sábado, 24 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15285: Manuscrito(s) (Luís Graça) (67): As intermitências do amor no país sem pátria... Pensando na minha amiga de Alex, M..., nascida em Angola, "retornada", que hoje faz anos... Mas também no poeta e músico luso-angolano, Luaty Beirão que vai morrer de fome e sobretudo de sede de justiça e de liberdade!

As intermitências do amor no país sem pátria


por Luís Graça

[in: Amor(es), guerra(s), lugar(es): vol. I: amor(es). Lisboa: edição de autor, 2015, pp. 46-54. Edição limitada a 6 exemplares e já esgotada]



Para a minha amiga M... , nascida em Angola, e que hoje celebra a vida, ao fazer mais uma aninho!... A sua história de vida inspirou-me  este poema, há 10 anos atrás...  Como muitos outros portugueses e outras portuguesas, é sociologicamente uma "retornada"... É uma "amiga de Alex" a quem desejo muita saúde e longa vida, agora no país que não era a sua pátria... Não posso deixar de pensar também, neste dia,  no luso-angolano Luaty Beirão, poeta e músico,  que vai morrer, de fome e sobretudo de sede de justiça e de liberdade... (LG)



Na bicha das cinco da tarde,
no para arranca do trabalho casa trabalho,
para não para,
arranca não arranca, empanca,
a vida,
a vida tão cara,
tão avara,
tão complicada às vezes,
à tarde,
uma mulher só na cidade,
formiguinha no meio do grande formigueiro humano,
ouves o sax do velho Luís Morais,
evocando as cores das impossíveis ilhas tropicais,
às cinco da tarde, 
na RDP África,
Lura, essa voz magnífica,
amor ca tem
o amor que não há,
o amor que não chega, 
nem por e-mail,
toupeira,
nas autoestradas das linhas de montagem
onde para arranca empanca a vida,
em viagem,
ah! que pena, 
já não se escrevem mais cartas de amor,
diz o locutor de serviço,
com selo e lacre,
envelope fechado 
e carimbo do correio,
entregue pelo moleque lá no musseque,
para certificar a data-hora dos nossos desencontros,
aqui e agora, 
ou lá no Puto
(ah!, Portugal, Portugal!),
a propósito de alguém que se foi embora
e de quem não fizeste o luto,
o namorado que irá morrer na guerra colonial.


Tiram-te a pele, 
o tutano, 
e, de permeio, o amor, 
o doce engano,
e não há coração que aguente
o para arranca da bicha do trabalho casa trabalho,
a gigantesca centopeia de homens e mulheres sós na cidade,
na segunda circular, 
no IC 19,
na mesa a toalha barata, 
aos quadrados,
a sopa fria, 
os fugazes amores de verão,
os suores da meia estação,
veste, despe o robe,
e no outono a depressão,
e se há inferno é no inverno,
a massa fria polar
da solidão,
a caixa do correio cheia
por causa dessa coisa do spam,
desesperando por esperar
um toque de telemóvel, 
um msn, 
um sinal,
a campainha,
a cama, 
as insónias,
os lençóis desfeitos,
à tarde, demasiado tarde para amar
no Monte Abraão,
uma mulher no para arranca empanca da vida,
nos anéis circulares da cidade sitiada,
a cidade anaconda,
a paixão de quarentena
aos cinquentas e tais,
o corpo exangue,
o desejo, surfando na onda,
a doença do amor, letal,
proibido amar,
diz o semáforo, vermelho,
e não é amor, é dor,
é saudade, diz a morna,
que o B.Leza é morabeza,
faria cem anos
se ele ainda hoje fosse vivo,
lá no Mindelo piquinino,
às cinco da tarde a casa vazia,
os filhos que partiram
mas deixaram cá as fotos, emolduradas,
de quando eram bebés,
e eram louros,
lindos de morrer,
ternurentos,
e eram filhos de sua mãe,
ah! as intermitências da liberdade vigiada,
o guarda-mor da saúde, totalitário,
mantendo tenso o cordão sanitário
que estrangula a vida,
a pele esticada, 
o tutano chupado,
a merda da vida, fodida,
que o aumento da esperança média de vida te traz,
sobre os carris dos quilómetros
do teu têgêvê sem futuro,
as contas por pagar,
a casa hipotecada à banca,
os anos que faltam para a reforma,
o risco de cancro da mama,
a carreira amorosa congelada como a feijoada,
o multibanco do coração cor de rosa fora de serviço,
os cheques que vencem 
antes de a paixão esfriar e morrer,
ao virar da esquina da última rua do quarteirão,
no para arranca empanca da casa trabalho casa,
e o Ribeiro Sanches, 
físico-mor do reino no exílio,
a dizer-te que não há cura para os males de amor
e o passado é um país estranho,
e, se a paixão é doença, 
não sei o que fazes aqui,
parada na maldita picada,
minada,
que te leva do trabalho para casa
e da casa para o trabalho,
e um dia para a casa mortuária
e o forno crematório,
o ninho da cegonha abandonado,
a casa vazia,
a sopa fria no prato,
o trabalho sem pica,
a vida sem sal,
sem o teu chabéu da Guiné de comer e chorar por mais,
stress, the kiss of death 
or spice of life,
cada meco a falar sozinho
para o boneco,
no bar do fast food,
emparedado,
no comboio do Cacém,
no autocarro da Carris,
na CRIL, na CREL,
no carro comprado a prestações,
o último amante, romântico ma non troppo,
morto em Israel,
os amigos de Alex cada um para seu canto,
e o baile, combinado, dos anos sessenta
que ficou para as calendas gregas,
quando a crise acabar,
se algum dia acabar e o FMI deixar,
as flores no cabelo, 
Make Love Not War,
All You Need is Love,
Vietname nunca mais
black power, blá-blá…
em plena guerra fria a quente,
o terror do nuclear ao sol poente.

E a tua velha senhora no fim da estação
da linha de Sintra da vida,
em casa à tua espera,
o Alzheimer devastador,
o avião  que não mais faz escala na tua África perdida,
na tua infância em Nova Lisboa, hoje Huambo,
a morena de Angola que leva o chocalho na canela,
a tua adolescência de Luanda e as suas ilhas,
a restinga do Mussulo,
o meu tarrafe do Geba,
as balas tracejantes,
o teu Huambo sem meninos à volta da fogueira,
o comboio para Benguela metralhado,
os erros meus,
as doces ilusões,
terríveis as deceções,
as tuas negras emoções,
os amanhãs que não cantam mais,
o mundo que a gente queria mudar de repente,
assim com um toque de varinha mágica,
a crise de valores,
a profusão de cores,
o pilão dos teus cheiros e sabores,
e a muamba que já não é mesma muamba,
nem muito menos o óleo de palma, o fungi,
a cachupa do nosso contentamento,
as mornas, as coladeras
aos fins de semana,
nos anos oitenta,
a rebeca do Travadinha, bem gemidinha,
a mãe preta,
o muzonguê frio no fim da rebita,
de manhã ao acordar, 
para mais um dia, sem pica,
para afivelar a máscara 
e desempenhar os papéis
que os outros esperam de nós,
l’enfer, c’est les autres,
o inferno são os outros
mas começa em nós...

Não te adianta, amiga,  chorar 
sobre o leite de coco derramado,
ou dizer que fizeste tudo errado,
o amor da tua vida,
o curso, 
o emprego,
os filhos, 
o império por um fio,
o país de retorno que não era o teu,
o divórcio,
o século ao dobrar do milénio,
a liberdade avençada, ameaçada,
porque esta é a tua história, 
mesmo indevida,
este é o teu tempo e o teu lugar,
e até pode ter um final feliz,
a tua telenovela das cinco
no para arranca empanca da vida,
só depende da autora do guião
e do tempo de reflexão que antecede a ação,
deixa o carro na garagem, 
compra um passe social,
vai a pé ou de metro,
mas não trepes pelas paredes,
atira a matar,
não de kalash mas de ternura,
direitinho ao coração
que diz que não aguenta mais uma paixão 
aos cinquenta…
e tal,
querida amiga, afinal,
fomos feitos para amar 
e desamar
(que não é o mesmo que odiar),
esperar e desesperar,
viver e morrer,
e não há volta a dar,
se há uma antídoto para a morte,
é o amor, 
escrevia o Saramago, o mal amado,
e eu acho que ele tinha razão,
mas o meu livro de culinária existencial
diz para lhe acrescentares
uma pitada de humor quê bê,
ao amor
que segue dentro de momentos...
Se conseguires rir-te do amor, 
como o teu negão do Martinho da Vila,
estás salva.
Eu quero dar
eu quero dar
e receber
e receber
fazer, fazer
me refazer fazendo amor
sem machucar seu coração
sem me envolver.


Carpe diem, amiga,
compra um bom vinho tinto, 
encorpado, 
do Douro ou do Alto Alentejo,
e põe um cêdê,
ouve a tua Mariza Monte
ou grita à janela do Monte Abraão
Amor I Love You,
porque gritar faz bem,
gritar à janela a plenos pulmões
liberta a tua energia negativa,
esses miasmas,
esses iões,
manda à merda esses cabrões.
e depois senta-te,
no sofá,
desliga a droga da televisão
e põe a máscara da tua serenidade,
respira fundo,
dá tempo de antena a ti própria,
lambe as tuas próprias feridas,
que a vida não se delega, 
nem se congela,
nem se põe entre parênteses.
Ou então pinta um grafito 
nas muralhas alexandrinas da tua cidade.
Vi um há dias:
– Amor ? Amor ? … Amor és tu!
Só podia ser de uma adolescente,
apaixonada, doente, 
como tu,
no teu caso, eu sugeria 
uma pequena emenda, subtil:
– Amor ? Amor ?... Amor sou eu!

E ninguém morre, louco, 
de amores intermitentes,
no píncaro do verão da nossa raiva, 
aos quarenta graus centígrados,
com as febres palúdicas,
com as velhas e malditas sezões da ex-África nossa,
nossa, da humanidade,
mal amada, perdida, reencontrada,
no para arranca empanca do trabalho para casa
e da casa para o trabalho:
dizem que a vida é bela
e que, afinal,
somos nós... 
que damos cabo dela.

PS – Querida amiga de Alex, 
minha querida amiga,
sem pátria,
no país sem retorno,
e agora sem império,
não sabia o que te dizer 
com princípio, meio e fim,
mas se isto fosse um poema, 
era recado,
uma canção ligeiramente desesperada,
a deixar no voice mail,
e seria uma coisa assim,
sem palavras a mais:
vais ver que a dor passa,
que, com esse  coração, ainda aguentas,
e que já não é pecado,
o amor aos cinquentas...
e tais
.

Alfragide, 15/12/2005. Última, enésima, revisão, 24/10/2015


In: GRAÇA. L. -   Amor(es), guerra(s), lugar(es): vol. I: amor(es). Lisboa: edição de autor, 2015., pp. 46-54. 

_______________

Nota do editor:

6 comentários:

Vasco Pires disse...

Foram só dois anos das nossas vidas,que "destruiram" alguns de nós, e nos transformaram a todos...
Forte abraço.
VP

Luís Graça disse...

Vasco:

Ninguém teve (nem vai ter) pena de nós. A pena seria, de resto, a última reivindicação que faríamos, nós, os ex-combatentes. Mas temos o direito de falar alto. Estou inteiramente de acordo contigo: foram dois anos das nossas vidas!... Em rigor, foram três, contando um ano de tropa na "metrópole"... E para quê ?...

Tenho de pena, ísso sim, de nunca ter tido a coragem de ler em voz alta, durante a instrução militar em Tavira, na parada, o poema do Alberto Caeiro / Fernando Pessoa:

"Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois"... E mais à frente, o poeta justifica-se: "Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas"... Parafraeando o poeta, apetecia-me dizer na altura: "Quem me dera que a minha vida fosse uma viatura blindada"... ""Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter chapa e rodas"...





Luís Graça disse...

Algum leitor, distraído, poderá perguntar: "Mas o que é Luaty Beirão tem a ver connosco?"... Ocorre-me, como resposta, o conhecidíssimo poema do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), em versão de português do Brasil, de que desconheço o tradutor:

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht

(Fonte: Pensador, http://pensador.uol.com.br/frase/NTczNjMz/http://pensador.uol.com.br/frase/NTczNjMz/
com a devida vénia)


Sobre Bertold Brecht, vd. aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertolt_Brecht

Vasco Pires disse...

Bom dia Luis,
Cordiais saudações.
O grande teste, é quando prendem sem culpa formada, os nossos desafetos.
Aplaudimos de pé?
Se nos distrairmos,viramos todos Joseph K....
Forte abraço.
VP

Luís Graça disse...

Sensibilizou-me a "carta de amor" que a Luena escreveu ao seu marido, em greve de fome, há mais de um mês, e que o Expresso deste fim de semana publicou... Merece ser aqui reproduzida:

“Amor, prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir.

Sempre te admirei enquanto pessoa, pela tua determinação, pela tua sensatez e humildade, pela tua força e pela fé nas coisas em que acreditas. Mesmo antes de te lançares para o “canhão” da luta de derrube das injustiças que vivemos no nosso país admirava-te!

Não é de hoje a minha admiração nem cresce diante desta tua decisão. Cresceu durante estes rápidos sete anos da nossa relação. Rápidos, porque parece que foi ontem que te conheci, parece que foi ontem que me apaixonei por ti, e mesmo diante deste momento difícil que estás a passar vejo o mesmo olhar dantes.

Quero-te presente e bem vivo para que possas transmitir esses valores bem vincados à nossa pequena Luena, o nosso raio de sol, o nosso sweet life, porque sinto-me incapaz de os passar sozinha, porque não os tenho tão vincados.

Nós, eu e o nosso pequeno mas grande amor, queremos compartilhar mais momentos juntos, queremos ajudar-te na tua luta e acima de tudo recebermos o amor que é tão habitual termos.

Quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus braços, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela.

Entendemos que sejas um homem de palavra e que levarás a tua palavra até ao fim, mas quero que tenhas em mente que as promessas são apenas palavras até começarem a ser cumpridas pelas nossas atitudes. Eu e a Luena esperamos que a cumpras.

Tu és o nosso herói, o exemplo de pai presente, o exemplo de marido honesto e um homem de palavra. Amamos-te muito!

Da tua sempre persuasiva mulher, que conta, desta vez, persuadir-te a acabar a greve de fome, pois há uma promessa acima desta que tens mesmo de cumprir, não por mim mas pelo nosso tesouro, a Luena Almeida Beirão.”


http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-10-24-A-minha-carta-de-Amor-ao-Heroi-da-minha-vida

Antº Rosinha disse...

LUENA é também o nome de uma região lindíssima, riquíssima, onde há um rio com esse nome, e uma tribo com esse nome e que fica no Moxico província onde há um lugar remoto, a que alguém lhe chamou "Cús de Judas".

Duvido que os sobas Luenas saibam lá no Luena o que se passa com Luena, apesar de haver vários partidos políticos da oposição... mas em Lisboa, não em Luanda.