quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Guiné 63/74 - P16641: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (36): O guerreiro da minha rua

Com os meus vizinhos básicos, especializados no apoio à messe de Catió
Foto: © José Ferreira da Silva


1. Em mensagem do dia 17 de Outubro de 2016, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), autor do Livro "Memórias Boas da Minha Guerra", enviou-nos mais esta história para a sua série com o mesmo nome:

Caros amigos
Junto nova história, para possível publicação no nosso Blogue Luís Graça.
Espero que sirva para integrar a série "Memórias boas da minha guerra".

Sempre grato pelo apoio.
Abraço
José Ferreira Silva


Memórias boas da minha guerra

36 - O guerreiro da minha rua

Tive a sorte de conviver desde criança com o Zéquita Casal. Era mais velho cerca de dois anos e meio, mas, por ser baixote, nunca se notou a diferença de idade nem o atraso na escola.

Efectivamente, ele diferenciava-se do irmão mais velho, quer no bom aproveitamento escolar, quer no seu crescimento e, ainda, na aparência física. À medida que ia crescendo, mais se parecia com um tal Martinho, indivíduo muito conhecido por mulherengo, pela sua esperteza viva e pela sua habitual disponibilidade para alinhar em zaragatas. Lembro-me de, um dia, o ver com uma carrinha fechada, subir toda a calçada da estrada romana para vir buscar amigos e levá-los a ver um Porto-Benfica.

Todos sabiam que ele era analfabeto, não tinha carta de condução e que o carro não podia estar em seu nome. Só o Martinho era capaz disso tudo. Ora, constava-se que o Zequita era mesmo seu filho. E que esse fruto inesperado se deveu a um deslize amoroso de sua mãe, quando o marido partiu para a Venezuela (… ou procurar saber se o o rapaz nasceu com cerca de 10 meses de gestação).

O pai, Neca Casal, não aguentou muito tempo na Venezuela e regressou rapidamente. Era uma excelente pessoa. Toda a gente gostava dele. E é curioso que também gostavam muito da sua mulher, a Sora Micas. Ninguém via aquele casal em discussões ou a tomar atitudes menos correctas. Não fora aquele aparente deslize “bem disfarçado/tolerado/esquecido” e diríamos que era um casal exemplar. Por mim, não conhecia melhor.

Para quem conheceu o Neca Casal, é fácil compreender o seu rápido regresso. Era uma pessoa introvertida, humilde, simpática e muito presa à família, ao trabalho e aos amigos. Para além disso, ele era um exímio tocador de guitarra portuguesa e integrava o Grupo dos Fados. Assim, para alegria dele, da família, dos amigos e de muita gente, tudo regressou ao melhor dos ambientes.

Parecia não haver justificação para o Zequita gostar tanto de porrada. Tal como o irmão Jorge, foi criado em ambiente alegre e pacato. No entanto, sempre que podia, lá mostrava a sua supremacia guerreira. Nos tempos de Escola Primária, era ele quem mais nos defendia daqueles mariolas que nos apareciam. Não era pelo seu tamanho mas, sim, mais pela sua destreza e valentia. Por outro lado, parecia sentir a tal necessidade de ajustar contas com toda a gente. E ai daquele que ele apanhasse a chamar-lhe Martinho! Como resultado, trazia sempre as “medalhas” na cara e beneficiava da nossa gratidão.

Recordo desse tempo, em que andámos juntos na 3.ª Classe, os castigos que levava da Professora D. Isaura, a tal Salazarista que era o pavor dos seus alunos. Destaco um, cujo desfecho foi muito penoso.

Constava-se, entre os alunos, que se pusesse um cabeleiro sobre a mão aberta e lhe juntasse um pouco de azeite, a régua partiria no momento da reguada. Ora o Zequita, como levava reguadas quase todos os dias, ao saber disso, não perdeu a oportunidade. Foi logo no próximo castigo das “10 reguadas”. Porém, como não tinha o azeite, lembrou-se de escarrar na palma da mão. Quando a Professora lhe bateu com a régua, recebeu o espirro do escarro na cara. O que se seguiu foi aterrador. O Zequita até chorava com dores das reguadas que lhe batiam furiosamente em todo o corpo. Foi humilhante vê-lo molhado, por ter mijado nas calças. Então, deixou a escola e só veio a fazer a 4.ª classe através daquele programa especial de educação para adultos. Já ele namorava.

Como ele trabalhava na oficina do pai Neca, dedicada ao fabrico e recuperação de componentes para motos, bicicletas e motorizadas, tive acesso a um projecto especial de bicicleta de… pau.

Todos os jovens do meu tempo se lembram bem destas maravilhosas “Motas de Pau” e das corridas que fazíamos com elas. Quantas “medalhas” exibíamos nos cotovelos, nos joelhos, no nariz e na testa?! Pois eu, bastante viciado nesse popular desporto, enfrentava, ainda, a forte oposição de meus pais. Todavia, como já trabalhava, consegui juntar os 5$00 necessários e comprar a “máquina” do Zequita, que ele havia encostado, pois já tinha uma bicicleta a sério. Este modelo único tinha a adaptação dos eixos com rolamentos das próprias bicicletas. Foi uma ideia debatida entre nós, uns 2 ou 3 anos antes.

Na estrada romana, eu explorava as novas possibilidades daquela “máquina”. Quase não havia inclinação suficiente para rolar. No entanto, eu levantava o cu e baloiçava o meu peso para a frente sempre que surgia essa dificuldade. Dava-me um gozo incrível manter a máquina em movimento em situações difíceis.

Entusiasmado pelo domínio na minha rua (Estrada Real), logo me quis evidenciar numa corrida organizada em Souto, num Sábado seguinte.

A rua tinha uma inclinação muito próxima dos 10%. Saber descer com aquela inclinação, seria o caminho para a vitória. Porém, eu não podia desperdiçar as capacidades da minha “máquina” e logo fiz questão de me adiantar fortemente. Quando vi que a vitória já não me escaparia, meti pé no arame do travão e tentei controlar. Comecei a derrapar até que o arame partiu. Acelerei sem querer. A rua terminava na estrada das Termas, precisamente defronte para o muro da Quinta do Fontes. Atravessei-a, a tentar seguir para a esquerda, fugindo do muro da quinta. Sem hipóteses de seguir na estrada, bati num pequeno muro sobranceiro ao lavadouro, dei uma cambalhota e fui cair/mergulhar de costas, lá em baixo, na presa de água, coberta de silvas e outros arbustos selvagens.

Devido ao choque, nem me lembro bem o que se terá passado depois. Só sei que quando me levantei da cama, fui logo ao quinteiro ver como estava a bicicleta. Lá estava ela num monte de lenha, devidamente cortada em pedaços. A minha mãe já o tinha feito antes, com outra bicicleta, quando descobriu que era eu quem gastava o azeite todo para untar os eixos das rodas.

Em Monção ainda se fazem corridas de Bicicletas de Pau 

Sempre preocupado em disfarçar o seu feitio agressivo, o Zequita brindava amiúde os amigos com minudências de seu agrado.

Um dia comprometeu-se em arranjar para o Sábado seguinte, uma galinha para fazermos uma comezaina na tasca da Cadima. Ora, o galinheiro ficava ao fundo da varanda e era preciso ir lá buscá-la. Passámos um tempão a “treinar”, como dueto musical; ele tocava a guitarra e eu cantava. Quanto mais actuávamos, mais a mãe e uma tia se divertiam, a assistir. Elas achavam muita graça às nossas inesperadas pretensões artísticas e não havia meio de irem para a cozinha. Quando consegui apertar o pescoço ao galináceo, perante o barulho que provoquei, o Zequita aumentou assustadoramente o som da guitarra, partindo 2 ou 3 cordas.

Nós gostávamos muito de cinema. Mas o Zequita era um fanático pelas aventuras dos “Cobóis” e dos Piratas. Era lá que se inspirava nos golpes que aplicava nas assíduas lutas “justiceiras”. Agora, que era mais velho, queria complementar a sua faceta de “artista”, lançando-se à conquista da sua “gaja”. Porém, quase nunca teve a sorte dos seus ídolos (Kirk Douglas, Clark Gable, Cary Grant, Henry Fonda, Burt Lancaster, James Stewart, Clint Eastwood, etc., etc).

A vitoriosa equipa dos Solteiros que, com a dos Casados, tinha que disputar em cada dia 26 de Dezembro, o custo de uma arrozada de frango.

O Zequita já andava na recruta, em Viseu, quando se interessou por uma moça de Guisande. Conheceu-a numa matiné do Cinema de Arrifana. Chegou à fala com ela, num intervalo, quando estava acompanhada por algumas amigas.

Num dos Sábados seguintes, insistiu comigo para lhe fazer companhia, numa desfolhada. Hoje, acredito que ele já se teria excedido nalgum relacionamento local. Fomos na sua nova motorizada. Fiquei cá fora do portão de madeira de um alpendre que, todo aberto, deixava ver um monte de espigas de milho rodeado essencialmente por jovens raparigas. Entre elas, lá se instalou o Zequita, parecendo alheio a toda a “admiração” que lhe estavam a dispensar. Cá fora, um grupo de rapazes, acompanhava os trabalhos, ao mesmo tempo que galhofavam. A dada altura, já ouvia ameaças, do género:
- Vais levar poucas, vais!

Mal acabou a desfolhada, o pessoal ia saindo e ia-se desligando. O Zequita ainda estava com a rapariga quando se aproximaram dele. Chefiava o grupo, um grandalhão que deu início à “malhação”. O Zequita não se ficou e foi reagindo, distribuindo murros e pontapés, mas insuficientes para tamanha investida. Eu, teria que me solidarizar e aproximei-me em sua defesa, procurando, pacificamente, acabar com o ataque. Entre socos e pontapés, senti uma correada, cuja fivela me deixou um golpe na cabeça. Alguns já mostravam navalhas. Valeram-nos as pessoas mais adultas (quase só mulheres) que se manifestaram contra as agressões, acabando por fazer desistir os meliantes.

Ficámos no chão, abandonados, à espera de recuperarmos forças para o regresso. E assim que pudemos, subimos, cambaleando, para cima da motorizada, e lá viemos devagar e aos “ésses”. O Zequita caiu de cama, foi assistido pelo médico e lá ficou uns dias. Durante essa noite, constou-se o que havia acontecido e, perante o estado clínico do Zequita, desenvolveu-se a revolta!

Os jovens do Ferral, juntaram-se depois do almoço do Domingo. Para uma melhor coordenação bélica, foram todos a pé, calcorreando os 7 quilómetros em marcha lenta. Nada de entraves para o êxito da Operação. Até o Jorge, que via muito mal, deixou os óculos em casa. Chegados ao local do crime, logo vimos os valentões que se passeavam em grande grupo. Quando nos aproximámos, eles pararam indecisos e iniciaram mudança de direcção parecendo adivinhar a nossa intenção. Tivemos que acelerar um pouco para junto deles. E, tal como já havíamos combinado, teria que ser eu a começar as hostes. Precisamente com o valentão/grandalhão. Fui pela berma da rua, servindo-me do degrau existente no passeio para me aproximar um pouco da sua altura, e desafiei-o:
- Ouve lá, ó valentão, hoje não me queres bater?

Ele, murmurou qualquer coisa e desviou o olhar. Então, gritei-lhe mais alto:
- Não sejas cobarde, mostra agora a tua valentia, seu filho da puta.

Colocando a mão esquerda na frente, enfiei-lhe um soco em cheio, lá para cima, dando início ao combate colectivo.

A rua estava cheia de beligerantes em frenética luta. A quantidade de lutadores estava equilibrada, mas a nossa equipa estava moralizada pela razão da sua revolta perante a cobardia desses agressores. A dada altura, viam-se chicotes e marmeleiros no ar. Eles serviram-se das pedras dos muros para retaliarem. O Jorge, irmão do Zequita, via muito mal e como a tarde já começara a escurecer, ele agarrava a vítima com a mão esquerda e disparava o potente soco com a direita. Chegou a enganar-se e a ouvir gritar:
- Foda-se, olha que eu sou dos teus!

A rua ficou deserta e intransitável para veículos. Nós, cada um com as suas mazelas, iniciámos o regresso. Estava a escurecer quando, já na estrada da Corga, mandámos parar o autocarro da Feirense. Apesar de exibirmos alguns ferimentos, entrámos, eufóricos e orgulhosos pela missão cumprida. Quem exteriorizava mais a sua valentia era o Nequita Fareleiro que manobrava uma tesoura, ao mesmo tempo que se lamentava não ter conseguido cortar o cabelo a ninguém. O revisor nem se aproximou para cobrar os bilhetes.

Uns anos mais tarde, já em Catió, quando a minha Companhia se havia, finalmente, juntado ao seu BART 1913, foi-me dada a oportunidade de conhecer alguns vizinhos, nomeadamente, o Laurentino, de Canedo; o Zé, de Fiães; o Engelha, de Sandim e o Fernandes, de Guisande. O primeiro fazia de cozinheiro na messe e os outros de ajudantes. Por sinal, uns “cromos” bastante conhecidos.

Quando o Guisande me disse de onde era, eu disse que conhecia muito bem aquela rua de entrada na freguesia e que, em tempos tinha andado lá em zaragata. Ele, que era gago, exclamou logo em forma de rajada:
- Fo…fo…foda-se, fo…fo… foram vo… vocês que que fo…fo… foderam aque…. aquela qua… quadrilha lá da da da terra? Ó… olhe, nun… nunca mais ti… ti…tivemos pró… problemas cu… cu…cu…esses ca… ca… caralhos.

Quando o Zequita chegou da Guiné, em 1965, Já eu andava na tropa. Por isso, poucas vezes nos encontrámos. Recordo que ele não dizia mal daquilo. Curioso, quando lhe perguntei se tinha dado muita porrada lá na guerra, ele respondeu:
- Não dei um tiro, sequer. Mas como ajudante na cozinha, cheguei a foder a tromba a vários filhos da puta.

Estava muito mais maduro e pouco falava de guerra. Falava-nos mais das ”bajudas de mama firme” e das “mulheres grandes” com as suas mamas descaídas.

Mais de 3 anos depois, logo após a minha chegada em 9 de Março de 1969, fui convidado para o seu casamento, que se realizava no Sábado seguinte. Não me lembro bem da história da “conquista” de sua mulher. Parece que ele se meteu em defesa dela e do pai, durante um desentendimento comercial (e físico!), quando estavam a vender os seus produtos serranos na feira de Lourosa. A rapariga deve ter ficado impressionada com a sua solidariedade e valentia. Sei que ela era lá das fraldas da Serra do Marão, onde fomos assistir à cerimónia e “comungar” de um magnífico banquete caseiro. Foi dos melhores que participei. Muito simples, muito abastado e muito alegre. Mas, o que mais me marcou foi a imagem do Zequita agarrado à guitarra, ao lado de seu pai que, orgulhosamente, exibia um largo sorriso de felicidade. Estava eu embevecido a contemplar esse lindo quadro, quando ouço a sua mãe: - Estás a ver Zeca? Tal pai tal filho.

Quando regressei, vim a “ver” o filme completo da vida deste guerreiro.

E, desta vez, recordei também uns comentários do ilustre sapateiro António da Ponte:
- Quando formos chamados para o Juízo Final, Deus vai-nos dar uma ordem em voz alta: O seu a seu dono e os filhos a seus pais!

E acrescentava: - Já viram tamanha confusão?

Silva da Cart 1689
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16511: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (35): A honra não tem preço

2 comentários:

jteix disse...

Pronto, lá vou eu ter que comprar mais uma garrafa se quiser ter o livro, o homem não pára!...
Um abraço Zé
cumprim/jteix

Jorge Portojo disse...

Na primeira foto, conheci esses mânfios todos: O Engelha à direita; O sargento corneteiro Silva à esquerda e o seguinte não lembro o nome mas era um adjunto na messe de sargentos.
Com o Engelha e o Silva já me havia encontrado em 2007 na confraternização da CCS na Serra do Pilar. Organizada pelo Valadares. Bendita reunião onde revi o Pinheiro de Minas e o Condeço.
Voltámo-nos a encontrar - o Engelha - este ano quando estivemos na Maroca e nas Tripas da D. Rosinha em comemoração com o Bando.
Mas não são uma, nem duas, mas várias histórias na mesma história.
E como diz o Presidente Teixeira, lá vamos receber mais uma Reserva de Porto. Logo eu que agora estou de dieta.