terça-feira, 13 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18411: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte XXXII: em 11 de novembro de 2016, em Kuala Lumpur, Malásia: tentando, em vão, chegar ao topod as torres gémeas "Petrona", o arranha-céus considerado o mais alto do mundo (88 andares, 452 metros de altura) , entre 1998 e 2003,,,


Foto nº 1  > As torres gémeas "Petronas" 


Foto nº 2 > Bairro de Bukit Bintang  

Malásia, Kuala Lumpur, 11 de novembro de 2016


Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação das crónicas da "viagem à volta ao mundo em 100 dias", do nosso camarada António Graça de Abreu, escritor, poeta, sinólogo, ex-alf mil SGE, CAOP 1 [Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74], membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 200 referências.
É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro. Vive no concelho de Cascais.


2. Sinopse da série "Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias"

(i) neste cruzeiro à volta do mundo, o nosso camarada e a sua esposa partiram do porto de Barcelona em 1 de setembro de 2016; [não sabemos quanto despenderam, mas o "barco do amor" deve-lhes cobrado uma nota preta: c. 40 mil euros, estimanos nós];

(ii) três semanas depois de o navio italiano "Costa Luminosa", com quase três centenas de metros de comprimento, sair do Mediterrâneo e atravessar o Atlântico, estava no Pacífico, e mais concretamente no Oceano Pacífico, na Costa Rica (21/9/2016) e na Guatemala (24/9/2017), e depois no México (26/9/2017);

(iii) na II etapa da "viagem de volta ao mundo em 100 dias", com um mês de cruzeiro (a primeira parte terá sido "a menos interessante", diz-nos o escritor), o "Costa Luminosa" chega aos EUA, à costa da Califórnia: San Diego e San Pedro (30/9/2016), Long Beach (1/10/2016), Los Angeles (30/9/2016) e São Francisco (3/4/10/2017); no dia 9, está em Honolulu, Hawai, território norte-americano; navega agora em pleno Oceano Pacífico, a caminho da Polinésia, onde há algumas das mais belas ilhas do mundo;

(iv) um mês e meio do início do cruzeiro, em Barcelona, o "Costa Luminosa" atraca no porto de Pago Pago, capital da Samoa Americana, ilha de Tutuila, Polinésia, em 15/10/2016;

(v) seguem-se depois as ilhas Tonga;

(vi) visita a Auckland, Nova Zelândia, em 20/10/2016;

(vii) volta pela Austrália: Sidney, a capital, e as Montanhas Azuis (24-26 de outubro de 2016);

(viii) o navio "Costa Luminosa" chega, pela manhã de 29710/2016, à cidade de Melbourne, Austrália;

(ix) visita à Austrália Ocidental, enquanto o navio segue depois para Singapura; o Graça de Abreu e esposa alugam um carro e percorrem grande parte da costa seguindo depois em 8 de novembro, de avião para Singapura, e voltando a "apanhar" o seu barco do amor...

(x) de 8 a 10 de novembro. o casal está de visita a Singapura, seguindo depois o cruzeiro para Kuala Lumpur,  Malásia (11 de novembro); próxima etapa: Phuket,  Tailândia (11, 12 e 13 de novembro).


3. Viagem de volta ao mundo em 100 dias >  Kuala Lumpur, Malásia, 11 de novembro de 2016   (pp. 46-48, da Parte II)

No início da viagem, não sei bem explicar porquê, depositava mais esperanças na mágica de Kuala Lumpur do que nos requebros de Singapura. Estava rotundamente equivocado. A verdade é que também não tive o tempo que gostaria para me espraiar à vontade pela capital da Malásia.

O navio acostou em Port Kelang e foram 90 quilómetros de autocarro até Kuala Lumpur, uma cidade interior com quase 2 milhões de habitantes, 46% dos quais são malaios, 44% chineses e cerca de 10% indianos.

Depositaram-me no bairro de Bukit Bintang ao lado de um colorido shopping, impecável para compras como iria comprovar mais tarde. Partimos a pé para a descoberta do grande burgo, podia contar com uns bons pares de horas para nos perdermos por Kuala Lumpur. 

De mapa na mão, procuro o caminho para as torres gémeas Petronas. “Petronas” é a marca do petróleo da Malásia, sponsor da Fórmula 1 e do circuito de Sepang. As torres parecem perto mas só depois de uns três quilómetros por ruas e avenidas incaracterísticas, esburacadas e feias, adivinho ao fundo a silhueta original das duas torres. Dizem-me para descer por uma longa passagem subterrânea, com alindadas arcadas por baixo da terra, com lojas e cafés, que me conduzirão direitinho às Petronas. 

Chego ao piso inferior onde se toma o elevador para subir à plataforma intermédia que une as duas torres. Só havia bilhetes para entradas a partir das cinco da tarde. É impraticável porque às cinco devo estar no autocarro para a viagem de volta ao navio. Poupei 38 dólares, o preço da ascensão às torres, mas gostava mais de os ter gasto; não é todos os dias que um homem anda por estas paragens, chega à boca das Petronas e não consegue avançar. 

Eu conhecia o espectacular arranha-céus de dois filmes, um James Bond com o Pierce Brosnan a saltar de torre para torre, e um outro que, por puro acaso, acabou de passar no nosso camarote, no canal de filmes Lian Hua莲花, de Macau, e se chama The Entrapment, em português A Armadilha, com o Sean Connery, muitos anos pós James Bond e uma deliciosa Catherine Zeta-Jones, em 1999 então no apogeu dos seus gloriosos trinta anos de idade. São dois bons ladrões simpatiquíssimos fugindo a um grupo de maus ladrões pelas escadarias da Petronas e depois, ambos, em luta pela vida, suspensos nos cabos inferiores da estrutura metálica da plataforma que une os dois arranha-céus.

 Como não deu para subir, caminhei pela área ajardinada a norte das torres e depois pelo grande jardim e lago, do lado sul. Excelentes fotografias de um dos mais originais arranha-céus do globo, inaugurado em 1998 que conta com 88 andares e 452 metros de altura. Mas o Petronas começa a ser parcialmente escondido por outros arranha-céus construídos ao lado e esbate-se a grandiosidade do edifício que foi o mais alto do mundo entre 1998 e 2003.

Tempo de seguir a pé para o centro histórico de Kuala Lumpur. Embora no mapa da cidade a Merdeka Square – merdeka significa “independência” em malaio, nada de confusões! --, pareça relativamente perto, a verdade é que era longíssimo e, se não me perdi, eu que tenho a mania de que possuo um excelente sentido de orientação, acabei por andar quilómetros por grandes avenidas, com um trânsito infernal mas vazias de peões, por obtusas avenidas sem saber exactamente onde iriam terminar. 

Acabei por tomar um táxi que me conduziu à Chinatown. Os chineses, quase todos do sul da China, das províncias de Guangdong (onde fica Macau) e de Fujian emigraram aos milhões para o Sudeste Asiático, sobretudo na segunda metade do século XIX, muitos fugindo à grande rebelião Taiping que assolou o centro-sul da China. Fugiram à morte e à miséria.

Já em 1508, o nosso rei D. Manuel enviava a Malaca -- aqui a cento e poucos quilómetros de Kuala Lumpur --, um dos grandes portugueses da época, de nome Diogo Lopes de Sequeira, e pedia ao fidalgo: “Perguntareis pelos chins, e de que partes vêm, e de quão longe, e de quanto em quanto vêm a Malaca, ou aos lugares em que tratam, e as mercadorias que trazem, e quantas naus deles vêm cada ano”, etc. 

Diogo Lopes de Sequeira e os seus homens -- um deles chamava-se Fernão de Magalhães, o da primeira volta ao mundo --, acabaram por ter conflitos com o sultão local, sendo obrigados a fugir da cidade, deixando para trás dezanove marinheiros que, após dois anos de cativeiro, seriam libertados por Afonso de Albuquerque quando este conquistou Malaca em 1511 e a transformou na placa giratória para os portugueses no Extremo Oriente. Com a fixação definitiva em Macau, a partir de 1553, os portugueses jamais deixaram de perguntar pelos chineses, de os tentar entender, de criar um difícil todo com as fantásticas gentes do Celeste Império. Sei do que falo.

Nesta Chinatown da cidade de Kuala Lumpur, foram outros os chineses, ou os mesmos, que inventaram o seu bairro, o seu próprio comércio, seu modo de vida, a sua adoração aos deuses nos templos taoistas. Aqui vale a pena o passeio por Pataling Street, com um bonito pailou, um pórtico de entrada, depois a casa verde da família Chan, lugar da fixação dos primeiros chineses no local, mais adiante, numa rua lateral, o templo de Guandi, o deus taoista da Guerra, levantado em 1888, com guerreiros e os telhados barrocamente decorados com dragões e outros animais mitológicos, tudo na arquitectura clássica do sul da China. A seguir, há um festival de lojas onde se vendem toneladas e toneladas de quinquilharia, muito pechisbeque dourado, made in China.

De táxi, regresso a Bukit Bintang. No grande shopping do lugar aviei-me de uns tantos produtos de farmácia, mais frutas secas raras e até comprei um bonito par de cuecas malaias. Para vestir, despir e recordar.

Depois foi a viagem de regresso a Port Kelang, onde o velho Sandokan, tigre da Malásia, mais o Gastão Sequeira, o português seu imediato e companheiro de aventuras, me esperavam para uns copázios de whisky velhíssimo, capturado pelos homens de Sandokan no desvio de um navio comandado por um execrável capitão inglês. Brindámos à nossa saúde e à estuporada gesta dos portugueses pelo Oriente. Depois, mandei um mail ao Emílio Salgari, noticiando o encontro.

Meio trôpego, embarquei no Costa, rumo à Tailândia.
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Nota do editor:

Último poste da série > 26 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18355: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte XXXi: Singapura, Ilha de Singapura: de 8 a 10/11/2016

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Obrigado, António, por nos trazeres à memória o Emílio Salgaria na nossa infância, criador do Sandokan, o tigre da Malásia...

By the way, será que ainda existem tigres na Malásia ?

Para ver as torres gémeas Petronas, em Kuala Lumpur, não, muito obrigado, fico-me por aqui... Mas ainda bem que há cronistas como tu que sabem fazer a ligação das viagens à geografia, à história, à literatura, ao cinema, enfim, à cultura de cada terra e de cada povo... e à passagem, como portugueses, pelo mundo... Há malaios de origem portuguesa...

Um abraço, Luís