quinta-feira, 17 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18644: Historiografia da presença portuguesa em África (115): Otto Schacht, um comerciante alemão, que deu dores de cabeça às autoridades da colónia e à diplomacia portuguesa... e que terá sido avô de um outro Otto Schacht, futuro dirigente do PAIGC, assassinado em 14 de novembro de 1980, data do golpe de Estado de 'Nino' Vieira (Armando Tavares da Silva)



Otto Schacht,  membro da Comissão de Segurança e Controlo e do Serviço de Logística do PAIGC. c. 1963/73. Assassinado em 14 de novembro de 1980. Foto. Fundação Mário Soares > Casa Comum > Arquivo Amílcar Cabral (com a devida vénia...).

Citação:
(1963-1973), "Otto Schacht", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43793 (2018-5-17)



1. Texto enviado pelo nosso amigo e grã-tabanqueiro  Armando Tavares da Silva, com a data de ontem, e a seguinte mensagem

Caro Luís,

Passada a grande azáfama e momento alto da “Grande Reunião” de 5 de Maio, deve haver agora tempo para a publicação do texto que anexo.

De facto, entre as inúmeras personagens que ilustram o blogue, notei o nome de Otto Schacht, o mesmo nome de um comerciante alemão cujo comportamento, entre os finais do Século XIX e primeiras décadas do Século XX, muitos problemas causou às autoridades portuguesas na Guiné. 

Este novo Otto Schacht, personagem importante do PAIGC, é, muito provavelmente, filho do anterior, e por isso é interessante ilustrar com alguns episódios o que foi a passagem daquele na Guiné no período de tempo referido e que poderá, eventualmente, permitir estabelecer alguma comparação entre ambos.

Abraço

Armando Tavares da Silva


Capa do livro de Armando Tavares da Silva, “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto: Caminhos Romanos, 2016, 972 pp.)

2. Otto Schacht

por Armando Tavares da Silva

Entre as personagens que têm vindo mencionadas nos vários Posts há uma que me prendeu a atenção. Trata-se de Otto Schacht, cuja última referência é a do Post P18439 de Jorge Araújo, relativo ao ataque a Bolama em 3 de Novembro de 1969.  (*)

Ora , na obra “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)”,  há um grande número de citações de um certo comerciante alemão com o nome de Otto Schacht.

A sua presença na Guiné ao longo de várias décadas constitui um exemplo da pressão que os comerciantes estrangeiros, de entre os quais se salientavam os franceses e alemães, exerciam sobre a administração da província. Os sucessivos governadores tinham de, constantemente, acorrer a resolver situações que aqueles provocavam, de que resultavam reclamações as quais, muitas vezes de má fé e distorcendo os factos, eram apresentadas pela via diplomática ao governo de Lisboa, causando-lhe acrescidos problemas, e que este procurava evitar.

Otto Schacht era um daqueles habitantes da praça de Bissau que o governador Gonçalves dos Santos considerava que colaborava no “vil procedimento” que consistia no desrespeito e desacatos à autoridade que “o gentio branco e mulato (filhos da ilha do Fogo)” praticava “mancomunados com os gentios e grumetes”.

De facto, durante os graves acontecimentos que ocorreram em Bissau, em Fevereiro e Março de 1891, o comerciante Otto Schacht, representante da casa alemã Bernardo Soller, fizera balas em sua casa para as fornecer aos grumetes e gentio.

Acontece, porém, que depois deste tipo de actuação Otto Schacht virá a encontrar razões para se queixar junto do governo. Sucedera que estes acontecimentos tinham levado à paralisia do comércio, ficando as casas estrangeiras em risco de perder as importâncias dos créditos que os grumetes e gentios de Bissau lhes deviam, e Otto Schacht apresenta protestos por este facto. O governador irá alegar que tais créditos não estavam garantidos pelo governo da província, visto que fora das muralhas da praça, território onde a acção do governo era nula, não havia estabelecimentos comerciais.

A reclamação de Otto Schacht vem a ter desenvolvimentos a nível diplomático, chegando a ser referida verbalmente pelo ministro da Alemanha em Lisboa, manifestando o desejo de que ela fosse atendida, e obrigando a que o ministro Ayres d’Ornellas refutasse responsabilidade pelos prejuízos que, por motivo de força maior, pudessem sofrer residentes estrangeiros em tempo de guerra.

Foram muitos outros os problemas ocasionados por Otto Schacht. Entre estes conta-se o facto de os manjacos da ilha de Pecixe terem obstado a que se procedesse à descarga de umas mercadorias do comerciante Otto Schacht, o que levou a uma intervenção directa do governo. A recusa prendia-se com problemas de dívidas entre Schacht e um manjaco. 

No fundo, parecia que a verdadeira razão se relacionava com uma história dos amores entre a filha do régulo e um antigo empregado de Schacht. Era mais um episódio resultante de ser vulgar os pretos e mulatos de Cabo-Verde, quando estavam em territórios dos gentios, em lugar de tratarem dos negócios dos seus patrões ou fornecedores, se meterem com as mulheres, ou de os aconselharem a não cumprir as ordens do governo. Isto era origem muitas vezes de guerras ocasionando perda de vidas e dinheiro.

Mais tarde, em finais de 1908, é uma lancha ao serviço de Otto Schacht que é assaltada e apresada por balantas. Desta vez Otto Schacht não pede qualquer indemnização, mas faz intervir na questão o governo alemão, o que vem a ocasionar extensas trocas diplomáticas e a realização de inquéritos locais para averiguar até que ponto eram aceitáveis e justas as reclamações alemãs. 

Numa dessas trocas o ministro alemão é informado que Otto Schacht já fora condenado pela justiça da colónia por tentativa de suborno. Registemos que, numa outra nota, o ministro da Alemanha vai ao ponto de escrever que por “ordem do governo Imperial, o governo de S. M. Fidelíssima atire a atenção sobre a necessidade de estabelecer na Guiné uma autoridade estável e apta a garantir a liberdade do comércio em conformidade à obrigação tomada pelos Estados signatários do Acto Geral de Berlim de 1885”.

Porém, daqueles inquéritos vem a apurar-se que o comércio que Otto Schacht realizava no território dos balantas não tinha sido autorizado pelo governo, visto aí a guerra ser declarada: os próprios grumetes que negociavam no chão balanta faziam-no sem licença, e o fornecimento dos géneros que Otto Schacht lhes facultava para negócio era feito clandestinamente. 

Este assunto só acaba por ser completamente esclarecido junto da Legação da Alemanha em 1910, depois de sobre ele o governador fornecer todos os esclarecimentos complementares que mostravam quanto era infundada a reclamação de Otto Schacht.

Acrescentemos que Otto Schacht já tinha dirigido nesse ano uma queixa ao governo alemão, declarando ter sofrido prejuízos nas feitorias, alegadamente por não ter recebido aviso para retirar de uma região onde se desenrolavam operações militares (margem esquerda do rio de Geba). Vem a verificar-se que a reclamação era infundada por a região em guerra estar desocupada e Otto Schacht não ter licença para ali negociar.

O ano de 1908 foi fértil em reclamações de Otto Schacht. Em Abril este faz nova queixa ao governo alemão reclamando contra a construção de uma linha e estação, vindo a constatar-se a má-fé com que esta reclamação fora feita, visto que a propriedade agrícola em causa tinha sido comprada em hasta pública quando estava em construção a estação telegráfica.

Também em 1910 Otto Schacht é preso sob inculpação do uso de medidas falsas no negócio de azeites. Mais uma vez irá procurar desencadear conflitos diplomáticos, queixando-se ao governo alemão daquele facto. Ora as medidas que Otto Schacht usava eram medidas falsas e ilegais, não pertencendo a qualquer sistema (incluindo o “decimal”) e nas quais tinha feito uns cortes ou marcações que lhe permitiam enganar os compradores.

É interessante mencionar que Otto Schacht virá a pedir a naturalidade portuguesa em 1930. Apreciado em Lisboa este pedido, mas faltando vários documentos que a lei exigia, entre eles o certificado do registo criminal passado na colónia (apenas apresentara o certificado do registo criminal passado pela repartição de polícia de Lubeck) é a documentação devolvida à Guiné. Ao ter conhecimento deste resultado Otto Schacht informa que decide ir a Lisboa para tratar pessoalmente de legalizar o processo perante o ministério das Colónias. Mas nenhum outro documento é anexo ao seu pedido.

Terá Otto Schacht adquirido a nacionalidade portuguesa como pretendia? Seria essa a nacionalidade do seguramente seu descendente, também Otto Schacht de nome, que foi responsável pela segurança do PAIGC (que até teria estado no local onde Cabral foi assassinado) e que viria a pertencer ao “Comité Executivo da Luta”, e em 1973 ao “Conselho de Estado” da auto-proclamada República da Guiné-Bissau, e assassinado em 1980 (Post acima referido)? (***)

3. Nota do editor:

O Otto Schacht, dirigente do PAIGC, assassinado em 14 de novembro de 1980, tal como Buscardini, os dois responsáveis máximos da segurança do Estado (**), devia ser neto deste comerciante alemão, homónimo. Devia ser mais velho que o cantor José Carlos Schwarz (1949-1977), também ele neto de um comerciante alemão.

Uma das raras fotos existentes no Arquivo de Amílcar Cabral, é a que publicamos acima, com a devida vénia...Era então membro da Comissão de Segurança e Controlo e do Serviço de Logística do PAIGC. Um homem poderoso... tal como Buscardini, assassinado no mesmo dia 14 de novembro de 1980, o do golpe de Estado de 'Nino' Vieira (ou associado ao seu nome).

_______________

Notas do editor:

(*) Vd. postes de :


(***) Último poste da série > 16 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18641: Historiografia da presença portuguesa em África (114): Uma reunião invulgar: a Conferência dos Administradores, Bissau, 1941 (1) (Mário Beja Santos)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Este tal Otto Schacht deve ter "desaguado" em Bolama, vindo de Lubeck, o maior porto alemão do Mar Báltico... Com a Conferência de Berlim, de 1885, a Alemanha também descobriu a sua vocação "imperialista" e "colonialista"...E porque não, se a África estava ali "à mão de semear" ?!... Até a pequena Bélgica do Leopoldo III teve direito a um "naco" ou "quinhão" da pobre presa que foi a África dos antepassados do nosso querido amigoo e mano Cherno Baldé... LG

Tabanca Grande disse...

Recorde-se que foi na sequência do golpe de Estado de 14 de novembro de 1980, levado a cabo pelo chamado "Movimento Reajustador", que uma semnana depois, em 21 de novembro de 1980, foram divulgadas, pelos golpistas, as valas comuns do Cumeré, Mansoa e Porto Gole, com os cadáveres de 500 guineenses, opositores ao regime de Luís Cabral, incluindo
os que haviam apoiado uma tentativa de golpe de Malam Sanhá em 1978, e, sobretudo, os ex-comandos africanos, eoutros militares do recrutamento local que haviam combatido pelas tropas portuguesas durante a guerra colonial.

Recorde-se que na altura a impressa interncaional divulgou imagens dessas valas comuns bem como o teor de uma entrevista com homem que participara nos fuzilamentos e que servia
agora de guia aos macabros aachados, o tenente Mário Costa Ribeiro. Este imputou responsabilidades directas nos massacres a alguns oficiais do
Estado-Maior das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP), entre
eles «Bobo Keita, Lúcio Soares, André Gomes [este militar viria a suicidar-se
na prisão em finais de Dezembro], Julião Lopes, Abdoulay Bari (Presidente
do Supremo Tribunal)»...

Buscardini e Otto Schacht, responsáveis máximos pela segurança de Estado, ao tempo do Luís Cabral, foram as únicas vítimas mortais neste golpe de Estado. O ministro do planeamento, Vasco Cabral, embora ferido, conseguiu refugiar-se na embaixada sueca, onde pediu asilo político. Em 2008 conheci, na Guiné, a viúva de Buscardini, então ministra dos combatentes da Liberdade da Pátria...

Buscardini e Schacht, curiosamente, dois homens de ascendência estrangeira, não portuguesa, um italiano, outro alemão...

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/35431/1/RPH45_artigo23.pdf?ln=pt-pt

Cherno Baldé disse...

Caros amigos,

A formaçao da elite politica na Guiné-Bissau, Segundo o investigador Guineense, Carlos Cardoso, esteve fortemente ligada a classe dos comerciantes Luso-africanos (sobretudo Cabo-verdianos), mas também de comerciantes de outras nacionalidades europeias e Sirio-libanenes. "Uma elite burocratica capaz de herdar do colonizador o aparelho de estado e o poder politico" em linha com o pensamento de Amilcar Cabral.

Ainda Segundo este autor "...tendo-se oposto a criaçao de um quadro politico adequado, isto é, autonomo e, eventualmente, endogeno, o colonialismo portugues criou condiçoes para que a actividade politica se ligasse directamente e, desde muito cedo, a um movimento de contestaçao, neste caso, de luta de libertaçao".

Eh assim que nomes como Schacht, Schwars/Schwarz, Buscardini, Nosoliny, Turpin, Bull estiveram quase sempre do lado do anticolonialismo nacionalista mesmo se nem todos, depois, foram para Conakri.

Tudo isso, para dizer no fim que, também, na minha opiniao, nao se pode separar, de forma estanque e completamente as manifestaçoes proto nacionalistas que estiveram na origem do surgimento e as actividades da liga Guineense (1910) com o fenomeno da luta de libertaçao dos anos 60.

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé

Antº Rosinha disse...

Antes de 1960, a grande maioria da 2ª geração de brancos em Angola, e os mestiços em geral, achavam que se Angola estivesse nas suas mãos, sem os "atrazados" "pés de chumbo" que só atrasavam aquela terra riquíssima...enfim, "tá-se a ver"!

Também existia em Luanda a célebre Liga Africana, com muitas ideias "escondidas", à vista de toda a gente.

Só que muitos meteram a viola no saco, quando assistiram à independência ao lado do Congo Belga, transformado no vespeiro infernal, em que até o sueco da ONU lá caiu de avião.

E a maioria em idade militar, pegaram em armas ao meu lado,"colonialista", contra a UPA em 1961.

Atenção que a maioria dos caboverdeanos tinham como um sonho, vir a ter um estatuto para Caboverde igual às ilhas adjacentes.

Havia em Angola muitos milhares de Caboverdeanos, desde chefes de posto, câmaras, repartiçõe e obras.

Foi uma minoria diminuta de caboverdeanos que foram na conversa de Amílcar Cabral.