sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16841: Estórias do Zé Teixeira (43): O meu Natal perdeu todo o encanto no dia em que o Menino deu lugar a um velho de barbas brancas que trazia um saco às costas, a quem chamavam o Pai Natal mas não era o pai do Menino (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)

1. Uma "prenda de Natal" que nos mandou o Zé Teixeira, ex-1.º cabo aux enf,  CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , 1968/70, com data de 11 do corrente:

Meus caros camaradas.

O Natal está a chegar. Por todo o lado “chovem” flashes comerciais a lembrar o Natal e a injetar convites para o consumismo.

Há outro Natal, talvez mais verdadeiro – o Natal de cada um – Um convite a viver a amizade e a partilha do sorriso, do abraço que aquece o coração.

Gostava de transmitir a todos os camaradas que de algum modo “passeiam o olhar pelo nosso 

blogue os meus votos de que tenham um Santo Natal, com muito amor e carinho.  E para entreter, junto um pequeno conto num regresso aos meus tempos de criança.


2. Estórias do Zé Teixeira (44 > O meu Natal perdeu todo o encanto no dia em que o Menino deu lugar a um velho de barbas brancas que trazia um saco às costas, a quem chamavam o Pai Natal mas não era o pai do Menino


O Natal era aquela noite santa em que o Menino nascia no presépio, mas que antes passava lá por casa. Chegava de noite, quando o João estava a dormir. Trazia-lhe uma prendinha que a madrinha comprava na manhã seguinte. Mas era um segredo muito bem guardado. Até a padaria, nesse dia, abria antes da missa, para que as madrinhas fossem para casa, logo após o “ite missa est”, acordar os afilhados levando-lhe a prendinha para colocar no tamanco, que as crianças deixavam junto à lareira. Era apenas uma pequena regueifa em forma de pomba, mas tinha o valor de todo o ouro do mundo.

O João admirava aquele Menino, tão pequenino, cheio de frio que nascia no presépio naquela noite, prenhe de magia. Vinham os tios, da longínqua cidade junto ao mar, para contar as suas histórias; vinham os primos de sapato engraxado e tudo! Era uma festa.

Estar acordado, para ver o Menino chegar com as prendinhas, era o sonho do João. Mas Ele era maroto. Chegava à meia noite e o soninho vinha mais cedo. Bem tentava resistir, mas as pestaninhas teimavam em fechar-se. Então encostava a cabeça no colinho da mãe e adormecia. A mãe depositava-o no leito com carinho. Aconchegava-lhe o cobertor e cantava a cantiga

“O meu menino é doiro.
 é doiro o meu menino,
hei-de levá-lo ao céu
 enquanto for pequenino."

O João, tolhido pela sonolência, tentava opor-se e balbuciava: não quero ir para o céu, quero ficar à tua beira! Depois adormecia e só acordava quando a madrinha o chamava, já o sol tinha chegado para iluminar o céu e o Menino se tinha ido embora.

Como era lindo o céu do Natal! Tinha o aspeto de uma grande abóbada azul, onde o sol se plantava de manhãzinha para derreter a fria neve que cobria a noite, e levar calor às crianças que esperavam o Menino.
– Bom dia Joãozinho! – dizia-lhe a madrinha com uma voz muito meiguinha. – O Menino já nasceu e depositou uma prendinha no tamanquinho que deixaste na lareira. Queres ir ver?

O João saltava-lhe para o colo, porque a neve era fria, muito fria. Abraçados, corriam para a cozinha e encontravam no tamanco a pombinha de regueifa.

O Natal do Menino desapareceu, para nossa frustração. Perdeu-se o encanto daquela criança que nascia pobrezinha na manjedoura, e tinha sempre uma prendinha de amor para a todas as crianças da terra.

Era assim o Natal dos pobres. Mas era tão rico!

Deu lugar à noite do velho de barbas brancas que traz um saco às costas, a quem chamam o Pai Natal, mas não é o pai do Menino.ã

Ah! Como eu gostava que o Natal do Menino voltasse todos os dias e não só nas noites frias. Ele tinha o condão de deixar as pessoas muito felizes.

José Teixeira
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Nota do editor:

Último poste da série > 30 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16541: Estórias do Zé Teixeira (42): Tempestades

Vd. os últimos cinco postes:

8 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16176: Estórias do Zé Teixeira (41): O sonho do João

(...) A noite chegara cedo. Extenuado de um dia de trabalho, o João adormeceu no sofá, deixando-se abraçar suavemente pelo Morfeu que o transportou rapidamente ao país dos sonhos… Caminhava com uma sombra à sua frente. Parecia-lhe o pai vergado por um dia de trabalho.As árvores da floresta verdejante impediam a sua passagem. O sol penetrava por entre a folhagem, aquecendo-lhe o corpo de forma impiedosa. O zumbido estridente de um mosquito perturbava-o. Parecia um comboio a apitar, quando se aproximava dos seus ouvidos. Então, parou e olhou em redor. (...)


(...) O Cascais sentiu-se perdido no alto mar. A amargura penetrava-lhe na alma. O ondular das ondas que faziam dançar a velha e desgastada carcaça do Niassa, recordavam-lhe que há muitas marés. Há marés baixas e marés altas. No circuito da sua vida passada, assim tinha acontecido, mas as nuvens que ao longe escondiam o azul dos céus, varriam-lhe a mente, escondendo-lhe o futuro. Sabia de onde vinha, não sabia para onde ia. Vagueava como um autómato no convés do barco. (...)

3 de dezembro de 2010 Guiné 63/74 – P7373: Estórias do Zé Teixeira (39): O medo do terrífico telegrama (José Teixeira)

(...) Naquele dia 8 de Fevereiro de 1970, uma mãe esquecida do quadragésimo oitavo aniversário, preparava o almoço para os três filhos. Um quarto estava ausente na Guiné. Este, tinha feito 23 anos dois dias antes. Era comum juntar-se a família no dia oito e cantarem-se os parabéns em duplicado. Apenas se mudavam as velas no bolo que aquela mãe, analfabeta, cozinhava com todo o carinho. (...)

(...) No dia 24 de Julho de 1968, uma mina A.C. (Anti-Carro) roubou a vida a um camarada que ia em cima da viatura de rádio a comunicar com a base em Buba. Foi o meu primeiro encontro no mato com o IN e o primeiro camarada que vi morrer sem lhe poder valer. Nunca soube o seu nome. Apenas sei que pertencia à Companhia dos Lenços Azuis, que estava estacionada em Aldeia Formosa e nos foi buscar a Buba para de seguida partilharmos aventuras em comum durante mais de meio ano. (...)

11 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 – P4808: Estórias do Zé Teixeira (37): “A vala, salva vidas” (José Teixeira)

(...)  Chegado a Buba, toda a gente correu para os poucos chuveiros existentes, formando fila. Enquanto uns se molhavam, outros esfregavam o sabão, fazendo um rodopio. Os restantes, completamente nus, esperavam pacientemente uma vaga, quando o IN apareceu a baptizar a Companhia atacando de canhão sem recuo, morteiro e "costureirinha". De repente um estrondo lá longe. Logo se ouviu a frase mágica que eu nunca mais vou esquecer - “Aí estão eles” - vinda de vários lados. Numa fracção de segundos, o tempo da vida ou da morte, toda aquela gente desapareceu da vista. (...) 

4 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, Zé Teixeira!

Ou, melhor, FOI.
E veio, também, essa espécie de "coisa" a que chamam "árvore de Natal". E anda toda a gente excitada neste tempo de Natal, não pela ideia de "nascer" qualquer coisa de novo (ou renovada), mas por causa das compras, compras, compras... prendinhas, prendas e prendonas...
No poema "Dia de Natal" do António Gedeão está lá isso TUDO! Só tem que se substituir o "relógio de pulso anti-magnético" pelos mais recentes "gadgets" das novas tecnologias (?) inúteis ou fúteis.

Abraços
Alberto Branquinho

(P.S. - Isto lido por muita gente que a gente sabe, será seguido por um pensamento ou uma afirmação:- Velhada!Cotas!)

Anónimo disse...

Caro amigo Zé Teixeira:

Adorei esta pequena história de um menino igual aos meninos do tempo em que também éramos meninos. E é comovente por nos revermos nessa criança. No nosso tempo era assim tudo muito sóbrio: meia dúzia de rebuçados, um chocolate, qualquer coisinha entusiasmava uma criança.

Um abraço grande e Bom Natal

Carvalho de Mampatá.

Tabanca Grande disse...

Zé, o Natal hoje, mais do que no nosso tempo de meninos e moços, é encontro... e, claro, à mesa... Encontro daqueles que de quem gostamos e que não podem, pelas vicissitudes a vida, estar connosco todos os dias... É encontro, sobretudo da família (alargada)... Ainda ontem fiz o Natal dos mouros, falta o Natal dos morcões... Em cima do joelho, fiz quadras para todos e todas... As duas primeiras começavam assim:

Anda o poeta desinspirado
Nesta quadra de natal,
Mais que triste, desassossegado,
Quando no mundo triunfa o mal.

Mas hoje de conta façamos
Que a noite vai ter magia
E a todos vós desejamos
Boa ceia e alegria. (...)

E lá fui, embalado, tendo sempre um atenção para cada um das pessoas à mesa... E no fim rematava, com a eterna ilusão circadiana:

E que pró anos cá estejamos,
Boas festas, meus amores,
Felizes e sábios sejamos,
Equilibrados dos quatro humores.


Zé, obrigado pela estória. Vais por certo ter um Natal feliz e sábio com os teus, que muito amas.

LG

Tabanca Grande disse...

Zé: receio que alguns "mouros" não siabam o é que a "regueifa", tão popular no Norte, entre o rio Minho e o Rio Vouga... Aqui vai uma "ajuda"... LG

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regueifa | s. f.

re·guei·fa
(árabe andaluz ar-rgaifâ, do árabe rgafa)
substantivo feminino
1. Pão de trigo de forma geralmente entrançada.Ver imagem = ROSCA
2. Bolo feito de farinha muito fina.
3. Fogaça.
4. [Figurado] Prega ou dobra de gordura na cara ou no corpo.
5. [Portugal, Informal] Conjunto das nádegas.
6. [Portugal, Informal] Ânus.

"regueifa", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/regueifa [consultado em 17-12-2016].