domingo, 11 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18404: Blogpoesia (558): "Como desconhecido...", "Fome de paz...", e "A gente quastiona-se...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) três belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros, durante a semana, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Como desconhecido…

A idade não perdoa.
O tempo transforma os corpos e os rostos da gente.
Me sinto mascarado.
Entro na minha terra como um desconhecido.
Só meu nome perdura ainda na memória dos mais velhos.
Minha aldeia está transformada.
Nada igual.
Tanta casa nova onde nenhuma havia.
Mais largos os velhos caminhos.
Todos virados para os automóveis.
Não sobra nada para os pedestres.
Só a velha ermida branca e o cruzeirinho em pedra ali estão.
Eu os olho e eles a mim.
- Olá, Quim Luís - parece ouvi-los.
Por onde tens andado?
Lhes respondo só em pensamento.
- Como estás mudado!
Eras um garoto a sério, sempre na brincadeira.
Já poucos restam da tua idade.
Vai aparecendo sempre. Fazes falta aos da velha guarda. Quando, para vós, éramos o centro de tudo…

Berlim, 4 de Fevereiro de 2018
19h34m
Jlmg

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Fome de paz…

Minha alma caminha célere para o infinito.
Sente fome de paz.
Deambula no mundo, feita migrante.
Desde o começo.
Uma chama viva a seduz.
Ora acesa ora escondida.
Farol ao longe que a conduz.
Uma voz a chama. Como sereia.
Caravela branca, alucinada.
No mar da vida. Tão agitado.
Fitando ao alto.
Estrela polar.
Transpõe desertos.
Verdes oásis.
Nuvens de sonhos.
São só quimeras.
Não perdeu a esperança.
Vai alcançar…

Berlim, 7 de Março de 2018
7h20m
Jlmg

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A gente questiona-se...

Nascemos apardalados.
Mas que vem a ser isto onde estamos mergulhados?
Onde é que eu vim parar!?
Donde se vem e para onde se vai?
O real é estático e é dinâmico?
O que é o movimento?
Real ou ilusório?
Propagação dos seres.
Tudo morre e desaparece?
Que acontece?
De que se compõem?
Hoje, acordei mergulhado nestas questões.
Tudo me parecia claro.
Vi o yin e o yan.
Claramente.
Compreendi o Buda.
Tudo em movimento tende para a quietude.
Do começo ao fim.
O verdadeiro estado é o ondulatório.
Como um farol.
Acende e apaga.
Permanece no mesmo lugar.

Bar dos Motocas, Berlim, 8 de Março de 2018
15h35m
Tarde linda de sol. 10 graus!...
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18390: Blogpoesia (557): No Dia Internacional da Mulher - "Mulher", por Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor do BCAÇ 3872

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Do blogue de poesia do nosso camarada e amigo J L Mendes Gomes, que vivem em Berlim, grande parte do ano, e a quem mandamos um grande abraço... Que continue a blogar, a poetar, a encantar-nos com a sinfonia da vida!... LG

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http://jlmendesgomes.blogspot.pt/2016/01/bar-dos-motocas.html

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Bar dos motocas...

Deste bar onde páram os motocas das autoestradas,
alcanço a neve branca,
estendida como toalha,
sobre o chão.

Os ramos negros das árvores nuas
se espreguiçam de ufanos
com seu véu de tule.

Aqui dentro, há calor humano
distribuido pelas mesas.
Cheira a café e no balcão,
há uma oferta rica e variada
para todos os gostos.

Atrás do balcão, servem afáveis e muito atentas,
belas moças alemãs,
azuis e loiras.
Como as cervejas frescas.

Aqui me abanco todo o ano
nas minhas horas remanssosas
que ainda sobram.

Daqui relanço meus olhos
para longe ao pé do mar,
me imagino a vaguear
através daqueles campos e montes
do oeste,
onde o céu e o mar
têm a mesma cor...

ouvindo os Abba

Bar dos motocas, arredores de Berlim, 7 de Janeiro de 2016
11h15m

Jlmg

Joaquim Luís Mendes Gomes