quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Guiné 61//74 - P17015: Efemérides (244): 29 de janeiro de 1947, no dia em que nasci: Na Guiné era inaugurado o sistema de abastecimento de água a Bissau bem como o bairro de Santa Luzia... e em Paris fazia um frio de rachar:- 13º (e -30º nos Alpes franceses)!...



1ª págima do Diário de Lisboa, nº 8683, ano 26, quarta-feira, 29 de janeiro de 1947, diretor: Joaquim Manso (Fonte: Fuindação Mário Soares > Casa Comum > Arquivos > Diário de Lisboa / Rua Ramos > Pasta 05780.044.11034( (com a devida vénia...)


1. Mera curiosidade: sei que nasci, porque a minha mãe e o meu pai mo disseram, numa manhã fria de 4ª feira, do dia 29 de janeiro de 1947,  em casa dos meus avós maternos, no Nadrupe, Lourinhã... ainda o vespertino "Diário de Lisboa" não estava nas bancas...  Era rapaz e tinha a cabeça grande: o meu pai quando me viu profetizou logo o meu futuro: "só podia ser padre ou doutor"... Não fui padre, mas andei seis anos no seminário (em Santarém e Almada, entre 1958 e 1964),,, E depois da Guiné, licenciei-me em sociologia (, ISCTE-IUL, 1980) e doutorei-me em saúde pública (Universidade NOVA de Lisbboa, 2004):

Nesse dia, banal para o resto da humanidade, em Paris, as temperaturas chegavam aos 13 graus negativos, obrigando as autoridades municipais a encerrar metade das escolas, para manter as reservas de carvão (!)... Em Marselha, bloqueada pela neve, não aterravam aviões e os restantes portos de França os navios estavam paralisados pelo gelo. Nos Alpes franceses batiam-se recordes de temperaturas negativas: - 30 graus...

Sarmento Rodrigues (1899-1979).
 Cortesia da Revista Militar
Entretanto,  na nossa Guiné, e sendo  governador geral o futuro almirante Samento Rodrigues (Freixo de Espada à Cinta, 1899 - Lisboa, 1979) era dia de festa: o subsecretário de Estado das Colónias (só em 1951, é que se passa a chamara do Ultramar, com Sarmento Rodrigues a assumir a pasta), o engº Sá Nogueira,  prosseguia a sua visita àquele território, fazendo uma série de inaugurações, com destaque para o abastecimento de água a Bissau e o bairro de Santa Luzia.

O representante do governo da Metrópole e a sua comitiva visitava de manhá as obras do Museu,do Palácio do Governador e moradias dos funcionários "que transformarão radicalmente a fisionomia da cidade, dando-lhe o aspeto de um centro urbano moderno", lê-se na primeira página do "Diário de Lisboa" desse dia, segundo despacho da agência noticiosa Lusitânia... A residência do delegado do ministério público também foi objeto de visita, sendo considerada "a última palavra da nova arquitetura colonial" (sic).

Não faltaram os vivas e as  aclamações dos "indígenas de diversas tribos, que tocaram o hino nacioanal em instrumentos gentílicos", bem como dos "colonos"... Houve ainda visita aos depósitos de construção do Alto Crim, bem como às obras do porto do Pigiguiti (sic) (era assim que o topónimo era grafado: hoje há variantes para todos os gostos!),

Outro título de caixa alta era reservado para o feminismo, "avant la letrre": as mulheres do pós-guerra estavam a medir meças aos homens,  nomeadamente na América, donde vinham então todas as novidades e tendências  modernizadoras, das tecnologias aos costumes... O jornal publicava uma entrevista com Mrs. Crocker, a esposa do conselheiro da embaixada norte-americana em Lisboa, na sua casa no Lumiar...

É dado igualmente destaque à "entente cordiale" entre a França e a Inglaterra, duas grandes potências coloniais condenadas a entenderem-se,  ambas saídas vencedoras da trágica II Guerra Mundial... Por fim, dava-se a notícia da entrada, no dia seguinte, no Tejo, de um cruzador antiaéreo norte-americano...

Não foi preciso ir à bruxa para logo eu "pressentir", com escassas horas de vida, que o raio da Guiné iria atravessar-se, 22 anos depois, na vida minha... (LG).

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Nota do editor:

Último poste da série > 31 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17008: Efemérides (243): Acontecimentos no mês de Janeiro, entre 1963 e 1974, na Guiné (António Tavares, ex-Fur Mil SAM)

7 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

29AN947?
Não haja dúvidas. O Ultramar desenvolvia-se a passos largos!
Claro que era assim em toda a parte, em todos os impérios. Seria, mas em Portugal poderia não ser. Uma Metrópole que se reivindicava de cabeça de um país espalhado por todo o mundo tinha obrigação de fazer mais e melhor, especialmente na "capital da província"...
É por estas e por outras que... o resto já sabemos.

Um Ab.
António J. P. Costa

Anónimo disse...

Caros camarigos

Portugal não tinha condições para fazer muito melhor. Como é que, a partir do seu escasso território europeu, Portugal conseguia gerar recursos, médicos, professores, engenheiros, técnicos e artífices para espalhar por todos aqueles vastíssimos espaços(Guiné, Cabo Verde, S.Tomé, Angola, Moçambique, Timor)?! O povo diz : não se deve ter mais olhos que barriga.

Um abração
Carvalho de Mampatá

Antº Rosinha disse...

A ideia deste post é interessantíssima.

A brincar, mas anda tudo ligado mesmo Luís Graça.

Ora, imaginemos que outros aniversariantes conseguissem uma primeira página de um jornal do seu dia de nascimento enriquecia-se muito o blog.

Agora essa do abastecimento de água a um bairro de Bissau, (1947) naquele tempo, era exactamente o tempo das "grandes " obras públicas do Estado Novo, pelo nosso mundo rural que estava tentando sair da idade média.

Eram as tais escolas e chafarizes pontes e estradas de paralelepípedos e das barragens daquela embalagem que vinha do célebre e apressado Duarte Pacheco.

Chafarizes em Santa Luzia naquele tempo? Salazar já estava estragando com mimo os guineenses.

Mas em África, tirando a África do Sul e a Rodésia onde os Boers faziam WC e escolas públicas em duplicado Whites and Blacks, nesse tempo, 1947, a própria França e Inglaterra, a lamber as feridas da II grande guerra, apenas pensavam nos "recursos naturais" africanos, porque se pensassem nas pessoas, jamais tinham feito o que fizeram, abandonar aqueles povos entregues a eles próprios...e aí temos o resultado a sobrar para todos.

Anda tudo ligado.

Patricio Ribeiro disse...

O ano de 47, é de boa colheita ...
Eu como também nasci no ano 47, ano das grandes obras do abastecimento de água a Bissau...
Tenho o direito de informar que em 2016, foram executados 5 novos furos, junto aos velhos existentes, afim de reforçar o abastecimento de água a Bissau; foram equipados com novas electrobombas de grande capacidade, apoiadas por geradores novos; tiram milhares de litros por hora. Durante os ensaios de bombagem, tiravam autênticos rios de água que enviavam para as valetas. Haja gasóleo para as por a trabalhar, que parece que neste momento é pouco.

Anónimo disse...

Só depois de ter sido possível estender a administração à ilha de Bissau (assim como às outras regiões que foram palco das campanhas de Teixeira Pinto, 1912-1915) é que foi possível tratar do desenvolvimento do território. Este começou com Velez Caroço (1921-1926) que teve de lutar com imensas dificuldades e constante oposição de forças internas(ver seu relatório,1923)a que se somava as dificuldades financeiras desses anos, a falta de subsistências, e a sucessiva, e bem conhecida, mudança de governos em Lisboa, muitas vezes precedidas de revoluções. Os anos 1930 foram muito marcados pelas dificuldades de consolidação do regímen (em 1931, na sequência de acontecimentos na Madeira e Açores, as autoridades na Guiné "rebelaram-se", e antes de partir para o estrangeiro esvaziaram os cofres), a que se seguiu a guerra civil em Espanha e a 2.ªGuerra Mundial (em que se teve de suportar racionamentos). Só terminada esta foi possível prestar mais atenção às colónias,aproveitando as disponibilidades do Tesouro então existentes. É nesta altura que surge Sarmento Rodrigues, governador de 1945-49.

Anónimo disse...

Perdão!

Esqueci-me de assinar o comentário anterior:

Armando Tavares da Silva

Tabanca Grande disse...

Tem razão o Armando Tavares ds Silva, "periquito" na Tabanca Grande, um grande conhecedor da história dos últimos 150 anos da presença portuguesa na Guiné... É verdade, citando um conhecido lugar comum, "sem dinheiro não há palhaços"... e sem palhaços não há circo!

Isto já vem do tempo dos romanos, pão e circo para o povo (agora o circo chama-se futebol, televisão, facebook...).

O livro do Armando Tavares da Silva , que estou curioso por ler, deve esclarecer muito bem as dificuldades de todo este período de contrapenetração e consolidação do poder colonial no território da Guiné...

Mas também é verdade que houve momentos, na nossa história, em que, mesmo não havendo dinheiro (por mal gasto, desbaratado, mal distribuido...), não deixava de haver palhaços... Creio que o Sarmento Rodrigues, bravo transmontano, com visão e com ambição, foi um dos grandes administradores coloniais, fez obra, deixou obra para os outros inaugurarem, e deve ter impressionado o Salazar que, depois da Guiné (1045-1949), chamou-o para ele assumir a pasta do Ultramar...

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