sexta-feira, 18 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18648: FAP (105): 28 de julho de 1968, o dia em que o Fiat G-91, nº 5411, pilotado pelo ten cor Francisco Dias Costa Gomes, foi abatido sob os céus de Gandembel, por fogo de AA (Antiaérea)


Guiné > Bissalanca > BA 12 > 1968 > O Fiat G-91 R4, nº 5411, uns dias antes de ser abatido (em 28 de julho de 1968). No cockpit, o cap piloto aviador José Nico

Foto (e legenda): © Mário Santos (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário de Mário Santos (ex-1.º  cabo especialista MMA da BA 12, 1967/69), membro nº 772 da Tabanca Grande, com data de 13 de maio último,  ao poste P18626 (*):

Caros amigos e camaradas: 

Apenas uma pequena correcção que se impõe: O 1º Fiat G-91 R4 foi o 5411, abatido por fogo de Anti-Aérea no dia 28 de Julho de 1968,  levando no cockpitt o nosso Comandante de Grupo Operacional Ten-Cor Costa Gomes, após ter dido atingido junto a Gandembel. Ejectou-se e fugiu por entre a mata até alcançar o aquartelamento de Gandembel. (**)

Tenho no meu espólio a foto dessa aeronave, pouco antes de ter sido atingida, uma vez que era eu que estava encarregado dela nesse longínquo dia de 1968.

Não a consigo colocar aqui, uma vez que esta zona apenas permite escritos em texto.


2. Mensagem, por email, do Mário Santos, nesse mesmo dia:

Meu caro Luís Graça:

Longe de mim qualquer idéia de despoletar polémicas no seio do grupo. A minha colaboração e espólio é apenas relativa ao conhecimento do meu tempo na BA12 entre 67/69 [, ou seja, antes do aparecimento do Strela, em 25 de março de 1973].

Tenho a valiosa e insubstituível cooperação do meu amigo contemporâneo e camarada de armas desses conturbados tempos, gen José Nico.

Este é o sumário do que se passou naquela longínqua manhã de 28 de Julho de 1968:

Como habitualmente naquele dia saltei da cama às 05.00 da matina; tocava-me estar na equipa de alerta e a "parelha" de Fiat G-91 deveria estar pronta para descolar às 06.00.

Éramos apenas dois, eu e o Luís Tavares; todos os restantes iniciariam a actividade normal cerca das 08.00 da manhã. Afinal não; a "parelha de alerta" naquele dia não descolou cedinho…

Só cerca das 11.00 chegaram o Ten Cor Costa Gomes, Comandante do Grupo Operacional  [nº 1201] e o Capitão Fernando Vasquez, nosso Comandante de Esquadra, para voarem respectivamente o 5411 e o 5416. 
Uma hora passada, chegou a noticia de que um deles não regressaria à Base. Abatido por fogo de Anti-Aérea. na zona de Gandembel. Naquela manhã, algo tinha corrido mal…

O Ten Cor [Francisco Dias] Costa Gomes, com o seu bigodinho à Clark Gable, era um homem sisudo, vaidoso, de poucas falas,  e que nunca sorria. Não era simpático. Mesmo quando interpelado, respondia sempre com monossílabos. Mas era um bom Piloto. Tinha já passado pela BA9-Luanda onde tinha sido “alcunhado” com um curioso epíteto que nunca entendi muito bem! Não o vou dizer, por respeito à sua memória. 
Já o Capitão Vasquez [, Fernando de Jesus Vasquez,] , era o seu oposto… simples, simpático, sorridente, comunicador e um excelente Piloto. Todos gostávamos dele. Um grande Oficial General felizmente ainda entre nós!

Envio em anexo [foto d]o 5411,  nesse dia  já com o J. Nico sentado no cockpit para mais uma missão de bombardeamento… não sei em que zona, nem penso que isso seja importante. Direi apenas que esta foto foi feita poucos dias do abate deste avião. (***)

Grande abraço,
Mário Santos,
____________

Notas do editor:

(***) Último poste da série > 18 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18647: FAP (104): Breve Historial: Operação Atlas (Mário Santos, 1.º Cabo Especialista MMA)

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Gandembel, a par de Madina do Boé e Guileje, eram topónimos míticos, que nos inspiravam respeito e temor quando pronunciados pelos "velhinhos", ao chegarmos a Bissau em finais de maio de 1969...

Relativamente ao desastre de Che-Che, no rio Corubal, em 6 de fevereiro de 1969, na retirada de Madina do Boé, soubemos da notícia ainda na metrópole... Mas de Gandembel não sabíamos nada, muito menos de Guileje e do "corredor da morte"... Bissau (e, em especial, a 5ª Rep, o café Bento) fervilhava de boatos...O sucifiente para irmos todos "acagaçados", na LDG 101, rio Geba acima, até ao Xime, logo no dia 2 de junho de 1969...

José Teixeira disse...

Eeu vi-o no ar a arder. Ia na coluna que seguia de Aldeia Formosa (Quebo) para Gandembel. Tínhamos chegado de Buba no dia anterior e arrancamos para Gandembel manhã cedo, pois a C. Caç 2317 estava sem mantimentos. Tínhamos acabado de passar o fatídico lugar de Tchangue laia e entrado na reta dos fornilhos. Os Fiat andavam por cima a vigiar o IN e os T6 estavam estacionados em Quebo, prontos a arrancar em nossa defesa. De Gandembel tinham vindo em nossa proteção e estavam emboscados por perto. Ouve-se na mata uma rajada prolongada, e segue-se um silêncio para mim desconhecido. Era periquito. Logo de seguida eu vejo no ar um Fiat a arder com um grande rasto de fumo negro que se perdeu no ar na direção de Madina do Boé. Onde foi parar não sei, nem ouvi qualquer estrondo. Recordo que em Changue Laia tinha visto uma tábua pregado numa Árvore com a frase " aqui começa a Guiné livre".
José Teixeira

Tabanca Grande disse...

Já em tempos (, há onze anos atrás!,) o Zé Teixeira havia feito o seu depoimento sobre este caso... Só se enganou no nome do piloto, que nãose chamava Costa Campos, mas sim Costa Gomes... Aqui vai um excerto:

(...) "reforço a afirmação de que vi, com estes olhos que ainda tenho, um dos Fiat que faziam a cobertura aérea da coluna de mantimentos que seguia de Aldeia Formosa para Gandembel e ao mesmo tempo fazia a cobertura do pelotão da CCAÇ 2317 que vinha ao nosso encontro, dado que a coluna anterior tinha sido terrivelmente massacrada, tal como foi a seguinte, a qual teve de recuar, como já escrevi, face à agressividade do IN (...).

"Ou será que era um Fiat clandestino ou uma aeronave do IN ? Umas coisa, é certa foi abatido por alguém que estava no meio da mata a vigiar-nos, quando estavamos já muito perto de Ponte Balana e despenhou-se na mata no lado oposto a Gandembel. Eu não vi o Piloto saltar em paraquedas, mas recordo-me muito bem de ouvir colegas afirmarem que o viram ser projectado. Vi o Avião largar um jacto de fumo negro e começar a perder altura muito rapidamente, despenhando-se com estrondo.

"Não tenho dúvidas que os Fiat foram os nossos protectores nos céus da Guiné e muito especialmente nesse dia. Aliás o Idálio Reis (...), que desconheço se estava no aquartelamento em Gandembel ou se estava no Grupo de Combater quer veio ao nosso encontro, até identificou o Piloto, o Tenente coronel Piloto-Aviador Costa Campos. O local mais próximo para ser recuperado era Gandembel ou Chamarra/Aldeia Formosa e por esta banda não passou, pelo que só poderia ser recolhido em Gandembel

"Sei que no dia seguinte apareceram os Páras em Aldeia Formosa e seguiram para Gandembel/Guileje fazer umas férias, para descanso psicológico dos camaradas de Gandembel, Guileje e Gadamael!" (...)

6 DE MAIO DE 2007
Guiné 63/74 - P1737: Confirmo que vi um de dois Fiat ser abatido, em 1968, quando fazia a cobertura de uma coluna para Gandembel (Zé Teixeira)


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/05/guin-6374-p1737-confirmo-que-vi-um-de.html


Zé Teixeira disse...

Luís.
O tempo passa e a memória vai-se. Na primeira informação afirmo que ouvi um estrondo, mas agora não me lembro de estrondo algum. Recordo-me que já tínhamos passado Tchangue Laia e estávamos a entrar na reta dos fornilhos. Creio que sete grandes buracos no meio da picada, em resultado de uma emboscada feita pelo IN uns tempos antes, Já perto de Ponte Balana. Mais tarde ao tomar conhecimento do mapa da Guiné e da localização de Madina do Boé, conclui que o avião ia em chamas nessa direção.
Quanto ao nome do Piloto, é possível que tenha lido mal no livro que o Idálio escreveu sobre GAndembel onde relata em pormenor este acontecimento.
Abraço
Zé Teixeira

Anónimo disse...

A memória atraiçoa muita gente. Eu que o diga, pois tenho falhado muitas vezes nos meus comentários. Não sei nada deste episódio, faz infelizmente sei e conheço os boatos da 5ª Rep, e os nomes arrepiantes de Madina do Boé, Guilege, Gadamael, Guidage, e agora passei a saber também de Gandembel!.
E que mais lugares haverá ainda, que ninguém fala, porque ficaram esquecidos nas memórias dos tempos?
Abraço
Virgilio