quarta-feira, 16 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18638: (D)outro lado do combate (29): Balanço dos combates entre a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 e o PAIGC (Corpo do Exército 199-B-70) no setor de Farim - Parte II (Jorge Araújo)



Citação: (1965-1973), "Juramento de bandeira dos militares do Corpo do Exército 199 A-70 do PAIGC", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms _dc_44137 (2018-4-20) (com a devida vénia).



O nosso coeditor Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger,
CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974).


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE > BALANÇO DOS COMBATES ENTRE AS NT E O PAIGC NO SECTOR DE FARIM >  DESERÇÕES E BAIXAS NO "CORPO DE EXÉRCITO" 199-B-70  > A MORTE DO CMDT DO BIGRUPO ANSÚ BODJAN (1944-1971) (Parte II)


1.  INTRODUÇÃO

Neste segundo fragmento, de um conjunto de três (*), continuamos a percorrer alguns dos trilhos que ficaram na história do conflito armado no CTIG [1963/1974], tendo por protagonistas elementos dos dois lados do combate, dos individuais aos colectivos.

Como já referido anteriormente, as narrativas que tenho vindo a partilhar no blogue são corolário de um interesse pessoal na pesquisa histórica sobre um período da minha vida (das nossas vidas) e que, naturalmente, nos marcou a todos… mais ou menos, e do qual temos, ainda, muitas "memórias".

No caso presente, a temática mantém-se a mesma da primeira parte – P18551 – onde foram adicionadas outras informações avulso obtidas de cada um dos lados do combate, que insistimos em coleccionar, no sentido de ampliar e/ou reconstituir essa história com mais dados.

O "balanço dos combates entre as NT e o PAIGC" continua, pois, a ser o tema central deste fragmento, com destaque para as ocorrências negativas contabilizadas pelo Corpo de Exército 199-B-70 – deserções e baixas – registadas no relatório elaborado pelo seu principal responsável, o Cmdt Braima Bangura, respeitante ao período de um ano (dez'70-dez'71), o primeiro desde a sua criação.

De referir que é neste ano de 1970 que o PAIGC evolui para um novo modelo de organização militar, adaptando as suas estruturas a uma nova visão da sua luta armada. Partindo do conceito "bigrupo" e da união com mais unidades deste tipo, de infantaria e artilharia, são criados os "Corpos de Exército" identificados com o "n.º 199", ao qual lhe foi adicionada uma letra do alfabeto latino (A, B, C, D) e o ano da sua criação, conforme se indica no ponto seguinte, e se observa na foto abaixo tirada aquando do juramento de bandeira do Corpo de Exército 199-A-70.


2. CONTEXTOS E UNIDADES ENVOLVIDAS

Recorda-se que os episódios referidos na narrativa anterior foram utilizados para contextualizar a questão de partida da investigação, tendo por base as actividades operacionais desenvolvidas pela Companhia de Caçadores 2533 [CCAÇ 2533] e pela Companhia de Caçadores 14 [CCAÇ 14], em particular nas situações de combate com os elementos do PAIGC que actuavam no Sector de Farim, nomeadamente o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, um dos quatro bigrupos de infantaria do Corpo de Exército 199-B-70, este liderado pelos Cmdt's Braima Bangura, Joaquim N'Top e Benjamim Mendes.


No mapa acima [Frente Norte], a seta a vermelho indica o território onde ocorreram os dois combates entre as NT e o PAIGC, localizados no itinerário entre Farim e Jumbembem, o primeiro envolvendo a CCAÇ 2533 (14Dez1970) e o segundo a CCAÇ 14 (30Dez1970).

Os três restantes bigrupos eram dirigidos pelo Cmdt Cambanó Mané, nascido em 1940 em Ioncoiá; pelo Cmdt N'Benfaé N'Tudo, nascido em 1939 em Patché, e pelo Cmdt Sambú Mandján, nascido em 1940 em Sulcó. Para além da infantaria, este Corpo de Exército dispunha, ainda, de uma bataria de artilharia, com morteiros e canhões sem recuo, o primeiro do Cmdt Quintino N'Dafá, nascido em 1935 em João Landim, e o segundo do Cmdt Armando Bodjan, nascido em 1943 em Mansoa.

Para além de outras ocorrências registadas neste sector, os diversos "Corpos de Exército", criados em 1970 por Amílcar Cabral (1924-1973), estiveram envolvidos, dois anos depois, na estratégia de isolamento de Guidaje iniciada em Abril de 1973, culminado com a "Batalha de Kumbamory", que ficará gravada para sempre na História da Guiné como «Operação Ametista Real», realizada em 19 de Maio de 1973, onde as NT contabilizaram uma das maiores capturas e destruições de material da Guerra de África.


"Croqui do plano de operações da Op Ametista Real, planeada e executada sob o comando do Ten Cor Almeida Bruno, para pôr fim ao cerco de Guidaje. Foi uma das mais curtas, sangrentas e brutais batalhas travadas durante a guerra da Guiné. Acabou por aliviar a pressão sobre Guidaje. Tratou-se de uma operação em solo senegalês, tendo como objectivo a destruição da base de Kumbamory, o que foi conseguido na manhã de 20 de Maio de 1973 [faz 45 anos]. O número de baixas foi elevado para ambos os lados: 67 mortos, do lado do PAIGC (que sofreu, além disso, a destruição de 22 depósitos de material de guerra), 25 mortos, do lado das NT (incluindo 2 alferes), e 25 feridos graves (incluindo 3 oficiais e 7 sargentos)". 

In P2786 (com a devida vénia). [Mais detalhes sobre a Op Ametista Real em: P1316, P9898 e P9939].

No contexto desta narrativa, dá-se conta da constituição das forças do PIAGC envolvidas nessa operação:

Corpo de Exército 199-B-70, com quatro bigrupos de infantaria e uma bataria de artilharia; Corpo de Exército 199-C-70, com cinco bigrupos de infantaria e uma bataria de artilharia, grupo de foguetes da Frente Norte [GRAD], com quatro rampas; Corpo de Exército 199-A-70, com três bigrupos de infantaria, um grupo de reconhecimento e uma bataria de artilharia, deslocados de Sare Lali, na zona Leste; um pelotão de morteiros 120 mm e um grupo especial de sapadores.

Indicam-se, de seguida, os principais operacionais responsáveis pela estrutura político-militar acima referida:


Citação: (1970), "Acção Política FARP - Honório Fonseca", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40452 (2018-4-20), (com a devida vénia).

A propósito da formação dos "Corpos de Exército", enquanto novo modelo de organização da guerrilha do PAIGC, em 13 de Janeiro de 1971 Amílcar Cabral (1924-1973) envia uma carta a Osvaldo Vieira (1938-1974), na qualidade de Cmdt da Frente Norte, dando conta da sua satisfação por essa decisão, nos seguintes termos:

Caro camarada [Osvaldo Vieira],

Acuso a recepção da tua carta-relatório e dos mapas relativos aos CE [Corpos de Exército] e à distribuição de tecidos aos combatentes.

1. - Corpos de Exército - foi uma boa coisa termos formado os CE como previsto. O atraso é normal dadas as dificuldades que nós todos conhecemos, mas eu penso que a reorganização foi feita a tempo. Tanto mais que o camarada "Nino" esteve doente e tiveste tu que te dedicares a mais esse trabalho.

O que é preciso agora é fazer tudo para tirar o máximo rendimento dos CE, da sua grande força. Dar mais duro nos grandes centros e quartéis dos tugas e liquidar os campos mais fracos e isolados. O ataque a Empada foi bom, e eu penso que pudemos fazer mais: pôr os tugas fora e destruir todas as instalações. Claro que devemos evitar, como sempre, grandes perdas.

Escrevi ao "Nino" uma longa carta sobre a nossa acção e no próximo correio te enviarei uma cópia. Os CE devem agir duro e ter grande mobilidade, muita iniciativa e não parar muito numa área. […]


Citação: (1971), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/ 11002/fms_dc_34521 (2018-4-20), (com a devida vénia).


3. AS DESERÇÕES NO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70

O fenómeno das deserções em contexto de guerra é considerado normal, ainda que pontual e de percentagem reduzida. O caso da Guerra Colonial não foi, com efeito, excepção. Por isso não é de estranhar a existência de exemplos em cada um dos lados do combate.

Na situação presente, chamou-me a atenção o facto do relatório elaborado pelo Cmdt Braima Bangura, divulgado no primeiro fragmento desta narrativa, fazer referência à deserção de cinco elementos deste Corpo de Exército, mas omitindo os seus nomes.


Citação: (1971), "Relatório da acção do CE [Corpo de Exército] 199-B70, desde a sua formação, em Dezembro de 1970, até ao final do ano de 1971.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40099 (2018-4-20), com a devida vénia.

Idêntica referência tinha já sido objecto de denúncia no relatório elaborado por Osvaldo Vieira, a propósito da sua "missão de inspecção à actividade das Forças Armadas no Norte".


Citação: (1971), "Relatório de missão de inspecção à actividade das Forças Armadas no Norte", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_ 40059 (2018-4-20) (com a devida vénia).

Entretanto, uma outra situação de "deserção" ocorrera com o grupo "GRAD", do Cmdt Manuel dos Santos "Manecas", fazendo fé no conteúdo da carta enviada por Aristides Pereira (1923-2011) a "Nino" Vieira (1939-2009), em 19.12.1970, solicitando a "lista dos camaradas que estavam com o camarada Manecas e fugiram para o sul".


Citação: (1966-1974), "Relatório remetido por Nino Vieira a Amílcar Cabral expondo a situação na fronteira com a República da Guiné, designadamente os ataques entre Kebo e Guileje", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms _dc_40775 (2018-4-20), p.55, (com a devida vénia).


4. O BIGRUPO DO CMDT ANSÚ BODJAN (1944-1971)

Em busca de uma eventual identificação dos "desertores", a hipótese formulada partiu da variável "local de nascimento" (naturalidade), uma vez que em todos os documentos se refere que as "fugas" seguiram direcções concretas, ou para o Norte ou para o Sul.

Nesse sentido, seleccionámos duas amostras (bigrupos): a do Cmdt Ansú Bodjan, por ser aquele que serviu de base à elaboração desta narrativa, cuja lista se apresenta abaixo; e a do Cmdt Cambanó Mané, outro bigrupo do Corpo de Exército 199-B-70, para efeito de comparação estatística e complemento sociodemográfico.


Quadro 1 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-30)


Da análise ao quadro 1, verifica-se que em 30% dos casos (n-9) não foi possível identificar o sector da naturalidade dos indivíduos, situação impeditiva de tirar conclusões. Ainda assim, podemos referir que 56.7% (n-17) nasceram na região do Oio, situada mais a Norte; com 10% (n-3) na região do Cacheu e 3.3% na região de Tombali, um caso, sendo este o mais a Sul.

Quadro 2 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Cambanó Mané (n-27)


Da análise ao quadro 2, verifica-se a mesma situação do observado no quadro anterior, em que 25.9% dos casos (n-7) não foi possível identificar o sector da naturalidade dos indivíduos. Ainda assim, os resultados são diferentes do quadro 1, em que 25.9% dos sujeitos (n-7) têm origem na região de Tombali, situada mais a Sul do território. A região do Oio, com 22.3% (n-6) surge em segundo lugar como origem de naturalidade. As regiões de Bissau (n-1), Bafatá (n-2), Bolama (n-1), Cacheu (n-2) e Quinara (n-1), não têm expressão estatística.

Perante estes resultados, não nos é possível tirar grandes conclusões.

5. AS BAIXAS NO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70 (1970/71)

Segundo o relatório elaborado em 24 de Dezembro de 1971 pelo Cmdt Braima Bangura, um dos responsáveis militares do Corpo de Exército 199-B-70, e membro do Conselho Superior de Luta e do Comité Executivo da Luta, o número de baixas desde a sua fundação (um ano completo) foi de treze.

A principal baixa vai para o seu adjunto do CE, Cmdt Benjamim Mendes, ocorrida em 11 de Agosto de 1971, o mesmo acontecendo a José N. Cus, Chefe de Grupo. Dois dias depois, mais duas baixas, as de Conko Seidy e Sana Sano. O Cmdt do bigrupo, Ansú Bodjan (1944-1971), morreu em 14 de Novembro de 1971, o último nome da lista abaixo.


As restantes baixas constam dos quadros apresentados na primeira parte.

Continua…

À vossa consideração.
Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
02MAI2018.
_________________

Nota do editor:

Último poste da série >  23 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18551: (D)outro lado do combate (28): Balanço dos combates entre a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 e o PAIGC (Corpo do Exército 199-B-70) no setor de Farim - Parte I (Jorge Araújo)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Onde há guerra há desertores.

Nós tivemos os nossos, o PAIGC teve os dele... Mas pouco se fala deste problema, tanto de um lado como do outro...

No meu tempo (1969/71), lidei com prisioneiros, civis e militares... mas não tenho ideia de ter visto, à minha frente, um desertor... Houve tipos que fugiram e se entregaram às NT... Mas são casos pontuais, julgo...

Os desertores do PAIGC não tinham muito para onde ir...Tal como nós... O que é que tu, leitor, amigo e camarada, podes acrescentar sobre este tema, em boa hora trazido aqui à baila pelo Jorge Araújo ?

Cherno Baldé disse...

Caro amigo Jorge Araujo,

Sobre as restantes localidades, cujas regioes nao puderam ser identificadas, aqui deixo a minha contribuiçao para o efeito, baseada no cruzamento do nome dos combatentes e dos locais de nascimento com a sua identidade e chao de provavel pertença etnica:

Nome Localidade Sector Regiao

Bala Bodjam - Bessadjari -Morés/Mansaba - Oio
Bala Turé - Caur-ba -Quebo - Tombali
Mamadu Mané - Cauale/Can-Wal -Cacine - Tombali
N’tuntum N’codé - N’ghansonhe -Binar/Bissora - Oio
Malam Cissé - N’gharu -Morés/Mansaba - Oio
Queba N’beghan - N’ghneghan -Bissora - Oio
N’dindin Turé - Nhanbra -Morés/Mansaba - Oio
N’yado Turé - Sansanghoté -Morés/Mansaba - Oio


Assim, feitas as devidas correcçoes, para Oio teriamos (17+6) 74%, para Tombali (1+2) 10% e Cacheu mantem-se inalteravel. Constatamos que mesmo com essas correcçoes, o balanço entre
as tres regioes nao se altera, mas Tombali aumenta um pouco e ultrapassa Cacheu.

E, em face dos dados assim obtidos e tendo em conta que a maior parte dos desertores, de acordo com as informacoes, eram originarios ou dirigiram-se ao sul, neste caso Tombali, a conclusao que talvez se pode tirar, na minha opiniao, é a de que havia maior probabilidade de que estas deserçoes tenham acontecido no Bigrupo de Cambano Mané onde a percentagem de combatentes originarios desta regiao é superior a 26%, enquanto o Bigrupo de Ansu Bodjam era formado maioritariamente por naturais de Oio (74% com a correccao que fiz do primeiro quadro de analise).

Em leituras que fiz em tempos das obras de A. Cabral e relacionadas com o flagelo das deserçoes (do norte para o sul), parece que existia no seio dos combatentes o sentimento de maior segurança quando lutavam nas suas regioes (Chaos) de origem e, inversamente, alguma insegurança e fragilidade quando eram obrigados a combater noutras regioes e o caso mais paradigmatico aconteceu com os Balantas do Sul (Tombali) que, tudo leva a pensar, nao se sentiam muito a vontade nas outras frentes da luta ao que o partido tentava contrariar com medidas duras como era seu apanagio. Nao sei se chegou a haver fuzilamentos mas, pelo menos, falava-se de tomar medidas duras e, sabe-se hoje que, na linguagem da guerrilha e do PAIGC em particular o que é que isso podia dar.

Por outro lado e reportando-nos ao acontecimento aqui relatado com os elementos da companhia dos Manjacos no Oio (Mansaba?), parece que a situaçao nao era muito diferente do lado dos elementos nativos do Exercito portugues. Ha um proverbio africano que diz que "todos os caes podem ser bravos, mas sao mais bravos dentro das suas moranças", o mesmo que dizer, dentro dos seus Chaos.

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé

Anónimo disse...

"Todos os cães podem ser bravos, mas são mais bravos dentro das suas moranças"--- Registo e vou fazver um poste... Obrigado, Cherno, é um arguto observador. LG

Anónimo disse...

Caro Luís,

Aceito a proposta de voltar a abordar o tema das "deserções no PAIGC"... e suas consequências...

Caro Cherno,

Obrigado pelo excelente contributo que acabo de receber, na perspectiva de completar os meus quadros estatísticos. Vou utilizá-lo na 3.ª e última parte desta temática.

Ab. Jorge Araújo.