sexta-feira, 15 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16306: (In)citações (96): Nova Lamego, 15 de novembro de 1970, uma das noites mais longas das nossas vidas... Nós, miúdos, achamos que os nossos pais não choram, mas eu sei que também se chora em silêncio e sem lágrimas.... (Adelaide Barata Carrêlo, filha do ten SGE Barata, CCS/BCAÇ 2893, 1969/71)

De: Adelaide Barata Carrêlo, 
membro nº 721 da nossa Tabanca Grande,
filha do tenente SGE Barata, 
CCS/BCAÇ 2893 (Nova Lamego, 1969/71) (*)

Data: 13 de julho de 2016 às 17:19

Assunto: 15 Novembro 1970 (**)



15 de Novembro de 1970, 
uma das noites mais longas das nossas vidas.

O ambiente era de festa e no quartel 

tudo parecia desenrolar-se dentro  da normalidade.

Além de ser o dia em que se comemorava um ano de comissão, 

também os  meus pais celebravam aniversário do seu casamento.

Chegámos a casa já tarde.

Quando nos preparávamos para dormir, 

lembro-me de ouvir uma espécie de  assobio 
e, segundos depois.  uma explosão. 
Tenente SGE Barata, CCS/BCAÇ 2893
(Nova Lamego, 1969/71).
Faleceu em 15/1/1979,
como capitão,
estava colocado na altura
no Ministério de Exército,
 na Praça do Comércio.,

A luz apagou-se 
e, tal como o  meu pai nos ensinou, 
corremos para o canto de sala, 
onde as paredes  eram mais fortes.

O zinco do telhado crepitava.

O meu pai decidiu 

que não podíamos ficar ali 
nem mais um minuto,  
segurou-nos ao colo como pôde 
e abriu a porta em silêncio.
Eu não queria acreditar, 
a rua estava cheia de chinelos,  "descalços"...
para onde teriam corrido os pés daquela gente ?

No trajecto para o quartel, 

três paraquedistas prontificaram-se a  ajudar os meus pais, 
levando-nos ao colo com passo apressado. 
Eles  traziam um cachorro que cheirava a after-shave.

À chegada, o meu pai soube 

que o seu amigo e camarada Cipriano Mendes  Pereira,
2º  sargento miliciano enfermeiro, 
tinha falecido, 
as marcas  estavam na parede da casa 
e na árvore junto à janela.

Também o soldado Seixas nos deixou nesse dia.  

(Lembro-me que era ele 
que enchia o bidão da água que tínhamos em casa).

Nós, miúdos, achamos que os nossos pais não choram, 

mas eu sei que  também se chora em silêncio 
e sem lágrimas.

Obrigada 

Adelaide Barata (***)



Guiné > Zona Leste > Nova Lamego > 1970 > Emblema do BCAÇ 2893 (1969/71), unidade de que faziam parte as CCAÇ 2617 ("Magriços de Guileje", Pirada, Paunca, Guileje, 1969/71), CCAÇ 2618 (Nova Lamego, 1969/71)   e 2619 (Madina Mandinga, 1969/71), além da CCS, a que pertencia o nosso camarada Constantivo Neves, ex-1º Cabo Escriturário, mais conhecido por Tino Neves.

Foto: © Tino Neves (2006). Todos os direitos reservados.



Guiné > Região de Gabu> Nova Lamgo (Gabu Sara) > Carta  dos Serviços Cartográficos do Exercito (1961) > Escala 1/50 mil >  Detalhe

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2016)
 _____________________

Notas do editor CV:

(*) Vd. postes de:

11 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16294: Tabanca Grande (490): Adelaide Barata Carrêlo, filha do ten SGE Barata, CCS/BCAÇ 2893 (Nova Lamego, 1969/71)... Com sete anos apenas, sofreu a brutal flagelação do IN ao quartel e vila do Gabu, em 15/11/1970, que causou 3 mortos e 4 feridos graves entre as NT e 8 mortos e 80 feridos (graves e ligeiros) entre a população... Passou a ser a nossa grã-tabanqueira nº 721


(***) Último poste da série > 9 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16288: (In)citações (95): "Terra vermelha quente e de paz, / lugar onde tive medo, fui feliz e vivi, / amar-te-ei sempre, / minha Guiné menina velha encantada"... (Adelaide Barata Carrêlo, filha do tenente Barata, que viveu em Nova Lamego, no início dos anos 70, durante a comissão do pai, e aonde regressou, maravilhada, quarenta e tal anos depois)

(...) Em 1970 aterrámos em Bissau onde o meu pai nos esperava ansiosamente, seguimos alguns dias depois para Nova Lamego onde ele estava colocado.

Eu tinha 7 anos, sou gémea com uma irmã e tenho um irmão mais velho 1 ano. Somos a família Barata. Quando chegou a hora dos meus pais decidirem juntar-se naquela terra, não conseguiram convencer-nos de que poderíamos separar-nos, não, fomos também. E até hoje agradeço por ter conhecido gente tão bonit, , tão pura.

As primeiras letras da cartilha, foram-me desenhadas pelo Prof. José Gomes, na Escola que hoje se chama Caetano Semedo.

Aquele cheiro, a natureza comandada pelo calor húmido que sufoca e a chuva que cai como uma cascata sobre a pele e o cabelo que teima em não se infiltrar...cheguei a pedir à minha mãe para me deixar correr como aqueles meninos que se ensaboavam no meio da rua e com um chuveiro gigante que deitava tanta água de pingos grossos e doces.

Também me lembro de quem lá ficou para sempre, não éramos muitos. (...) 

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Não terá havido muitas crianças, portuguesas, brancas, a passar por um susto destes, uma situação-limite, de grande violência, no TO da Guiné...

Os miúdos guineenses, mal ou bem (?), aprenderam, por certo dolorosamente, como todas as aprendizagens que implicam dor e sofrimento, a "conviver" com a guerra, o pânico, o horror, os ataques e os flagelamentos às nossos aquartelamentos e povoações... Cherno Baldé, J. C. Mussá Biai, hoje "meninos crescidos", saibam do que eu falo...

A Adelaide é uma mulher de grande sensibilidade que não deixou "matar" a criança que há em todos nós... Ela guardou "essa criança", de 7 anos, que conheceu o medo e alegria em Nova Lamego, num cantinho especial da sua memória...

São espantosas algumas das suas recordações desse dia dia trágico de 15/11/1970 (e ficamos a saber que a família morava na vila, fora do quartel, na falsa segurança das imediações do quartel, ao alcance dos morteiros 82 do PAIGC):

(...) "Eu não queria acreditar,
a rua estava cheia de chinelos, 'descalços'...
para onde teriam corrido os pés daquela gente ?

"No trajecto para o quartel,
três paraquedistas prontificaram-se a ajudar os meus pais,
levando-nos ao colo com passo apressado.
Eles traziam um cachorro que cheirava a 'after-shave'. (...)


É uma pena que aos nossos leitores, mais diistraídos, possa passar despercebida uma "pérola literária" destas...

LG

Anónimo disse...

Pois é, eu sabia, o início é sempre o mais difícil.
Estás no bom caminho, continua a deliciar-nos com as tuas narrativas e não necessitam ser tipo poesia, a poesia encontra-se na narrativa, mesmo que seja prosa.
Depois falamos.
BS

Valdemar Silva disse...

Pois é, mas isto é poesia.
Ou melhor, pérolas de poesia.
Para quando o nosso blogue se dá a conhecer às TVs ?
Há no nosso blogue 'material' para grandes programas de TV.
Quem não gostava de ver a Adelaide a ser entrevistada e, também, a dizer estes poemas, e como fundo fotografias da rapaziada (eramos todos uns rapazes) em Nova Lamego.
É uma ideia.
Cumprimentos
Valdemar Queiroz

Hélder Valério disse...

Caríssima Adelaide

Tenho estado um tanto 'afastado' de contribuições para este insubstituível Blogue, quer em artigos, quer em comentários, mas isso não quer dizer que não o acompanhe, embora com menos envolvimento.
Problemas de saúde. Alergias. Isto tem estado com ar bafiento, muito revivalismo passadista e isso causa perturbações.
Por isso não comentei em devido tempo o seu "aparecimento" por aqui, onde acho que fica muito bem e que é mais uma 'prova provada' do local de afectos que isto também é, de mais uma explicação para o que é o "efeito Guiné" nas nossas memórias e também para ajudar a ver coisas que vimos mas por outros olhos, por outros ângulos.
E isso, Adelaide, é muito importante, pois há quem insista que as 'coisas' começam e acabam neles, ou seja, não houve mudanças, evoluções, involuções.
Calculo que a experiência tenha sido inesquecível,naturalmente que assim foi, pois de outro modo não se estaria aqui e agora a reflectir.
E a forma com descreve as suas longínquas memórias não deixa dúvida: escrita poética.

Também passei por aí, por Nova Lamego, duas semanas depois desses acontecimentos. Não me recordo bem, aí a 2 ou 3 de Dezembro de 1970. Ia a caminho de Piche. Fiquei aí à espera da coluna, também não me recordo se 1 ou 2 dias. Tenho vagas recordações dessa passagem, muito pouco precisas, por isso não posso reproduzir nada de jeito. Recordo vagamente falarem do ataque, da surpresa do mesmo, da sua violência, mas pouco mais.....

Já agora.... 15 de Novembro.... exactamente uma semana antes do início da "Operação Mar Verde"....

Pois então que se sinta bem por aqui e que nos vá contemplando com algumas das suas memórias.
Beijinho
Hélder Sousa

Adelaide Barata disse...

Obrigada Hélder, pelas suas palavras de incentivo a reviver das memórias.
Gosto muito de escrever e por isso junto as memórias à escrita e descrevo o que vivi, Talvez induza a quem lê, que tudo foi poesia, mas como a nossa memória é selectiva é uma forma de amenizar o inesquecível.
Mais uma vez, o meu muito obrigada.