segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Guiné 63/74 - P16631: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (14): A maldição de Cancolim e a CCAÇ 3489 que teve dois casos (o capitão e um alferes) de "abandono" (no período de férias) e um de "deserção" para as fileiras do IN, o sold at inf José António Almeida Rodrigues (1950-2016)


Guiné > Bissau > Cumeré > 1/1/1972 > Passagem de ano > "À frente o alferes que nos abandonou e,  primeiro da última fila [, do lado esquerdo, de pé],  o capitão que também se foi" (sic)...

Legenda complementar [RB]: Em primeiro plano temos o Ferreira, e de baixo para cima da esquerda para a direita, estão o Gaspar, Baptista, Correia, Grosso, Jacinto, Oliveira, Piedade e o Sá;  mais acima estão o Rodrigo Oliveira e o Silva, por cima estão o Guarda, ao lado com a garrafa e o outro a seguir me recordo dos nomes, Conde, Romana, depois temos o Figueiredo, Andrade, o outro Silva e o Bidarra.

Foto (e legenda): © Rui Baptista (2009) Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




1. Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (14): A maldição de Cancolim e a CCAÇ 3489 que teve dois casos (o capitão e um alferes) de "abandono" das nossas fileiras (no período de férias) e um de "deserção" para as fileiras do IN. 

Há uma maldição de Cancolim ? Há uma maldição do Saltinho / Quirafo ? Há uma maldição do Xime / Ponta do Inglês ? Há uma maldição de Bajocunda / Copá ? .... De Canquefilá ?  De Buruntuma ? De Cheche / Madina do Boé ?...

Há uma maldição do Leste, com a escalada da guerra no chão fula (atuais regiões de Bafatá e de Gabu), que se acentua a partir de 1969, e de que muitos de nós fomos observadores, testemunhas, atores, vítimas…

Por exemplo, João Amado, natural de Carvide, concelho de Leiria, sold aux cozinheiro, nº 03858869, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, morto em 2/3/1972, no ataque a Cancolim. (Está sepultado em Vieira de Leiria, concelho de Marinha Grande.). Ou Rui Baptista, ex-fur mil da mesma subnidade, felizmente vivo, residente em Póvoa de Santo Adrião, nosso grã-tabanqueiro (desde 9/12/2009) , que pertencia ao 2º pelotão,  "Os Vingadores (e que ficou sem comandante, o alf mil  Rosa Santos, transferido "para as tropas africanas"). Ou o Zé António Rodrigues, recentemente falecido, que foi "prisioneiro de guerra", mas antes foi acusado de "deserção"...

Mp nosso blogue, temos cerca de três dezenas e meia de referências a Cancolim e menos de metade à  CCAÇ 3489 (Cancolim, 1971/74).

Mobilizada pelo RI 2, a CCAÇ 3489 partiu para a Guiné em 18/12/1971 no T/T Angra de Heroísmo e regressou em 28/3/1974 no T/T Niassa, tendo chegado a Lisboa em 4 de abril desse ano, a escassas 3 semanas do 25 de abril de 1974.

A CCAÇ 3489 esteve em Cancolim. Comandantes: cap mil Manuel António da Silva Guarda; e cap mil inf José Francisco Rosa. Pertencia ao BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74), comandado pelo ten cor inf José de Castro e Lemos. Faziam ainda parte deste batalhão, a CCAÇ 3490 (Saltinho; comandante: cap mil inf Dário Manuel de Jesus Lourenço) e CCAÇ 3491 (Dulombi, Galomaro, cap mil art Fernando de Jesus Pires).

O Rui Baptista é membro da nossa Tabanca Grande , desde 3/12/2009. Recorde-se como ele se nos apresentou:

(…) “Nesse espaço de tempo que permaneci na Guiné (27 meses e alguns dias), sempre em Cancolim (há que retirar o tempo do IAO no Cumeré, duas viagens de férias a Lisboa e dois internamentos no Hospital Militar em Bissau), aconteceram coisas que jamais poderei esquecer” (…)

A "maldição de Cancolim" (o termo é nosso) percebe-se agora melhor, quando o Rui diz:

“A CCaç 3489 não teve muita sorte durante a comissão, principalmente nos primeiros meses. Logo no início em Cancolim em três quintas-feiras seguidas tivemos 4 mortos e 21 feridos”:

(i) Um morto e um ferido numa mina na picada entre Cancolim e o destacamento de Sangue Cabomba; 

(ii) 16 feridos ligeiros num despiste de uma viatura a caminho de Bafatá;

(iiii) e mais 3 mortos e 4 feridos na primeira flagelação do IN ao aquartelamento , em 2/3/1972.

E conta um detalhe biográfico do seu verdadeiro baptismo de fogo:

“Neste primeiro ataque tive a sorte de um ex-furriel dos velhinhos me ter empurrado para dentro da porta da secretaria;  ele, com esse gesto, acabou por ser ferido numa vista por um estilhaço de uma granada de morteiro 82 e eu escapei ileso”…

Não menos grave, ou talvez ainda muito pior para o moral da tropa, foi o que se seguiu:

(...) "Tivemos o abandono do capitão  e de um alferes, e a partida forçada para as tropas africanas do alferes Rosa Santos do meu pelotão”...

Repare-se que o Rui nunca fala em “deserção” (por pudor, por tabu, por respeito, por desconforto ?…) mas em “abandono” (sic)… Presume-se que os dois oficiais, milicianos, tenham "desertado" (é o termo técnica e juridicamente apropriado) durante as férias na metrópole, com menos de meio ano de comissão, portanto no verão de 1972…

A maldição continuou:

“Como o IN não nos dava tréguas, e com o pouco material de guerra que tínhamos para nos defender (na altura apenas um morteiro 81), com o assalto pelo IN ao nosso destacamento e a captura de 2 homens nossos, a fuga de um soldado para o IN, juntamente com as notícias de mortos no Saltinho [em Quirafo, em 14 de Abril de 1972,] e emboscadas no Dulombi, o desânimo instalou-se nas nossas tropas”.

"A fuga de um soldado para o IN" ?  A confirmar-se seria uma terceira "deserção", o que é muito para uma companhia só, depois de um capitão e de um alferes...

E prossegue o nosso camarada Rui:

“Com a substituição do capitão e dos alferes, acabamos por não ter um comando à altura de nos elevar o moral, passámos por um período do quase salve-se quem puder. Valeu-nos o reforço de um pelotão do Dulombi e a visita de alguns Páras [, do BCP 12,] para as coisas acalmarem em Cancolim”.

Mas a maldição não acaba aqui…

“O resto da comissão, principalmente os últimos 7 ou 8 meses de 1973, foi bem mais calmo. O último ataque a Cancolim foi em 20 de janeiro de 1974, nesse dia o IN veio de manhã quase junto ao arame, apesar de muitos de nós andarem a jogar futebol, conseguimos fazer com que batessem em retirada deixando um morto no terreno.

Antes disso, ainda houve duas visitas (forçadas) do Rui ao HM 241, em Bissau, a última das quais por ferimentos graves na sequência de rebentamento de mina A/C que tinha, ao que parece,  "código postal errado" (*)

No meio de tanta desgraça, desânimo e desnorte, ainda rapaziada de Cancolim conseguiu dar provas  de resiliência ao stresse físico e psicológico (exemplificada em brincadeiras, jogos,  atividades lúdicas, etc.),  capacidade essa  que todos nós,  combatentes no TO da Guiné, tivémos que saber desenvolver para sobreviver...

2. Quanto ao "abandono" ou "deserção" das fileiras, por parte de 3 militares da companhia...


A deserção, tal como o suicídio, pode ser contagiante, sobretudo quando o nosso chefe ou líder dá o exemplo... Há famílias "suicidárias", como pode haver unidades militares com tendências para a deserção, em todas as épocas, em todos os exércitos...

Isso aconteceu, infelizmente, em alguns casos (seguramente raros) no TO da Guiné, durante a "nossa guerra" (1961/74). Um deles pode ter sido o da CCAÇ 3489...

O pobre José António Almeida Rodrigues (1950-2016), ex-sold inf,  foi para a cova, ainda recentemente,  e a terra foi-lhe, certamente, mais pesada do que a outros camaradas , pela terrível "suspeição de deserção" que carregou toda a vida...

Dos outros dois antigos militares não falamos, presumindo nós que estão vivos  e que têm direito à reserva de intimidade (o ex-capitão sabemos que sim, que está vivo): só eles sabem por que razão "abandonaram" os seus homens, no verão de 1972... e só eles podem, em consciência, dar ainda, em público, mesmo que tardiamente, uma justificação para uma decisão que não terá sido tomada de ânimo leve. (Julgamos que, no final das férias de 1972, e a partir do momento em que ficaram sob a alçada da justiça militar, pelo "crime de deserção", terão saído do país, não sabemos se de maneira concertada, ou cada um por seu lado, e por sua conta e risco, nem para onde, nem como...).

Até há pouco, quando o caso do Zé António Rodrigues veio à baila no nosso blogue, justamente por ocasião da sua morte, estava ainda muito arreigada na memória do pessoal da CCAÇ 3489 a imagem (estereotipada e injusta) do Rodrigues como "desertor" e, pior ainda, "traidor".

O Rodrigues tinha um "comportamento antisssocial", era agressivo, imprevisível, indisciplinado, "bicho do mato", dizia-se... Ninguém tinha mão nele... A verdade é que o pelotão dele ficou sem alferes, logo cedo, quando este "não regressou de férias", na metrópole, tal como o capitão!...

O Rodrigues dava-se ao luxo de sair a seu bel prazer, para ir caçar, sozinho, ou com os caçadores da tabanca...

Enfim, Cancolim parecia andar sem rei nem roque...

O camarada Rui Silva, ex-furriel e nosso grã-tabanqueiro, disse-nos, ao telefone, que a maior parte da malta estava convencida que ele, Rodrigues,  se tinha "passado para o inimigo". Durante as 24 horas do seu desaparecimento, andaram atrás do seu rasto até ao rio Corubal. Encontraram munições (de G3), abandonadas, e que seriam presumivelmente dele... Logo a seguir o destacamento de Sangue Cabomba foi atacado (tal como Cancolim)...

Há quem "visse" o Rodrigues no meio dos "turras", a orientar o ataque a Sangue Cabomba!!!...

Crucificaram o Zé Rodrigues em vida!... A malta nunca lhe perdoaria  a alegada "traição"!... E nunca fizeram questão de o procurar nem ele procurou os seus antigos camaradas, na metrópole!... Em Bissau, quando esteve preso por "suspeita de deserção" (sic), o 2º comandante do batalhão terá falado com ele...Ele sempre se terá defendido dizendo que tinha sido feito prisioneiro pelo PAIGC (e tratado como tal)...

O António Batista, grã-tabanqueiro, da CCAÇ 3490, que infelizmente já também não está aqui entre nós, tendo morrido no mesmo dia do Zé António (!), deixou-os um testemunho em vídeo, e disse-nos, por mais de uma vez, que o Rodrigues levava porrada dos carcereiros...

Nunca teve nenhum "tratamento VIP" como desertor... E aliciou o Batista para fugir com ele, em março de 1974...

Recorde-se que ambos foram companheiros de infortúnio, no cativeiro, em Conacri e no Boé (entre 1972 e 1974) ... O António  da Silva Batista esteve preso desde abril de 1972 até ao fim da guerra.  O Zé Rodrigues, aprisionado em julho de 1972,  acabou por fugir dos seus captores, em março de 1974, e ensaiar uma heróica fuga, andando  9 dias ao longo das margens do Rio Corubal até chegar ao Saltinho... 

Fizemos questão de reparar esta injustiça,  no nosso blogue, embora tardiamente... O Zé António nunca teve oportunidade de se defender em vida!... E só conheceu a miséria, a infelicidade, a doença e a solidão. Está morto e enterrado!... Mas, apesar dessa vida de  miséria,  ele também conheceu em fim de vida a compaixão humana, a solidariedade e a camaradagem...  Entrou para a nossa Tabanca Grande, a título póstumo, por proposta do Zé Manuel Lopes, seu vizinho da Régua. (**)

______________

Notas do editor:

(**) Último poste da série > 17 de março de 2007 > Guiné 63/74 - P1606: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (13): Jorge Cabral

(...) Há quarenta anos nós,  jovens,  optámos. Informados ou desinformados,  fomos e lá estivemos. Partilhámos medos, sofrimentos, tristezas, alegrias.

Hoje resta-nos a memória desses tempos. E é essa memória corporizada na Tertúlia, que nos une.

A Tertúlia é, e deve continuar a ser, um Fórum de Camaradas, que em pé de igualdade, informam, relatam e recordam.

Quantos desertaram na Guiné? Porquê? Que fizeram depois? Deram informações?
Colaboraram com o Inimigo? Desconheço, mas não lhes atiro pedras. Não me peçam, porém, para os enaltecer, glorificar ou incensar. (...)

5 comentários:

Juvenal Amado disse...

A 3489 foi umas das companhias do meu batalhão que mais vezes visitei em serviço.
Bastante flagelada, com mortos e feridos com a deserções dos dois oficiais não era pois um lugar onde reinasse muito optimismo.
Quando se deu o desaparecimento do Rodrigues o termo que mais ouvi foi de que ele maluco e tinha um historial de toda a classe de irresponsabilidades.
Naquele dia um graduado do seu pelotão ralhou com ele e ele amuou e negou-se a seguir para o mato em patrulha com os seus camaradas. Mais de uma hora depois resolveu ir sozinho e é convicção minha na altura ganha na conversa com alguns soldados da companhia que ele teria sido apanhado há. Nessa mesma noite ouve uma flagelação ao quartel e encontraram prova que a arma dele tinha sido utilizada no ataque. Eu penso que isso nada provava em relação às suas intenções que entretanto lhe foram imputadas.
Quanto ao terem-no visto no ataque a Sangue Cabomba mais propriamente (Anhambé), é autentico jornal da caserna. Um diz que viu e os outros também viram.
Ele foi prisioneiro de guerra e a prová-lo estavam as declarações a respeito dos maus tratos que ele sofria às mãos dos carcereiros que o Baptista contou sobre o cativeiro de ambos.
Tanto que só ouvi falar do seu desaparecimento como deserção já quando estávamos para embarcar para a Metrópole.
Corriam muitas estórias em relação há sua loucura, o que se veio a provar de ser verdadeira antes durante e depois.

Já que nada se pode fazer por ele em vida onde foi tão mal tratado, ao menos preserve-se a sua memória

Tabanca Grande disse...

Rui Baptista:

Como vai isso, essas forças ? Olha, e já que és o único representante da tua companhia na Tabanca Grande (além do pobre do Zé António, que já morreu), talvez queiras acrescentar algo em relação ao que já disseste e nós publicámos...

Como é que vocês viveram a notícia da deserção (ou "abandono") do capitão e do alferes ? Suspeitavam de alguma coisa ? Sabem dos motivos ? As razões foram político-ideológicas ou outras ? Terá sido uma ação concertada ? Fugiram os dois ao mesmo tempo ? Fugiram para o estrangeiro ? Tiveram apoios ? Tiveram a PIDE/DGS à perna ? Algum dia vos contactaram, depois do 25 de abril ? Deram alguma justificação ? Estão vivos ? Voltaram a encontrar-se ? Como se chamava o alferes ? (Sei que o antigo capitão é dentista, na zona da Foz, no Porto; onde terá estudado ?).

Se quiseres e puderes responder, no todo ou em parte, fico-te muito grato. Isso ajudaria a retirar a "carga negativa" que pesou (e se calhar ainda pesa) sobre a malta de Cancolim, a tal "maldição"...

Dou conhecimento desta mensagem ao bom amigo e camarada Juvenal Amado, sempre bem acolhido por vós em Cancolim... Ficas a saber que, em caso algum, citaremos, explicitaemente, o nome dos dois oficiais... O do capitão é conhecido... A companhia teve dois capitães.

Ab. grande. Luis

Anónimo disse...

Luís Filipe Sá, na página do Facebook da Tabanca Grande, 24/19/2016

Esta foto é em Cancolim, CCaç34389. Identifico pelos nomes o Rodinhas, o Rodrigo Ó Oliveira, o Rui Baptista, o alf Sá, o Joaquim Silva, o vaguemestre, o primeiro Romana.

Os outros lembro-me de todas as caras mas os nomes não. Que saudades. Um abraço. Para os que já não estão entre nós uma sentida homenagem.

https://www.facebook.com/profile.php?id=100001808348667

Anónimo disse...

Rodrigo Ó Oliveira, na página do Facebook da Tabanca Grande, 24/19/2016


Também estão, a seguir ao alferes, o 1 sarg Piedade, o alferes Rosa dos Santos, o Isaltino Jacinto a beber pela garrafa. De momento falham-me o nome dos outros camaradas.

Um abraço.

Anónimo disse...

Rui Baptista, na página do Facebook da Tabanca Grande, 24/10/2016


Foto original - Cumeré em 01-01-72 - Em 1º plano temos o Ferreira, e de baixo para cima da esqª para a dtª estão o Gaspar, Baptista, Correia, Grosso, Jacinto, Oliveira, Piedade e o Sá, mais acima estão o Rodrigo Oliveira e o Silva, por cima estão o Guarda, ao lado com a garrafa e o outro a seguir me recordo dos nomes, Conde, Romana, depois temos o Figueiredo, Andrade, o outro Silva e o Bidarra