta de maio de 1972. Fui eu que devo ter feito confusão, ao registar e transcrever uma conversa com o Duarte.

Luís Graça disse...

O Mário Mendes já atuava no setor 2 da Frente Leste (mais ou menos equivalente ao nosso Setor L1, o triângulo compreendido pela margem direita do Rio Corubal e a linha Xime- Bambadinca - Xitole)... pelo menos desce abril de 1969, ao tempo do Mamadu Indjai (que será gravemenmte ferido em agosro desse ano).

António Duarte disse...

Boa noite
O João Silva coloca a questão sobre o nome do capitão da Ccaç 12. Era o José António Simão, miliciano, feito capitão à pressão. Era estudante de medicina na altura. Atualmente é médico, penso que ortopedista. Estive com ele talvez há 10 anos, em Tomar no Hotel dos Templários. Nessa altura ele era "motoqueiro" de um grupo que utilizava máquinas BMW.
Abraços para todos especialmente para o João Candeias da Silva. António Duarte.




António Duarte disse...

Boa noite
O João Silva coloca a questão sobre o nome do capitão da Ccaç 12. Era o José António Simão, miliciano, feito capitão à pressão. Era estudante de medicina na altura. Atualmente é médico, penso que ortopedista. Estive com ele talvez há 10 anos, em Tomar no Hotel dos Templários. Nessa altura ele era "motoqueiro" de um grupo que utilizava máquinas BMW.
Abraços para todos especialmente para o João Candeias da Silva. António Duarte.




jpscandeias disse...

António Duarte!

Sabes que o teu abraço tem para mim um sabor. A situação em que nos conhecemos não foi a mais agradável para quem tinha pouco mais de vinte anos e pensava em tanta coisa boa, eu pelo menos, pouco na guerra e sabia que seria uma ponte para a outra margem, "passar à peluda" e voltar a vida "normal", mas teve, pelo menos para mim, bons momentos especialmente quando fomos a Bissau, eu à consulta externa, rsrsr, tu ias de férias. Agora que falas-te que o cap. era Simão recordei o nome, tal como do Garrido e do Morgado que também me recordas-te.
Fica bem e um grande abraço.

joao candeias da silva

jpscandeias disse...

António Duarte!

Sabes que o teu abraço tem para mim um sabor. A situação em que nos conhecemos não foi a mais agradável para quem tinha pouco mais de vinte anos e pensava em tanta coisa boa, eu pelo menos, pouco na guerra e sabia que seria uma ponte para a outra margem, "passar à peluda" e voltar a vida "normal", mas teve, pelo menos para mim, bons momentos especialmente quando fomos a Bissau, eu à consulta externa, rsrsr, tu ias de férias. Agora que falas-te que o cap. era Simão recordei o nome, tal como do Garrido e do Morgado que também me recordas-te.
Fica bem e um grande abraço.

joao candeias da silva